terça-feira, 31 de outubro de 2006

A Era Palocci só começou, ministro (31/10)

De volta à velha vidinha depois de um ano e meio de emoções fortes, crise política e uma duríssima refrega eleitoral. Vai ser difícil se conformar com a modorra das pautas de sempre. O PT aceitará ceder poder para que Luiz Inácio Lula da Silva amplie a base de apoio? O PMDB conseguirá unir-se para fazer o que quer que seja? E o PSDB, vai alcançar algum consenso interno, essencial para se manter como alternativa nacional? O agora reeleito presidente vai continuar se irritando com as declarações do antecessor? Fernando Henrique Cardoso vai continuar se esmerando em declarações que irritam Lula? Mas não nos desesperemos: enquanto o PT estiver aí, firme, sempre haverá quem nos forneça matéria-prima para emoções fortes. E essa agora dos ministros Tarso Genro e Dilma Rousseff, de tentar surfar na onda da vitória de Lula para decretar o fim da Era Palocci na economia? Já tratei do assunto em post anterior [no qual previ que teriam que recuar], mas volto a ele. O PT convive com uma esquizofrenia. O partido montou ao longo de duas décadas um portfólio econômico que foi para o lixo quando a legenda chegou ao poder. Lula preferiu, com sabedoria, apostar todas as fichas na responsabilidade fiscal e na geração de superávits operacionais que estabilizassem a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto. Deu também total prioridade ao controle da inflação. Foram decisões políticas 100% corretas. Sem a economia totalmente estabilizada e sem a inflação inteiramente sob controle o presidente provavelmente não teria conseguido resistir às pressões da crise. Possivelmente não teria sequer terminado o mandato. Quanto mais obtido a reeleição. Esqueçam as fantasias, senhores. Abandonem as ilusões. O núcleo que segura Lula no poder são os pobres que encontram comida barata no mercado e material de construção barato na loja. É aquele pessoal que nos piores momentos respondia "Lula" quando perguntado pelos pesquisadores em quem iria votar para presidente. O petista só vai aceitar abrir mão disso se tiver endoidecido. Lula dará livre curso aos debates sobre a necessidade de crescimento mais acelerado, para oferecer carne aos seus próprios leões e para não deixar essa bandeira nas mãos da oposição. O entorno de Lula vai até acreditar que ele está disposto a romper com as idéias do hoje deputado federal eleito e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. Sonhar não custa nada, desde que se controle a língua. Mas quem acredita na ruptura entre Lula e Palocci está a um passo de acreditar também em Papai Noel e na Cegonha.

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12 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Basta lembrarmos do "espetáculo do crescimento", do "parto da criança que leva 9 meses", do "time que está arrumando a casa" e outras metáforas escdrúxulas ouvidas nos últimos 4 anos para sabermos que se trata de uma bela patuscada.
A única verdade que Lula disse a respeito de seu futuro governo é que ele não vai compará-lo ao anterior, ou seja, seu primeiro mandato. Ninguém precisa deste tipo de comparação.

terça-feira, 31 de outubro de 2006 11:39:00 BRT  
Anonymous Macunaíma disse...

Eu não gosto de subestimar a inteligência dos petistas e nem de citar as teorias sobre adjetivos dos meus amigos.

Eu tenho um amigo que diz que alguns adjetivos só podem ser usados acompanhando um único substantivo. Por exemplo: torrencial só existe para chuva e inclemente, para sol. Mas o caso mais clássico é sardônico. Onde mais você poria sardônico, senão na frente de riso? Pois é. Estou tendo que usar meu estoque de risos sardônicos toda vez que algum petista amigo reproduz o dernier cri dos blogs lulistas: a interpretação de que a expansão da internet teria sido o diferencial para que as críticas da “imprensa tradicional” ao PT ou a perseguição ao partido promovida pela “imprensa burguesa” - na forma mais leninista da idéia conspiratória - tivesse sido neutralizada pelo movimento da “verdadeira” opinião pública - essa, sim, esclarecida, bem formada e não manipulável - e que se difundiu por meio dos blogs, dos e-mails, etc.

Ao olharmos o mapa do resultado das eleições, o que se vê? a vitória de Alckmim se deu exatamente nos Estados que vão do RS a SP, chegando ao MS. São aqueles em que há maior penetração da internet e em que a população depende menos do Estado. Ao contrário, os estados onde prevalece o voto em Lula, por exemplo, Pernambuco e Paraíba, são os estados onde o índice de inclusão digital é menor, comparativamente, e é maior a dependência ao bolsa-família.

Alguém imagina mesmo que um sertanejo do Caicó, com seu cartãozinho do bolsa-família no bolso, fica lá na sua casinha de taipa, lendo os blogs depois do almoço e se vacinando contra as malévolas exortações da imprensa burguesa?

Nesses momentos uso meu riso. Do tipo sardônico.

Se eu fosse um gótico, com alguma pretensão para Mefistófeles, eu ia inocular uma ideiazinha estranha no debate: que a correlação entre pobreza e desinformação existente no voto para o Lula talvez reflita a velha, surrada e bem sucedida tática eleitoral de dar filé aos ricos e migalha aos pobres. Vide Adhemar de Barros, Maluf, Roriz etc.

Quando a esquerda não gostava dessa tática e a considerava um sacrilégio, o PT do Distrito Federal achava um absurdo o Roriz fazer isso por aqui. A diferença é que o Roriz sempre teve uma oposição à esquerda em seu calcanhar e o Lula, hoje, tem a esquerda como aliada que faz o inverso do que fazia. Ela faz o trabalho de legitimação ideológica dessa prática. O pecado virou virtude.

Por falar em manipulação da informação, também é relevante lembrar que sempre houve um tipo de mídia muito barulhenta contra os outros governantes e que desapareceu neste governo: as passeatas e os megafones da CUT, da UNE e do MST.

É claro que não foi por dinheiro. Eles recebem lá sua mesadinha, mas sabem, como diz o Lula, diferenciar o joio do trigo. Quem mexe com essa coisa suja de dinheiro é a burguesia, não é mesmo?, além do Delúbio Soares e do Silvinho Pereira. Que afinal, não têm nada a ver com a famiglia, são apenas ovelhas desgarradas...

Pois bem, mas se a esquerda não estivesse tão preocupada em blindar o Lula, talvez ela descobrisse que o bolsa-família equivale a 0,4% do PIB e que os juros equivalem a 9%.

Houve um tempo em que a esquerda lia menos blogs e mais livros. Nessa época, eles tinham acesso, por exemplo, à questão do mezzogiorno, em que Gramsci chamava a atenção para a funcionalidade da política de granjear os votos do sul atrasado para reforçar as políticas de interesse da elite do norte desenvolvido.

Há esquerdas e esquerdas no mundo. A esquerda brasileira aplaude isso e prefere combater a imprensa burguesa. Faria melhor negócio em combater outra fração da burguesia: o sistema financeiro.

Mas como dizia o Mário de Andrade: Isso dá uma priguiiiiiiiiiiça!

terça-feira, 31 de outubro de 2006 11:53:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Ora, imagino que se o povo quisesse mudança nos rumos, teria votado no Alckmin e não no Lula. Continuamos sem entender como funciona a reeleição.

O resto é gente que ainda continua no mundinho de fantasia. Seja de terceiro turno, seja de mudanças radicais no segundo mandato.

terça-feira, 31 de outubro de 2006 12:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Acorda Macunaíma. A maior recuperação de Lula no segundo turno se deu no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste desenvolvido. Em São Paulo a diferença ficou em menos de um terço do que tinha sido no primeiro turno. Acorda Macunaíma. Em Minas e no Rio foi um arraso.

terça-feira, 31 de outubro de 2006 12:14:00 BRT  
Anonymous arkx disse...

a manutenção dos programas compensatórios de Lula, e mesmo transferência de renda via aumento de salário mínimo, não tem mais sutentação sem a retomada do desenvolvimento, o que pressupõe mudanças macroeconômicas (queda dos juros e mudança no câmbio). não dá para subir ainda mais carga tributária. corte de gastos administrativos-operacionais tem impacto insuficiente(choque de gestão, é como cortar cabelo para perder peso). mais reformas neoliberais (previdência, trabalho) e privatizações, sem qualquer chance após a inflexão do segundo turno. seja de um jeito ou de outro (aliás, a porta da cela está aberta. para arrecadar mais e gastar menos, o Estado terá que alavancar odesenvolvimento. não tenha dúvida: acabou-se a era Palocci. o faro político de Lula já o fez compreender a natureza diversa deste segundo mandato.

terça-feira, 31 de outubro de 2006 12:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Macunaíma, ouça a entrevista de Antonio Lavareda para Ricardo Boechat e faça a sua autocrítica.

http://noblat.plugin.com.br/Arquivo/
BOECHAT3010LAVAREDA.wma

terça-feira, 31 de outubro de 2006 13:27:00 BRT  
Anonymous Marcelo Pinto disse...

Sábio Alon, nos os 61% de eleitores brasileiros, votamos na sabedoria do Presidente Lula, contrariando os "proprietários da opinião pública" e da "indignação nacional", o resto é o resto. O único voto que me deixou indeciso foi o de melhor Blog Nacional! Dividido entre o seu e o do Nassif, votei em você e fiz "minha gata", "meu curral eleitoral" votar no do Nassif. Fiquei surpreso ao saber que estamos sendo arrasados pelo Blog " As garotas que dizem Ni". Me sentí como o último dos oligarcas derrotados, apesar do meu curral só ter um voto de cabresto! Mas a luta é inglória, elas tem milhões de bolsas e famílias!

terça-feira, 31 de outubro de 2006 14:30:00 BRT  
Anonymous Roberto Bastos disse...

Fica frio Marcelo, quem vai decidir o melhor blog são os juízes, não os internautas. O Blog do Alon é disparado o melhor blog do Brasil. Nao sei se os juízes vão achar isso, mas eu acho.

terça-feira, 31 de outubro de 2006 14:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Macunaíma é hilariante com sua lógia e seu riso sardônico. Insiste em um mantra cujas pesquisas e o resultado eleitoral do 2º turno o desqualifica (este mantra, não o Macunaíma): o sul rico e culto votou contra o Lula e o norte pobre e burro votou com o Lula. Além dos argumentos do anonymous (sudeste e centro-oeste, Minas e Rio votaram em Lula), acrecento que o Macunaíma se esqueceu que Brasília (maior poder aquisitivo per-cápita do país) votou em Lula, e no Paraná houve empate.
Quanto à leitura econômica, acredito que o arkx fez uma leitura correta.
Finalizando, sou bacharel graduado em uma universidade federal, tenho renda superior a 20 SM, não sou petista, mas votei no Lula. Não preciso do Estado. Pequenos passos e atitudes podem demonstrar se a pessoa é de esquerda ou de direita. Minha solidariedade me faz de esquerda.

terça-feira, 31 de outubro de 2006 17:33:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom Alon, muito bom mesmo. O Lula parece que pode aproveitar a herança de FHC, demonizado pelo PT-PT e intimamente glorificada pelo presidente do banco central escolhido "a dedo".

terça-feira, 31 de outubro de 2006 19:13:00 BRT  
Anonymous Macunaíma disse...

De onde é que você acha que vem a renda de Brasília? Você acha que o DF tem agropecuária ou indústria? Brasília é uma corte sustentada pela atividade econômica do resto do Brasil e pelos impostos decorrentes (carga tributária).
Amigo, vamos falar a verdade. O Rio é cheio de funcionário público aposentado e vive dos royalties do petróleo.
A verdade é que, com toda a sua pujança, São Paulo está "grunt and swearing under a wearing life" (Hamlet, Act III, Scene I). O peso está grande amigo, vocês vão matar a galinha dos ovos de ouro, a que se permitiem xingar e ofender o tempo todo.
E, lembre-se de que o centro da minha tese é que a internet não foi o decisivo na eleição:isso é uma fantasia racionalizante da esquerda. Onde predominou Lula, não há acesso à internet. Essa é a verdade. A esquerda não gosta da verdade. Gosta da dialética.
Minas é um caso particular. Tem mais a ver com Joaquim Silvério do que com Tiradentes. Mas isso será devidamente resolvido em 2010.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006 06:26:00 BRT  
Anonymous Osmar Schröder disse...

Alon, Lula, em minha opinião, vai ter que mexer, nem que seja minimamente, na atual política econômica, se quiser alcançar e manter os 5% de crescimento anual prometidos. O real apreciado, um dos pontos cruciais da atual política econômica, já está fazendo estragos no agro-negócio e em certos setores industriais, como de calçados e tecelagem, com sérios reflexos negativos na balança comercial. A taxa básica de juro (Selic) continua sendo a mais alta do mundo, considerando os países emergentes. A dívida pública interna prossegue crescendo de forma assustadora: já passa de 1,1 trilhão de reais. Não há dinheiro para investimentos em infra-estrutura no volume que o país necessita para alcançar a taxa de crescimento anual supracitada. Portanto, se Lula não alterar, um pouco pelo menos, os rumos da atual política econômica, vai queimar seu filme e arranhar sua biografia. Veja o caso FHC, que Lula gosta tanto de citar. Não ousou alterar o real apreciado - tarefa realizada pelo mercado em 1999, no limite de sua manutenção - fato que quase levou o país a bancarrota. Espera-se que esses passos, tão necessários, sejam dados de forma equilibrada sem prejudicar a estabilidade da moeda e sem causar terremotos na economia. É preciso torcer também para que o céu internacional continue de brigadeiro, como vem ocorrendo no primeiro mandato. Aparentemente, não será tão bom assim.
Abraços,
Osmar

quarta-feira, 1 de novembro de 2006 22:04:00 BRT  

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