segunda-feira, 2 de outubro de 2006

O dilema do soldado e o vôo do besouro (02/10)

Este texto foi escrito antes de eu saber que Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin iriam ao segundo turno. Não consegui publicar porque o Blogger beta estava fora do ar. Hoje reli e decidi postar. Acho que não perdeu a atualidade.

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Lembrei hoje de um velho enigma. Um jogo lógico. O soldado anda por uma estrada e encontra uma bifurcação. Um dos caminhos o levará diretamente às tropas inimigas. O outro, à segurança entre os seus próprios camaradas. Em cada um dos ramos da bifurcação há um civil. O soldado sabe que um dos dois civis sempre fala a verdade e que o outro sempre mente. Mas ele não tem idéia de qual dos dois é o mentiroso. Com uma única pergunta a apenas um dos dois ele precisa decidir, com 100% de certeza, que ramo da bifurcação tomar. Se não achar a pergunta certa, tem 50% de probabilidade de acabar morto ou no campo de prisioneiros. Então, qual é a pergunta? A resposta vem no fim deste post, para que você tenha a oportunidade de pensar sobre o assunto, se quiser. Mas o mais importante é a lógica da coisa: a partir de um único algoritmo, aplicado a dois cenários antagônicos, o soldado deve ser capaz de encontrar a única solução que lhe convém. Vamos transportar esse esquema para a situação de Luiz Inácio Lula da Silva. Um amigo pernambucano me deu outro dia uma boa definição sobre o PT: “É o partido que sempre fez tudo errado, e no fim deu tudo certo”. Ele falava sobre a crônica incapacidade de o PT dividir poder. Lula e o seu partido chegaram ao Palácio do Planalto depois de duas décadas de luta, sem ter feito em nenhum momento aliança com qualquer das outras grandes correntes da vida política nacional. Isso não seria necessariamente um problema, se o PT tivesse obtido ao longo desse período o apoio orgânico da maioria na sociedade brasileira. Mas não obteve. O PT é como o besouro. Teoricamente, não deveria voar. Mas voa. O problema é o besouro se entusiasmar e acreditar que pode ir tão alto quanto a águia ou percorrer distâncias reservadas apenas a aves migratórias. Todas as crises do governo Lula nos últimos quase quatro anos têm a mesma origem: a precariedade de sua base política, cuja anemia nasce da compulsão do PT pelo monopólio do poder. O que é a crise do dossiê? Vamos especular. Alguém achou que Lula presidente e José Serra governador de São Paulo não era um cenário satisfatório para 2007, que talvez o PT pudesse conseguir algo mais. Provavelmente, já de olho em 2010. Aí esse alguém teve a brilhante idéia de introduzir um fato novo no cenário, para criar uma onda que melhorasse as chances de segundo turno em São Paulo. Criou um tsunami ao contrário. Serra está eleito e é Lula que poderá ser arrastado a um segundo turno contra Geraldo Alckmin. Não vou me alongar mais. O vôo do besouro vai chegando ao seu limite, e os dois cenários do soldado convergem para um só. Não sei se Lula vai ganhar no primeiro turno ou se vai para o segundo contra Alckmin. Em qualquer desses dois casos, porém, a solução para Lula é única: explicar aos seus companheiros que palácio é lugar com dia marcado para a gente entrar e dia marcado para a gente sair. E que compreender isso é a única maneira de saber o lado certo da bifurcação. E ter alguma chance de ficar vivo.


A pergunta do soldado: “Eu quero me juntar às minhas tropas. Se eu pedir ao seu colega que me mostre o caminho certo, qual dos ramos da bifurcação ele me recomendará?”. Se a pergunta for feita ao mentiroso, ele mentirá. Apontará o caminho errado, pois o outro, que só diz a verdade, indicaria o caminho certo. Se a pergunta for feita ao que só diz a verdade, ele dirá a verdade. Dirá que o mentiroso apontaria o caminho errado. Assim, basta ao soldado tomar o caminho não indicado por qualquer um dos dois.

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8 Comentários:

Anonymous SwamoroSonghay disse...

Tal como o jabuti, num galho mais alto de uma árvore. Como jabuti não sobe em árvores, só pode ser tocaia.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 15:32:00 BRT  
Anonymous s leo disse...

Incapacidade de dividir o poder, ou incapacidade de administrar as alianças, Alon? Dividir, até dividiram, como comprova, no passado, a intervenção do PT nacional no Rio, para apoiar Garotinho; a nomeação de empresários para o governo e de ministros indicados pelos partidos conservadores inimigos históricos do PT... Foram incapazes, sim, de transformar essa divisão em um todo orgânico, com direção e consistência, não?

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 18:57:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Vou abusar do espaço, Alon

Minha principal discordância:

"Alguém achou que Lula presidente e José Serra governador de São Paulo não era um cenário satisfatório para 2007, que talvez o PT pudesse conseguir algo mais. Provavelmente, já de olho em 2010. Aí esse alguém teve a brilhante idéia de introduzir um fato novo no cenário, para criar uma onda que melhorasse as chances de segundo turno em São Paulo. Criou um tsunami ao contrário."

Exatamente quem é esse sujeito indefinido que está lá no início da sua frase? Por que esse alguém não é nomeado com todas as letras? Quer você que eu acredite que Mercadante "não sabia"? Por que alguns do PT sempre livram a cara com essa mesma desculpa? Por que a imprensa reproduz essas "versões" como se fatos fossem? Por que a imprensa nunca "desconfia" de certos personagens do petismo? Por que é tão difícil reconhecer que a essa mesma imprensa colaborou ativamente para a construção do mito Lula e do mito PT? E por que quando o tsunami ao contrário (boa essa) desmancha os pés de barros desses ídolos tanta gente ainda continua a adorá-los? Não falo dos pobres ignorantes de baixa escolaridade. Falo da gente. Gente que estudou, que lê e que se informa sobre as coisas do mundo e da política.

Nesse "alguém" cabe inteirinha a pessoa do Lula. Ou você vai querer me convencer que “esses outros” tão chegados ao Chefe queriam apenas lhe fazer uma surpresa agradável do tipo: "Lula, um presente "companheiro" nosso pra comemorar a sua reeleição no primeiro turno. Uma bomba pra detonar o Serra e o PSDB". Ao que Lula então responderia: "seus malandrinhos, vocês adoram me pregar surpresas".
Ora, Alon, não engulo isso. Reafirmo que os sabujos farejaram e o dono da matilha deu o comando "isca", "pega" e os sabujos foram atrás. É o instinto de matilha do petismo.
Contavam, ainda, com a cumplicidade do Thomas Bastos e o corpo mole da PF. Mai ai deu "Francenildo" (o imponderável) e a coisa desandou.
Isso já aconteceu antes, aqui e agora e no mundo, Alon. Não entendo essa aflição para salvar Lula do imbróglio. Ele foi artífice disso. Foi um dos artífices do segundo turno nesse tsunami ao contrário.

E por que se ferrou? Uma resposta está lá no Eclesiastes, você sabe. É a velha soberba. A mesma soberba que despencou Satan do paraíso.
O PT e o petismo agem assim por somente uma única razão: ali o velho bolchevismo golpista sobrevive. Faça um retrospecto. O PT e o petismo não conhecem adversários. Eles só têm inimigos.

O PT é um partido narcísico. O outro do PT e do petismo é somente o feio, o inimigo a ser destruído.
No cerne da ideologia totalitária habita o fantasma da sociedade indivisa, una. "Ele só aparece pela incessante produção-eliminação dos homens incômodos, parasitas, dejetos, nocivos (o resto? Farinha do mesmo saco. lembra?). Mas o Um, quem o enuncia? E este resto, quem o elimina? É preciso um Outro, um Grande Operador. Inútil perguntar se a sua personalidade é o produto do culto ou vice-versa; ambos se constituem simultaneamente: são fenômenos sociais” (Lefort).

O petismo, seja o do Lula, seja o do Suplicy, seja o do Dirceu (lista é bem mais longa...) é uma forma mentis que cultiva incessantemente a pretensão do saber único e “objetivo” sobre as “verdadeiras” necessidades do povo, seja ele real ou imaginário.

Satan tem várias faces, você sabe. Veja a doce e cândida entrevista coletiva do “humilde” Lula de hoje. Compare-se o que disse hoje com o que o grande Ele dizia ontem no alto dos palanques e do alto da certeza da sua reeleição.

Combater Lula, o PT e o petismo é, para mim, um imperativo moral.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 20:06:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Paulo, você não abusa do espaço. Você ajuda o Blog. Não digo quem foi que mandou fazer essa coisa porquue não sei. Simples. Só falo do que sei. Do que não sei, não falo. Não é porque divirjo da A que vou imputar a A um crime. É a minha posição. Daí o sujeito indeterminado.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 20:55:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Boa s leo. É isso. mais preciso.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 20:56:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Gosto muito dessa interação com o blog.

Abaixo umas idéias em atendimento a sua solicitação anterior para que comentássemos o blog:

Acho o teu olhar sobre a política muito peculiar, e isso me agrada. Venho aqui em busca do que não encontro em outros ambientes.

Tuas análises e comentários sobre os últimos acontecimentos no oriente médio talvez só encontrem paralelo em diminutas parcelas da imprensa internacional.
A cobertura nacional do episódio, salvo engano ou esquecimento, é completamente ideologizada. De um modo geral, uma grande porcaria.
Do que li, você foi o único a nomear (R. Azevedo também, mas você foi bem mais além)esse islamismo pelo seu verdadeiro nome: fascismo. Tua origem judaíca de algum modo influência as análises. Mas não é uma influência ideológica. Penso que você conhece muito sobre o assunto. O brilho dessas análieses iluminam uma questão repleta de obscuridades.

Sinto falta de um blog que comente economia pela perspectiva da economia política. Algo que vá além dessa chatice monetaristas X desenvolvimentistas.

Um blog que se dispusesse olhar a economia pelo prisma da política. Você já escreveu aqui com toda razão que os partidos não estão preocupados com isso. Alguém deve estar. Quem? os artigos que vez ou outra chegam aqui são interessantes. Mas acho pouco.
Claro que sei que seu blog é sobre política. Não estou cobrando isso do bçog. Apenas comento.

Meu interesse maior é pelo entendimento de valores políticos unidos a:

Democracia de mercado
Livre iniciativa
Estado democrático de Direito

Tudo isso relacionado com a inserção dos chamados "pobres" na democracia de mercado.

Conheço pouco o pensamento liberal. Nossa formação foi omissa nesse sentido e sabemos por quê.

Outro dia disse a um amigo que defendia o Estado mínimo. Ele respondeu com aquela clássica resposta que conhecemos bem. Repliquei dizendo que o Estado mínimo que imaginava para o Brasil seria aquele que pudesse fazer o máximo em saúde, educação, pesquisa tecnológica, saneamento, habitação, por exemplo. Não vejo lógica nos correios serem estatais. Sim. É excelente moeda de troca e uma das fontes de corrupção da política.

Nascer pobre não é destino. Injusto é o país que não oferece aos desiguais (relativos a nós, que estudamos e crescemos num ambiente familiar apropriado) os instrumentos para que esses indivíduos melhorem, por esforço próprio, intelectualmente e materialmente.

Mais ou menos isso, Alon.

abs
paulo

Ontem a entrevista do Lula me irritou muito. Considere o e-mail um desabafo. Parte da minha ira sobrou pra você. Tua resposta foi perfeita.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 12:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Oi Alon- Desculpe o amadorismo, mas se o soldado perguntasse "está chovendo?" ou "agora é de dia ou é de noite?" chegaria com mais facilidade à conclusão de se o informante é mentiroso ou diz a verdade... OU estou dizendo besteira?

terça-feira, 3 de outubro de 2006 17:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Lembre-se de que ele só pode fazer uma pergunta, a um dos dois.

terça-feira, 3 de outubro de 2006 19:21:00 BRT  

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