quinta-feira, 5 de outubro de 2006

O muro mexicano realiza o sonho da esquerda (05/10)

O presidente George W. Bush acaba de assinar a lei que permitirá um investimento de US$ 1,2 bilhão no muro que vai (acreditam os americanos) proteger os Estados Unidos da imigração ilegal na fronteira do México. Há protestos. Mas não deveria haver, pelo menos no campo da esquerda. O muro de Bush é mais uma pedra no caminho da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), pensada pelo então presidente George Bush (pai) como o embrião de uma comunidade hemisférica de nações. A esquerda continental bate-se contra a ALCA como -lembro bem- a esquerda e a direita européias se batiam contra a unificação do seu continente. Mas não confunda a minha posição. Eu não sou favorável à ALCA nos moldes propostos pelos Estados Unidos. Mas por motivos diferentes dos firmados pelo governo brasileiro. Os americanos querem nos vender livremente produtos de alto valor agregado, mas se recusam a abrir mais radicalmente o mercado deles para nossos produtos agrícolas. Esse é o argumento central do Brasil. Eu começaria a discussão por outra ponta. Querem um mercado comum? Ótimo. Vamos discutir então o livre trânsito de trabalhadores em todo o continente. Vamos criar uma cidadania continental. Qualquer brasileiro poderá ir morar e trabalhar nos Estados Unidos e no Canadá quando bem entender. Qualquer boliviano ou peruano poderá vir morar e trabalhar no Brasil quando quiser. Livre circulação do capital, mas com a livre circulação do trabalho. Não seria um bom debate? Seria, nos tempos em que a esquerda ainda não havia capitulado a um nacionalismo que chamava de "burguês". Nos tempos em que as pessoas ainda liam textos que distinguem anti-imperialismo e nacionalismo. Nos tempos em que as pessoas ainda liam. Velhos tempos.

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8 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Alon, muito boa a sua argumentação sobre o livre trânsito de trabalho pelas fronteiras nacionais e mercados. O muro parece algo insano. Afinal o México é integrante do Nafta, juntamente com os EUA e Canadá. Um tratado de livre-comércio. Antes colocado como alvissareiro ao México, acaba tornando-se um pesadelo, por impedir exatamente o que os mexicanos mais gostariam que ocorresse.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006 11:57:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Você atacou o "x" da questão. Perfeito. Não tenho nenhum reparo a fazer.

Infelizmente, isso é uma plataforma avançada demais para um governo tímido como este. Ser de "esquerda" e tentar o tempo todo se mostrar confiável ao grande capital tem as suas mazelas.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006 12:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tocou em um ponto muito importante.
Por que o capital e mercadorias tem direito de circular livremente e as pessoas nao?
Que raios de mundo e' este? O qual as pessoas nao tem direito a livre circulacao?
Acho que isto mostra que o neoliberalismo nao tem nenhuma preocupacao humanista.

Tristes tempos.
Alias talvez a humanidade nunca saiu do lugar apenas da voltas.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006 12:50:00 BRT  
Blogger Paulo disse...

O ceticismo melancólico que termina o texto parece adequado. Os americanos não querem exatamente uma zona de livre comércio mas um protetorado, um mercantilismo atualizado onde tarifas preferenciais garantam à metrópole o monopólio do comércio de determinados bens nas colônias. E o pior é que os conservadores brasileiros babam de prazer quando sonham com a Alca.

Seria muito interessante introduzir a duicussão do livre trânsito de pessoas junto com as mercadorias. Claro, os americanos e seus cúmplices brasileiros imediatamente nos acusariam "radicalismo, esquerdismo infantil, comunismo"...

quinta-feira, 5 de outubro de 2006 14:27:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Alon, concordo plenamente com sua utopia (utopia a curto prazo; a longo prazo acredito que será como você diz: integração total, livre trânsito de capitais e trabalhadores, incluindo integração de moedas, jurídica e constitucional).
Mas olhando a política do aqui e agora, está claro que liberalização migratória está fora de cogitação em um curto prazo, e o muro do México é apenas mais uma manifestação disso.
Então as contendas são exatamente como nas velhas tribos. O ser humano se reúne em tribos (nações, hoje), para cuidar de seus interesses, frente aos interesses de outras tribos, a ponto de haver guerras. Hoje os interesses em disputa são os territórios econômicos (mercados), daí o naciolismo econômico burguês ser uma questão de defender o próprio bolso e seus empregos. Não é mera escolha ideológica, é simples tática.
Economias nacionais e locais são como ecosistemas econômicos (lembrando aqui que economia não é apenas investimentos e mercados, é também a capacidade de subsistência de uma vida humana no habitat em que vive, representada pelo mercado de trabalho no mundo moderno): se não tiverem políticas de preservação, esses ecosistemas econômicos extinguem-se.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006 14:29:00 BRT  
Anonymous Flausino von Rubiloca disse...

Caros.
A História do Brasil explica a mecanica capitalista;quando o trabalho não era livre a terra assim o era. Após a chegada dos imigrantes europeus e o movimento abolicionista, a terra deixou de ser livre e o trabalho passou a caminhar em direção a liberdade.
Ver Lei de Terras de 1850.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006 17:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Perfeito, como liberal não poderia concordar mais contigo. Apenas não esqueça que uma abertura restrita ou mesmo unilateral é pior do que uma abertura total, mas ainda é melhor do abertura nenhuma.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006 13:15:00 BRT  
Anonymous Tiago Aguiar disse...

Caro Alon.

A questão em foco é muito bem levantada. Em meu sentir, a postura moderada do Itamarati vai de encontro a esta proposta.

Simplesmente pois como bem disseste, os EUA relutam em abertura até em questões simplesmente comerciais, e quiçá com a política externa de green cards, a "política do possível" convem muito mais à qualquer escola da diplomacia não radical.

Abraço.

terça-feira, 25 de março de 2008 12:53:00 BRT  

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