quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Duas formas de roubo e uma aula de jornalismo (26/10)

O Brasil vai ser um país melhor no dia em que as duas maneiras habituais de roubar dinheiro público merecerem taxas iguais de indignação e repúdio. Hoje há muita indignação e muito repúdio contra quem pega para si o dinheiro que já chegou aos cofres do Estado. Ainda bem que as pessoas ficam cada vez mais revoltadas com isso. Vamos esperar que um dia essa mesma indignação e esse mesmo repúdio alcancem também os que seguram para si o dinheiro que deveria ser recolhido em impostos. Mas há toda uma construção ideológica para impor a assimetria da abordagem dos dois casos. Procurem, nem que seja por curiosidade, saber como são tratados nos Estados Unidos os sonegadores de impostos [de vez em quando recorro a exemplos americanos para mostrar como o nosso liberalismo é de mentirinha; o liberalismo americano nasceu de uma revolução nacional e democrática, o brasileiro se alimenta das tentativas de evitá-la]. A Receita vai lá e toma do sujeito o que tiver que tomar. Não tem conversa. No Brasil a sonegação de impostos é muitas vezes tratada, respeitosamente, como o legítimo movimento de resistência civil contra a sanha arrecadatória de um Estado que só sabe desperdiçar o dinheiro do povo. Mas há desperdícios e "desperdícios", claro. Assim como há povo e "povo". Ninguém é de ferro. Os grandes agricultores que sistematicamente deixam de pagar empréstimos tomados em bancos públicos são mais bem tratados: costumam ter a seu favor campanhas também sistemáticas pela renegociação dessas dívidas. Aliás, um parêntese. Quando o preço da soja e outras commodities estava lá em cima em 2003-2004, não me recordo de ter havido movimentos no campo para socializar os gigantescos (e legítimos) lucros do agronegócio. Uma pena, pois isso daria hoje mais legitimidade aos movimentos pela socialização dos prejuízos decorrentes da queda de preço das commodities e da valorização do real. Como Martin Luther King, eu tenho um sonho. Sonho com o dia em que a exigência do pagamento das dívidas do agronegócio com o Banco do Brasil vai merecer tantos textos de jornal quanto a exigência de fiscalização das contrapartidas do Bolsa Família. Por falar em jornalismo, hoje tem uma aula da disciplina no Sítio do Sergio Leo, jornalista do Valor Econômico [essa coisa de "sítio" é uma frescura do Sergio Leo; ele não faz blog, faz "sítio", pois possivelmente quer ser melhor do que nós até no Português; ou então está querendo fazer uma média com o Aldo Rebelo]. O Sergio comenta a reportagem que gerou a manchete de hoje da Folha de S.Paulo. A fonte da matéria é o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. Eu estou mesmo ficando velho. Sou do tempo em que, no jornalismo, ensinava-se que "planejamento tributário" era o outro nome da sonegação.

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13 Comentários:

Blogger Sergio Leo disse...

Querido Alon, a verdade é que v. implica com meu "Sítio" porque não se conforma até hoje com a brincadeira que fiz com seu sobrenome lá naquelas paragens... (-;
Obrigado pela referência, meu caro. Um dia aprendo a fazer um blogue tão bom como o seu. Aliás, quem ainda não foi lá votar nele para o BOB??

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 15:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É isso aí Alon,o cara chama site de sitio e depois lasca lá um " about me". Pode?

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 16:50:00 BRT  
Anonymous André Pessoa disse...

O último artigo do site do Sérgio Leo é simplesmente esplêndido.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 16:51:00 BRT  
Anonymous Román disse...

Diferença conceitual que traz uma diferença moral: sonegar não é roubar. Sonegador não é ladrão(do dinheiro do Tesouro, isto é,"o meu, o seu, o nosso dinheiro", como dizem). É como se alguém que vá ao supermercado e "rouba" uma mercadoria, ao ser flagrado no seu deslize, de repente diz: ah, é? Então tá. Vou devolver...ou vou pagar: por favor, poderia parcelar pra mim? É o que fazem os sonegadores quando advertidos pelo fisco. Ainda parcelam a sua "dívida". Eta igualdade perante a lei boa, sô!

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 17:01:00 BRT  
Anonymous Richard disse...

Um DVD pirata custa R$ 5,00 em qq camelô. Um DVD original sai por, no mínimo dos mínimos R$ 9,90 (Lojas Americanas) com média de R$ 14,90 (jornais). Se todos procurasem vender próximo de 10 reais, pq eu pagaria 5 no pirata?!?!?!

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 17:46:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A crítica de Sérgio Léo tem inúmeras deficiências. Digamos que houvesse homogeneidade no pagamento de impostos pelo critério impostos/renda per capita. Ainda assim haveria ainda a questão da fonte de renda. É de se observar que a renda pessoal no Nordeste atualmente - e isso é fora de dúvida - é fortemente influenciada pelos programas sociais - que são transferências de renda do Tesouro para o cidadão. Digamos que funcionam como um imposto negativo. Se o imposto é negativo, não que se falar em regressividade de carga tributária nesses casos.
Do ponto de vista global, à míngua de atividade econômica, vários municípios do NE/NO vivem do FPM, que é uma transferência de renda da União para municípios.
Temos ainda os fundos constitucionais do NE e do NO.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 18:35:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Sim Alon, nos EUA caixa dois é crime.

Valeu. Sucesso.

Forte abraço

Paulo Araújo

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 19:57:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

E o Rio Grande do Sul, Alon?
Nenhum comentário?

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 20:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Melhor esperar domingo para ver o que vai dar no RS, não acha?

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 20:52:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Durante esta campanha, comentando em outros blogs menos recomendáveis que este aqui, cansei de ser chamado de cúmplice de criminosos por ser eleitor de Lula, e por defender acusados do PT contra quem não haviam provas. No entando, muitos destes comentaristas que me acusavam, eram profissionais liberais como médicos e dentistas, que quando questionados por mim, achavam perfeitamente normal cobrarem honorários "com recibo" e "sem recibo" (ou seja, caixa 2), sob o argumento de que o imposto de renda de 27,5% era muito alto. Para mim isso é uma versão da "lei de Gerson" aplicada à ética e à legislação.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006 00:39:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

No Brasil caixa 2 é imperativo legal depois que o PT oficializou a prática. Sem brincadeira, para tornar o caixa 2 crime no Brasil, tem que primeiro arrumar muita coisa na fiscalização da concorrencia e do contrabando. E baixar a carga tributaria, já que 40% de impostos équivale a duas derramas.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006 21:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

João Augusto, quando você vai no dentista e ele oferece 2 opções de preço, com e sem recibo, você faz questão de pagar mais e pegar o recibo? Note que ao aceitar a tramoia você é tão criminoso quanto o dentista.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006 22:06:00 BRT  
Blogger NEOPGE disse...

Os estados unidos, não são modelo nem de economia, nem de democracia.
No meu entender.
Explico - na parte economica, lucraram e muito com a segunda guerra mundial, protegem seus protudos com subsidios, e exploram recursos naturais em outros paises, ja que os seus estão escassos.
Na questão democratica,recebi um e-mail, com sérias medidas aprovadas pelo congresso americano, reproduzo abaixo apenas um trecho:
"O Senado dos Estados Unidos aprovou na última quinta-feira (28) a tortura e o fim do direito fundamental de um acusado a ter acesso às provas contra si, no caso de todo estrangeiro (incluindo imigrantes) que sejam definidos como "inimigos" pelo presidente dos Estados Unidos. O presidente George Bush promulgará logo essa lei, que ele e seus aliados consideram uma "ferramenta vital" na luta contra "o terror", cujas medidas, dizem, já evitaram atentados "terroristas" nos últimos anos. A votação foi de 65 a favor e 34 contra a Lei de Comissões Militares, como é chamada. Com a prévia aprovação do projeto na Câmara dos Deputados e sua aprovação no Senado, o presidente Bush e seu governo conseguiram uma vitória legalizando uma série de medidas autorizadas pelo Executivo ao longo dos últimos quatro anos. Essas medidas recentemente foram consideradas ilegais pela Suprema Corte e violadoras das Convenções de Genebra."
Para um país que invade os outros, alegando protetor universal da democracia, fica uma duvida, sobre o que o governo americano entende por democracia.

sábado, 28 de outubro de 2006 00:36:00 BRT  

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