sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Rentismo, pão e circo (20/10)

Está na hora de fazer um debate sério sobre essa questão dos juros. Mas percam a esperança. Entra ano, sai ano, o tema continua ali, no pódio das olimpíadas da demagogia. Uma demagogia, aliás, bem interessada. Se 10% do papel e tinta (e bytes) gastos para expressar desagrado em relação à Selic fossem realocados para protestar contra os juros do cheque especial já seria uma boa coisa. O problema maior dos juros não é a Selic, é a captura sistemática da riqueza das pessoas e das empresas por meio de taxas escorchantes cobradas pelos bancos. Pouca poupança e muito spread os problemas do Brasil são -e que as saúvas me perdoem o plágio. Mas aí vocês teriam que enfrentar temas como o oligopólio bancário e a abertura do mercado a bancos estrangeiros. Coisa desagradável. É melhor continuar soltando notas de protesto a cada reunião do Copom. Você fica, ao mesmo tempo, bem com a opinião pública e com os bancos. Mais confortável. Como não poderia deixar de ser, o tema esteve presente no debate de ontem dos presidenciáveis no SBT. Geraldo Alckmin agora inventou essa coisa de "bolsa banco" (ou "bolsa banqueiro"), para fazer o contraponto ao Bolsa Família. Ele diz que é o maior programa de concentração de renda do mundo. Alguém deveria explicar ao tucano que certas coisas soam naturais na boca de Heloísa Helena, mas não necessariamente ficam bem na dele. Um exemplo é essa crítica ao "rentismo". Vamos lá. De quem é o dinheiro que os bancos emprestam ao governo -e sobre o qual o governo paga juros? Uma pequena parte é dinheiro do próprio banco. A maior parte é dinheiro que o banco tomou emprestado das pessoas e das empresas. É dinheiro seu, meu, nosso. Qualquer pessoa ou empresa que tem uma poupança, que tem renda financeira, tem dinheiro emprestado ao governo na forma de títulos públicos tomados pelos bancos. A maior parte do que o governo paga de juros "aos bancos" não fica com eles, vai para a renda das pessoas e das empresas de quem os bancos tomaram emprestado o dinheiro. É uma das razões pelas quais o besouro voa. Teoricamente, não deveria voar, mas voa. Uma pergunta sobre o besouro para os economistas. Por que a economia brasileira cresce a taxas parecidas com as dos países desenvolvidos se os nossos juros estão muito acima dos juros deles? Uma parte da explicação deve estar nos juros especiais (não confunda com espaciais) das linhas de crédito destinadas a investimento. Mas há outra parte da explicação que, normalmente, fica oculta. Todo mundo que tem alguma modalidade de renda financeira se beneficia da drenagem do Tesouro Nacional. Por exemplo, empresas com um bom caixa. Por exemplo, famílias e pessoas que poupam. Sim, amigos, é verdade: uma boa parte do que o governo gasta com juros acaba beneficiando outros que não os bancos. Já foi pior (ou melhor, conforme o ponto de vista), no período da inflação alta, quando a renda mensal da caderneta de poupança era um salário para milhões e milhões de pessoas. Mas não vamos aqui fugir do debate sobre a Selic. O modelo brasileiro funciona mais ou menos da seguinte maneira. O governo (União, estados e municípios) poupa ou lucra (estatais) um tanto todo ano para pagar parte dos juros e do principal da dívida pública-e para não pressionar ainda mais a inflação. Para garantir que a inflação fique próxima de uma meta definida pelo governo, o Banco Central aplica a política monetária, da qual a taxa básica de juros é elemento fundamental. E o câmbio flutua. Então, como já foi dito aqui diversas vezes, quem propõe baixar rapidamente os juros sem mexer no modelo está propondo que o país tenha mais inflação. E se é para mexer no modelo, que digam no que e como vão mexer. Mas deixa prá lá. Muito complicado. Melhor continuar falando de "rentismo" e de "bolsa banco". Já que a inflação baixa e o Bolsa Família estão garantindo o pão, não custa nada a gente continuar se divertindo com o circo.

Uma observação. Dou links para a Wikipedia em inglês porque é mais completa. Mas sempre que um verbete tem versão em português você pode acessá-lo clicando no link para "português" que aparece na barra lateral esquerda da página.

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19 Comentários:

Anonymous Alexandre Porto disse...

Esse discurso na boca de um tucano chega a ser ridículo. Lula foi bem ontem, mas perdeu a oportunidade de dizer que o Governo dele (Lula) será o campeão de pagamento de juros, porque ele pegou o Governo com uma dívida de 55% do PIB. O Governo FHC pegou com 26%. É matemática simples.

O próximo Governo pagará menos, pois além dela ter caído um pouco, seu perfil é muito melhor que há 4 anos atrás.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 11:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Entende de ciência política e de macroeconomia. Talvez também conheça de astrofísica e neurocirugia. E é isento. Conseguiu criticar o desafiante sem falar mal do incumbente.

Tem gente que gosta. Gente petista.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 11:07:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Ufa! Nada entendo de astrofísica ou de neurocirurgia. Mentira. Sei que o problema das relações gravitacionais entre três corpos ou mais não foi resolvido até hoje. Aliás, muitos outros problemas também não foram resolvidos. Como, por exemplo, a identidade desse anônimo. Eu sei quem é, mas lamento não poder informar ao leitor. Por razões éticas. Mas me honra que tão distinta pessoa se abale a freqüentar este modesto blog. Quanto ao petismo, nem sei direito que quer dizer essa palavra. Não creio tratar-se de uma categoria sociológica, ideológica ou tribal. Qual é a sua definição de petismo, anônimo?

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 11:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A questão essencial não é a minha identidade. A questão essencial é que Lula é o presidente incumbente. Ele é que deveria dar mais satisfações sobre a política econômica e seu fracasso, coisa que você não cobra, inclusive com relação aos spreads. Ainda mais porque o partido dele, o PT, passou vinte anos dizendo ser contra o modelo econômico que ele mesmo radicalizou.
Já sei. Você já escreveu um texto célebre dizendo que coerência é atributo de dogmáticos. Isso é bonito prá se escrever em blog para petistas angustiados e doidos prá achar uma válvula de escape para suas racionalizações, mas, definitivamente, dá pau em qualquer prova em escola séria de filosofia.
É por essa razão que eu concebo o Lula como o flautista de Hammelin: ele toca sua flautinha e, qualquer que seja a música, os ratinhos pavlovianos do petismo vão atrás.
O que mais a burguesia poderia pretender?
Digamos que o meu nome seja Nanoescriba. Assim fica melhor, comigo devidamente identificado?

Espero que a sua identificação de meu nome não tenha contado com os préstimos do sistema de arapongagem que o PT tem espalhado no Estado brasileiro. De outra forma, não entendo como você conseguiu essa informação, que, afinal, não tem a mínima relevância.
Se a regra do jogo do seu blog é não ter anônimos, você deveria cortar essa opção.
Gostaria, de fato, que vc. não publicasse minha identidade, sabe-se lá como você a obteve, sem a minha permissão.
Eu já me espantei muito com a prática de quebra de sigilo promovida por Palocci. Não gostaria de ser vítima de algo semelhante.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 12:17:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Entenda a minha insistência. Volto a sugerir a leitura do debate que PL promoveu entre Nakano, Mendoça e o outro que não lembro o nome. Ainda não reli.
Lembro que o que mais chamou minha atenção foi que os três apresentaram muito mais dúvidas do que soluções.

Mendonça, por exemplo, observou que não há como esperar mudanças de rumo na política econômica enquanto a turma que está lá, lá permancer. Ele reconhece o trabalho fantástico deles no controle da inflação. Acha que está ai (o sucesso) o problema. Ou seja, não devemos esperar de quem domou a inflação mudanças de rumo. A turma que lá está é deliberadamente conservadora. Ou seja, eles estão ali para conservar as conquistas que a aplicação da atual política econômica trouxe ao país. Por isso, conclui, é preciso trocar o time. Um outro time que tenha a mesma ousadia que este teve.
Veja, Mendonça tráz, assim, a política para o centro das decisões relativas à econimia. Ele mesmo diz: "não há receita. É preciso novamente tomar a decisão política e arriscar.

Meu resumo é muito precário. Faz tempo que li. Acho que é mais ou menos isso.

Pra finalizar, uma estocada nos esquerdistas: quero que vocês me citem apenas um documento que expresse um pensamento consistente (que não seja panfleto) sobre política econômica produzido pela esquerda nos últimos 15 anos. Não vale os de "crítica" ao neoliberalismo".

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 12:20:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Tem uma besteira na sua análise: juros, no longo prazo, não afetam inflação, mas sim o câmbio subvalorizado que afeta. Uma queda mais acelerada nos juros (por conta da alta liquidez externa) não faria cócegas sequer no câmbio. Portanto, não afetaria em nada a inflação, já que ela hoje depende menos dos juros, e mais dos preços das commodities, dolarizadas.
Juros só brecam inflação em momentos de choque. Essa é uma das lições mais antigas e ignoradas pelos economistas brazucas.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 12:29:00 BRT  
Anonymous rentista disse...

Só não entendi "A maior parte do que o governo paga de juros "aos bancos" não fica com eles, vai para a renda das pessoas e das empresas de quem os bancos tomaram emprestado o dinheiro."

Caso saiba de alguma aplicação que dê mais do que 2% am e não peça mínimos de 100 mil para cima, me avise.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 12:35:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Calma, anônimo. Claro que eu não sei quem você é. Foi uma piada. Não vamos perder o bom humor. Sobre críticas ao governo Lula no tema bancos, faça uma busca na caixinha do Technorati por "bancos". Você se espantará com a quantidade de críticas que já fiz ao governo por causa disso. Aliás, se você não quiser fazer essa busca, vá a este link:

http://www.technorati.com/search/bancos?
from=http://blogdoalon.blogspot.com&sub=searchlet

Outra coisa. Este é um blog de política, não de filosofia. E obrigado por vir até aqui e participar, mesmo discordando. Um abraço.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 12:41:00 BRT  
Anonymous André Pessoa disse...

O "rentista" (não o verdadeiro, mas o codinome aí de cima) precisa aprender matemática. O governo paga 13,75% de juros ao ano, e isso corresponde a 1,08% ao mês (e não 2%). E uma aplicação não precisa chegar nesse número para que esteja correta a afirmação de que a maior parte do pagamento de juros vai para as pessoas e empresas e não para o banco. Praticamente todos os fundos de renda fixa voltados para a classe média têm rendimentos muito próximos desse número aí.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 13:01:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Quaal sera o medo do anôniomo em se identificar?

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 13:27:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Na modelar Coreia do Sul, em 1962, após um golpe de Estado, o general interventor estatizou todo o sistema financeiro para reter a escassa poupança interna e usá-la quase totalmente para financiar a juros baixos a iniciativa privada em seus conglomerados industriais. Daí surgiram a Samsung, a LG, Hyundai, Daewoo, estaleiros Jrong, etc. Esses conglomerados tinham metas de exportação, que se não cumpridas perdiam acesso às linhas de créditos e quase sempre faliam. Sobreviveram aqueles que foram competitivos no comércio global. Remessas ilegais para o exterior dava pena de morte. Só recentemente o sistema financeiro foi parcialmente privatizado.
O regime militar de 1964 brasileiro adotou muitas políticas semelhantes à da Coréia do Sul, com as diferenças de que o sistema financeiro continuou privado, e a indústria de base era estatal (siderurgicas, petroquímicas, etc). No regime brasileiro, "exportar também era o que importava", mas o BNDES funcionou como hospital de empresas que não eram competitivas.
As outras 2 grandes diferenças da Coreia do Sul e do Brasil, são a política educacional, e o fato da Coréia do Sul só ter um sistema de Previdência Social Público criado recentemente, por isso, superavitário.
Acredito ser tarde demais para estatizar o sistema financeiro no Brasil. Mas durante as privatizações os tucanos talvez pudessem ter trocado ativos e concessões de serviços públicos, por real abatimento da dívida e controle nacional sobre a poupança interna.

Em tempo:
Qualquer cidadão pode comprar títulos do tesouro diretamente sem a intermediação dos fundos de renda fixa dos bancos (que ganham um spread entre o dinheiro captado dos cotistas e o pago pelo títulos da dívida pública).
Esse investimento chama-se tesouro direto, exige apenas R$ 200,00 (200 reais mesmo, não é 200 mil) como aplicação mínima, e você ganha todo o rendimento da taxa selic (existem também papéis com juros pré-fixados e corrigidos por outros índices) descontando 20% de alíquota de IRRF, e a taxa de corretagem e administração do agente financeiro.
Se todo cidadão ou empresa que poupa financiasse diretamente o governo comprando diretamente os títulos sem aplicar nos bancos, ganhariam mais, os Bancos terim menor participação no PIB e reorientariam a fonte de seus lucros (cobrariam mais tarifas de serviços, provalvelmente) e seriam obrigados a financiar a produção, e provavelmente as taxas da dívida pública cairiam um pouco.
Isso existe desde a época do Malan, as no governo Lula é melhor divulgado principalmente para clientes do Banco do Brasil. Talvez uma campanha maciça na TV que caia na boca do povo (como o crédito consignado) pudesse fazer a diferença.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 14:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, há alguns dias atras alertei que os anônimos que não declaram a graça são agentes da inteligência das campanhas eleitorais. Este debate perpretado pelo "nanoescriba" confirma minha tese. Qual será o pensamento e as convicções nossas daqui a 10 anos? Paciência até lá.

Rosan de Sousa Amaral

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 14:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Qual será o pensamento e as convicções nossas daqui a 10 anos?"

Amigo, suas convicções daqui a dez anos, como bom petista, serão as que tocarem no pífaro do flautista de Hamellin, o Senhor Lula da Silva.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 16:41:00 BRT  
Anonymous Outro anônimo disse...

Lanço aqui um manifesto em forma de apelo: Não se vá, anônimo! Fique aqui debatendo! Sua presença entre nós é a prova de que mesmo para os adversários vale a pena debater conosco! Isso nos conforta, pois já estávamos quase achando que nós _que votamos no Lula_ éramos apenas uns idiotas, incultos e iletrados. Agora não mais! Até os eleitores inteligentes, cultos e letrados de Geraldo Alckmin dão-se o trabalho de vir aqui polemizar! Anônimo, você mora nos nossos corações!

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 17:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Outro anônimo,

Posso fazer sua vontade. o chato é que o ritmo é ditado pelo news-pickingo do Alon e pela flauta de Hamelin de Lula da Silva.

Mais interessante seria se vocês tivessem um pensamento anônimo qualquer. Por exemplo, o que você achou de o PT ter dado legenda para o Senhor Palocci? Ou de o Sr. Lula ter privatizado várias linhas de transmissão?

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 17:33:00 BRT  
Anonymous arkx disse...

>De quem é o dinheiro que os bancos emprestam ao governo -e sobre o qual o governo paga juros?

Dívida pública é uma necessidade do sistema capitalista. É um escoadouro da acumulação de lucro quando o detentor deste não quer ou não pode investir produtivamente.

Num plano ainda mais fundamental, a dívida pública é um elemento de regularização do ciclo econômico. Nos períodos de baixa, isto é, de alto desemprego e grande capacidade ociosa na economia, o investimento do Estado a partir da mobilização da poupança privada pelo endividamento é fundamental e insubstituível para reversão do ciclo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 18:47:00 BRT  
Blogger O Anão Corcunda disse...

Caro Alon,
acho que a direção que você adota em suas análises tem sido muitíssimo pertinente. Precisamos cada vez mais resgatar Marx, assim como aqueles que desenvolveram a ciência marxista, para nossos trabalhos de elaboração política e econômica. E, dessa forma, contribuir ainda mais com o aperfeiçoamento dessa práxis.
Quanto à discussão gerada aqui nos comentários, parece um pouco desvirtuada pelo exacerbamento nos ânimos de certos leitores, mas ainda assim seu saldo me parece positivo. Parece-me que o leitor "anônimo" nos apresenta uma análise muito fetichista das possibilidades atuação de um poder executivo eleito por sufrágio, em um país capitalista subdesenvolvido e fortemente dominado por oligarquias empresariais. Ele deixa de considerar as forças políticas (históricas!) em jogo e tende a culpabilizar um movimento social ainda incipiente, como se um partido político pudesse chegar e sair fazendo o que bem entendesse no governo. Não me alongo muito dessa vez.
Um abraço.

sábado, 21 de outubro de 2006 00:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O anão corcunda dá o exemplo rematado do argumento não refutável, contra o qual o velho Popper lutou a vida inteira e que põe a dialética, ao lado da astrologia, da homeopatia e da cura pelos cristais, entre as mais bem sucedidas e longevas picaretagens intelectuais que entorpecem a humanidade.
Qualquer que sejam os fatos, sempre haverá um argumento "ad hoc" para salvar a teoria e seus líderes da crítica e da refutação.
A esse joguinho os marxistas dão o nome de dialética.
Essa porcaria já acabou no mundo quase todo. Sobrou na América Latina e em Pyongyang. No Brasil, país de frutas exóticas, persiste ao lado do espiritismo kardecista e da jabuticaba. Afinal, somos os "perfeitos idiotas latino-americanos", não é mesmo? Não é à-toa que a Ásia inteira está nos deixando para trás e que seremos a irrelevância do Século XXI. Se a África é objeto de caridade e culpa, nós seremos a causa dos bocejos do mundo.
Lula prometeu x, mas faz y? Culpa das condições objetivas. Mas, no futuro - imprecisável - ele fará jorrar leite e mel. Enquanto isso, as gentes sorridentes e inzoneiras o reverenciam como os nativos de Heart of Darkness cultuavam Mr. Kurtz. O horror, o horror!
Esse pessoal só não usa a dialética na hora de receber dinheiro. Seja de imposto sindical, seja de contra-cheques em cargos de confiança, seja de verba do orçamento para ONGs, seja de dinheiro de "empréstimos", seja de origem desconhecida. Como dizia Vilfredo Paretto, quando se trata de dinheiro, os marxistas nunca confundem o dinheiro imaginário (fetichista) com o verdadeiro - nisso eles nunca erram. Sempre vão no ouro, como direi?, genuíno.
Eu poderia citar nomes, mas o Brasil inteiro conhece os membros da Legião de Honra petista. Só mesmo no Brasil, em que boa parte da classe média alfabetizada está se lixando para o padrão moral que irá legar aos filhos, se permite que gente com tais antecedentes continue gerindo o Estado.
Agora podem continuar se lambuzando com seu rocambole dialético.
Os rentistas não estão perdendo tempo. Já estão se refestalados, enchendo a pança com o deles. Só que o rocambole reservado a eles pelo Lula é maior, muito maior, e o recheio, bem mais caro.
O anônimo ignoto encerra aqui sua participação no blog do Alon, que, diferentemente do PROUNI (sempre a burguesia, sempre a burguesia comendo o rocambole dialético do Lula), é público, gratuito e, principalmente, de qualidade.

sábado, 21 de outubro de 2006 05:34:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Parabéns, não me lembro de ter visto outra exposição tão clara e direta: a fantástica lucratividade dos bancos não se deve a alta taxa de juros praticada, mas à diferença (spread) entra a taxa que pagam ao poupador e a que cobram nos empréstimos, possível em razão da quase nula concorrência interna e externa que enfrentam. Mas reformulo a sua questão: porque precisamos de uma taxa de juros tão elevada para mantermos um ritmo de crescimento de economia madura sem inflação? O fato é que, como qualquer economia emergente, temos enorme potencialidade de crescimento, porque não conseguimos realiza-la? Foi um enorme avanço percebermos (nem todos claro, o debate continua) que reduzir juros produziria mais inflação que crescimento, e que deve haver algo por traz da necessidade dos juros elevados. Boa parcela dos que participam do debate público também já percebeu que deve ter algo a ver com a enorme carga tributária brasileira, algo como 40% do resultado de todo o trabalho do país é transferido às três esferas de governo. Gostaria de sugerir mais um passo: se o estado devolvesse à sociedade bens e serviços em valor equivalente (em segurança, justiça, educação, saúde, o que seja) sobraria algo mais para a poupança dos 60% que resta dos tributos. A ineficiência do aparelho público brasileiro é tão evidente que não passa despercebida do debate político: é o “choque de gestão” de Alckmin, ou “melhorar a qualidade do gasto público”, como já dizia no início do governo Lula o ministro Palocci. Mas essa questão não é normalmente relacionada ao baixo crescimento, e como é um problema bem mais complexo que elevar ou baixar a taxa de juros, ainda o estamos enfrentando apenas com as conjurações mágicas citadas. Mesmo descasadas, as questões são conhecidas, trata-se de avançarmos nas “reformas liberais” ou insistirmos no dirigismo estatal. Aliás, as duas alternativas estão colocadas no interior de ambas as forças que disputam a presidência, não é nesse ponto que se diferenciam, e mesmo assim pouco passa para o debate público mais amplo.

sábado, 21 de outubro de 2006 11:15:00 BRT  

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