sábado, 7 de outubro de 2006

Privatização boa e privatização ruim - ATUALIZADA (07/10)

Trecho de reportagem da edição da revista Veja colocada hoje na Internet (para assinantes):

Alckmin já tem um projeto econômico quase fechado. Seu problema parece ser o fogo amigo. Com as contas em dia e de olho no Planalto, ele previu a ampliação dos investimentos públicos em 2006. São várias as obras em andamento, como a nova linha do metrô, a calha do Tietê e o novo trecho do Rodoanel. O fechamento equilibrado das finanças dependia da venda de 20% das ações da Nossa Caixa, prevista desde o ano passado. Cláudio Lembo, que era vice de Alckmin e assumiu o governo, decidiu adiar a operação, pressionado pelo também tucano José Serra, governador eleito. Serra não esconde de ninguém que é contra a venda de patrimônio estatal para fechar buracos orçamentários. Sua interferência para impedir o prosseguimento da venda das ações vai produzir uma rachadura na imagem de gestor eficiente de Geraldo Alckmin. O leilão das ações ficou para 2007. Se Serra decidir, então, reativar o leilão das ações da Nossa Caixa, Geraldo Alckmin terá o direito de concluir que foi vítima de fogo amigo às vésperas do duro duelo com Lula pelo segundo turno das eleições presidenciais.

Aí está. Esse é o bom debate sobre as privatizações. Em todas as sociedades modernas coabitam um setor privado e um estatal. O que se discute é o tamanho e o papel de cada um. O estatismo absoluto e o privatismo absoluto são construções retóricas, ideológicas. Têm mais a função de arregimentar do que de esclarecer. O xis da questão está nesse trecho de reportagem da maior revista semanal do Brasil. A pergunta que precisa ser respondida é a que segue. Faz sentido queimar ativos para cobrir buracos operacionais? Eu penso que não. Aliás, se um executivo fizer isso numa empresa privada o mais provável é que ele seja sumariamente demitido pelo dono dos ativos. Desfazer-se de patrimônio para cobrir buracos operacionais é uma burrice. Por quê? Porque a fonte do endividamento continua ali, e daqui a pouco você estará com o mesmo problema (ou maior), só que mais pobre. Qualquer pai (ou mãe) de família sabe disso. Se você deve, o melhor é você economizar um tanto todo mês e ir pagando suas dívidas -e não vender a casa e o carro para pagar os juros. Mas tem gente que não pensa assim. Quem? Ora, quem vai comprar os ativos. Claro. Quanto mais enforcado está o devedor, mais barato ele vai topar vender o seu patrimônio. Entenderam? Então façam as contas. Quanto tempo de déficit da Previdência equaliza o valor de mercado da Petrobrás? Ou do Banco do Brasil? Ou da Caixa Econômica Federal? Não sei se essas três empresas deveriam ser estatais ou não. Não vejo qualquer problema em debater a sua privatização. A polêmica não é sobre estatizar ou privatizar. É sobre gestão, sobre gerência. Sobre interesse público. E se o público é dono de uma empresa, ele tem o direito de vê-la administrada como qualquer capitalista cuida do seu próprio negócio.

Observação acrescentada em 08/10, às 14h30: Recebi um email de um funcionário da Nossa Caixa que preferiu permanecer anônimo (nem postar ele quis). O que ele diz? Que o caso não é de privatização, mas de queima de ativos. Ele diz que as ações iriam ser vendidas por metade ou menos do preço que poderia ser conseguido ano que vem, com a privatização efetiva ou com a Nossa Caixa atraindo a conta salário dos funcionários estaduais. Segundo ele, quando o governador Cláudio Lembo suspendeu a venda, as ações do banco subiram. Faz sentido.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).
Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

15 Comentários:

Anonymous paulo araujo disse...

É isso, Alon. O bom debate somente passa por esse caminho.

abs

PS: um saco esse monte de letras com fonte esquisita que autentica o comentário e que eu nunca não consigo ler de "prima". Por que não colocam as letrinhas numa fonte mais legível.
Não precisa responder.

sábado, 7 de outubro de 2006 10:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Calha norte do Tietê, Rodoanel e outras obras de infra-estrutura são investimentos novos. Não são gastos de custeio. Trocar participação acionária em investimento já feito em setor não essencial para produzir bens públicos novos não me parece vender patrimônio público para cobrir "rombo orçamentário". Cada um tem seu viés.

sábado, 7 de outubro de 2006 11:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon. Este debate é rico e passa pelo seguite dilema nacional: o Estado para quê? Qual o tamanho do Estado? O FMI e o Banco Mundial já sepultaram a idéia do Estado zero que era pregado na era da globalização pura. Estas entidades hoje recomendam que haja presença do Estado em áreas estratégicas.Esta pode ser a primeira premissa. A segunda premissa é a nossa previdência social. Qualquer pessoa que contrata uma previdência particular inicia-se com o cálculo atuarial (quanto tempo contribuindo com tanto para se atingir um resultado pretendido). A nossa previdência social, antes da Constituição Federal de 1988 já era saqueada (transamazôniza, ponte rio-niteroi, etc). Veio a Constituição de 1988 e dispôs no artigo 7º, inciso XXIV: "São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais (...) APOSENTADORIA". Assim, os trabalhadores rurais que nunca contribuiram passaram a gozar da aposentadoria (JUSTO POR SINAL). Ora, quem deve suprir tal rombo? Os trabalhadores que já estavam contribuindo? A resposta tem que ser TODA A SOCIEDADE - O TESOURO NACIONAL. Daí estas idéias de reforma da previdência para ZERAR o deficit é coisa de financista que somente quer debitar o ônus para o trabalhador e as empresas. Desculpe o tamanho, paro por aqui.
Rosan de Sousa Amaral

sábado, 7 de outubro de 2006 11:18:00 BRT  
Anonymous Emerson disse...

Concordo com o Alon, independente deste detalhe técnico (se é ou não gastos de custeio), a principal questão é se devemos ou não vender nossas estatais, e principalmente em qual condição (neste caso com a corda no pescoço). Pra mim isto não é o que podemos chamar de "choque de gestão".
Pela lógica do colega acima, então seria justificavel a venda de estatais (Petrobrás, Banco Brasil, Caixa, etc) para aumentar o investimento do governo? Pelo viés liberal, talves sim. Eu, particularemente, acredito que não.

sábado, 7 de outubro de 2006 11:31:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Uma pergunta: se não debitar dos trabalhadores ou das empresas, vai debitar de quem? dos desempregados? das entidades filantrópicas? das ONGs? do Tio Sam? de Deus?

Ah, já sei! Do Tesouro Nacional. Lá tem um monte de ouro guardado que se usa quando todos na sociedade se recusam a pagar as contas.

sábado, 7 de outubro de 2006 11:42:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Lamento. Sua análise é simplista, mesmo porque você admite, em outras palavras, que desconhece com profundidade o assunto. A discussão é: Afinal Alckmin é ou não é a favor das privatizações? Ele diz que não, a Veja, parece, diz que sim. Ele tem, sim, que se posicionar, neste e em outros assuntos. Por favor, não contribua para perdermos o foco. Um abraço.

sábado, 7 de outubro de 2006 12:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

completamente off topic:

fui ler o texto do Valério Arcary sobre a Heloísa Helena. É inacreditável. "Há nações imperialistas que exploram outras nações."
Será que o autor acredita mesmo que a Boeing, a Merck, a Nasa e a Microsoft estão mesmo interessadas em roubar 30% do leite das cabras ordenhadas na Mongólia diariamente?
Pobres alunos do CEFET...

sábado, 7 de outubro de 2006 14:08:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Sempre critiquei as privatizações tucanas, não ideologicamente, e sim pela gestão.
Posso discordar ideologicamente de Margareth Thatcher, mas jamais criticaria sua gestão. O que ela se propôs a fazer, fez com louvor: diminuiu o tamanho do estado repassando os benefícios (redução de impostos) ao cidadão. Substituiu monopólios estatais por concorrência de mercado, provocando queda nos preços e tarifas (benefícios repassados ao cidadão consumidor).
Já os tucanos, ao privatizarem, produziram resultados exatamente inversos ao que prega o neoliberalismo. Diminuíram o tamanho patrimonial do Estado, mas aumentaram os impostos na era FHC. Para arrecadar mais nos leilões de privatização e abater dívidas, deram ao mercado regras onerosas ao consumidor e excessivamente generosas de proteção ao investimento (critica feita até por Roberto Campos na época): primeiro elevaram bastante as tarifas antes da privatização, depois incluíram regras de reajustes nos contratos de concessão que desfavorecem a queda de preços até hoje. Conclusão: nós, consumidores, estamos pagando, embutido nas tarifas, a amortização do investimento (que deveria ser de longo prazo) em tempo recorde.
As privatizações também não cumpriram o papel de rebaixar a dívida pública a níveis satisfatórios. Pelo contrário, a dívida explodiu, não por culpa das privatizações em si, e sim pelo populismo cambial, pelos seguidos déficits primários, e pelo saldo negativo na balança comercial, durante os 8 anos de governo tucano. Portanto a venda do patrimônio foi usada para cobrir rombos.
Por fim, o fato do Estado ficar mais enxuto, para dedicar-se às atividades fins: saúde, educação e segurança, etc., também não cumpriram o prognóstico apregoado.
Pelo conjunto da obra, acho que os tucanos não passaram de ano naquilo que se propuseram a fazer. Trazê-los de volta ao poder, seria como se pedissem para
serem repetentes em pleno exercício do poder, e não na oposição, onde é mais adequado (e barato) para fazer revisionismos, e só depois disso, apresentarem-se ao eleitor com as revisões prontas.

sábado, 7 de outubro de 2006 15:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não sejam ingratos. Se não fosse a privatização das telecomunicações, esse blog nem teria como funcionar. Tudo seria na base da linha discada. Prim, prim, prim.
A dívida pública aumentou porque os gastos públicos, inclusive juros, foram maiores do que deveriam ser. E continuam sendo.
Isso não tem nada a ver com privatização. Os petistas são obtusos de não perceber que a política econômica de Lula é idêntica à dos tucanos. Não percebem, pois tratam Lula como ídolo, ícone. Lula não é objeto de análise e crítica pelos petistas, é objeto de adoração e culto à personalidade. Vejam, por exemplo, o Banco Central: só tem tucano, a começar pelo Presidente. E a política social também é igual à do FHC. A diferença é que ele deixa os sindicalistas à tripa forra e tem veleidades de ameaçar as instituições democráticas. Uma outra coisa que não percebem: Lula é o ideal para a elite: controla a esquerda, inclusive a letrada (que o vê como os nativos de Heart of Darkness viam Kurtz), os megafones da CUT, da UNE e do MST e mantém os status quo.
Se fosse muito rico, eu não pensaria duas vezes entre Lula e Alckimin.

sábado, 7 de outubro de 2006 16:39:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Sobre quem disse “Se não fosse a privatização das telecomunicações, esse blog nem teria como funcionar.”:
Apesar de eu não ser contra privatizações nos moldes ingleses, não vamos confundir avanços tecnológicos com privatizações, e muito menos com má gestão.
A China também teve um crescimento estrondoso nas telecomunicações, e lá continua sendo monopólio estatal.
Existe diferença entre política monetária feita pelos Bancos Centrais e política econômica feita pelos governos. Na Europa isso fica bem claro: todos os países que adotaram o Euro seguem a mesma política monetária. A política econômica muda (pelo menos o viés) em cada país quando há alternância no poder.
A política econômica de Lula prioriza distribuição de renda, acreditando que o aumento da demanda no mercado consumidor interno produzirá crescimento econômico. A tucana prioriza incentivo ao investimento, acreditando ser possível um aumento da produção (da oferta) antes de haver aumento da demanda. Ou seja, um investimento de maior risco. Como capitalistas mensuram isso, para empreenderem-se nessa jornada, exigem pesados subsídios e proteção ao investimento. O dinheiro de subsídios sai ou do Estado via impostos, ou diretamente do cidadão via tarifas, do mesmo jeito (não existem almoço grátis).
Cada um acredita na tese que lhe parece melhor ou mais lógica. Pra mim a de Lula parece ser bem mais sustentável e barata.

sábado, 7 de outubro de 2006 19:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Amigo,

se o aumento da demanda vai produzir crescimento econômico, faça o seguinte. Triplique o salário mínimo e as aposentadorias. Assim você vai ter o triplo de crescimento. Ou melhor, quintuplique. Por que triplicar, se se pode quintuplicar, não é mesmo?
A China também faz assim. Eles têm uma taxa de investimento miserável.
Seu raciocínio é impecável. Para um petista.

sábado, 7 de outubro de 2006 22:04:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Anonymous acima
"...aumento da demanda vai produzir crescimento econômico, faça o seguinte. Triplique o salário mínimo..."
Que genialidade! Como é que eu não tinha pensado nisso antes?
Mas sugiro uma evolução de sua linha de raciocíonio: Porque a CEF não distribui um prêmio da mega-sena para cada apostador? Assim todos ficariam milionários. Não pense pequeno, pense grande.

domingo, 8 de outubro de 2006 03:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Amigo,

no seu raciocínio, o céu é o limite. Afinal, a sua leitura de Friedmann é a própria descoberta do moto-contínuo, he he he.

Você tiraria a Bolívia da miséria em dois tempos. O que o Evo Morales está esperando para começar a distribuir bolsa-família sob a sua supervisão?

Petistas: "The horror, the horror".

domingo, 8 de outubro de 2006 17:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Esta acusação do funcionário da Nossa Caixa é muito grave. Afinal, como o próprio nome diz, é nossa Caixa, não do Alckmin, do Lembo ou do Serra. E os camaradas estavam a ponto de entregar 20% dela pros amiguinhos rentistas endinheirados de novo. Eta oligarquia decadente esta paulista.

Cheira a interferência indevida na máquina pública para favorecer o Alckmin na corrida presidencial. Afinal, como ele vai explicar ser um bom gerente decente deixando um rombo nas contas do estado em mais de um milhão. O TSE deveria apurar isto melhor. Mesmo porque CPI em São Paulo os tucanos sufocam.

domingo, 8 de outubro de 2006 17:15:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

O argumento da pessoa que se diz da Caixa faz sentido. Não porque seja de alguém da Caixa. Faz sentido porque é um argumento da lógica do mercado. Seguindo a lógica, o melhor é vender (privatizar) no ano que vem. Continuando na lógica, sempre é melhor privatizar. A questão é apenas de quando e como vender, ensina a lógica. Pelo argumento do anônimo da Caixa, também posso continuar defendendo a privatização (venda de ativos)da Caixa.
Toda a questão retorna ao seu, Alon, argumento inicial: vender ativos públicos para fazer o quê?
E voltamos mais ainda lá para trás, para um assunto que já foi comentado aqui por você: programa de governo.

Ainda seguindo a lógica do anônimo da Caixa, este seria, então, o momento certo para discutirmos a privatização da Petrobrás. Nunca as ações valeram tanto. E por quê não se discute? Infelizmente, não há ambiente político favorável para essa discussão.

Neste bom debate, também precisamos nos indagar por quê os fundos de pensão das empresas estatais e os sindicatos não se engajam politicamente nessa discussão? (claro que minha pergunta é retórica. Não nasci ontem para a política).

Não nos parece lógico supor que tais Fundos seriam muito beneficiados na venda desses ativos? A VRD, seus funcionários e o país ao qual a VRD privatizada paga impostos não estão muito melhores do que antes? Nesse sentido, por quê a Petrobrás não ficaria melhor ainda se privatizada? Eu prefiro a lógica da privatização que vem comandando a VRD. Sou, como você, amigo da boa lógica.

Retorno, novamente, a sua questão: vender ativos públicos para fazer exatamente quê? Não vender ativos públicos para fazer extamente o quê?

domingo, 8 de outubro de 2006 17:49:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home