quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Aos meus amigos (26/10)

Ainda em viagem, um post curto. Um dia desses o ex-presidente José Sarney escreveu que a bala que Getúlio Vargas disparou contra o próprio coração matou junto a União Democrática Nacional (UDN). O texto do senador reeleito pelo Amapá saiu na Folha de S.Paulo. Uma coisa a observar no cenário eleitoral é a correlação entre radicalismo político e desempenho na urna. Não vou citar aqui nomes (por pretensão de elegância), mas o próprio leitor poderá listar: os adversários mais radicais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Senado foram ou caminham para serem derrotados na disputa de poder nos seus estados. Está bem, vou listar pelo menos os estados. Bahia, Ceará, Amazonas, Piauí, Santa Catarina, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Mato Grosso, Goiás. São os fatos. É claro que contra os fatos pode haver argumentos, ao contrário do que diz o ditado. Mas fatos são fatos. Essas derrotas não provam matematicamente a existência de correlação entre as duas coisas (radicalismo oposicionista a Lula e rejeição popular), mas tampouco podem ser ignoradas. O que Sarney quis dizer quando lembrou que a UDN morreu junto com Getúlio? Não que ela tenha deixado de existir. A UDN viveu até o Ato Institucional nº2. Mas depois que Getúlio se matou ela deixou de ser uma alternativa real de poder democrático. O eleitor definitivamente não gosta que forças políticas pensem em chegar ao poder por outro caminho que não o apoio dele, eleitor. O povo é cônscio de sua prerrogativa e gosta de preservá-la. É por isso que uma das coisas mais importantes na política é saber receber a derrora. Modéstia e silêncio são mercadorias valiosas nessa hora. Mas voltemos à UDN. Se Getúlio tivesse conseguido resistir a ela, se tivesse concluído o seu mandato e voltado a São Borja para morrer de velhice, a UDN não teria passado à História como uma agremiação golpista. Ficaria apenas o registro de sua combatividade e aguerrimento. Talvez a UDN estivesse viva até hoje. Ao resistir às facções mais criativas da oposição, Lula lhe faz um favor. Com o tempo, se Deus quiser, as acusações de golpismo vão desaparecer na poeira da História. Ficará o registro de que o período Lula foi marcado por uma intensa disputa política, mas que tudo acabou sendo resolvido nas urnas. Já que isto aqui é um blog, permitam-me um corte algo pessoal. Eu tenho bons amigos na oposição. Quase tanto quantos tenho no governo. Talvez seja por isso que elaboro de vez em quando teorias destinadas a produzir desfechos simultaneamente felizes para os dois lados. Ou quem sabe eu aja assim por patriotismo. Já que sou vaidoso, permitam-me acreditar na segunda opção. Puxa vida, no fim este post nem ficou tão curto assim.

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11 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, como é bom ver que ainda existe gente inteligente, educada e sensata como vc! Muitas vezes nem dá vontade de comentar porque vc já disse quase tudo o que penso. Porisso ainda dá para acreditar que o Brasil tem jeito. Pena que navegando por aí a impressão que fica é que a turma do mata e esfola prevalece. Mas não vamos desistir, não é?

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 12:01:00 BRT  
Blogger Paulo disse...

Olha, nem em sonhos felizes eu acreditava que o PFL ia sofrer uma derrota tão estrondosa. Ao partido que ia "acabar com esta raça" sobrou uma bancada de deputados e senadores "pendurados no ar", quase todos com o futuro político ameaçado pelo Executivo de seus estados.

Quantos destes vão mudar de partido ainda antes do início da próxima legislatura? E quantos vão buscar uma composição com o poder federal que ao menos permita contrabalançar a corrosão estadual?

Acho que poucos vão continuar na linha do confronto sangrento e do "terceiro turno".

Com o fim do PFL, acho que vamos assistir também a "direitização" definitiva do PSDB - o perfil do candidato de 2006, as cartas de FHC e a falta de senso do Presidente do partido já indicavam este caminho. Com a abertura de um vácuo à direita (e a possível adesão de parte do mesmo PFL), o rumo natural dos antigos símbolos da esquerda festiva parece claro.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 12:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É um cenário totalmente improvável, mas seria curioso ver se o FHC conseguiria hoje uma vaga no Senado.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 12:44:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

A estrondosa derrota do golpismo nessas eleições é a melhor coisa que poderia ocorrer para a oposição.

É claro que isso significa que figuras como FHC, Roberto Freire, Jorge Bornhausen, ACM etc etc etc vão passar um bom tempo na terra do ostracismo político, talvez alguns nunca saiam de lá.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 12:49:00 BRT  
Blogger maisa disse...

Ainda bem que "isto aqui" é um blog, Alon. É bom ver esse lado mais, digamos, humano em textos analíticos como os seus. Você é destino certo agora :)

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 14:00:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Sua crença em um futuro melhor me deixa realmente tocado. Eu também sou meio panglossiano.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 14:07:00 BRT  
Anonymous André Pessoa disse...

Hehehe... os seus posts, além de instrutivos, são divertidos também.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 14:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eh engraçado... os que ganharam e apoiam o novo senhor do engenho, se nao me engano....jader sarney newtao, roseana....collor....eh escrever realmete eh facil
Luciana

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 17:33:00 BRT  
Anonymous Nulo Leal disse...

É, o Brasil é cheio de golpistas. Tinha um partido aí que fazia passeatas fora-todo-mundo de dois em dois meses. Mas nossa memória é curta...
Continuo aguardando a sessão de desagrava ao Senador Collor de Melo, derrubado por uma Elba (40 paus).
Quem eram os udenistas de então?

Nulo Leal

quinta-feira, 26 de outubro de 2006 18:25:00 BRT  
Anonymous armando disse...

Prezado Alon

O link para o texto do Senador Sarney é:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0608200407.htm

(para assinantes)

Há que se considerar que o ex presidente era prócer da UDN. Pertenceu à ala "Bossa Nova" que vinha a ser um dos grupos reformistas do partido. Grupo aliás que articulou o apoio da UDN à Janio Quadros e 1960, o que para o credo da UDN poderia se considerar como uma aberração. Fizeram isto por conta da "sede" de chegar por algum meio que não um golpe à presidência da república. Deu no que deu...

Aproveito para sugerir, se vc me permite, um livro da prof. Maria Victoria Benevides - A UDN e o udenismo, 1981, Paz e Terra - que pode ser encontrado em sebos.

Aponto especialmente o último capítulo - UDN e udenismo: "a herança liberal"; "Liberalismo e elitismo - a presciência das elites"; "os bacharéis e a mística da ordem"; "o moralismo udenista".

Caso alguma boa alma se proponha a ler este capítulo seria bom encontrar um meio de ser constantemente lembrado de que o livro tem 25 anos e o contexto entre 40 e 50 anos. Digo isto pois é capaz de o leitor desavisado crer que foi escrito nos últimos 30 dias.

Mas isto é apenas para lembrar que caso queiram ler o artigo do senador é bom saber de onde ele fala. Não pretendo com isto defender Getúlio Vargas, mas apenas lembrar que não existem ingênuos e imparciais em política.

abraços e desculpas pelo comentário longo

Armando

sábado, 28 de outubro de 2006 01:54:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Obrigado, Armando. Já coloquei o link e ajustei o texto.

sábado, 28 de outubro de 2006 02:12:00 BRT  

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