quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Economicismo (19/10)

De editorial da Folha de S.Paulo de hoje (Reacomodação), transcrevo o seguinte trecho:

Essa reacomodação do favoritismo do candidato do PT decerto foi incentivada por outros fatores. O factóide, disseminado pelos petistas, sobre a 'ameaça' que a eleição de Alckmin representaria à Petrobras e ao Bolsa Família parece ter sido eficaz como tática de campanha. Se não logrou ampliar o apoio a Lula, pelo menos enredou o seu adversário: há dias Alckmin vem consumindo grande parte de seu tempo desmentindo que vá privatizar a estatal e cortar recursos do programa social. Há, porém, um fator menos conjuntural nessa ampla preferência por Lula, que quase inercialmente se refaz tão logo esfria o noticiário sobre falcatruas. Mais de um ano de pesquisas eleitorais ininterruptas deixa clara a esmagadora popularidade do presidente nas camadas de renda mais diretamente beneficiadas por políticas públicas deslanchadas sob seu governo. A inflação baixa (menor ainda nos itens que mais pesam no orçamento da maioria da população), o forte reajuste do salário mínimo, o Bolsa Família e outros programas de transferência de recursos parcial ou totalmente subsidiados beneficiam dezenas de milhões de brasileiros pobres ou próximos da pobreza. A opção dessa massa de eleitores por Lula, portanto, é racional -bem como o são os seus movimentos de hesitação, associados a desmandos gravíssimos sob a esfera do petismo governista. É uma pena, no entanto, que nem a campanha de Lula nem a de Alckmin estejam contribuindo para esclarecer o eleitor acerca dos limites desse modelo que melhora o padrão de vida dos mais pobres à custa do gasto público e da competitividade da economia -prejudicada pelos juros astronômicos e pelo câmbio muito valorizado. Ou o Brasil cresce e passa a fazer a inclusão social pelo mercado de trabalho ou os ganhos sociais obtidos nos últimos anos serão corroídos.

O editorial junta fatos reais para chegar a uma construção duvidosa. É verdade que as políticas públicas dirigidas aos mais pobres (e aos nem tanto) são o gás que mantém cheio o colchão de votos de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas não é fato que essas políticas expliquem a movimentação pró-Lula detectada pelo Datafolha. Um trecho do relatório da última pesquisa do instituto:

Entre os eleitores com renda entre dois e cinco salários mínimos ocorreu uma das variações mais significativas. A primeira pesquisa do segundo turno, realizada nos dias 5 e 6 de outubro, mostrava Alckmin com 49% e Lula com 45% das intenções de voto nesse segmento. Na pesquisa seguinte (10 de outubro), o petista oscilou para 47% e o peessedebista passou para 45%. O levantamento concluído hoje mostra que o candidato à reeleição ganhou mais oito pontos nesse estrato, chegando a 55%, superando por 14 pontos o candidato tucano, que caiu para 41% das preferências. Algo semelhante ocorreu na faixa que vai de cinco a dez salários mínimos. Na pesquisa dos dias 5 e 6 Alckmin tinha dez pontos à frente de Lula (51% a 41%). No levantamento seguinte, essa vantagem se reduziu para um empate técnico (48% a 45%), que persiste, mas, agora, com o petista à frente, com 49% das intenções de voto, contra os 45% obtidos pelo peessedebista. Alckmin continua liderando com folga entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos, mas a vantagem em relação a seu adversário vem diminuindo: ela era de 45 pontos percentuais no primeiro levantamento do segundo turno (69% a 24%) e caiu para 31 pontos na pesquisa seguinte (62% a 31%). Hoje a vantagem do tucano é de 18 pontos no segmento dos eleitores com maior renda, já que ele perdeu seis pontos (tem 56% das intenções de voto) enquanto seu adversário ganhou sete (chegou a 38%).

Leiam o relatório completo do Datafolha. A recuperação de Lula se dá principalmente nas camadas médias do Sul-Sudeste. Que não são atingidas diretamente pelos programas sociais do governo federal. É como naquelas questões de asserção-razão dos vestibulares de antigamente: certo, mas não justifica. A Folha acerta quando valoriza as realizações do governo direcionadas aos mais pobres. Mas erra ao buscar aí as razões para o resultado da sua última pesquisa. Será que as causas não estão no que o jornal chama de "factóide"? Eu penso que há uma batalha político-ideológica em curso neste segundo turno, deflagrada por Lula e o PT. Na polarização esquerda-direita, uma parte das camadas médias ponderou os prós e contras e decidiu voltar a Lula, apesar dos pesares. A realidade vista pelas lentes do economicismo leva ao engano. Que freqüentemente é verossímil -daí a sua periculosidade. Ao contrário do que supõe o marxismo vulgar, a política tem, sim, um certo grau de autonomia em relação à economia.

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22 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Concordo com a síntese Alon. Acrescento que na mesma Folha de São Paulo de hoje há a coluna do economista mais coerente dentre os colunistas econômicos do Brasil, o Sr. Paulo Nogueira Batista Junior. Em tal coluna observa que há outra interpretação econômica e diferente da linha editorial de jornal. Desde 1997 este economista reitera que a combinação juros/cambio é mais direta que a combinação juros/despesas. De fato, hoje os "financistas" já têm divulgado que com o corte de 0,5% de ontem na Selic, está chegando ao limite mínimo de juros. Como, um juros reais de 9,5% é 50% superior ao da Turquia que é de 6,5%? Falta razão no momento máximo da democracia: quanto o povo decide o rumo do país.

Rosan de Sousa Amaral

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 11:53:00 BRT  
Blogger proberto disse...

Ao contrário de outras vezes, hoje, 19 de outubro de 2006, não acho que comentários como este (bem acabado), ao contrário de outros (mal acabados), mas ambos mesmo com o mesmo sentido -desqualificar a maioria que parece estar se formando - seja fruto de incompreensão ou falta de informação, ou má fé.
É uma outra visão de Brasil. Não para o que vem frente, mas para o que está do lado também.
Me desculpem mas é inevitavel uma lembrança de faculdade com Levi-Strauss em Antropologia Estrutural 1: "para o mesmo fato há sempre mais de uma versão"

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 12:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Esse blog tem alta produtividade. Aqui se constrói uma teoria política completa a cada novo dado de conjuntura: o Nordestismo, o Nordestimo espalhado e a hegemonia irresistível do Lulismo.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 12:23:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Bondade sua, anônimo, quando fala em teoria "completa". Nada há de mais permanentemente incompleto do que um blog. Mais que completude, talvez haja complementaridade nesses fragmentos. Não acha?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 12:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quando cheguei nesse blog, achei que era um blog tipo isento e analítico. Rapidamente percebi que é uma ferramenta da máquina de propaganda petista, disguised para ingênuos.
Insisto: você tem intelecto para fazer jornalismo de verdade. Basta ver seus posts sobre o Oriente Médio - que, aliás, são solenemente ignorados pelos petralhas que te lêem. Mas o que você faz aqui é proselitismo e news-picking. Se é gratuito, this is none of my business.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 12:41:00 BRT  
Anonymous Matheus Schneider disse...

Ferramenta da máquina de propaganda petista? Ora, faça-me o favor! O elogio sistemático de FHC é petista? A defesa das privatizações do governo FHC (como o Alon já fez mais de uma vez) é petista? A defesa do direito do Serra concorrer ao governo de SP e ignorar sua promessa de ficar na prefeitura é petista? A defesa constante do ex-ministro Pedro Malan é petista? O que o Alon não faz é ignorar a realidade e trocar a realidade pelos desejos dele. Parabéns, anônimo: você acabou de desenvolver a tese de que o melhor petista é o que ataca as posições do PT! Qual é a teoria maluca, a teoria alucinada que sustenta isso?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 12:57:00 BRT  
Blogger Paulo disse...

É anônimo, qualquer cor desde que seja preta, certo? Isto é, ou bem a análise é favorável ao seu candidato ou é "ferramenta da máquina de propaganda petista, "disguised" (sic e a palavra que você quer em bom português é "enrustida")...

E o objetivo é mesmo baixar o nível em todos os blogs políticos? Não dá para generalizar está tendência à direita, pois há neste mesmo blog comentadores conservadores extremamente educados e articulados, mas seria interessante cortar pela raiz o uso gratuito de termos como "petralha" e "tucanalha", criados apenas para agredir o outro lado.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 13:01:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Cada vez que eu leio um orgão de imprensa reclamar que os candidatos não estão debatendo adequadamente algum tema, eu me pergunto.

Será que esses caras acham que a gente é palhaço?

Leia a manchete dos 3 principais jornais do país nos últimos 3 meses e me digam se eles estão realmente preocupados com o debate qualificado.

Outra.

O editorial da Folha de São Paulo, pra variar, finge não saber que nesse Governo se criou 7,5 milhões de empregos, segundo dados da RAIS.

Ou seja, o Brasil está sim fazendo inclusão social pelo mercado de trabalho.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 13:05:00 BRT  
Anonymous PauloF disse...

Engraçado, os petistas e os tucanos são parecidos até nisso. Se o cara ecsreve o que os agrada, ele é "isento". Se escreve algo que os desgrada, vira "tucano", "petista", proselitista. É acusado de todos os adjetivos possíveis. E daí se o cara for petista (acho que ele é mesmo comunista)? Conteste os argumentos dele! Tente desconstruir o que ele escreve! Essa coisa de ficar colocando adjetivos parece mais uma tentativa de avisar os acólitos: "Não leiam isso aqui! É perigoso! Não parece petista, mas é!". Coisa feia.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 13:07:00 BRT  
Anonymous PauloF disse...

Vejam coisas que o Alon "petista" escreveu dias atrás.

Duvido que Lula acredite mesmo que todas as privatizações foram ruins. Se acredita, deveria propor a reestatização das empresas.

Eu acho razoável, por exemplo, estradas potencialmente lucrativas (sim, pedágios) serem repassadas à iniciativa privada. E os impostos recolhidos a partir da receita desses empreendimentos poderiam ser reinvestidos pelo setor público em estradas menos lucrativas. Ou em programas sociais. Ou em outra coisa qualquer. Não é um bom debate?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 13:24:00 BRT  
Anonymous Román disse...

Aqui o "marxismo vulgar" nao é dos "marxistas", vulgares ou não, mas das interpretações economicistas dos editoriais e comentaristas editoriais da grande mídia, que atribui aos pobres um voto com a barriga...antiético, etc.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 13:37:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Ao Alexandre Porto:

Lula não criou 7,5 milhões de empregos nem aqui, nem na China... Ou melhor, deve ter criado lá sim, com a abertura dos portos aos produtos chineses.
Os dados de emprego que valem são do IBGE, e mostram que o desemprego hoje está praticamente no mesmo nível de 2002. O CAGED mede formalização, e não geração de emprego. É pena que a oposição é tão incompetente e não desmonte mais uma mentira da máquina de mentir do governo Lula, que não sabe de nada, apenas quando lhe interessa. E lembrar que caiu um Rubens Ricúpero por isso...

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 14:48:00 BRT  
Anonymous Uma anônima disse...

Eu resolvi entrar nessa discussão. Este blog é um espaço agradável de debates, mas eu concordo que o Alon é um debatedor muito perigoso. Eu voto no Alckmin e quero dizer uma coisa: Nunca li aqui nada, nada mesmo, que fosse depreciativo em relação ao Geraldo. Nunca vi nada que o Alon tenha escrito e que seja pejorativo em relação ao PSDB. Mas se você relê o conjunto da obra, você percebe que ele tem uma linha, que ele vai conduzindo o pensamento numa direção. É o direito dele. Mas é perigoso mesmo. Eu entendo a sua revolta, comentador anônimo. Eu também sou uma anônima e também estou revoltada com a minha ingenuidade.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 14:58:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro anônimo, eu faço este blog sem receber nada por isso. Mas não considero essa situação uma virtude. Talvez seja incompetência comercial mesmo. Por que você não me ajuda a encontrar um patrocinador para o Blog do Alon? Me ajuda, vai. Um abraço.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 15:11:00 BRT  
Blogger Sergio Leo disse...

Rapaz, Alon, estou morrendo de inveja. Se um dia algum leitor me chamasse de perigoso por induzí-los, com meu raciocínio não-sectário a... concordar comigo (!) Acho que o comentário acima sobre v. fazer teoria completa se deve ao fato de que seus textos são excelentes, bem construídos, redondos, inteligentes. Parabéns.

Discordo de ti quanto ao editorial. Eles só enfatizam o fator econômico, que é real; mas ressalvam que, ao contrário do que se diz e pensa, a opção dos pobres tem racionalidade, e reconhecem o efeito-factóide, que encurralou Alckimin de forma inteligente, colando nele uma imagem de privatista (e isso permitiu até recuperar o corner em que o Lula tinha se metido com o Aerolula(!).

Curioso é que concordo plenamente contigo quando fala da independencia relativa da política e do perigo do racionalismo economicista...

Um dia a turma vai entender que você não é petista, stalinista nem arrivista ou analista; é jornalista. E dos bons.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 15:31:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O Alon já matou a charada em post lá em baixo: "(...) A eleição do dia 29 não é para escolher um santo. Não é canonização. É para eleger o presidente do Brasil. Debates e entrevistas de candidatos são a versão atual do circo romano". Contudo, sobre as elições, parece haver uma tentativa de se obter, mais do que uma vitória eleitoral, uma hegemonia no espectro político. Aparente contradição, uma vez que a alternância, em 2002, foi possível exatamente porque, pretensão de tal ordem, não é possível num espaço democrático. Talvez a maior tarefa do eleitor seja a da desmitificação e de comprovar ser possível conformar um País com pluralidade de idéias.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 15:38:00 BRT  
Anonymous Luis Carlos disse...

Estou na torcida para que o anônimo ajude o Alon a encontrar um patrocinador.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 16:25:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Se não fosse um editorial eu até poderia entender. Caramba! Como que o cara que escreve o editorial não sabe interpretar o dados levantados pelo seu próprio instituto de pequisa?! Será que é exagero cogitar que há vontade gigantesca de desqualificar os votos que Lula irá receber nas eleições? Qual a intenção dessas pessoas?

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 17:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É uma grande bobagem dizer que a análise que demonstra que o voto em Lula é primordialmente dos beneficiários dos programas sociais é preconceituosa. Voto é voto. Cada cabeça um voto. Essa é a regra democrática.
Não existe votar certo ou votar errado.
O que existe é: A partir de um arranjo político dado, que forças políticas ganharão o governo e que tipo de políticas serão implementadas. Se essas políticas irão gerar desenvolvimento ou estagnação.
A receita de Lula e seus sindicalistas é a seguinte:
Entrega da economia (o core business) aos economistas tucanos: Marcos Lisboa, Joaquim Levy e diretoria do Banco Central, Furlan no MDIC e Rodrigues na Agricultura.
Os sindicalistas e outros apaniguados em Ministérios irrelevantes e migalhas (,4% do PIB para o bolsa-família versus 9% do PIB para juros)
Do ponto de vista relativo, o governo Lula foi um fracasso muito maior que o governo FHC. Basta comparar a taxa de crescimento relativo mundo x Brasil nos períodos respectivos.
Lula é uma bênção para a burguesia.
Controla a esquerda e deixa a direita deitar e rolar.
O que ele pede em troca?
Apenas salvo conduto para os "seus apparatchiks". Como esse Tarso Genro, que se dá ao desfrute de chamar gente decente de Pinochet e de promover perseguição com base religiosa. Esse Tarso Genro, logo ele que já foi um stalinista declarado, chefe do Partido Revolucionário Comunista. Chamar essa mélange de bloco histórico beira a piada.
Aliás, ai se alguém que não contasse com o salvo-conduto de que os petistas desfrutam na imprensa chamassem algum petista de Pol Pot ou equivalente...

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 18:01:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon é o cão, cara "uma anônima".

Penso que extamente por isso ("você percebe que ele tem uma linha") o blog é tão bom.

Está bem ai a diferença. Alon não milita no "isentismo". Ele demarca e fundamenta muito bem o seu campo de informação e de análise da política.

Mesmo discordando do Alon, onde mais ler essa articulação de números de pesquisa com política? Como negar que Lula hoje é o centro irradiador dessa nova hegemonia que vai sagrar-se (contra a minha vontade) vitoriosa no final do mês? O fato é que a oposição combateu mal (faltou ao católico Alckmin o espírito de combate de São Paulo, o apóstolo). Aliás, notaram como Lula se parece com um pastor evangélico quando fala nos palanques? As inflexões na voz, o ir e vir, as gesticulações com as mãos.

Parece que a maioria está com Lula. E na democracia quem decide é ela. Quanto a mim, pelo visto, ficarei mais quatro anos na condição de minoria.

Contrariamente ao que repetem e repetem e repetem os ideólogos do estatismo, as privatizações iniciadas desde a época Collor e continuada nos anos FHC trouxeram mais bem do que mal ao país. E isso não é uma opinião. É um fato.

O que me intriga, e é ai que Alon me ajuda entender (ir além do que pensava), é a maioria dos cidadãos eleitores não perceber (não ter a percepção de)esse bem. Isso não é percebido como um valor para a maioria dos leitores (Não me interesso por "explicações" socilógicas). Mais intrigante ainda foi o equívoco daqueles que deveriam sair em defesa da privatização, mas escolheram ocultar-se. Isso, só para ficar nesse tema.
Um cala boca bem dado, por exemplo: "bem ou mal as estatais foram vendidas em leilões públicos. No governo Lula a Petrobrás foi entregue à Bolívia e pela entrega o pais não reberá nem um dollar furado".

Fica a questão, recolocada por Alon nestes últimos posts de maneira irretocável: Se tenho vergonha de defender princípios (defender a privatização é objetivo estratégico nessa guerra de valores), como posso querer conquistar ou reunir maiorias eleitorais em defesa desses princípios?

No Brasil o estatismo é uma cultura. Diria até que é uma "religião". A raposa barbuda de nove dedos sabe muito bem disso. Quem parece não saber, ou prefere encastelar-se num certo tipo de racionalismo burro, somos aqueles que deveriam fazer a luta política na defesa desses princípios. Como dizíamos muito antigamente, "ganhar a massa" para as nossas posições.

PS: Blogs de sucesso comercial precisam de "comentaristas" organizados como torcidas uniformizadas.
Eu, que odeio multidões, não aprecio.

Você merecia mesmo ganhar algum pelo seu belo trabalho aqui no blog.

abs

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 18:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O erro da análise acima é dizer que Lula deveria defender isso ou aquilo. Lula defende ou ataca qualquer tese, a depender da hora. Como disse o genial prof. Chico de Oliveira, o projeto do PT não está pré-definido, he he he. O
PT não tem compromissos programáticos. Dança conforme a música. O que interessa é sentar nas cadeiras. Ter o "pudê", como costumava dizer o neo-aliado Sarney.
O que fazer com o "pudê"? Ah, isso a gente pensa depois. Por enquanto, a gente põe a burguesia prá tomar conta da parte relevante do governo, eles ficam lá com 9% do PIB em juros, enquanto o Lula vai controlando a esquerda e o povão, a exemplo do flaustista de Hamelin, que conduzia os ratinhos para se afogar no Rio Wesser.
Se, amanhã, o Lula disser que vai privatizar a Petrobrás, vão apoiá-lo imediatamente a Une, o MST e a CUT, em nome "dos interesses maiores dos oprimidos". O Alon dirá que coerência é coisa do Hitler, que se Hitler tivesse sido menos coerente o mundo teria sido um lugar melhor de se viver e que, no fundo, aquela corporação de funcionários da Petrobrás já vem explorando o País há decadas está mesmo passando da hora de acabar com a brincadeira... Vai fazer um gráfico com alguns números demonstrando que a gasolina no Brasil é a mais cara em paridade de poder de compra.
Lula é o grande flautista de Hamelin, que conduz a seu bel-prazer o exército de ratinhos pavlovianos da esquerda brasileira.
A burguesia e os financistas nem poderiam sonhar que encontrariam um beato Salu tão bom assim.
Fez a ponte Itaú-Caruaru.
Prá quem gosta de Gramsci - que não é o meu caso - deve ser triste imaginá-lo se revirando na tumba, pensando que a política de controle social de Lula, especialmente do Norte e Nordeste, garante o modelo neoliberal mais perverso da América Latina, de desenvolvimento pífio, dependência crônica de renda estatal para os pobres e rentismo para os maganos.
(Vide, por exemplo, a carta de Gramsci a Scoccimarro e Togliatti entre as Carta de Viena)
C'est fini.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 09:06:00 BRT  
Blogger alberto099 disse...

Sou freqüentador assíduo do seu blog, mas bastante lerdo para escrever. Uso seus textos, e o de vários de seus leitores, para esclarecer minhas próprias idéias e às vezes fica difícil localizar as discordâncias. O comentário sobre o Editorial da Folha me ajudou: não me parece haver nas eleições atuais uma polarização direita/esquerda, pelo menos não no sentido tradicional. A divisão mais relevante é entre um Brasil formal, incluído, que ainda usufrui de certa proteção do estado e outro que vive ao Deus dará. Esse segundo Brasil vem crescendo fortemente e nem sempre é pobre ou pouco instruído. A diferença de que estou falando é aquela entre os dois tipos de empresários, que às vezes se diz serem os únicos que existem no Brasil: os que sonegam impostos e os que possuem isenções. Não chequei dados, mas me parece claro que São Paulo e o Sul possuem um setor formalizado de muito maior peso, o seu texto dias atrás mostrando que a diferença é mais regional do que por nível de renda ou escolaridade me pareceu muito interessante. A senha no editorial da Folha para seu público alvo é a expressão: “pelo câmbio muito valorizado”, já que esse é um mecanismo tradicional de transferir recursos ao empresariado nacional, ao reservar-lhe o mercado interno. Isso cria certos aparentes anacronismos: eu diria que é a candidatura Alckmin que está do lado nacionalista, no sentido tradicional na política brasileira, e que Lula não perde votos ao “denunciar” o privatismo do adversário porque esse é um tema pouco relevante para seu público que se tivesse de se manifestar a respeito escolheria privatizar.
Desculpe a falta de jeito com blogs, um abraço parabéns pelo seu trabalho.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006 09:11:00 BRT  

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