terça-feira, 17 de outubro de 2006

O barulho da primeira bala e o gato com o rabo de fora (17/10)

Este é um post escrito em escala de viagem. Por isso atrasado. Hoje tem pesquisa Datafolha. Dêem os seus palpites. Ontem Luiz Inácio Lula da Silva esteve no Roda Viva, da TV Cultura. Meu palpite é que o presidente foi bem. Como vem acontecendo desde a primeira entrevista da campanha, para William Bonner e Fátima Bernardes no Jornal Nacional. Foi, claro, metralhado sobre o dossiê antitucano [a campanha de Geraldo Alckmin insiste em dizer na TV que o dossiê era contra ele, Alckmin, o que me parece uma modalidade canhestra de vitimização; tomem aulas de vitimização com o PT e Lula, que são bons nisso]. Mais importante do que as respostas foi como Lula respondeu. Aparentou sinceridade, tranqüilidade e indignação com as irregularidades [digo “aparentou” porque há poucas coisas mais inúteis do que discutir se um político está sendo mesmo sincero; se você tem tempo para desperdiçar com polêmicas assim, faça bom proveito]. Tudo bem que a indignação foi, principalmente, com os prejuízos que o episódio do dossiê causou à campanha dele, Lula. A eleição do dia 29 não é para escolher um santo. Não é canonização. É para eleger o presidente do Brasil. Debates e entrevistas de candidatos são a versão atual do circo romano. Nos debates os gladiadores lutam entre si. Nas entrevistas são atirados aos leões. No Roda Viva foi assim. Todas as perguntas que precisavam ser feitas a Lula foram feitas. E ele soube responder, pelo menos para o meu gosto. No conteúdo e na forma. O telespectador presta atenção no que o candidato diz? Sim. Mas presta atenção também (e principalmente) em como o candidato se comporta nas situações desfavoráveis. Nunca, nunca se esqueçam do circo romano. E vamos em frente. Além do dossiê, outro assunto inevitável seriam as privatizações. Nesse ponto Lula não se saiu tão bem, talvez por ter que duelar a partir de uma posição ideológica. Políticos candidatos a cargos majoritários e que adotam viés ideológico sempre provocam algum desconforto no eleitor médio. Duvido que Lula acredite mesmo que todas as privatizações foram ruins. Se acredita, deveria propor a reestatização das empresas. Essa polêmica sobre as privatizações embute uma boa dose de hipocrisia. Um anônimo, aparentemente muito culto, comentou outro dia aqui, em francês [matéria de que fiquei de segunda época no ginásio; se não entendi direito, corrija-me], que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Nesse sentido, eu leio a hipocrisia no debate sobre as privatizações como uma homenagem que a ideologia presta à realidade. Homenagem merecida. Mas, como é que o presidente-candidato do Partido dos Trabalhadores poderia -Santo Deus!- adotar publicamente uma posição razoável sobre as privatizações, se até os políticos mais identificados com a bandeira capitularam, ao primeiro tiro? Se até os liberais extremados caíram, ao barulho da primeira bala? Alckmin diz que os doze anos dele e de Mário Covas no Palácio dos Bandeirantes foram muito bons para São Paulo. E que o amplo programa de privatizações foi um dos eixos estruturantes [êta palavreado petista] desse sucesso. Então, por que não aplicar no Brasil inteiro o que deu certo em São Paulo? Por que não continuar fazendo em escala nacional o que já se mostrou acertado no plano estadual? O PT promove uma dura campanha negativa sobre a suposta ameaça de privatização de empresas como a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Por que está colando, mesmo que parcialmente? Porque um candidato do PSDB-PFL vir a público dizer que não vai privatizar nada é como um gato que se escondeu e deixou o rabo de fora. Só haveria uma maneira de vacinar o tucano contra a campanha negativa do petismo: deveriam ter apresentado ao país um programa de privatizações, no qual estivesse claro o que seria e o que não seria vendido pela União. Eu acho razoável, por exemplo, estradas potencialmente lucrativas (sim, pedágios) serem repassadas à iniciativa privada. E os impostos recolhidos a partir da receita desses empreendimentos poderiam ser reinvestidos pelo setor público em estradas menos lucrativas. Ou em programas sociais. Ou em outra coisa qualquer. Não é um bom debate? O mesmo raciocínio aplicado às privatizações de Alckmin vale para os cortes de gastos públicos. Enquanto o tucano não disser de onde vai cortar entre 3% e 4% do PIB para zerar o déficit nominal toda especulação sobre corte nos investimentos sociais é legítima. Yoshiaki Nakano cometeu a ingenuidade de pegar esse touro a unha e, pelo visto, fizeram-no dar no pé. Pelo menos até a eleição. Ou escondam o rabo do gato ou mostrem o bichano, senhores! Mas esse tema já foi debatido aqui à exaustão. Nesta altura do campeonato, já é quase história. Tucanos e pefelistas acreditaram que poderiam ganhar as eleições sem dizer ao país como seria o governo deles. Apostaram numa comoção nacional que supostamente varreria o PT e a esquerda do mapa, dando à atual oposição carta branca para governar. Lula talvez tenha feito uma aposta semelhante quando adotou a atitude olímpica do primeiro turno. Como sabemos hoje, estavam ambos errados. O eleitor empurrou a decisão para mais adiante e deu espaço a que emergissem os projetos de país. Nesse novo debate, até agora é o PT que está em vantagem. Por uma razão simples: o ambiente ideológico (antiliberal) construído pelos adversários permite ao PT unir a convicção e a conveniência, dois poderosos elementos constitutivos da força mental, na política e na vida. É o melhor dos mundos para a esquerda. Significa que Alckmin já tenha perdido a eleição? Não. Sempre pode surgir algum “bin laden” petista portando uma grande idéia. Mas que o terreno da batalha político-ideológica na reta final está favorável a Lula, isso está.

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16 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Votos válidos:

Lula: 59%
Alck: 41%

terça-feira, 17 de outubro de 2006 16:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, este debate é rico. Mas quem dita a pauta são os "traikings" diários, aquelas pesquisa de opinião na qual os marqueteiros pôem pessoas em salas e observa as reações a partir do tema exposto. O PSDB/PFL certamente teriam a compreensão quando afirmarem que a União não deveria ser dona de telefônicas e siderúrgicas, etc. Mas quando se fala em privatização, no inconciente popular vem o impacto do aumento das tarifas públicas (conta de telefone e conta de energia), o apagão. Não se observar as vantagens advindas das vendas das telefônicas. A opinião pública teme a venda da Petrobrás e o risco da explosão do preço do combustível, o alto custo dos pedágios do Paraná e de São Paulo (não haveria meio termo?). Resumindo, falta coragem de defender bandeiras que possam impactar a opinião pública em prazo tão curto para a eleição. Resultado, o Lula juntou a fome com a vontade de comer.
Rosan de Sousa Amaral

terça-feira, 17 de outubro de 2006 16:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vender a Petrobrás não é temíel por causa de uma explosão do preço do combustível ou de aumento no custo dos pedágios. Não é isso, é muito mais que isso. É a significação que a Petrobrás tem no imaginário (e na realidade econômica, é a maior empresa do país) nacional, seu papel de símbolo da independência do país (agora que é auto-suficiente). É jogar fora um passado de lutas que você, talvez jovem demais, não presenciou, mas que muitos ainda têm vivas na memória. É a posse do patrimônio do subsolo nacional. É por aí.

terça-feira, 17 de outubro de 2006 16:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O PT não quer a privatização porque:

1) quer manter seu sistema de espionagem nas estatais;
2) quer manter a casta estatal como parte integrante do partido
(veja quantos sindicalistas de estatais são grandes chefes políticos petistas. de memória: Zé Eduardo Dutra, Berzoini, Gushiken,
Pimentel, Pizzolato, Sérgio Rosa
3) a gasolina no Brasil é a mais cara no mundo, pelo padrão paridade de poder de compra e a Petrobrás só tem o controle estatal, a propriedade já é privada.
4) Os petistas ignorantes desconhecem que o governo vendeu o controle acionário da Vale. O preço era o do controle acionário. As ações preferenciais e parte das ON já estavam em mercado. Não dá prá comparar o preço total da empresa com o preço pago por parte dela. Ainda assim, o BNDES continua com parte importante do total de ações em carteira.

Cansei. vocês são cansativos.

Pergunta aos petistas: Por que ele não reestatiza logo a Vale do Rio Doce?

terça-feira, 17 de outubro de 2006 17:36:00 BRT  
Anonymous Olimpio Cruz Neto disse...

Alon,
Você continua como sempre muito lúcido. Brilhante artigo. É dos mais consistentes aqui na blogosfera.
Forte abraço,

Olimpio

terça-feira, 17 de outubro de 2006 18:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mais uma vez o blogueiro analítico e isento livra a cara de Lula.
Fatos: Lula demoninozou a reforma da previdência, demonizou os juros, demonizou a racionalidade econonômica.
Hoje é o Antonio Conselheiro dos sonhos da burguesia: controle com algumas migalhas os miseráveis e a esquerda de megafone e deixa os maganos deitarem e rolarem com os juros do Malan.
Agora, com medo de perder, o Lula voltou a ser o que nunca deixou de ser: está demonizando a privatização e a racionalidade econômica - e o Alon pergunta se ele poderia ser diferente!.
Claro que não. Quem controla uma esquerda fanática e acrítica como ele não precisa ser diferente. Pode fazer o que quiser.
A esquerda brasileira continuará sempre prestando culto à personalidade ao São Lula.

terça-feira, 17 de outubro de 2006 18:43:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Alon, como cobrar, em um país com a mentalidade do Brasil, que um candidato venha a público defender uma agenda anti-estatizante?
Ele seria logo massacrado pelas hostes corporativas (que mamam no Estado) e seus porta-vozes - boa parte da Esquerda nacional.

O César Maia se saiu hoje com o seguinte (impecável, por sinal):

"4. O que vemos nesse segundo turno presidencial é uma disputa entre candidatos que querem ser a esquerda da vez. Lula e PT enveredaram por uma comunicação -limpa e suja- populista. Geraldo e PSDB passaram a se explicar e dizer que ninguém é mais populista que eles. E toma estadismo, gasto público, assistencialismo... na comunicação e entrevistas dos candidatos.

5. Se são todos parecidos -pensa o eleitor- que deixe como está para ver como é que fica. Afinal Lula e o PT têm muito mais credencial populista, que Geraldo e o PSDB. Aliás, Geraldo nem imagem tem."

Alckmin jamais vencerá Lula tentando se passar por mais "estatólatra" ou mais "esquerdinha bacana" - nisso, Lula é imbatível. Por outro lado, haveria chance de vitória, no Brasil, para alguém que venha propor uma agenda de teor anti-estatizante - considerando-se a histeria que seria promovida pela patrulha?
Eu penso que, por enquanto, isso não seria possível.

terça-feira, 17 de outubro de 2006 18:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os restos mortais de Peron foram transferidos hoje. Duas facções sindicais entraram em conflito. Seus integrantes arremessaram pedras e bastões contra os adversários. Alguns militantes portavam armas de fogo. Houve disparo de tiros.

Eu daqui, quietinho, já imagino o Efeito Orloff.

terça-feira, 17 de outubro de 2006 20:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Gente, apostei alto: Lula com 16 pontos a mais que Alckmin (59X41). Errei: deu 20 pontos - Lula 60 e Alckmin 38 !! É por isso que a oposição está histérica atrás de um pretexto para impedir as eleições. Se a pesquisa estiver certa, e fazendo alguns descontos, o homem vai superar ou igualar a votação extraordinária de 2002!

terça-feira, 17 de outubro de 2006 20:48:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

A "assessoria" do Alckmin está quebrando recordes de cálculo político errado nesse segundo turno. No mínimo, deve achar que o eleitor é idiota ou coisa do tipo, e aí comete esses erros primários. A maneira que o Geraldinho tem tentado sair do sufoco imposto pela agenda que Lula tem colocado nesse segundo turno tem sido patética.

O eleitor sabe que Alckmin passou os últimos 12 anos gerenciando privatizações em São Paulo. Sabe que tem diversos defensores, alguns vocais, de aprofundar as privatizações entre as vozes influentes da campanha. E aí vê e ouve um Alckmin assustado dizendo que não vai privatizar e tal e coisa, como se precisasse se livrar de uma pergunta chata e incômoda. É óbvio que o eleitor vai se perguntar "qual é a desse cara".

E aí, fica óbvio o que acontece: o eleitor antiprivatista não vota no Alckmin porque não acredita na palavra dele, e o eleitor privatista não vota no Alckmin porque se sente traído. O resto, a inércia está aí pra isso, como prova a Datafolha de hoje.

terça-feira, 17 de outubro de 2006 21:22:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

O que mais me irrita nos seus posts são as questões para as quais não encontro respostas. Bem entendido, para as quais não tenho respostas.

Você é preciso: Podemos ser contra os fatos, mas não podemos negar os fatos.

Sendo "descuidado, zombeteiro e violento" digo que a maioria está prestes a eleger uma fraude. É a minha opinião.

PS: "Porque os eleitores progressistas ou de esquerda que optaram por Heloísa Helena e Cristovam Buarque no primeiro turno não têm, na sua maioria, identidade com o candidato do PSDB e do PFL"

Isso é um fato. Minúsculo. Fato principal é que a oposição não consegue tirar de Lula os votos que não foram par HH e CB. Esses são os votos que interessam e que decidem.

Bem entendido, Lula e o lulismo e PT e o petismo, ao que tudo indica, estão hegemônicos neste momento. O mérito é deles. Isso não há como negar. Como também não há como negar que a maioria não é critéio absoluto do bem e do mal ou do certo e do errado.

Desnecessário citar exemplos históricos. Necessário é não olvidar os exemplos históricos.

Mas sendo "descuidado, zombeteiro e violento" digo que a maioria está prestes a eleger, como rebanho, uma fraude. É a minha opinião.

abs

Paulo

quarta-feira, 18 de outubro de 2006 00:09:00 BRT  
Blogger Idelber disse...

Você escreve o melhor blog político do Brasil hoje. Vá ser lúcido assim lá longe. A metáfora do gato está perfeita. Virei fã mesmo.

http://idelberavelar.com

quarta-feira, 18 de outubro de 2006 00:13:00 BRT  
Anonymous Edkallenn disse...

Muito, muito bom e perspicaz!!!

Como aqui é 1:30 da manha, amanha no trabalho eu linko lá no longedemais, afinal, seu blog será leitura obrigatoria.

Abs.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006 03:18:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Alon, faço coro c/ o Olimpi: SEU MELHOR ARTIGO DESDE QUE VENHO À ESTE SITE!!!!
Com sua permisão, vou repassa-lo imediatamente, com o devido link p/ sua página.
Em tempo: Manda o "anonymous" à m&%$@... quero ver a felicidade dele quando o barbudo prejudicar ele em algo que não esperava.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006 17:29:00 BRT  
Anonymous José Santos disse...

Alon, sobre o ditado francês "a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude", leia como começa esse artigo na Folha de SP de hoje:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1910200604.htm

Coincidência ou seu blog está muito popular na elite paulista?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 07:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Otavinho se inspirando no Blog do Alon é S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L!

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 10:28:00 BRT  

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