quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Gramsci, Marx, El Cid (19/10)

Recebi outro dia email de um diretor do DCE da USP que votou em Heloísa Helena (não estou autorizado a dizer o nome dele). Ele apontou o que considera serem problemas na maneira como me utilizo de Antonio Gramsci para analisar a realidade eleitoral do Brasil. Tenho um forte laço afetivo com o movimento estudantil. Foi a nossa escola comum e insubstituível de política e jornalismo. Vamos ao argumento. Onde estaria a falha do meu raciocínio? O missivista diz que não é possível o PT liderar um bloco histórico à esquerda se ele próprio aderiu à agenda neoliberal. Eu não acho que o PT tenha aderido ao liberalismo, estou só reproduzindo o pensamento de quem me critica. Interessante, como ponto de partida para o debate. Uma parte da resposta à dúvida/certeza do meu crítico está na entrevista que Chico de Oliveira deu ontem ao site Carta Maior. O sociólogo faz a distinção entre o objetivo e o subjetivo, entre o papel que os homens escolhem para si na História e as circunstâncias que determinam e limitam esse papel. É Karl Marx. Está, por exemplo, no prefácio da Contrubuição à Crítica da Economia Política:

(...) do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas (...) pela sua consciência. Pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material (...). Por isso a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois (...) esses objetivos só brotam quando já existem ou pelo menos estão em gestação as condições materiais para a rua realização.

Marx era um otimista, como todo utópico. Se deu bem melhor como analista do capitalismo do que como profeta do seu fim. Mas, sejamos justos com o pensador e revolucionário alemão: ele nunca se dispôs a desperdiçar muito tempo matutando sobre o futuro, no que fez bem. Como Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao governo em 2002? Apoiado num amplo acordo com as elites econômicas e políticas do país. O petista fez as concessões necessárias para atingir o poder -e alcançou o objetivo. Mas as condições em que chegou lá impuseram-lhe os limites dentro dos quais teve que governar. A democracia é assim: quem elege governa, ou diz como vai ser o governo. Quem rompe com essa regra básica costuma acabar mal. O que está acontecendo agora? Uma grande parcela da elite que ajudou (por ação ou omissão) a eleger Lula em 2002 está com Geraldo Alckmin. Onde Lula irá buscar os votos e a força política para tentar se manter no poder? Entre quem -como, por exemplo, o meu missivista- se descolou do PT ao longo dos últimos anos por discordar do apreço de Lula pela realpolitik. Quem pode dar a Lula mais quatro anos no Palácio do Planalto são os eleitores de Heloísa Helena. Vista historicamente, essa circunstância é uma grande vitória da senadora e de seus seguidores. Como dizem os americanos, "nada pessoal, são apenas negócios". Mas os fatos históricos não são marionetes postos a dançar pelos personagens da História. Não existe almoço grátis. De novo: quem elege é quem governa. Se Lula e o PT estão pondo nos trilhos uma composição mais à esquerda e mais nacionalista (para enfrentar uma outra, mais liberal e mais globalista), trabalham (ainda que involuntariamente) para fortalecer uma hegemonia de esquerda no próximo período. Essa coisa de o homem fazer a História bem além da consciência que tem dos seus próprios atos é muito séria [leia O darwinismo político e o suicídio da elite]. Levada ao extremo, admite até a hipótese de alguém comandar um movimento histórico mesmo depois de morto. Como o lendário Rodrigo Diaz de Vivar, El Cid (clique na imagem para ampliar o retrato do herói ibérico da luta contra a ocupação islâmica), ninguém está a salvo de ser amarrado sobre um cavalo e servir de ícone a um processo que não se sabe bem no que vai dar.

Uma observação. Dou links para a Wikipedia em inglês porque é mais completa. Mas sempre que um verbete tem versão em português você pode acessá-lo clicando no link para "português" que aparece na barra lateral esquerda da página.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).
Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

14 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Bingo. Olha a Folha Online:

19/10/2006 - 15h51
Entidades apresentam proposta a Lula para "fortalecer esquerda"
Publicidade
da Folha Online

Lideranças de movimentos sociais fizeram na manhã de hoje, em diversas capitais do país, ato em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e apresentaram propostas que consideram importantes para o "fortalecimento do projeto popular e de esquerda".

Uma comissão de 15 representantes dos movimentos foi recebida, em Brasília, pelo ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), o qual acolheu o manifesto que aborda "13 pontos" que as entidades classificam como necessários para o "aprofundamento das transformações sociais e a mudança da política econômica na agenda do presidente Lula".

Dentre os pontos apresentados pelas entidades está a reforma agrária "ampla e de caráter popular"; o aumento do programa Luz para Todos, com "reestatização" das empresas de distribuição e transmissão de energia; fortalecimento do ensino público; e mudanças na política econômica para gerar mais emprego e garantir maior distribuição de renda.

Outros tópicos também foram abordados pelas lideranças, como saúde, cultura, diversidade, meio ambiente, moradia e direitos trabalhistas e sindicais.

Participaram do ato nesta manhã CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), a UNE (União Nacional dos Estudantes), entre outras entidades que representam diversos setores populares.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 18:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

è por isso o clima de Santos x Corinthians que tomou conta do processo político? (com alguns adendos, é claro. Como o canibalismo, que, esperemos, não seja adotado pela torcidas organizadas). è por isso o ódio acirrado de um lado e de outro? O reposicionamento ideológico?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 18:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Êpa. Pedir mais diversidade no meio ambiente é exagero. O Lula já permitiu agricultura orgânica, com defensivo agrícola e com transgênico. Que mais os movimentos sociais querem, além de mesada?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 18:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Reestatização? Interessante. O Lula hoje, no debate, poderia se comprometer com a reestatização da telefonia e da Vale do Rio Doce. Que tal?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 18:26:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Peguem os contracheques destas "entidades populares" (que não representam nem mesmo suas próprias categorias, como é o caso da UNE, que deveria ser extinta) e entendam o que elas querem dizer com "fortalecimento das esquerdas". Chama-se reforço e garantia de caixa, a fundo perdido.
Aliás, a UNE é tão entidade social quanto a Febraban: ambas vivem da grana alheia, especialmente governamental, e não representam mais do que meia dúzia de pessoas.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 18:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Por falar em bloco histórico, udenismo, lacerdismo e esses conceitos de que a esquerda progressista, inteligente e avançada tanto gosta, talvez seja interessante citar exemplos de onde a esquerda e seu execrável projeto social democrata moralista fracassou:

"as ministras do Comércio e da Cultura Suécia foram obrigadas a se demitir só porque a imprensa descobriu que elas não assinaram as carteiras de trabalho das babás dos seus filhos. Procederam assim para pagar menos impostos.
Uma faxineira registrada recebe cerca de 40 dólares por hora. Sem registro, 14 dólares"

E olha que lá cultura é coisa séria. Aprender música não é bater lata e fazer filme é coisa de Bergman, he he he.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 19:18:00 BRT  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Acho que você acerta e está pegando a coisa ainda em movimento. Parece que está havendo sim um deslocamento da campanha Lula não sei se para a esquerda, mas com certeza para o nacional-desenvolvimentismo (esquerda e nacional-desenvolvimentismo têm pontos de contato mas não são a mesma coisa). Há uma dialética aí: por necessidade tática, no 2º turno, Lula foi para o nacional-desenvolvimentismo. Para surpresa (creio que de todos ou quase todos) o eleitorado respondeu melhor do que se esperava. Aí a correlação de forças se altera e o processo político se movimenta.Me lembro de uma lição de um velho dirigente comunista da minha época do PCB, nos começos do Governo Figueiredo (já lá se vão quase trinta anos): na cena política há diversos projetos e forças em disputa, mas há um só processo político, que resulta da correlação entre as diversas forças. A habilidade do político está em não confundir o seu projeto (subjetivo) com o processo (objetivo), erro comum especialmente nos 'principistas'.

A propósito, me parece que a adesão de Chico de Oliveira e de Mangabeira Unger (que bem sabem a diferença entre projeto e processo) à Lula tem a ver exatamente com essa guinada para o nacional-desenvolvimentismo.

Vamos ver que bicho dá.

Atenciosamente, Fernando Trindade

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 19:24:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Será que Caetano vai Lular depois da "adesão" de Mangabeira Unger?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 19:53:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

"Se Lula e o PT estão pondo nos trilhos uma composição mais à esquerda e mais nacionalista (para enfrentar uma outra, mais liberal e mais globalista), trabalham (ainda que involuntariamente) para fortalecer uma hegemonia de esquerda no próximo período"

Alon

Veja como é cada vez mais complicado utilizar os termos "direita" e "esquerda".
Essa sua frase, se retirada do contexto (resposta ao eleitor do PSOL), faz pouco ou nenhum sentido.

Lula assumiu sim um discurso de campanha com os temas clássicos do esquerdismo. Mas o fez de olho nas pesquisas. Lula, apesar de ignorante, tem uma atilida inteligência política. Eu notei as piscadelas, na sabatina da FSP, para Aécio, Serra e FHC.

O L.C. Mendonça de Barros saiu-se com uma ótima hoje: "se o sistema a telebrás não houvesse sido privatizado ele seria tão ruim quanto as estradas federais". Lula sabe que Mendonça tem razão. Mas Lula, pelo menos até o final do processo eleitoral, nunca irá admitir isso de público. Lula não tem vergonha de declarar-se antiprivatista quando as pesquisas lhe mostram que isso é bom para ganhar eleição.

O fato é que os esquerdistas ficaram assanhados com a inflexão lulista. Como você bem observou, todo esquerdista, porque sonha com "futuros radiantes", é um otimista.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 20:08:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Lula não é bobo. Bobo é quem acha que Lula é bobo. Ou seja, a alta tucanagem passou atestado de bobeira nessa eleição.

Lula entendeu duas coisas:

1) O que falta privatizar são empresas das quais o inconsciente coletivo brasileiro têm orgulho.
2) A privatização que as pessoas lembram não é a da Telebrás, que deu certo, mas sim a do setor elétrico, um apagão no atacado e no varejo.
3) Mesmo entre as privatizações que deram certo, existe uma que pode ser atacada: a da Vale, desde sempre envolvida numa batalha jurídica que tem tudo pra acabar numa grande confusão e numa batalha de mídia que nunca acabou de verdade.

É em cima disso que ele está construindo a imagem de "partido privatista" dos tucanos.

O Mendoncinha pode vir falar de Telebrás, o FHC pode desafiar o Lula a reestatizar a Vale, essa briga o Lula não vai comprar, pelo contrário, cada vez que um tucano chama o Lula para a briga ele ganha um reforço nessa construção da imagem negativa, até porque EM NENHUM MOMENTO os tucanos vieram defender vigorosamente as privatizações que fizeram, tanto ao nível federal quanto em São Paulo.

E aí Lula vai desgastando os tucanos na agenda negativa.

Moral da história? 61x39 no Vox Populi. O povo já notou que o barata-voa está comendo solto na campanha do Geraldinho. Está vendo nas manchetes desesperadas dos jornalões.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 22:51:00 BRT  
Anonymous Leonardo Bernardes disse...

Concordo contigo, Cesar, mas classificar a venda da Vale como privatização que deu certo só faz sentido se considerarmos a perspectiva de quem a comprou. Ou adotarmos o regime minimalistas dos neoliberais.

Voltando ao assunto do post. Parabéns, Alon, você sempre me surpreende pela versatilidade. Sem querer ofender a classe, nunca pensei que pudesse ler um jornalista propor uma idéia tão razoável tendo como base uma consideração de Marx textualmente fundamentada. Contudo, não imagino que todo o segmento recentemente incorporado ao seu quadro de apoio manterá uma postura flexível semelhante a de Chico de Oliveira. Há sempre quem se esconda na opulência dos projetos impossíveis.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 23:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, perdoa, mas essa tese de que, ao fim e ao cabo, a Heloísa Helena é uma espécie de "vencedora moral" das eleições é só uma piada... A bancada do Psol foi reduzida à metade e, na vaga da grande senadora, foi eleito Collor.

Não existe esquerda se ela não se manifesta como um programa ou uma ação de governo. O governo Lula é apenas a mistura de um íncontestável líder de massa, um arranjo macroeconômico claramente liberal e MUITO assistencialismo. Não há nisso nem cheiro de esquerda...

Por fim, Lula passará os pr´´oximos quatro anos no colo do PMDB e seus GRANDES LÌDERES DE ESQUERDA, como José Sarney...

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 23:36:00 BRT  
Anonymous Pobre Paulista disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 01:10:00 BRT  
Anonymous João disse...

Por uma questão de tempo vou fazer apenas alguns apontamentos:

1. Chico de Oliveira traz uma leitura inovadora do atual momento desde seu Ornitorrinco: coloca o PT e PSDB como representantes da mesma classe social disputando os fundos públicos.

2. Com a correta observação de que a tucanada tem uma sanha privatista muito maior.

3. E o PT ainda ocupa mesmo um espaço à esquerda na sociedade, no imaginário popular (cada vez menos) e nos rincões onde combate velhas oligarquias. Em São Paulo, por exemplo, é apenas uma formidável máquina eleitoral.

4. Lula foi eleito em 2002 fazendo concessões ao capital financeiro e à elite econômica, continuará fazendo no segundo mandato. Blairo Maggi que o diga, o agronegócio agradece.

5. Os movimentos sociais e as entidades e dirigentes que apóiam Lula agora são os mesmos que apoiaram em 2002 (com algumas dissenções), isso não garantiu que estes setores governassem ("quem elege governa"). Pergunte ao MST.

6. E pergunte ao João Felício, do mesmo grupo político que Lula, por que ele acha que o governo operou para que ele não fosse o candidato a presidente da CUT.

7. O falacioso pacto social proposto em 2002 agora ganha nova roupagem e se desenvolve na tese da concertação, que o conservador Lembo definiu bem: trata-se de conciliação.

8. Num país como o Brasil não há bloco histórico à esquerda com conciliação de classes. Para haver é necessário romper com as elites, que não foram capazes de fazer as reformas burguesas. Quem as farão serão os próprios trabalhadores, constituindo um bloco histórico necessariamente socialista.

9. Alckmin mal saiu de Pinda. Entrou nessa disputa pra perder, desacreditado pelos próprios parceiros e pela elite econômica. Se não fossem as trapalhadas mafiosas de petistas Lula matava no primeiro turno.

10. E não é o segundo turno que abre possibilidade de um novo bloco histórico. O PSol, por exemplo, não terá participação nenhuma no próximo governo. Fará oposição.

11. Acredito que há um certo grau de impoderável pro período pós-eleitoral pois não se sabe até onde a direita tradicional vai querer levar a disputa. Se tentarem melar o jogo, abre-se uma nova conjuntura. No mais, acredito que uma análise mais apurada sobre bloco histórico e hegemonia deve-se fazer a partir das movimentações do futuro governo, após a fervura eleitoral. E se fizermos isso a partir do que foi o primeiro, definitivamente não se trata do que você defende.

Grande abraço.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 15:16:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home