sábado, 14 de outubro de 2006

Esconde-esconde (14/10)

Recebo emails para desenvolver assunto tratado de passagem em post anterior, onde afirmei que a resiliência de Luiz Inácio Lula da Silva neste processo eleitoral nasce de o presidente liderar e expressar (ainda quando não lidere) um bloco político-social hoje majoritário na sociedade brasileira. Deveria, para ser mais preciso, ter falado em bloco histórico majoritário. Ou bloco histórico hegemônico. O que se passa tem mais a ver com Antonio Gramsci (foto) do que com Vladimir Lênin. Aliás, parênteses sobre o comunista italiano. Passei uns anos fora do jornalismo e da política, cuidando da área comercial e de atendimento do UOL (1996-2002). Quando voltei, fiquei espantado com a dureza que críticos do socialismo dedicam a Gramsci. Qual foi a essência da contribuição dele ao marxismo? A coragem de mergulhar nas contradições internas do Estado, da política e da cultura. Esse mergulho teve como efeito, tempos depois, a abertura de uma larga avenida para a esquerda transitar até o conceito de "democracia como valor universal", popularizado pelo mesmo Partido Comunista Italiano do qual Gramsci havia sido secretário-geral. A esquerda pós-Gramsci é menos insurrecional e mais política. Um belo avanço. De volta ao Brasil. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi, no nascimento, o estuário dos remanescentes da guerrilha dos anos 60 e 70 do século passado. Entretanto, em termos práticos, só o que o PT tem feito ao longo de um quarto de século de vida é organizar-se para disputar eleições e ocupar espaços institucionais. Qual é o problema nisso [desde que respeitados os limites da legalidade; mas vocês conhecem a minha opinião sobre esse tema: é a Justiça e não eu quem vai dizer se o sujeito é -ou não- criminoso]? O problema não está no PT, ou na esquerda. Está nos adversários do PT, e da esquerda. Em vez de se organizarem, de construírem partidos, de arregaçarem as mangas, de sujarem os pés com barro para arregimentar pessoas em torno de idéias e de projetos, lamuriam-se, resmungam e rugem contra o avanço dos oponentes nas esferas política e cultural. Agarram-se às ruínas do coronelismo enquanto se apresentam como os modernizadores da sociedade brasileira. Aí chega a campanha eleitoral e não conseguem sequer perfilar-se diante do eleitor envergando as próprias idéias. O mais impressionante nos últimos meses é o completo divórcio cultural entre os políticos liberais (ou social-democratas) e os seus intelectuais orgânicos. PSDB e PFL reduziram os seus intelectuais orgânicos a torcedores de arquibancada na cruzada moral em que tucanos e pefelistas vêm pretendendo transformar esta eleição. Tenho tratado do tema desde o começo do ano. A essência do que penso está em Caravelas liberais contra o vento, em mares nunca dantes navegados, de abril. Bem, agora a coisa explodiu. O PT introduziu na pauta dois assuntos-chave do debate político-ideológico: privatizações e cortes orçamentários. Ou seja, introduziu o tamanho do Estado na agenda eleitoral. Uma pauta tipicamente liberal! Modernizante! Ao que os adversários respondem escondendo-se. Ou tentando se esconder. A duas semanas do segundo turno, PSDB e PFL passam o tempo dizendo que não vão privatizar nada e que dá para cortar radicalmente no custeio sem atingir os investimentos sociais. Queriam uma evidência de que o bloco histórico à esquerda alcançou algum grau de hegemonia no Brasil? Aí está.

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18 Comentários:

Anonymous Cesar Cardoso disse...

Discordo da conclusão, Alon, embora concorde com a análise. Não existe uma hegemonia do bloco da esquerda; existe, sim, apenas um lado da discussão ideológica se apresentando.

O grande problema é que o Brasil nunca teve um partido de direita que se assumisse como direita, em vez de ficar nos bordões fáceis e no golpismo quando as coisas não dão certo. Alguma coisa como o SPD alemão ou os Tories ingleses.
Poderia ter sido a UDN, mas logo preferiu partir para o golpismo.
Poderia ter sido o PDS, mas estava marcado demais como o 'partido da ditadura'.
Poderia ter sido o PFL, mas preferiu embarcar no coronelismo.
Poderia ter sido até mesmo o PSDB, aproveitando o embalo do Geraldinho, mas quem nasceu pra ficar no muro nunca vai descer dele.

Isso é MUITO RUIM para o Brasil, pois falta o contraditório, falta o outro lado da discussão dialética sobre os rumos nacionais.

E é uma pena que esse bloco não vai aparecer nessa eleição.

sábado, 14 de outubro de 2006 20:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Esse bloco histórico hegemônico gramsciano vem desenvolvendo as seguintes teses ao longo de vinte anos:
ensino público, gratuito e de qualidade;
ética na política;
fim da especulação financeira;
contra a "financeirização" da economia e ênfase na economia real;
fim das estruturas getulistas de cooptação;
intervenção estatal contra a miséria e fim da apropriação simbólica das ações de combate estatal à miséria.
Felizmente, uma vez no governo, ele pode mostrar suas realizações:
PROUNI com fim do PROVÃO
Legenda para reeleição de JPC e Palocci;
Juros reais duas vezes superiores à média dos emergentes;
taxa de crescimento 70% menor que a dos BRICs;
manutenção do imposto sindical e sua extensão para o nível das centrais sindicais;
Bolsa familia como concessão direta do Presidente-Messias.

Não é à-toa que esse bloco-histórico depende dos votos dos menos escolarizados e dos mais vulneráveis.

sábado, 14 de outubro de 2006 20:10:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Você está sendo muito bonzinho.

Críticos do socialismo que falam mal de Gramsci = adoradores do maluco do Olavo de Carvalho, analfabeto funcional que sequer leu os textos do autor italiano -- e se leu, não entendeu.

sábado, 14 de outubro de 2006 20:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É risível na esquerda brasileira clamar pelo "outro lado". Ganharam a eleição e colocaram um tucano na presidência do Banco Central. Fizeram tudo ao contrário do que falavam. Pagam 180 bilhões de juros ao ano.
Vocês já são o contraditório. Vocês são a dialética viva.

sábado, 14 de outubro de 2006 21:17:00 BRT  
Anonymous Sergio Maidana disse...

Alon,

como você está confuso. PT esquerda? desde quando meu chapa? Nunca foi e nunca será. Esquerda não compra votos com dinheiro público disfarçado em "assistência social". Isto é coisa de direita "reaça". Não era isso que diziam?
O grande problema de hoje, é que os velhos centauros da esquerdas estão orfãos de algum projeto e embarcaram no projeto do PT, que nada mais é do que um tropa de sindicalistas afoitos pelo poder e fazem de tudo para permanecer nele.
Sei que não vai publicar esta nota, mas, digo: sua opinião me dá pena! Um dia quem sabe, tomando um chopinho, eu possa debater mais sobre o moderno e o coronelismo, com você e o Noblat. Vocês estão muito equivocados. Quem já foi administrado por governo do PT, sabe o que estou falando.

Outra: nunca ouvi falar que esquerditas anda escondendo a verdade, manipulando provas, apra inocentar companheiro. Isto é coisa de bandido.

sábado, 14 de outubro de 2006 23:31:00 BRT  
Anonymous kest disse...

Em um país em que 25% da população passa fome ser de esquerda é fazer algo para os que mais precisam e não piorar a vida deles.É fazer o que esses caras em 500 anos de poder não conseguiram que é redestribuir renda.E isso, dentro do capitalismo, faz crescer o socialismo, alcançar o marx civilizatório.Torna a sociedade mais justa e ainda ajuda o capitalismo pois cria um novo tipo de consumidor que antes era nulo.E isso que o governo do pt vem fazendo, dando condições dignas de vida a quem antens não as tinha.

domingo, 15 de outubro de 2006 01:26:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Não vejo bloco hegemônico de esquerda. O voto do PT hoje é do grotão. Portanto, a hegemonia petista é a mesma dos coronéis de sempre, mais os malucos que acreditam na redenção do Senhor na forma de Luis Inácio.
Os números, inclusive, mostram isso.

domingo, 15 de outubro de 2006 01:43:00 BRT  
Blogger Idelber disse...

Alon, em primeiro lugar: seu blog está cada vez melhor. Está se transformando em ponto de referência obrigatória para a política na internet brasileira. O post acima é inteligente e tenta "agarrar o touro pelo chifre", mas eu discordaria de uma coisa: o bloco é, ao que tudo indica (e o segundo turno confirmará ou não), majoritário, mas hegemônico de jeito nenhum. A distinção é importante no pensamento de Gramsci. Você pode ter a maioria e não ser hegemônico. Hegemonia implica que um programa está enraizado a tal ponto na sociedade que, numa eleição, por exemplo, bastaria que uma das forças políticas convencesse a maior parte da sociedade de que ela é a verdadeira defensora daquele programa para que a vitória estivesse garantida. Algo assim como a hegemonia do New Deal nos EUA nos anos 30 ou a hegemonia bolchevique na Rússia nos anos 20 (quando ainda havia luta por hegemonia por lá). Não há tal coisa no Brasil: tanto que em 2010, quando Lula não possa mais se candidatar, é bem possível que a "hegemonia" vá para o brejo. Aliás, poderíamos inclusive imaginar o oposto: há uma hegemonia da centro-direita no Brasil, tanto que o PT só conseguiu ganhar eleições no momento em que prometeu estabilidade da moeda, pagamento da dívida, bancos bem cevados, etc. - ou seja, no momento em que, pelo menos parcialmente, jogou fora boa parte do seu programa e abraçou premissas monetaristas. Deixo um link para um texto meu sobre o PT que toca nesse tema; talvez interesse: http://www.bazaramericano.com/bazar_opina/articulos/avelar_dic2003.htm

Abraços,

domingo, 15 de outubro de 2006 02:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu escrevi algo que não foi publicado, mas vou escrever de novo neste post:
O Lula, no nível nacional, reproduz o Roriz no nível do DF.
É impossível ganhar de um candidato que se apropria simbolicamente dos benefícios que concede com recursos públicos. Você pega a massa de pobres do DF e pergunta a eles: quem "deu" lotes para vocês? RORIZ.
O Roriz é invencível no DF, a despeito do que ele faça ou deixe de fazer.
O Lula é invencível no público abaixo de 2 mínimos, independente do que ele deixe de fazer.
Chamar isso de hegemonia de esquerda é um pouco demais.

domingo, 15 de outubro de 2006 07:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, o que falta à direita é um "Piero Gobetti" que faz da idéia um instrumento para se atingir uma finalidade objetiva. A direita brasileira ficou órfã após a morte de José Guilherme Merquior, que em seu livro sobre o liberalismo, dizia coisas do seguinte jaez: "O novo liberalismo de 1880 ou 1900 consistiu em três elementos essenciais: ênfase na liberdade positiva, preocupação com a justiça social e desejo de substituir a economia do laissez-faire". Hoje, falta uma idéia, uma ideologia, à direita brasileira para propor um caminho para se atingir a liberdade positiva com justiça social.

Rosan de Sousa Amaral

domingo, 15 de outubro de 2006 10:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Aqui você tem um ponto defensável, aliás, deveria extendê-lo. Não existe partido político de direita no Brasil, foram eliminados no período militar. Período militar estatizante, que de liberal nada tinha.
A esquerda vive reclamando dos militares quando na verdade ela foi a maior beneficiada. o PT, de Lula, que manifesta sempre saudades do tempo da ditadura, quando podia comprar seu fusquinha, cogita em ter Delfim Netto como ministro...nada mais revelador.

JV

domingo, 15 de outubro de 2006 10:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O resultado das urnas no 1º turno é um retrato do governo assistencialista e pró-pobre de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Quanto maior a concentração de programas sociais e assistenciais nos Estados, maior foi a votação do presidente. O mapa do Brasil com a incidência por Estado do atendimento do Bolsa Família, por exemplo, é um "decalque" da votação obtida por Lula na maioria das unidades do país.

O mesmo vale para o peso do salário mínimo por região e os votos válidos obtidos no 1º turno. Reajustado em quase 25% em termos reais (acima da inflação) no atual governo, o mínimo é o indexador de aposentadorias e benefícios assistenciais pagos pela Previdência.

Os efeitos dessa maior transferência de renda pública para os indivíduos mais pobres teve reflexos importantes na economia de cada região. A evolução das vendas nos últimos 12 meses, por exemplo, revela que onde o comércio cresceu mais, a votação de Lula também avançou mais na comparação com seu desempenho no 1º turno em 2002.

Na mesma comparação com 2002, o desempenho de Lula em 2006 nas regiões Norte e Nordeste foi muito superior em 1º de outubro último.

Nos Estados do Nordeste, entre 42,1% e 50% da população vive em famílias atendidas pelo Bolsa Família. Na região, 46% dos trabalhadores e beneficiários da Previdência recebem salário mínimo.

Lula teve de 56,1% a 80% dos votos válidos no Nordeste, seus recordes. Na região Norte, onde o Bolsa Família atinge entre 26,1% e 42% da população e o salário mínimo, 31% dos trabalhadores e beneficiários da Previdência, Lula teve entre 44,1% e 68% dos votos válidos.

Norte e Nordeste também foram as regiões onde o comércio teve um desempenho superior à média nacional. No Nordeste, cresce quatro vezes mais. Nas demais regiões (Centro-Oeste, Sudeste e Sul), a votação de Lula seguiu a mesma tendência. Nelas, o Bolsa Família atinge entre 10% e 26% dos habitantes e o salário mínimo entre 18% e 23%. Lula teve entre 20% e 44% dos votos válidos.

O desempenho de Geraldo Alckmin (PSDB) seguiu exatamente o mesmo padrão, mas de modo inverso. Onde há menos programas sociais e pessoas recebendo salário mínimo, o tucano teve mais votos. "Tirando o aspecto da corrupção, é impressionante como Lula cumpriu o que prometeu, que era governar para os mais pobres. E o dividendo eleitoral é claro", afirma Celso Toledo, economista-chefe da MCM Consultores.

Toledo afirma que, para transferir renda, qualquer governo precisa tirar dinheiro de quem produz para dar a quem não produz, o que explicaria a tendência de crescimento baixo dos últimos anos.

"Como a desigualdade no Brasil é grande, isso até faz sentido. O problema é que o setor produtivo já está absolutamente estrangulado, e o sacrifício em termos de crescimento acaba sendo bem maior", afirma.

O cientista político Leôncio Martins Rodrigues diz que o resultado da votação vinculado às transferências de renda revela que o eleitor brasileiro ainda não consegue ter "um comportamento político autônomo".

"Como essa grande população é paupérrima, ela continua propensa ao voto clientelístico e a manter sempre a expectativa de receber algo do Estado." Para o sociólogo Antônio Flávio Pierucci, os programas sociais são importantes, mas precisam ser relativizados. "Esse dinheiro vai direto para o bolso, mas toda a encenação do governo Lula é um longo minueto pró-pobres", afirma.

domingo, 15 de outubro de 2006 12:51:00 BRT  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Outro bom mote para a discussão.
Concordo com Idelber, o bloco liderado por Lula é hoje 'majoritário' mas esta longe de ser 'hegemônico'. É mais ou menos como 'governo' e 'poder', atenção: chegar ao Governo não é necessariamente estar no poder (veja-se o poder da mídia hoje no Brasil, Wanderley Guilherme trata muito bem dessa questão). Aliás confundir governo e poder foi erro grave cometido pela esquerda em 64 (e muitos lulistas e petistas têm cometido hoje). Sem dúvida temos que ler e discutir Gramsci.

Mas o que eu queria dizer mesmo é o seguinte. Acho que a perplexidade de muitos tem a ver com a incompreensão que as elites do sul (especialmente as de São Paulo para baixo, as de Rio e Minas não são sul para esse efeito)têm do que é o Brasil, qual a nossa identidade? E quando falo elites incluo as intelectuais, inclusive as de formação marxista-economicista. O maior exemplo dessa incompreensão está na mídia (ver Folha e Estadão, não por acaso paulistas): Alckmin moderno, representa a iniciativa privada; Lula atrasado, estatista. Tal simplismo não pode dar conta da nossa complexidade cultural e regional e das nossas contradições sociais .

Sobre isso recomendo (estou lendo) novo e excelente livro do Silviano Santiago: 'As raízes e o labirinto da América Latina', no qual o mestre reflete sobre a questão da nossa identidade, a partir do (re)estudo de 2 clássicos,Raízes do Brasil, Sérgio Buarque (1936) e o Labirinto da Solidão, Ocátvio Paz (1950). Perceba-se como têm a ver com o momento atual os dois termos chaves desses livros: 'raízes' - o que somos? 'labirinto' - onde estamos metidos?

Para não me alongar mais, transcrevo pequeno trecho (da obra de Sérgio Buarque) que é atualíssimo e mostra que boa parte de nossas elites ainda permanecem com as suas 'idéias fora do lugar'.
Diz Silviano Santiago: "Sérgio afirma no parágrafo de abertura de Raízes do Brasil: "Trazendo de países distantes (da Europa), nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra (p.20)".

Agora digam os 'de cima' que não entendem como é que Lula continua favorito, se o seu sentimento não é similar ao dos seus vovôs, a quem Sérgio Buarque deu voz, em 1936? Atenciosamente, FTrindade

domingo, 15 de outubro de 2006 14:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vai em italiano mesmo:

Pur essendo sempre stati legati alle classi dominanti, ottenendone spesso onori e prestigio, gli intellettuali italiani non si sono mai sentiti organici, hanno sempre rifiutato, in nome di un loro astratto cosmopolitismo, ogni legame con il popolo, del quale non hanno mai voluto riconoscere le esigenze né interpretarne i bisogni culturali.

domingo, 15 de outubro de 2006 17:35:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

"Esse mergulho teve como efeito, tempos depois, a abertura de uma larga avenida para a esquerda transitar até o conceito de "democracia como valor universal", popularizado pelo mesmo Partido Comunista Italiano"

Alon

Vamos situar Gramsci na sua época. Não faz sentido pensar que um comunista dessa época estivesse pensando a democracia como valor universal. Mesmo tratando-se de Gramsci. Essa discussão não existia entre os comunistas nessa época.

A diferença entre Lênin e Gramsci é que este último militou na época do "termidor" de 1917. Sua grande contribuição foi reconhecer isso e oferecer alternativas ao modelo leninista/stalinista. Não por acaso, portanto, este intelectual e militante comunista era execrado nos círculos esquerdistas brasileiros até bem pouco tempo. Vamos recordar aqui que a intelectualidade esquerdista brasileira orbitou majoritariamente em torno do PCB. Quem sobrou, preferiu Trotski. Contam-se nos dedos de uma mão intelectuais esquerdistas que se reivindicavam de Gramsci. Hoje talvez eles existam aos montes. Mas não com a qualidade daqueles primeiros.

Gramsci foi comunista. Nunca declarou-se um social-democrata. Relativamente aos objetivos estratégicos da 3ª Internacional não há em Gramsci nenhuma revisão. Seu pensamento, no essencial, reencontra-se com o de Lênin, Stálin e Trotski. A briga dele no interior da 3ª se deu no campo da discussão tática. Ele estava preso numa cadeia fascista quando escreveu seus principais livros. O momento histórico era outro e muito desfavorável aos comunistas e aos seus objetivos estratégicos.

O que o PCI fez muitos anos após a morte de Gramsci, fez motivado muito mais pela pela constação do fracasso histório da 3ª Internacional e do comunismo soviético do que por influência deo pensamento de Gramsci. Penso que Gramsci foi muito mais a bela moldura do que a pintura nesse novo quadro do PCI.

O que afirmo acima, sobre o PCI, é o meu modo de correr riscos. Fundamentar a afirmação seria trabalho de pesquisa e que não cabe aqui. Expresso uma opinião. A minha.

A democracia como valor universal, ou melhor, ou a universalização da democracia como valor não tem, e nunca teve, nada a ver com os comunistas. Stálin. Mao, Enver, Fidel, Pol Pot, Cháves, Evo, para citar os mais conhecidos, como situar essa gente? Qual o campo político dessa turma? O da democracia é que não é.

domingo, 15 de outubro de 2006 17:55:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

A discussão remete mais ao melhor governo (gestão), do que aos princípios ideológicos em si.
Os tucanos se envergonham de defender suas políticas privatizantes porque não conseguem apresentar benefícios que eram esperados e não ocorreram (redução de impostos e dos valores das tarifas, além da redução da dívida ao vender patrimônio).
Lula apresenta os resultados de seu governo com orgulho e convicção, porque os resultados positivos são evidentes: houve distribuição de renda e aumento do emprego, além diminuição da dívida (relativa ao tamanho PIB), sem venda de patrimônio, e sem aumento de impostos (não confundir alíquotas que diminuíram, com arrecadação que aumentou com o combate à sonegação).
A pergunta que caberia fazer é como seria o governo Lula, se fizesse algumas privatizações, mantendo a gestão social que tem. Impostos poderiam ser diminuídos? Os benefícios sociais poderiam ser maiores?
De qualquer forma os tucanos não se credenciaram para apresentar essas respostas, pelo seu histórico pregresso de gestão temerária.
Na Inglaterra, Margatreth Thatcher tinha resultados positivos a mostrar de suas políticas neoliberais, e por isso reelegeu-se e fez seu sucessor defendendo suas próprias idéias, coisa que os tucanos não tem como fazer no Brasil.

domingo, 15 de outubro de 2006 18:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Geraldo não tem programa de governo, tá naquela base do "Fala qualquer coisaa pra ganhar a eleição e depois a gente ve o que faz". É impressionae como ele fica na defensiva quando o debate é programático

segunda-feira, 16 de outubro de 2006 04:04:00 BRT  
Blogger Giuseppe Arcimboldo disse...

Acho que um ponto interessante é o fato do ser humano, por mais que negue, não gostar de mudanças bruscas. Mudar tudo de uma só vez desequilibra o ser humano, a coisa tem que ser gradual. Todo discurso político que traz elementos de mudança muito acentuadas causa desconforto e desconfiança. E não só no povo : basta ver o que aconteceu, por exemplo, com o mercado financeiro no pré-Lula, em função do medo do discurso histórico do PT com relação ao FMI, contratos, etc.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006 19:59:00 BRT  

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