domingo, 22 de outubro de 2006

Minhas qualis (22/10)

Lamúrias e lamentações não ficam bem em políticos. Reclamar de ataques dos adversários tampouco. De volta ao boxe. Os grandes campeões além de bater sabem também apanhar. Há ano e meio a oposição vem dizendo que o PT é um agrupamento comandado por bandidos dedicados a saquear os cofres públicos. Para abastecer o caixa único que financiará a perenização do PT no poder. Há três semanas o PT vem repetindo que a oposição é um grupo de vendilhões da pátria. Sedentos para entregar de mão beijada o que sobrou de patrimônio público depois das privatizações que fizeram quando estiveram no governo. Eu não concordo nem de longe com essas caracterizações. Mas se você quer acreditar cegamente numa delas fique à vontade. Saia à rua com uma bandeira e engaje-se na sua cruzada para salvar o país. Já o nosso papel aqui é tentar mastigar a realidade. Digeri-la e fornecer o alimento em partículas suficientemente pequenas para que o espírito possa absorvê-las. Então vou tentar abordar a polêmica por outro ângulo. Por que o assim chamado terrorismo eleitoral contra a oposição está sendo mais eficaz do que o seu antípoda? Por que vinte dias de propaganda negativa contra Geraldo Alckmin tiveram aparentemente mais efeito do que um ano e meio de propaganda negativa contra Luiz Inácio Lula da Silva? Não é uma questão fácil de responder. Conversei com um taxista na sexta-feira. Entrei no táxi e vi um adesivo de Alckmin (meio arrancado) e outro de Lula. Meu condutor votou em Alckmin no primeiro turno e diz que vai votar em Lula no segundo. Pergunto por quê.

- Porque as safadezas da turma do Lula tem quem controle. Tem a Polícia Federal. Tem o Ministério Público. Tem as CPIs. Mas quando o PSDB vendeu as estatais ninguém podia fazer nada. Ninguém fez nada. Não teve a gritaria que está tendo agora.

Foi a minha quali particular e custou apenas a corrida. Menos de dez reais do meio da Asa Norte até o Brasília Shopping. Bem mais barata do que os focus groups que informam aos candidatos frase por frase o que eles devem dizer na televisão. Na hora lembrei de outra "taxiquali" que fiz lá pelo final de 2002 em São Paulo. Perguntei ao condutor em quem ele tinha votado. Lula. Perguntei se achava que o novo governo iria mudar muita coisa.

- Não. Porque governo é tudo sempre muito parecido. A gente só troca porque se deixar o mesmo pessoal lá durante muito tempo acaba virando uma panelinha.

Nesta eleição minha quali brasiliense está até agora prevalecendo sobre a paulistana de quatro anos atrás. Não é costumeiro. A vontade de "trocar a panelinha" é quase sempre irresistível. Ela costuma vir em ondas. É preciso algo muito forte para neutralizá-la. Volto à pergunta feita lá atrás. Por que a campanha negativa dos petistas funciona melhor do que a dos tucanos? Nenhuma das duas respostas possíveis é lisonjeira para a oposição. A primeira hipótese é que o governo do PT é tão bom para a maioria das pessoas que isso acaba neutralizando o ímpeto mudancista. A segunda hipótese é que a oposição está sendo incompetente para assegurar à maioria que vale a pena remover um mau governo. E que um governo dela oposição seria melhor.

Uma observação final. Existe algo de diferente neste texto. Você já descobriu o que é?

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17 Comentários:

Blogger Sidarta disse...

Se o Alckimin fosse claro, será que ele ganharia mais votos? Onde ele vai cortar!?

O Lula fala que vai crescer e não vai cortar nada. Isso a classe média consegue entender mais fácil.

domingo, 22 de outubro de 2006 12:56:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Tive uma experiência similar. Só que dentro da família. Com um irmão. Ele, que detesta o PT, vai votar contra a privatização. Ele não vai votar contra o Alckmin ou o PSDB, vai votar contra uma idéia. Acrescento que meu irmão é o que chamamos de sujeito não politizado.

domingo, 22 de outubro de 2006 13:40:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Marcos escreveu:

" Acrescento que meu irmão é o que chamamos de sujeito não politizado"

Não sei o quê você pensa sobre privatizações. Mas acho interessante o perfil que você deixa do seu irmão: "sujeito não politizado".

Conheço muitos outros "sujeitos politizados" que também detestam o PT e que vão votar no Lula pelas mesmas razões do seu irmão e do motorista de táxi.

Penso que declarar-se privatista no ambiente político predominante hoje no país é visto por uma grande maioria como algo semelhante a "jogar pedra na cruz".

Temos uma antiga e bem estabelecida cultura anti-liberal no Brasil. Cultivamos um ódio hisórico ao capitalismo e à livre iniciativa. Pagamos um preço alto por isso. Por exemplo, os investimentos estrangeiros no país caíram 17% entre 2004 e 2005. No mesmo período, cresceram 22% nos países ditos emergentes. Isso não lhe parece um indicador de algo está muito errado "neste país"?

Não é apenas o seu irmão "não politizado" que pensa assim. É uma maioria que pensa irracionalmente assim.

Somos mesmo um país de contrastes. Compare-se, por exemplo, o que diz o Lula dos palanques com o que diz o Lula pai sobre o estrondoso sucesso do filho fenômeno, o empresário Fábio Luís Lula da Silva.

domingo, 22 de outubro de 2006 14:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, lisonjeiro é com J

domingo, 22 de outubro de 2006 15:22:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Sidarta: se o Alckmin falasse claramente mandaria a "assessoria" dele pro olho da rua, por incompetência.

paulo araujo: o tal "sentimento anti-liberal" é culpa dos liberais brasileiros, que preferem se esconder do debate público, como se tivessem vergonha de mostrar suas idéias. A não ser, claro, que você prefira compartilhar do ódio anti-povo, que pra mim é ódio de ser brasileiro, da nossa elite quando o povo não baixa a cabeça para ela.

domingo, 22 de outubro de 2006 15:41:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Obrigado, anônimo. Já corrigi.

domingo, 22 de outubro de 2006 16:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo, tenta emplacar este teu discurso no Japão, uma economia muito mais estatizada do que a nossa. O sentimento contra as privatizações tem duas cauas: 1) a currupção que marcou boa aprte deste processo 2) a consciência de que só lucro, lucro, lucro não resolve

domingo, 22 de outubro de 2006 16:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo Araújo, você está querendo dizer que o nível de investimentos estrageiros no Brasil depende da temperatura do ódio cultural ao capitalismo? Raciocínio esquisito esse!

domingo, 22 de outubro de 2006 16:26:00 BRT  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Não anônimo. Eu não quis dizer o que você disse que eu quis dizer. Já que lhe escapou o sentido do meu comentário, serei mais explícito:

Quis dizer que "o Brasil, de novo, só cresce mais que Haiti". Eu quis dizer que "pelo segundo ano seguido, o PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas por um país) do Brasil só deve crescer mais que o do Haiti entre os países da América Latina." (FSP,21/10/06)

O que eu quis dizer eu escrevi pensando no que havia lido no blog do professor Roberto Romano, que comentou a notícia da FSP e, como eu, incomodou-se com o silêncio da oposição sobre a lamentável notícia.

"Na verdade, o que enfraquece a mobilização do candidato tucano é o medo de tocar na política econômica do atual governo, herdada e piorada, mas herdada, do período FHC. O miolo que sintetiza toda a fragilidade da candidatura Alkmin está aí. Ele saiu como alternativa "realista" contra Serra (que propunha modificações importantes na área econômica, desde a administração FHC) mas o petismo oferece maiores garantias de durabilidade para o modelo, ou seja, para os seus beneficiários." (RR)

O que eu quis dizer é que concordo com a segunda hipótese do Alon: "A segunda hipótese é que a oposição está sendo incompetente para assegurar à maioria que vale a pena remover um mau governo. E que um governo dela oposição seria melhor."

Fui claro?

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 00:11:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Os "liberais" do Brasil não são "democratas liberais". Os nossos "liberais" pregam, desde a República Velha o livre comércio.
Um livre comércio ligado à estrutura agrário-exportadora, a estrutura que existiu antes de Getúlio. Daí, nos nossos "liberais" históricos serem anti-povo, anti-modernização.
Nada a ver com as burguesias liberais industrializantes dos países ricos do século XIX.
Os nossos liberais de hoje herdaram o nojo e o preconceito que os seus antecessores tinham contra a massa.
HOje, a massa se transforma em povo. Vota a favor de uma modernização social, por uma melhoria na distribuição de renda.
Os nossos "liberais" precisam sair do esquema da Casa Grande.
O problema de nossos "liberais" é que eles não sabem como sair da Casa Grande, que abrigou o Partido Republicano Paulista, a UDN, a ARENA e hoje abriga o PFL e o PSDB.
Está difícil a vida para os "liberais" do Brasil de hoje. É difícil propor algo para um país repleto do povo que eles tanto desprezam.
Na falta de propostas, o recurso que resta é o mesmo da UDN: a mobilização da classe média contra o "mar de lama" e a corrupção.
Daí a conclusão: quando os "liberais" perdem no jogo democrático, a sua tendência é a organização do Golpe.
Na minha opinião, o povo brasileiro merece, e muito, "liberais" melhores que os nossos. Que sejam mais ilustrados, que abarquem mais conhecimentos humanísticos, que leiam mais, que descubram que a verdade não está necessariamente no Economist ou no New York Times. Sei, entendo, vai difícil para os "liberais" do Brasil entenderem isso.
Eles, até hoje, não sabem diferenciar "liberalismo econômico" de "liberalismo político".

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 07:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alckmin é um banana. Deveria radicalizar o discurso e obrigar Lula a assumir um discursos mais troglodita ainda, de aumento do gasto público de custeio, de estatização selvagem, etc. Queimaria ainda mais as pontes com os setores lúcidos, com a oposição e seria mais uma desmoralização para Lula e o PT ´(se é que isso é possível) logo no início do segundo governo.
Mas a oposição no Brasil continua a merecer meu voto nulo.

Nulo Leal.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 07:39:00 BRT  
Anonymous Osmar Schröder disse...

Alon, no último dia 7, escrevi um texto ao jorn. Luis Nassif sobre a candidatura Geraldo Alckmin, cuja essência está mantida aqui. Pois, em minha opinião, a candidatura Alckmin apresenta algumas fragilidades de origem, que continuam atrapalhando no segundo turno. Reparem que ela nasceu por vias tortas, não como uma vontade do PSDB unido e, sobretudo, de sua militância, que preferia José Serra, candidato mais preparado e mais bem avaliado pelas pesquisas. Só para lembrar: Alckmin se aproveitou da impossibilidade de Serra de anunciar sua candidatura com antecedência, devido ele ter assinado aquela famigerada declaração de que permaneceria na prefeitura de São Paulo até o final de seu mandato, e foi à luta. Procurou agir rápido e surpreender seu "adversário" dentro do próprio partido. Conquistou o apoio de parte substancial de governadores tucanos e de boa parte do baixo clero do PSDB. Para tanto, Alckmin contou com o “apoio” de Aécio Neves, que tem pretensões para 2010 e Serra tem sido um obstáculo nesse seu desejo. Também contou com o apoio não declarado do presidente do PSDB, Tasso Jereissati, que quer diminuir a hegemonia paulista dentro do partido. Aécio e Jereissati “sabiam” que Alckmin não teria a menor chance de vencer. José Serra, se quisesse se tornar efetivamente o candidato a presidente da República pelo PSDB, necessitaria do apoio maciço do partido, de modo a tentar neutralizar a repercussão negativa da dita declaração, que seria explorada à exaustão pelos adversários - leia-se Lula e o PT. Com a rápida mobilização de Alckmin dentro do PSDB, a candidatura Serra ficou inviável, pois o ex-governador paulista já havia conseguido rachar o partido. Restou a Serra disputar o governo de São Paulo. Em resumo, a candidatura Alckmin começou errada e esses erros o perseguem também no segundo turno. Nunca teve o apoio maciço das lideranças expressivas do PSDB, nem das do PFL. No primeiro turno, foi quase cristianizado. Perambulou praticamente sozinho, Brasil a fora, pretendendo se firmar como liderança nacional do PSDB, sem estar acompanhado da cúpula tucana. Alckmin é menor que o PSDB e algumas de suas lideranças. Acima dele estão FHC, Serra, Aécio Neves e Tasso Jereissati. Para ganhar, seria preciso que todos, no PSDB e PFL, tivessem abraçado sua candidatura, o que não ocorreu. Ao contrário de Lula, que é maior que o PT e tem o partido sob seu controle. Além disso, não conseguiu convencer o eleitorado como um candidato anti-Lula. Sua candidatura não está calçada num projeto diferente, capaz de sinalizar uma saída para alguns gargalos que temos na economia, como juros altos, câmbio valorizado, crescimento pífio. Nem Lula tem solução para esses graves problemas. Mas, o eleitorado dele não sabe disso. Neste momento, em face dos números exibidos pelas pesquisas, nem um fato bombástico, a meu ver, terá poder de reverter o atual quadro, como ocorreu no primeiro turno. Foi o PT e suas trapalhadas, além de fortes abstenções no eleitorado de Lula do Norte/Nordeste, que levaram Alckmin ao segundo turno e não sua liderança e “projeto”. Notem que, na primeira semana após o primeiro turno, Lula dominou positivamente o noticiário. Os responsáveis pela candidatura Alckmin não souberam colher os bons frutos propiciados pela sua ida ao segundo turno. O fato de ter aceitado o adiamento do início da campanha publicitária do segundo turno na TV, fazendo o jogo do adversário, com certeza, contribuiu para esfriar a empolgação do eleitorado. Aquelas primeiras imagens, logo no início da jornada do segundo turno, mostrando Alckmin na companhia de reputações políticas discutíveis, como de Garotinho e Rosinha, repercutiram muito mal entre seus apoiadores e aliados. Também no seu eleitorado. Já Lula, embora também circulasse com más companhias políticas (Sarney, Jader Barbalho, Newton Cardoso, Bispo Crivella) e tivesse recebido declarações de votos de figuras políticas como Fernando Collor e Paulo Maluf, tais fatos não repercutiram nem positiva nem negativamente na imprensa. Sabe-se lá por quê? Pontos para Lula. E, assim, o segundo turno vai chegando ao final com Lula praticamente no pódio mais uma vez. Afinal, Lula precisa concluir seu ciclo de oito anos, como foi o de FHC. Só assim poder-se-á fazer a comparação completa e definitiva entre ambos. Embora, a meu ver, nunca será possível fazer tal comparação, porque dizem respeito a períodos diferentes, cada qual com suas particularidades, a começar pela política econômica. Lula tem enfrentado um céu de brigadeiro. No segundo mandato de FHC, as turbulências econômicas internacionais foram intensas e freqüentes, com sérios estragos aqui dentro. Elas foram fatais para FHC.
Abraços,
Osmar

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 11:14:00 BRT  
Anonymous Paulo Lotufo disse...

Alon, não consigo me sensibilizar com essa campanha eleitoral como os seus demais leitores. Nem entendo bem de "privatização", "liberalismo", "neoliberalismo". Tento ser prático. Veja só o se passa no Estado de São Paulo, todos os funcionários públicos estão sendo obrigados a mudar de banco, do privado Banespa (que agora é melhorzinho) para a Nossa Caixa. Ninguém do espectro político reclama, exceto os funcionários. O monopólio do pagamento estabelecido entre empregador (público ou privado) com o banco de interesse desse mesmo empregador é ilegal porque não consta em nenhum contrato de trabalho. O empregado poderia exigir receber em espécie, ou um cheque ou um depósito no banco desejado por ele.
Sei que isso está longe do interesse atual do debate ideológico (vazio), porém tem muito mais sentido para que os interesses do cidadão prevaleçam sobre os do capital financeiro.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 15:05:00 BRT  
Blogger Durval disse...

Esse taxista é um gênio. resumiu em poucas palavras toda a argumentação sobre esse assunto da ética.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 15:09:00 BRT  
Blogger maisa disse...

Sobre o "algo de diferente" no texto, ninguém comentou. Sou leitora novata por aqui, Alon, e confesso que sou meio dispersa para perceber minúcias, mas achei mais arejado esse post devido talvez à participação dos seus pesquisados. Estou na torcida no The Bobs.
Um abraço

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 17:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu também não consegui ver o que tem de diferente neste post. Tem alguma coisa no texto, mas não descobri o que é.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006 18:37:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Olá, Lotufo

Você escreveu:
"O empregado poderia exigir receber em espécie, ou um cheque ou um depósito no banco desejado por ele."

Então, a questão reside exatamente na conjugação do verbo que está nessa sua frase. Por que não pode?

Me diga, em qual estado da federação brasileira o empregado pode livremente escolher como receber o seu salário? Sabemos que não pode. Sabemos que é o Estado que, pelas individualidades, sempre decide o que, para elas, é mais "conveniente".

Neste quesito, para muitos insignificante, reside uma grande diferença da compreensão que separa o Estado de Direito de outros.

É simples. Se aceitamos que o Estado decida por nós sobre como devemos receber o que nos é de direito (salário), abrimos uma imensa avenida para que o Estado também se arvore como o ente que vai determinar COMO tudo o mais seria, para nós, conveniente.

terça-feira, 24 de outubro de 2006 22:38:00 BRT  

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