segunda-feira, 9 de outubro de 2006

O bezerro de ouro (09/10)

Cada eleição deixa as suas marcas. Não tenho a pretensão de ser o profeta do que restará de permanente deste processo eleitoral, ou do que vai ficar perdido na poeira do tempo. Mas, pelo menos uma coisa vou levar comigo destes dias bicudos. Não é sempre que você vê o candidato de uma coalizão entre liberais e social-democratas ter de vir a público para garantir -eu disse garantir- que não vai privatizar nenhuma estatal nem fazer cortes orçamentários na Saúde, na Educação ou na Assistência Social. Ou estamos todos loucos, ou tem algo de muito errado nisso. Alguém tem dúvida de que ainda há coisas a privatizar no Brasil? Alguém tem dúvida de que para fazer o país crescer mais é preciso rediscutir e focalizar (pronto, utilizei a palavra maldita) os investimentos sociais públicos? Alguém desconhece que parte ponderável do gasto público na área social não se destina exatamente aos pobres? Clique aqui para baixar o documento Orçamento Social do Governo Federal 2001-2004, do site do Ministério da Fazenda. O documento foi produzido no governo do PT. Mas esses assuntos se tornaram tabu. Todo mundo (isso é uma figura de linguagem) sabe que é preciso tomar providências nas duas áreas (privatizações e cortes nas grandes rubricas de custeio). Mas todo mundo prefere fingir que não sabe. Geraldo Alckmin chega de táxi ao debate na Bandeirantes e diz que vai vender o Aerolula, para fazer cinco hospitais. "O exemplo tem que vir de cima", afirma. A trajetória do liberalismo brasileiro é uma caricatura do mito de Sísifo. A energia despendida para levar a pedra morro acima é invariavelmente desperdiçada quando ela rola morro abaixo, em geral sob os aplausos frenéticos dos que a carregaram até lá. É como se Moisés subisse repetidamente ao Monte Sinai (no retrato, o profeta na obra de Rembrandt), e na volta encontrasse sempre o seu povo adorando o bezerro de ouro. O bezerro da demagogia. Essa é a tragédia do liberalismo brasileiro. Que nunca foi capaz de ganhar uma eleição presidencial brandindo as próprias idéias. Que sempre preferiu pegar carona nas idéias alheias. Azar nosso.

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15 Comentários:

Anonymous paulo araujo disse...

Não sou psdbista. Voto no Alckmin porque esse é hoje o candidato com as maiores chances de derrotar Lula e o PT.

Meu candidato preferido seria aquele que tivesse a coragem de ir a TV defender a privatização da Petrobrás. Meu candidato preferido seguramente teria menos votos que Eeeemayel.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 00:51:00 BRT  
Anonymous Sergio Maidana disse...

Puxa, você me animou...a sua raiva traduz em TCHAU LULA....rsrs

terça-feira, 10 de outubro de 2006 01:04:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Dependendo do que se fez durante o dia, escrever tarde da noite pode não ser uma decisão muito sábia. Se a idéia foi identificar contradições no discurso do candidato do PSDB, é óbvio que elas existem. Aliás qual político na eterna busca do voto não se envolve no mundo das contradições. Políticos só não, jornalistas também. O tema Economia no jornalismo é difícil pois a especificidade do tema exige, sim, ir além do “ouvi o galo cantar” como muitas vezes ocorre, por exemplo na análise política ou na crônica esportiva (não sei como estudantes de Comunicação abordam a Economia na Faculdade). Mas, o texto peca principalmente na generalização: “Todo mundo (isso é uma figura de linguagem) sabe que é preciso tomar providências nas duas áreas (privatizações e cortes nas grandes rubricas de custeio). Mas todo mundo prefere fingir que não sabe.” Recomendo, e não tome isso como uma ofensa, uma ida ao Blog do George Vidor no Globo On Line de ontem, e você vai ver como um especialista trata o assunto. Concluindo, não acredito que “todo mundo” – incluindo ótimas cabeças pensantes (no Brasil e fora), pense da forma que você coloca. Por fim, méritos para G.Alckmin pela coragem de se posicionar, de forma clara, diante de assuntos “delicados”. Um abraço.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 07:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eis o que o George Vidor escreveu. Sinceramente, Augusto, é na essência a mesma coisa que o Alon escreveu. Não entendi a sua crítica.

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Retrocesso

O primeiro debate entre os dois candidatos mostrou que teremos um retrocesso em relação a questões importantes para o futuro desempenho da economia. O PT resolveu satanizar a privatização - pelo lado ético, se houve tantas falcataruas, por que, depois de passados tantos anos, elas não acabaram vindo à tona, com provas concretaz que pudessem ser julgadas pelos tribunais? - como causa de todos os males, e o PSDB também nem quer tocar no tema. Ao contrário, como o candidato Lula havia afirmado que seu adversário, se vitorioso, se apressaria em privatizar empresas como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, etc, Geraldo Alckmin aproveitou para chamar o presidente de mentiroso, pois não há de fato qualquer referência à privatização em seu programa de governo, anunciado há poucas semanas.

Mas se a privatização está sendo satanizada, pode-se deduzir que o próximo governo não recorrerá a concessões de rodovias? Não estimulará investimentos privados em outras áreas de infra-estrutura, nas quais companhias estatais ainda se façam presentes (Lula deu um pito em Alckmin por conta da venda da empresa estadual de transmissão de energia do Estado de Sâo Paulo)? E o que resta de bancos estaduais permanecerá como está? Foi terrível misturar nessa discussão uma possível privatização da Petrobras, do BB e da Caixa, pois de fato não está na agenda nem dos economistas mais liberais no Brasil. Mas agora não se vai avançar nem nos segmentos que o próprio governo Lula parecia concordar com a privatização.

Além da privatização, os dois candidatos nem quem ouvir falar de necessidade de qualquer tipo de reforma da previdência. Ora, então o sistema continuará desatualizado diante da realidade brasileira? Isso significa que todos os segurados da previdência, sejam os que se aposentaram ou os que um dia irão se aposentar, estão correndo sério risco, pois do jeito que o déficit está evoluindo, o sistema ficará inviabilizado, e em uma situação de crise aguda os benefícios levarão uma garfada monumental.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 08:09:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Eu acho que só leva susto com esse post quem definitivamente não lê esse blog. O que o Alon disse foi exatamente aquilo que ele vem dizendo há algum tempo, sobre as misérias do pensamento liberal brasileiro.

Faz falta para o Brasil uma direita que não tenha vergonha de ser direita. Que, em vez de tentar dar golpes em presidentes eleitos, tente discutir idéias neocons/neoliberais/neoqualquercoisaàdireita.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 09:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Isso tudo é uma grande falsa questão. O PT sataniza a privatização agora, para a platéia, como satanizava a reforma da previdência. Depois faz, se for o caso. E a militância engole.
Por outro lado, se o Lula perder, vai subir no caminhão de som no dia seguinte, junto com o Stédile, o Marinho da CUT e o Presidente da Une e vão perorar contra o neoliberalismo e a reforma da previdência.
O PT não tem qualquer compromisso com a coerência e a sua militância é lobotomizada o suficiente para adorar o grande líder, para onde quer que ele vá.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 10:18:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

O Marcelo Tass/Folha Online, diz "este blog defende a greve dos bancários." É claro que não sou contra qualquer tipo de greve, exceto a greve partidário para, em pleno dia da eleição, forçar a barra a favor do candidato do consórico conservador PSDB/PFL. Irado, ao Tass o comentário que se segue: Esta greve dos bancarios ( ou dos banqueiros? ) político-partidáira. Qualquer semelhança entre esta greve e a da petrolífera PSDV venezuelana não é mera coincidência. Tass não seja picareta. Você chama isso de greve? Não é greve. É locaute, ou seja, greve de empresários. Na verdade os banqueiros querem o Geraldo Boneco de Plástico Alckmin seu candidato, o candidato desta elite cínica e perversa da qual você faz parte e por isso defende com tanto ardor. Vai tatar. Vai coçar macaco!"

terça-feira, 10 de outubro de 2006 11:23:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Vá lá que privatizações sejam necessárias, e para mim está bem claro que Alckmin não só está fazendo demagogia, como não está contando a estória toda. Primeiro ele só apresentou seu programa de governo às vésperas da eleição. Coisa de quem quer mais esconder do que mostrar. Ele pode usar subterfúgios para privatizar: fatiar a Petrobrás, CEF, BB, etc em 2, 3 ou 4 empresas e deixar apenas uma delas estatal com a marca original. Depois, semânticamente poderia dizer que não descumpriu promessas.
Mas a questão é: emprego e distribuição de renda. As maiores prioridades nacionais de curto prazo.
Se eu fosse gestor de um correio privatizado, a primeira coisa que faria é reduzir a entrega da carta comum de diária para 2 vezes por semana, e até 1 vez nas periferias. Quem tivesse urgência que usasse o Sedex, telegrama, que tem tarifas mais altas, ou alugasse uma caixa postal e fosse pegar sua correspondência na agência. Resultado: demissão de dezenas de milhares de carteiros.
Isso é Ludismo (impedir o progresso pelo impacto no desemprego)? Num primeiro momento é. Mas é também uma forma de fazer seguro desemprego preventivo mantendo as pessoas empregadas, até que surjam soluções melhores.
O primeiro mundo faz isso com a economia rural. Os EUA fazem isso com o meio ambiente: negligencia a poluição para manter empregos.
O mundo moderno precisa de leis sociais que acompanhem os ganhos de produção tecnológicos conquistados no fim do século XX. Redução da jornada de trabalho, por exemplo (não a nível nacional, pois torna países menos competitivos diante de outros, mas a nível global), "eliminar" através da remuneração direta de mães para criarem seus proprios filhos no ambiente familiar mais sólido, e coisas do gênero.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 12:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No dado para análise do debate. A Folha de São Paulo de hoje mostra o IbopeMédia do debate. Para infelicidade do Alckmim, e felicidade do Lula, a maioria dos telespectadores somente passaram a assistir a "luta" à partir do terceiro bloco (média de 17 pontos), atingindo o pico de 21 pontos no último bloco às 22:50 horas. Que os analistas repercutam.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 12:40:00 BRT  
Anonymous arkx disse...

quando Lula comparou Alckmin a Bush, o tucano só faltou agradecer. para ele é elogio, assim como para seus eleitores convictos. imaginem agora a reação dos eleitores de HH, que é o voto em disputa. é bom que o liberalismo brasileiro exiba sua cara. mais emoções à frente. estão empolgados com uma vitória que só existiu entre seus pares.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 13:04:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

No post acima engoli a palavra creche, e vou estender aos pais por razão de isonomia de gêneros:
"eliminar" creches, através da remuneração direta de mães (e/ou pais) para criarem seus proprios filhos no ambiente familiar mais sólido, e coisas do gênero.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 13:09:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Para Anonymous: Agradeço a consideração dos comentários. Recorri ao bom post do G.Vidor para exatamente demonstrar que nem “todo mundo”, como cita o Alon, sabe que é “preciso tomar providências nas duas áreas (privatizações e cortes nas grandes rubricas de custeio)” ao contrário Vidor avalia que “foi terrível misturar nessa discussão uma possível privatização da Petrobras, do BB e da Caixa, pois de fato não está na agenda nem dos economistas mais liberais no Brasil”. Foi só isso. O blog do Alon é o meu preferido, gosto muito e como ele já me disse uma vez, é resultado de uma construção coletiva. Críticas construtivas são normais. Um abraço.

terça-feira, 10 de outubro de 2006 13:39:00 BRT  
Anonymous arkx disse...

Alon

a "Direita" jamais vai se expor de cara totalmente nua e crua. até mesmo porque não tem como sustentar seu projeto, além todo baseado em sofismas, claramente anti nacional e profundamente discricionário.

por exemplo: a única conta deficitária do Estado é a conta de juros. a previdência, sem a DRU e cfe. a Constituição, é altamente superavitária. não existe responsabilidade fiscal se um mês de juros corresponde ao gasto anual do SUS. os próprios banqueiros admitem que a taxa de juros poderia ser a metade da atual, e, mesmo assim, ainda seria um grande negócio para eles.

nenhum, absolutamente nenhum, argumento da "Direita" resiste a um debate sério.

superávit primário, tido como para pagar juros da dívida interna. errado! investidor não guarda dinheiro no colchão. os títulos públicos no vencimento não são realizados e sim rolados, trocando-se por novos títulos e não cash.

outra coisa. Moisés liderou a primeira revolta de escravos bem sucedida que se tem registro. mesmo assim, foram necessários 40 anos no deserto antes de entrarem na Terra Prometida, na qual, aliás, Moisés jamais colocou os pés.

abraços

terça-feira, 10 de outubro de 2006 18:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, Os governantes com suas estatais não deveriam ficar bradando que fez ou faz, deveria ser proibido usa-los como propaganda e fazer propagandas instituicionais, estão para servir a patria e trazer bem estar para o povo, por conta do povo. Não há necessidade de dizer, e sim mostrar resultados positivos, sem essa de dizer que não escondemos nada embaixo do tapete, só que não é traduzido para o o povo trazido a tona o tamanho do deficit publico, por conta dos governantes e seus ¨aspones¨, o tamanho da folha de pagamentos das prefeituras, governos estaduais, federais, etc.
Esse corte dos gastos publicos que gerariam as receitas para as clausulas petreas da nossa Carta Magna. O resto é demagogia.
Yoshio - Japão

terça-feira, 10 de outubro de 2006 18:35:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Alon, o problema é que tudo está focalizado em mistificações e mitologias. Para não falar a palavra correta, que inclusive está nos mandamentos de quase todo ensinamento religioso ou laico. Combater mitos às vezes é tarefa do eleitor. Em sua maneira meio errática, às vezes ele consegue jogar luz sobre áreas sombreadas do espectro político. Às vezes levando ao ostracismo grandes e impolutas figuras, às vezes fazendo brotar gladiadores menores nesta vasta arena. O grande desafio que se coloca novamente à frente do eleitor é o da desmistificação. De uma certa forma o fez, nas eleições à Câmara e Senado e ao levar a decisão das eleições presidenciais para o segundo turno. Cada vez que o eleitor movimenta-se, surgem vários desmentidos, negativas, arroubos, grasnares. Todos tentando, a seu modo, interpretar as mensagens que a cidadania deu. Mas as afirmações mais diretas, são sempre do eleitor. Ainda neste processo, alguns zumbis políticos são ressuscitados, outros zumbis são defenestrados, outros são gerados. A cada ciclo, a luta recomeça. Em algum momento, não tão a longo prazo, espera-se, o eleitor logrará desnevoar tudo. Tomara que os merecedores de tal luminosidade logrem entender a mensagem e que ainda sobre alguém para aplaudir tal feito.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006 11:04:00 BRT  

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