sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Mitologia e autopiedade (13/10)

Uma das coisas mais difíceis na hora da derrota é você suportar a dor de saber o quanto foi responsável pelo resultado que colheu. A tentação maior nessas situações é você buscar na autopiedade o efeito anestésico que vai aliviar o sofrimento. É o tipo de anestesia que mais atrapalha do que ajuda, como no caso do jogador de futebol que toma qualquer coisa para entrar em campo mesmo machucado. Mas as pessoas gostam dessa droga. Com o tempo, conseguem até construir mitologias complexas, recheadas de delírios persecutórios. Até que um dia se desligam completamente da realidade e passam ao mundo virtual dos desejos, do subjetivismo e da paranóia. A política está cheia de exemplos assim. Mais na esquerda do que na direita -até porque é a esquerda que detém o maior número de derrotas a lamentar. Um exemplo é o tal debate entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva em 1989 e sua edição no Jornal Nacional da TV Globo. Lula foi muito mal no debate e o telejornal de algum modo refletiu isso. Houve "manipulação"? É possível, mas o JN não contou uma mentira. Só agiu nos limites da edição jornalística. Pois bem, Lula perdeu a eleição para Collor e desde então o JN que deu a matéria do debate entrou na mitologia da esquerda como responsável pelo resultado final daquele segundo turno. Claro, é mais fácil para o PT dizer isso do que admitir o crasso erro político que cometeu ao recusar o apoio de Ulysses Guimarães na reta final em 1989. E, além do mais, Lula nunca chegou a estar na frente de Collor nas pesquisas. O petista nunca chegou a ameaçar seriamente o favoritismo do rival. Amaldiçoar a escuridão dá menos trabalho do que acender uma vela. O problema é que não ilumina o ambiente. Mas, como o mundo gira e a Lusitana roda, hoje o PT faz aliança com quem tiver que fazer (uma evolução). Talvez esteja na hora de nomear uma comissão para reescrever a história do partido e fazer algumas autocríticas. Depois da eleição, é claro. Essa conversa toda é para dizer que a doença tradicional da esquerda parece ter contaminado a campanha de Geraldo Alckmin. O noticiário está prenhe de reclamações contra um suposto terrorismo eleitoral do PT e aliados. Tucanos e pefelistas atribuem o aumento da distância entre Lula e Alckmin às afirmações (infundadas, segundo PSDB e PFL) de que a eventual mudança de governo representaria uma ameaça aos programas sociais e abriria a porta para a volta das privatizações. Vamos aos fatos. A distância tradicional entre Lula e Alckmin em simulações de segundo turno nunca havia baixado da casa dos dez pontos percentuais. No final do primeiro turno, em meio à comoção causada pelo acúmulo inédito de mídia negativa contra Lula (mídia gerada pela própria campanha petista), baixou para cerca de metade disso. A partir desse dado isolado, o spinning tucano-pefelista passou a espalhar que o vetor de Alckmin era ascendente e o de Lula, descendente. Como se sabe hoje, essa afirmação não se comprovou na prática. O eleitorado parece que vai se reacomodando entre os candidatos numa proporção próxima de 3 para 2. Ou um pouco menos. Porque Lula tem resiliência. Como aquelas bolinhas de borracha que você deforma e elas sempre voltam ao formato original. E qual é a origem da resiliência de Lula? É que a candidatura dele está apoiada num bloco político-social majoritário na sociedade brasileira. Para quebrar esse bloco, a oposição teria que migrar para um lugar mais ao centro. Mas Alckmin está tendo dificuldade nessa migração, pois não tem pontos simbólicos em que se apoiar, além de ter ido muito longe no antipetismo e no antilulismo. Sobre as privatizações e os programas sociais já escrevi. As pessoas não são estúpidas. Ninguém acredita que o tucano vá vender todas as estatais. Mas Lula está explorando o fato inegável de que num governo dos adversários haveria maior probabilidade de empresas estatais serem vendidas. Sobre as dificuldades que enfrentam no debate do Bolsa Família, os tucanos devem buscar parte da explicação nas repetidas vezes em que pessoas identificadas com eles disseram que o programa é uma esmola. Alckmin já perdeu a eleição? Não. Mas vai perder, e de lavada, se permanecer boiando nesse mar de lamúrias. Se não conseguir explicar, minimamente, no que o seu governo poderia ser melhor para a maioria que hoje está fechada com Lula, mesmo depois de tantos tropeços do presidente e do seu partido.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).
Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

23 Comentários:

Anonymous Marcus disse...

Os tucanos devem buscar parte da explicação nas repetidas vezes em que pessoas identificadas com eles disseram que o programa é uma esmola.

Bingo.

É isso que eu estou falando nas discussões: se os tucanos não são contra o Bolsa Família, por que o criticam tanto? No dia em que pararem de falar mal, o povo vai acreditar que não vão acabar com ele.

Foi assim em Porto Alegre, quando o PPS conseguiu desalojar o PT da prefeitura: quando mostrou que não iria acabar com as realizações de 16 anos de governo.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 12:42:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Ou talvez se os tucanos resgatarem todas as promesas de Lula 10 milhões de empregos etc) e confrontar com o realizado... assim como a campanha Lula está confrontando as suas "realizações" comas de FHC. Não vai ajudar muito o alckmin, mas vai dar aos eleitores de Lula a verdadeira dimensão do seu candidato.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 15:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon, estive lendo seu comentário por influência do F.Martins, que disse sobre a boa qualidade de seu texto.Talvez o jornalista da BAND estivesse se referindo à qualidade gramatical, pois quanto ao conteúdo, embora possa ser pinçado alguma análise com correção, especificamente, sobre a questão do bolsa família e a falta de conceituação na campanha de Alckmin, as premissas levantadas são falsas e deturpam a história. Vc mesmo admite o peso que tem a mídia negativa sobre o desempenho de um candidato. Ora, não foi outra a postura da Globo em 1989, há testemunhos, e os jornais da época registram, que a direção da Globo se empenhou em eleger Collor, agindo, entre outros, com a manipulação do debate, do caso Miriam Cordeiro etc. Portanto, continue desenvolvendo suas teses, são boas e têm conteúdo, mas dispense a corrupção da verdade como fundamento de suas teses, são dispensáveis.
Um abraço.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 15:36:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Vamos por partes:


Parte 1
“Uma das coisas mais difíceis na hora da derrota é você suportar a dor de saber o quanto foi responsável pelo resultado que colheu.”

Essa é uma verdade inquestionável.

Me parece que não é possível negar que há sim um trabalho metódico na campanha petista para associar Alckmin a esse conjunto de eventos que os tucanos chamam de terrorismo. Se isso é ou não terrorismo, pouco importa. O fato importante é que essa tática está sendo utilizada com sucesso pelo petismo. Concordo com você quando diz que o PSDB não consegue dar resposta a essa campanha. Nesse sentido, parece que vai ficando claro que nessa arte os petistas continuam insuperáveis. A esquerda tem anos e anos de janela nessa arte de satanizar os inimigos ao mesmo tempo que posa de vítima desses mesmos inimigos. É extamente ai que o PSDB está perdendo.

Hoje, a Folha on line deu nota sobre um manifesto do petismo que afirma que Alckmin "é mais de FHC, das privatizações, dos vampiros, do arrocho e do desemprego". O tucano ainda é chamado de "candidato do apagão, da dengue, da corrupção da Nossa Caixa e no CDHU, da submissão à Alca, da desnacionalização da Companhia Vale do Rio Doce".

Veja que o teor do manifesto segue à risca a tática petista de pautar o PSDB. Obriga Alckmin a retornar e dizer o que já disse muitas vezes: “é mentira”. Depois entram em ação os “isentos” e os
“profissionais da indignação” para escrever o tanto que Alckmin foi rude e arrogante. E assim vai.

O fato inquestionável é esse mesmo que você apontou: o PSDB não está conseguindo sair dessa pauta. Culpar os petistas é muito mais fácil do que derrotar os petistas.

Parte 2
“A partir desse dado isolado (dossiê), o spinning tucano-pefelista passou a espalhar que o vetor de Alckmin era ascendente e o de Lula, descendente. Como se sabe hoje, essa afirmação não se comprovou na prática.”

Não é um dado isolado. E nem foi coisa de aloprados. O episódio dossiê foi gestado no centro de comando da campanha petista. Foi um erro terrível para o petismo. Custou a reeleição do Lula no 1º turno. Não sou bom nesse negócio de números. Lembro de ter lido que esses vetores vinham configurando-se lentamente desde antes do episódio dossiê. Tudo que podemos afirmar agora é que HOJE sabemos que a tendência que se manifestou lá pelo final da campanha no 1º turno não se manteve ou inverteu-se. Não era apenas spinning. Era a tendência dada num momento da campanha. Afirmar o contrário é não reconhecer que o petismo conseguiu dar resposta ao baque do primeiro turno. Falar em spinning não obedece à lógica que comanda a análise que está no post.

Parte 3
Questões:
Por que o petismo se dá bem eleitoralmente quando parte pra porrada e o PSDB não?

“Lula está explorando o fato inegável de que num governo dos adversários haveria maior probabilidade de empresas estatais serem vendidas”. Por que isso que você analisa como probabilidade é recebido pelos eleitores como verdade inquestionável?

Por que Lula pode ir longe demais no seu antipsdebismo e anti-alckmismo e se dar bem com isso nas pesquisas e o o tucano, quando dá o troco na mesma moeda, não? Que mistério é esse?

Alguém poderia jogar uma luz nisso?

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 17:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Anônimo, você ainda não compreendeu que o Alon é um dos esquerdistas mais perigosos da blogosfera. Toda a argumentação dele neste post é desmobilizadora para os tucanos. O Alon faz meneios, vai, volta, mas é só para enfiar a espada no coração, como o toureiro mata o touro. Se a maioria da sociedade está com o Lula, pouco há a fazer, não é?

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 17:04:00 BRT  
Blogger Paulo disse...

anônimo bis, acho que você entendeu menos ainda - o Alon tem dito, há meses acho, que a única estratégia razoável para derrotar um Presidente bem avaliado é demonstrar que se pode fazer melhor. E a aliança conservadora insiste em recusar qualquer discussão concreta de programa de governo - ficam nas generalidades de "choque de gestão" ou encenações mitológicas de "superavit sem cortes nos gastos ou aumento de impostos" (fiquei com a nítida impressão que o Alckmin propõe reduzir o deficit das contas públicas vendendo todos os 2 aviões da Presidência). Em cima disto tentam negar o que todos os economistas tucanos vem dizendo há anos, que eles acham necessário terminar o processo de privatizações e usar toda a verba disponível (inclusive a social) em investimentos de infra-estrutura (daí o núcleo intelectual da crítica ao Bolsa-Família, que naturalmente chega às "bases" marketinizado como "bolsa-esmola").

Realmente o Alon o tipo mais perigoso de esquerdista, aquele tipo incômodo que diz coisas sensatas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 17:20:00 BRT  
Anonymous Leonardo Bernardes disse...

Que bacana, uma conversa de anônimos!
Houve um tempo no qual as pessoas tinham hombridade para assumir seus nomes, ou pelo menos a desfaçatez de inventar um apelido, hoje nem isso..

Esquerdista perigoso? Ora, pelo menos o primeiro anônimo ofereceu um argumento e se dispôs ao diálogo. Esse discurso ressentido que se furta ao debate (preocupado apena em classificar, adjetivar, predicar) é apenas mais um expediente daquilo que Alon ilustra no post, uma lamúria antecipada de um iminente perdedor, afinal de contas, é na decadência que a vida pulsa com maior sofreguidão, como diria le grand moustache, e no desejo de converter sua incapacidade em qualquer outro elemento externo afirma: "Se a maioria da sociedade está com o Lula, pouco há a fazer, não é?" -- o suicídio é sempre uma boa alternativa, caro anônimo.

Paulo Araujo, uma luz sobre a sua última questão: no país em que você mora, isto que você chama de "antipsdbismo e anti-alckmismo" foi antes uma iniciativa do que uma resposta? Porque aqui no Brasil o que sustenta a candidatura de Lula não é este recurso que você observou. O seu uso se deu recentemente (se é que podemos realmente classificá-lo como anti...), após o debate, no intuito de dar novo fôlego a campanha de Lula, enquanto eles pensavam que a "nova postura" de Alckmin afetaria os números da eleição.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 18:56:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Tem uma coisa que me impressiona na campanha tucana: a capacidade de esquecer tão completamente FHC que esquece até de como o PSDB chegou ao poder.

Alguém se lembra de 1994? Pois é. Lula estava disparado nas pesquisas. FHC sai candidato a presidente com o Plano Real na mão. O PT chama o Plano Real de 'estelionato eleitoral'. FHC se cola no Real e é eleito.

Não parece muito com a situação do Bolsa Família? Só lembrando que Lula não foi eleito dia 1º porque, como saiu na Carta Capital dessa semana (lá vem gente dizer que a Carta Capital não é confiável. Então o que é, a Veja?), houve uma grande manipulação de mídia em cima da foto do dinheiro.

Entendo que o PSDB queira esconder FHC, já que parece que dá azar eleitoral aparecer do lado dele. Mas daí a esquecer a História? Só a "assessoria" do Geraldinho, esse colosso que poderia se juntar ao "núcleo de inteligência" de Lula e montar um curso de como fazer tudo errado.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 19:37:00 BRT  
Anonymous arkx disse...

a campanha de Alckmin precisa se recompor e encontrar seu caminho.

não é bom para o país a dianteira que Lula tomou.

apesar do stress político, é melhor que o voto prossiga bem polarizado.

lembremos do primeiro turno. todos diziam que era a campanha mais sem vibração desde a redemocratização. de repente tudo mudou.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 19:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não aconteceu rigorosamente nada de relevante no segundo turno.
Lula amealhou alguns votos (menos da metade dos disponíveis) e Alckimin também (proporcionalmente mais que Lula). Ocorre que, dos votos dados a todos os candidatos que não passaram ao segundo turno, Alckimin teria que absorver quase 90% para se eleger.
Missão quase impossível.
Jornalista tem que vender jornal e criar um mundo gente de som e fúria. Não há som e fúria lá fora. Só há som e fúria nas rotativas. Se pararem as rotativas será possível ouvir o som do silêncio. As coisas estão caminhando para seu desfecho com impassível e silenciosa naturalidade.
Só há som e fúria nas maquinações e mundos inexistentes dos jornalistas. Conspirações, idas, vindas, tréplicas, súplicas.
A verdade é modorrenta e abúlica.
Só um fato extraordinário, uma hecatombe removeria Lula do Palácio do Planalto.
Quem não percebeu isso é pouco inteligente. Menos inteligente do que os posts cheios de maquinações.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 20:16:00 BRT  
Blogger Filipe disse...

meus parabéns pela lúcida exposição. falta nas pessoas e em quem escreve sobre política essa clareza. Nao exista o lula mal ou dos pobres e nem o Alckmin ético e dos ricos. Num país como o nosso, as coisas não são tão simples. Já coloquei seu blog na minha seleta lista de leitura diária.

tenho um blog sobre política, se tiver interessse:

http://discursolivre.blogspot.com/

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 20:50:00 BRT  
Anonymous Carlos Marques dos Santos disse...

Estou chocado com esse post.
Sou jornalista e não é mitologia, mas uma fato histórico a edição da globo do debate de 89.
E como jornalista sei perfeitamente, tanto quanto você, que é possível sim editar uma entrevista ou o material que for e transformar o que era originalmente neutro ou equilibrado, em algo negativo ou positivo. Nem sei se é o caso do debate em questão, mas afirmar que o que foi feito está no limite jornalístico é que é elegante no limite do risível.
Como exemplo, basta ver as edições que os candidatos fazem do debate para uso próprio no horário eleitoral. A da globo desceu a esse nível.
Pena que agora quem faz o papel da rede globo é a Folha de São Paulo.
OBS a crítica contra a Folha é de minha responsabilidade. E para que voce não corte meu post por medo de processo vou assinar com nome e RG abaixo ok?
Assinado,
Carlos Marques dos Santos
RG 28.294.651-6

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 21:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

peraí. Alon, então Alckiminio ´de direita? Direita de quê?
Num país que 2 partidos de esquerda concorrem a presidência, só porque o sujeito tem diploma superior seria de direita? O analfabeto é de esquerda? Brincadeira...

JV

sexta-feira, 13 de outubro de 2006 23:31:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Para um simples observador da cena política, a melhor constatação é a de que, como dito por personagem de um filme: restituir a verdade, é pior que um pesadelo. A campanha à reeleição aposta no pieguismo, na indulgência e na compaixão. Há outros nomes para isto. Podem ser buscados em quaisquer róis de mandamentos religiosos ou laicos, mais do que em manuais de política. Auto-comiseração é outra das táticas. Causa pejos em quem tenta atacar sentimentos inculcados como se do povo simples o fossem. A charada: mitologia. E decifrando a esfinge: autopiedade. Ai devem estar residindo as dificuldades da oposição. Mas, quando o debate mostrou ser possível romper tal pejo, a roda voltou a girar na direção do apelo piedoso e vitimizante. A confrontação entre o pobrismo e o riquismo. Seria esclarecedor aprofundar-se sobre lendas, mitos, superstições e folclore. E de seres fantásticos, como a cobra-jabuti. Palavra-chave: quimera.

sábado, 14 de outubro de 2006 09:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Deixe-me dar um pitaco neste debate de direita e de esquerda. Ao meu entendimento a diferença não está na recusa de se defender todos os programas e doutrinas partidárias. Hoje no Brasil a diferença está no enganjamento histórico. A diferença está na opção de aliença. O PSDB tem optado por uma aliança com o PFL desde o fim do Governo Itamar (que pôs o ACM para correr). A tentativa Serra/PMDB já estava comprometida pelos 8 anos do FHC, e a parte do PMDB escolhida era a mesma que se associara ao projeto PSDB/PFL. Para a maioria da população, a privatização foi considerada atitude de direita (a percepção de todas as classes é que o custo de telefonia subiu 1000%). Houve uma venda de ativos nacionais num período em que a dívida subiu de 30% para 60%. Portanto, é o processo político histórico (o retrato de cada grupo em determinado momento histórico) que tem definido o que é de direita e o que é de esquerda. Sejam nas alianças, sejam nas medidas políticas com reflexo na vida do cotidiano.
*PS: Concordo com o missivista que questionou as mensagem anôminas (sem o nome no final).

Rosan de Sousa Amaral
Rosan de S

sábado, 14 de outubro de 2006 10:46:00 BRT  
Anonymous Edmundo Adôrno disse...

Caro Alon, vc está devendo, pelo menos umas cervejas ao Franklin. Visitei este espaço após indicação feita pelo jornalista da Band, e não me arrependi.
Entendo que nessa batalha um dos guerreiros acabará com a espada cravada no coração. Seu papel, ao meu ver, é apenas de alertar os espectadores do duelo que haverá sangue. Sangue cenográfico, é claro. Mas haverá sangue. Sua análise a cerca das posturas dos candidatos relativa aos programas, propostas, falácias e outros ardis de campanha me parecem corretas, comungo do seu ponto de vista. Digo mais: vc tem cooptado corações e mentes tucanos para o plano da dúvida. Prova disto são avaliações respeitosas de comentaristas tucanos, que diante observações irrefutáveis, dispõem-se a elogiar teu esmero com a gramática em detrimento de críticas substanciadas que contaponham seus argumentos.
Não esqueça das cervejas do Franklin.

sábado, 14 de outubro de 2006 11:56:00 BRT  
Anonymous Andréia disse...

Menino, eu vi! Eu vi o debate entre Lula e Collor e, acho que Lula foi muito bem! A famosa edição primou por destacar os melhores momentos de um contra os piores do outro! Não acredito que a edição foi a única responsável pela derrota de Lula em 89, mas acho que foi o grande momento de uma campanha midiática que se esforçou (e como!) para derrotar Lula e o PT. Hoje, não há como negar que boa parte da imprensa se cala sobre Barjas Negri ou Abel Pereira ou, quando dedicam algumas míseras linhas a estes personagens não o fazem dizendo "tucanos ou próximos aos tucanos".O contrário acontece frequentemente, pois, como diz minha mãe, a cada escândalo dizem "noventa e tantos deputados são acusados, dois são do PT".

sábado, 14 de outubro de 2006 12:42:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Leonardo

No país onde moro (você não reside no mesmo país onde moro?) há uma eleição em disputa. Há uma luta política que é também uma luta de valores. Minha questão continua: por quê a Lula e ao petismo a guerra valores é permitida e ao Alckmin e aos psdebistas não?

Você lê jornais. Deve ter lido que desde o início da campanha, e mesmo antes, o PT apontou que faria a comparação do governo Lula como governo FHC. E não seria apenas um campeonato de números. Afirmar o contrário seria desconsiderar que o PT é um partido de esquerda que busca conquistar hegemonia política fazendo guerra de valores no combate aos seus inimigos (de classe). Isso é clássico. Está em Lênin. Está em Gramsci.

O que o PT faz melhor que nenhum outro partido da esquerda brasileira (incluído o PSDB) é acionar os símbolos que representam, numa linguagem direta e de fácil absorção (excelente o comentário do Swamoro Songhay), a luta do bem contra o mal.

O Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade de FHC, das privatizações, dos vampiros, do arrocho e do desemprego, do apagão, da dengue, da corrupção da Nossa Caixa e no CDHU, da submissão à Alca, da desnacionalização da Companhia Vale do Rio Doce. Isso está num manifesto petista de apoio à reeleição de Lula. Se isso não é método, é o que? Manifestação espontânea dos "movimentos sociais"?

Não é de hoje que a esquerda busca para si o monopólio do "bem". E por quê o PT romperia com essa tradição? O PT fez-se como partido da esquerda brasileira exatamente porque se inseriu, desde a sua fundação, nessa tradição.

Uma olhada na história mostra o que foi o "bem" efetivado por essa tradição. Para facilitar a pesquisa, sugiro o exame da "tradição socialista" a partir de uma data: 1917. E não me venha com promessas de "futuros radiantes". A história tem como objeto apenas o passado.

Gosto muito das análises do Alon porque elas são um contraponto interessante nas minhas certezas de momento. Não venho aqui na esperança de encontrar subsídios para as minhas certezas (todos temos).

Acho mesmo que o PSDB teria muito a aprender com o Alon. O comentário do bolsa família é certeiro. É burrice o que fez o PSDB quando deixou que seus “orgânicos” saíssem por ai com essa. Forneceram farta munição ao oponente, que, não sendo burro, a utilizou na sua guerra de valores. Certíssimo o Alon. Os bons mocinhos agora reclamam do quê? Essa arrogância intelectual dos psdbistas é o principal inimigo dos psdbistas.

Eu, que não concorro a nada, posso tranqüilamente exercitar minha “burrice” e contestar dizendo que o bolsa família é a versão politicamente correta de uma antiga prática no acabrestamento de votos na nossa história. Nisso o PT não inovou. Inovou na forma. Aliás, o PT e o petismo têm sido muito bem sucedidos nesse exercício de apropriação de práticas políticas que há muito tempo aprendemos condenar na crítica do “coronelismo” e do populismo brasileiro (Alon já escreveu sobre).

sábado, 14 de outubro de 2006 12:49:00 BRT  
Anonymous emanuel disse...

Parabens pelo Blog e pelo comentario.
Já está na minha relação dos "favoritos".
Agradeça a "indicação" ao noblat...

sábado, 14 de outubro de 2006 13:52:00 BRT  
Anonymous arkx disse...

entretanto, algo ainda permanece no som do silêncio. é que as pessoas ouvem, mas não prestam atenção. enquanto isto, o silêncio cresce como um câncer.

sábado, 14 de outubro de 2006 14:01:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Alon, no meu blog http://abandon.zip.net faço=falo=vejo arte. Desculpa se no momento, ao invés de tecer comentários acerca do seu artigo, falo de política. É que tenho novidades.

Veja lá. Um dos meus amigos meus amigos, advogado da União. Aposentou-se recentemente. Ganha por volta de 10 mil reais. Por conta da reforma da previdência, passou a ser feito um desconto na sua remuneração. Foi este o motivo que o levou a desligar-se do PT. Hoje milita no PSOL para onde fez de tudo para me levar. Ponderei com ele que, quem sabe depois, que por enquanto continuava acreditando no PT. Hoje conversando com ele, o mesmo me disse que votará no PT por um único motivo: não quer a volta do PSDB ao poder. Só mesmo quem é desmiolado vota no PSDB, pois não tem cabimento o que eles fizeram. Segundo este mesmo amigo, eles venderam a Vale do Rio Doce e outras empresas, se é que se pode se chamar isso de venda. A Vale foi vendida com deságio de mais de 80 bilhões. Ele disse "cadê esta dinheirama?". O mesmo afirmou ainda que o governo arcou com os tais esqueletos da privatização: débitos trabalhistas, fiscais, etc. Ele arremata dizendo "isto não é venda. É doação."

PS: eu também sou formado em direito. Mas como me falta um parafuso na cabeça, me formei mas nunca fui buscar o diploma. Também me formei em artes visuais e nunca fui buscar o diploma. Sabes o motivo? Preguiça! Sei lá. Só faço coisas que me dão prazer. Não me vejo retornando àqueles locais para buscar um diploma. Posso até voltar, mas prá fazer outro curso. Quem sabe, de letras? Desde que eu não tenha que buscar o diploma, para mim a parte mais difícil. Será que me falta algum parafuso na cabeça?

Abraço,

sábado, 14 de outubro de 2006 14:05:00 BRT  
Anonymous Ruth disse...

Não vai comentar a matéria da Carta Capital desta semana?

sábado, 14 de outubro de 2006 14:29:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Um efeito da mitologia vigente: depois de quase quatro anos, o Leviatã não consegue identificar para onde foi a chamada dinheirama das privatizações. É pior do que dizer que o Leviatã atual não vai, mesmo, privatizar a Petrobras, pois, vai doa-lá à Bolívia. Ou a dizer que aparelhar estatais com quadros partidários é o mesmo que privatizar. Ou ainda, perguntar: para que acreditar no Leviatã e em sua continuidade, uma vez que ele não soube que a oposição elaborou um falso dossiê (contra ela mesma), cooptou experimentados quadros do Leviatã, disponibilizou recursos, cooptou toda a midia e conseguiu amealhar mais de 51% dos votos do eleitorado, capazes de levar uma eleição considerada ganha para um segundo turno incerto? Se coisas tão comezinhas como estas ocorreram, com tal sucesso, o que esperar de tal Leviatã no futuro? Como estamos no tempo em que restituir a verdade é pior que um pesadelo, daqui a pouco vão criar o factóide de que só faltou envenenar o churrasco!!! Ainda bem que, com o beneplácito do blogueiro, ficcionistas bissextos podem exercitar sua perícia.

domingo, 15 de outubro de 2006 15:38:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home