quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Chico de Oliveira declara voto em Lula (18/10)

Neste post, trechos de entrevista do sociólogo Francisco de Oliveira (PSOL) ao site Carta Maior. Mesmo sendo um ácido crítico do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diz que vai votar no petista neste segundo turno.

Carta Maior – O que está em jogo nestas eleições?
Chico Oliveira – Há duas coisas em disputa. Há uma corrida feroz em direção aos fundos que o Estado ainda controla, como os recursos do BNDES e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O BNDES é o maior banco de investimentos do mundo e deixa bem para trás o Banco Mundial. O Estado orienta os fundos de pensão. E há disputa pelos benefícios gerados a partir da dívida pública, que beneficiam cerca de 20 mil famílias, segundo pesquisa do professor Márcio Pochmann, da Unicamp. Essas 20 mil famílias lucram com a dívida pública, mas não a gerem. Que gere é o Estado. A diferença maior entre as orientações de Lula e de Alckmin, em termos amplos, é que o segundo promoveria uma privatização acelerada do que resta de ativos em mãos do estado. Lembremo-nos que, segundo os levantamentos de Aloysio Biondi, em dez anos, entre os governos Collor e FHC, privatizou-se cerca de 15% do PIB.

CM – Mas não há uma continuidade do projeto do governo FHC na gestão Lula? Qual a disputa real?
CO – A continuidade faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Se nos lembrarmos da lição gramsciana, hegemonia é 80% consenso e 20% violência. Há um projeto em andamento na sociedade, que atrai os setores do topo e os setores miseráveis e o povão. Se Lula tem esse projeto político na cabeça, trata-se de um gênio político. Eu acho que ele não tem, pois age muito mais por intuição do que por planos pré-definidos. Ele atua levando as práticas do movimento sindical para uma esfera maior. Como se trata de disputa de hegemonia e não de uma revolução, é natural que ele não queira acirrar os ânimos em muitas situações de conflito. Ambos – PT e PSDB - têm projetos capitalistas, mas diferentes em sua forma.

(...)

CM – Com tudo isso, por que considerar a possibilidade de se votar em Lula no segundo turno?
CO – Acho que a reeleição é uma nova eleição. Os espaços que tínhamos em 2002, de outra forma, voltam a se apresentar, como a questão das privatizações. Esse era um tema proibido durante o governo Lula e ainda mais na era de FHC. Os que dissentiram foram marginalizados. Por que esse tema volta agora a ser central? Por que se abre uma nova disputa. Por isso, eu considero a possibilidade de se votar em Lula. Várias forças que atuaram dentro do PT voltam a ter chance de disputar esse governo. Estou disposto a voltar a correr esse risco, embora o governo não me agrade, seja capitalista e poderia ter avançado muito mais.

(...)

CM – Que mudanças o sr. espera de um futuro governo Lula?
CO - Se depender apenas das forças que apóiam Lula e da dinâmica que ele ganhou em quatro anos, não haverá mudança. Dependerá de nós, de um impulso vindo de fora. Há uma crença arraigada no Brasil de que é nos manches do estado que as coisas se solucionam. Em parte é verdade. Mas para se realizarem mudanças reais é necessário ativar a sociedade civil. Temos de incentivar muita coisa para influir. Não gosto muito de usar a expressão “movimentos sociais”, porque, fora o MST, não sei onde eles estão. Temos literalmente de encher o saco de um segundo mandato de Lula. (...) Mas eu não quero colocar condicionalidades para a votar em Lula, porque ele não vai ligar para isso. Precisamos é de uma pauta para orientar nossa ação.

Clique aqui para ler a entrevista na íntegra.


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5 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Me espanta o Chico de Oliveira achar que se abriu uma nova janela de oportunidade com a reeleição de Lula. Lula matou a esquerda, sequestrou o debate e ainda tem esquerdista que prefere fortalecê-lo. Good riddance...

quarta-feira, 18 de outubro de 2006 23:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A esquerda brasileira me enche de orgulho... por não lê-la. O mesmo orgulho que tenho de não ver cinema nacional.

Esse senhor criou um conceito fantástico nessa entrevista: "um projeto ainda não pré-definido". Se Marx soubesse a "coda" que se amarrou em seu espectro...

Eu tenho pena é dos estudantes. Se eu fosse dar um conselho a eles, seria curto e grosso: Só leiam estrangeiros, se possível do hemisfério norte, se possível da tradição anglo-saxônica.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 09:54:00 BRT  
Anonymous Leonardo Bernardes disse...

AD HOMINEM CIRCUNSTANCIAL DETECTADO!

Predicar é a única coisa que sabe fazer um anônimo, eu ia comentar algo mas me desestimulei..

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 10:27:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Continuo achando que existem diferenças significativas entre Lula e os tucanos nas políticas sociais, distribuição de renda, aumento salarial, empregos, reabertura de concursos federais (tamanho e função do estado), privatizações, ALCA, política externa e reforma agrária.
Do ponto de vista da ciência política há 3 considerações:
1) Lula no governo desloca o eixo do poder mais para o centro do que para a direita (caso Alckmin fosse eleito).
2) Lula concentra menos poder estando no governo do que o PSDB/PFL, pois estes têm o controle da maioria das rádios e TVs, outorgadas por ACM quando ministro das comunicações; e um governo Lula tem menos empresários e capitalistas em suas fileiras. Um governo concentrando menos poder, abre espaço para maior influência da sociedade (cabe aos movimentos sociais terem competência de organização e tática, assim como o próprio PSOL).
3) Com Alckmin no poder a oposição mais forte seria a moderada, de centro esquerda, que hoje apoiam Lula, ofuscando projetos oposicionistas mais à esquerda.
Por essas razões, Lula no poder, favorece mais aos objetivos do PSOL. Chico Oliveira está certo.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 11:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo com o José Augusto. Realmente a esquerda estava iludida, parece que não leu a Carta ao Povo Brasileiro. Mas a esquerda moderna tem que ter metas mais simples, pequenos paços de cada vez - vejam o exemplo da Michelle no Chile (fez campanha prometendo apenas um pequeno aumento nas aposentadorias e benefícios sociais, acordando com a direita um aumento de 1% nos tributos para tal fim). De qualquer forma, há derrotas concretas e simbólicas: ACM na Bahia, Gereissati no Ceará, etc.

Rosan de Sousa Amaral

quinta-feira, 19 de outubro de 2006 12:07:00 BRT  

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