quinta-feira, 14 de setembro de 2006

A solidão de São Paulo e uma carta para Minas (14/09)

Volta e meia aparece a história de "despaulistizar" o poder federal. Ora, São Paulo está fora do poder desde 1930. Quem se opõe a essa tese argumenta com os oito anos de Fernando Henrique Cardoso na Presidência. É um equívoco. FHC elegeu-se com apoio maciço dos pobres (Plano Real) e do nordeste (PFL). Aliás, teve que afrontar o PSDB de São Paulo (Mário Covas) para fazer a aliança com o PFL. Não vamos confundir o FHC de 2006, empenhado em demarcar campos e construir referências (leia o texto de hoje de Demétro Magnoli na Folha), como o FHC de 1994, empenhado em se eleger presidente da República. Nada há de errado nessa aparente ambigüidade. Novamente recorrendo a James Carville, "é a política, estúpido". Você quer saber se São Paulo tem mais ou menos poder? Acompanhe a taxa de câmbio. Se a moeda nacional estiver estruturalmente desvalorizada, é porque o setor exportador (São Paulo) está por cima da carne seca. Se estiver valorizada, é porque o governo central resolveu praticar o que os paulistas gostam de chamar de "populismo cambial". Para se releger, Luiz Inácio Lula da Silva está sangrando os lucros do empresariado paulista e do agronegócio, e está transferindo renda para quem compra comida barata. Claro que isso é uma simplificação, mas o jornalismo é (também) a arte de simplificar. Se você quer dar conta de toda a realidade, você não vai fechar nunca o seu texto. Mas voltemos a São Paulo. Essa questão dos Estados tem um peso decisivo na História do Brasil. Os paulistas perderam o poder em 1930 porque quiseram, a um só tempo, tratorar os mineiros, o Rio Grande do Sul e o nordeste. Depois perderam a guerra em 1932 e foram batidos em quase todas as eleições que se seguiram. Tudo bem, elegeram Jânio Quadros, o breve. E foi só. Por que a política dos Estados é o termômetro da política nacional? Porque a fonte do poder político está concentrada neles. Fora a escolha do presidente, o Brasil não tem eleições nacionais. Tem eleições estaduais (ou municipais) que acontecem todas no mesmo dia. Os municípios elegem os prefeitos e os vereadores. Os estados elegem os deputados estaduais, os deputados federais, os senadores e os governadores. O país elege o presidente, que governa com um Congresso escolhido pelos estados. Se eu sou eleitor em São Paulo não posso votar num candidato a deputado de Minas Gerais. É por isso que os presidentes têm uma relação sempre trabalhosa com o Congresso, pela complexidade das relações com os estados. Se, por hipótese, o voto dado ao presidente contasse também para escolher os deputados (por exemplo, pelo voto proporcional em uma lista fechada nacional) estaria resolvido o problema crônico da governabilidade. Mas tente implantar algo assim. Teríamos a versão contemporânea e tropical da guerra americana de secessão. Ah, sim, quando falei do FHC de 1994 esqueci de Minas Gerais, cujo chefe político à época era o presidente Itamar Franco. FHC foi um candidato nacional e governou para quem o elegeu. Preferiu Pedro Malan e Gustavo Franco (enquanto pôde) e preteriu os irmãos Mendonça de Barros. Hoje, o candidato mais nacional é Lula. As âncoras fiscal e monetária fazem o serviço que uma década atrás era feito pelo Plano Real. O PMDB do nordeste faz o serviço que era feito pelo PFL. E Minas? Bem, Minas já caminha com as próprias pernas desde que Aécio Neves se lançou candidato à Presidência da Câmara dos Deputados em 2000 e detonou a aliança FHC-PFL. Toda vez que vejo o noticiário sobre as rusgas entre tucanos mineiros e paulistas lembro da eleição de 1978. O poder central (presidente Ernesto Geisel) havia indicado o piauiense de nascimento Francelino Pereira para governador (indireto) pela Arena. Tancredo Neves, avô de Aécio, disputava o Senado pelo MDB. Eu andava de vez em quando por Minas naquela época, nos encontros para reconstruir a União Nacional dos Estudantes (UNE). Lembro das faixas com o slogan: "Tancredo é a resposta de Minas". Resposta à indicação de um piauiense para governar o estado. Claro que Francelino Pereira era também um político mineiro na acepção da palavra, mas eleição é eleição. Hoje, Geraldo Alckmin é o mais paulista dos candidatos. E ninguém me tira da cabeça que a carta de FHC-2006 (que tanta polêmica causou nos últimos dias) tinha Minas Gerais como destino. Qual será, quase trinta anos depois, a resposta de Minas?

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14 Comentários:

Anonymous Cesar Cardoso disse...

A resposta de Minas não sei, mas imagino que o Aécio já deve estar preparando a resposta dele.

Está claro que o PSDB vai ter que se decidir: ou fica com FHC/Serra/Tasso ou fica com Aécio.

Imagino que a guerra civil tucana vai ser a coisa mais interessante do pós-eleição.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 16:59:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

E a mídia contunua seu pael de blindar José Serra. Parece que ninguém tem o Correio Braziliense em seus clippings

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 18:11:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Só se o Tasso deixar de ficar com Ciro Gomes. Na verdade, FHC chamou Minas para a realidade: não dá para ficar em cima do muro quando o negócio é Lula.
E pelo jeito, funcionou: Aécio entrou na campanha de verdade pela primeira vez.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 18:15:00 BRT  
Anonymous Sergio Maidana disse...

Alon,

o que é isso? dizer que o congresso deveria ser eleito acompanhando o presidente? Isto é ditadura, meu chapa.

Outra: qual é a razão da imprensa mergulhar na última semana em produzir uma crise no PSDB como se a eleição estivesse acabada?

Parece que estão todos torcendo para o Lula ganhar e depois hipocritamente dizer que o povo "absolveu" a corrupção, etc, etc...

Eu estou muito impressionado com algumas "figuras" do jornalismo, que esqueceram de criticar os desmandos e bandalheira do governo Lula-PT e passaram a encontrar defeitos até na mulher do Alckmin...

Francamente...é de se decepcionar com certas pessoas que se dizem "brasileiros"...

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 19:06:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

No momento o TCU faz campanha política contra Lula.Isto ocorre pelo simples fato de que os tais Tribunais de Contas, seja do Estado, do Município ou da União, não passam de cabides de empregos. Quando ali deveriam trabalhar técnicos, os políticos é que ocupam suas vagas, como é o caso do ministro Ubiratan, ex-deputado federal pelo PSDB do Ceará. Que se aprove uma emenda constitucioinal no sentido de que seja aberto concurso público para a ocupação de tais cargos. Esta é a única forma de se moralizar os Tribunais de Contas em todas as instâncias, do município à União.Assim se evitaria a partidarização dos tribunais de contas que, por serem órgão de fiscalização, não poderiam fazer políticagem, como ocorre no momento, quando o ministro Ubiratan Aguiar, ex-deputado federal pelo PSDB do Ceará dá uma mãozinha para o seu amigo tucano, o Geraldo.Os cargos que envolvem fiscalização deveriam ser ocupados por técnicos, ou seja, através de concurso público e não por políticos do porte do conselheiro Ubiratan Aguiar.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 08:00:00 BRT  
Anonymous Jereminas disse...

O Aécio tem espaço político próprio. Já mostrou ao próprio Fernando Henrique e ao PSDB que é capaz de construir alianças fortes e projetos sólidos para o país, bem como que sabe muito bem gerir a própria vida política. Deputado com quatro mandatos, líder de seu partido na Câmara, presidente da Câmara, enfrentando nas urnas o PFL e o PT, governador de Estado, Aécio prova que tem condições sim, ao ser reeleito governador, buscar de forma definitiva o espaço político que Minas merece no cenário nacional.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 10:17:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Não entendi os argumentos acima sobre a fiscalização. O próprio governo afirma sempre que nunca se fiscalizou tanto como agora e que a ética de agora nunca existiu neste país. O governo poderia ter inspirado emenda no sentido do aprimoramento no provimento de cargos em órgãos de fiscalização, caso entendesse a necessidade de alterar alguma coisa. Teve apoio congressual para tanto. Difícil de entender.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 10:22:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon
Eu sou carioca , norando no Rio e acompanho a politica e por mais que vc queira provar para as pessoas de outros estados FHC é de S.Paulo como Lula também o é. Ou seja a importancia do politico aumenta quando está ou vem de S.Paulo, porisso os demais estados se sentem desprestigiadosm minorizados em relação a vcs.Ruben a silvs

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 10:27:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Desculpe-me mais esta intromissão. Mas há coisas que não consigo deixar de anotar nesta caixa de comentários. Já prometi que vou respeitar a ética blogueira deixando de opinar nos posts seguintes. Já que estou aqui, por aqui fico. Ah, retomei meu blog, o http://abandon.zip.net. Favor dar uma olhada lá. Não consegui criar um no weblloger, mas vou tentar, pois o que criei não permite postagem de longos textos.O Anão Corcurda, no blog do Miguel do Rosário, http://oleododiabo.blospot.com me remete ao que estou refletindo neste momento: o gostar e o ser gostado. Como um anão corcunda poderia ser gostado por alguém? O pior é que isto é possível sim. Não adoramos o Corcunda de Notredame? O Lula também é feio até dizer chega. E não adoramos o Lula? Claro, exceto as dondocas da Daslu. Falando nisso, você a manchete da Folha dando conta, através de um infográfico, de que o Geraldo estava com 52% na preferência popular? Foi isto que entendi ao olhar rapidinho a Folha. Quase morrri do coração. Como sou atencioso, olhei direitinho aí vi que, realmente, ele estava lá em cima no IPOBE. Um detalhe. Tal preferência era entre os ricos. Era a folha fazendo uso do tal manchetismo para ajudar o Geraldo. Trocando em miúdos: como muita gente só lê somente a manchete, as letras grandes, quem leu rapidinho saiu por aí espalhando que o Geraldo estava na frente. A Folha foi sacana ao estampar tal manchete fraudulenta. Quase morri do coração quando li aquilo. Que a Folha continue gostando do Geraldo. Que ele continue sendo gostado pelos ricos e que Lula, é claro, continue nos braços do povo. Boa tarde.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 12:07:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Eu quis dizer "como o Anão Corcunda, o personagem, poderia ser gostado por alguém?". Este repado é necessário para que não me apontem preconceito contra os anões.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 12:26:00 BRT  
Anonymous SERGIO MAIDANA disse...

Alon,

por favor, sei que seu Blog não é chat, mas gostaria de dizer para José Carlos Lima as seguintes colocações:

- não sou "dondoca" da Daslu, e não gosto do Lula.

E sabe qual a razão de nunca ter votado no Lula, fora no 2º turno com o Collor? foi depois da leitura do livro "O filho do Brasil" de Denise Paraná. Ali, Lula mostra a sua verdadeira face.

- Você não acha que é preconceituoso quando diz que "só dondoca" vota no Alckmin?

Qual é a razão de você não analisar que o centro-sul rico e industrializado está votando no Alckmin e na oposição, e o nordeste pobre e atrasado (agora vai dizer que sou preconceituoso, né?) está votando no Lula?

Até a eleição passada, me lembro, o PT dizia que o nordeste era curral eleitoral dos coronéis do PFL. Agora tudo mudou?

- Outra coisa: seja sincero, a mídia - e tem estudo neste caso - está malhando a oposição e levantando a bola do Lula desde maio desste ano.

Veja as manchetes do Folha on-line. O que eles pretendem é dizer que "os ricos" votam em Alckmin e os pobres em Lula. Não sei se esta tática está correta, haja vista que o pobre não gosta de ser chamado de pobre ou se sentir pobre. Pode ter surpresa neste caso.

Vou dar uma dica dos "órgãos" que estão torcendo descaradamente para o Lula: Ultimo Segundo e Folha on-line (Carta Capital não precisa falar, né!). Pior para eles, já que a maioria das pessoas de classe média, que tem internet e acessam, votam contra Lula. Vão ser portais sem público depois da eleição.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 12:46:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

O PT está terminante proibido de divulgar as atividades do governo que integra. É isto que tem dado a entender o TSE ao proibir que os candidatos petistas façam qualquer referência aos avanços do governo Lula.Isto beira ou não o surrealismo? Que dizer que um partido não pode divulgar o que fez no governo?Também o TCU, através do ministro tucano Ubiratan Aguiar, está fazendo tempestade em copo d´agua pelo simples fato de o PT ter distribuído cartilhas divulgando ações do governo que elegeu.Interessante notar que esta proibição é recente, ou seja, um controle aplicado especialmente para estas eleições onde se vê claramente o quanto o TSE e TCU são tendenciosos e partidários. Chega a ser ridículo ver Marco Aurélio, ministro do TSE, atacando propostas de Lula, como por exemplo, a da reforma política.Lula foi o presidente que mais combateu a corrupção neste país.Inventaram esta história de mensalão, na verdade caixa 2, um rolo entre candidatos a deputado e empresas privadas. Todas as máfias vieram da Era Tucana.

sábado, 16 de setembro de 2006 10:23:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sábado, 16 de setembro de 2006 17:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Com bastante atraso, lei o comentário, fundamentalmente correto. Sem pretensão de questionar o mérito só lembraria que o premomínio de Delfim e sua política desenvolvimentista com financiamento inflacionário parece-me ter sido uma vitória do empresariado paulista (principalmente, pois é quem estava mais bem aparelhado para se aproveitar disso) contra o "bonapartismo fiscal" de Campos/Bulhões, sustentado por Castello Branco. Nem a volta dos castelismo com Geisel, que tinha na Fazenda o carioca Simonsen, parece ter mudado essa política, só abalada pelos choques do petróleo de 73 e 79 e pelo vácuo de poder deixado pela anarquia do governo Figueiredo e pela morte de Tancredo. Resumindo, considero que o que há no Brasil, com exceção dos dois intervalos ditatoriais, é mais uma situação de (com perdão da palavra) anomia, em que para o bem ou para o mal não se formam grupos grupos verdadeiramente hegemônicos sobre o aparelho de Estado. Cada um tira sua lasca, mas ninguém tem capacidade de ditar um projeto nacional.

domingo, 17 de setembro de 2006 20:45:00 BRT  

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