domingo, 10 de setembro de 2006

Republicação: "Pedra no lago", de abril de 2006 (10/09)

Pela atualidade, não resisto à tentação de republicar um post de 20 de abril sobre o efeito "pedra no lago" nestas eleições:

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'Desinformação, ignorância e a popularidade de Lula (20/04/06)

Na Carta Política que a consultoria Tendências enviou esta semana aos seus clientes, há uma análise do economista José Márcio Camargo sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os mais pobres, com o título acima. Transcrevo um trecho:

"(...) em nossa opinião, a popularidade dos presidente entre os grupos mais pobres da população decorre, fundamentalmente, do forte crescimento da renda real e do padrão de consumo deste grupo social. E (...) este crescimento não depende apenas dos programas de transferência de renda, mas tambvém do aumento do emprego e dos salários reais. Entre 2002 e 2004, os 20% mais pobres da população tiveram um aumento de renda de 33%, ou seja, cerca de 10% ao ano. Deste total, 22% é explicado por programas de transferência de renda e 8% pelo aumento real do salário mínimo. (...) 70% se refere ao aumento do nível de emprego e dos salários reais. Se acrescentarmos a estes ganhos de renda o aumento do crédito e a queda da taxa de juros para pessoas físicas, não parece surpreendente que o presidente seja tão popular nos grupos mais pobres da população."

Há uma teoria corrente entre jornalistas, marqueteiros e analistas políticos. Ela é conhecida como "pedra no lago". Diz que a sociedade adota suas opiniões em ondas, como as formadas no lago quando uma pedra cai na água. Tradução: as opiniões políticas propagam-se dos mais ricos para os mais pobres, dos mais bem informados para os menos bem informados, das pessoas com mais instrução formal para as com menos instrução formal. Assim, quando alguém quiser tornar hegemônica certa tese, bastará convencer os assim chamados formadores de opinião e esperar que o rolo compressor dos veículos de comunicação faça o serviço.

Por que a teoria não está funcionando tão bem como funcionava antes? O texto de Camargo, acima, é uma explicação possível. Os pobres parecem preferir um governo que faz algo por eles do que uma oposição que lhes promete o paraíso. Outra possibilidade é a pulverização de meios para se informar, acelerada pela internet. Os pobres acessam a rede bem menos do que os não pobres, mas é possível que a internet esteja criando formadores de opinião dentro dos grupos que estão na base da sociedade. Assim, ficam menos dependentes da opinião que vem "de fora". Uma terceira explicação é não haver unanimidade entre os formadores tradicionais de opinião. E a diversidade de opiniões dificulta o "efeito manada" no jornalismo. Esse último aspecto tem incomodado muita gente.

Talvez seja uma mistura de todas essas coisas. É um bom debate.'

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14 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A primeira parte da explicação me parece lógica, mas a segunda, não sei não: onde está a diversidade de opiniões na mídia oficial, nos jornalões, nas revistonas, só se for estiver se referindo à diversidade de opiniões nos meios alternativos, como a Internet. Aí sim. E é bem provável que as pessoas que não têm computador doméstico estejam realmente acessando as colunas e blogs políticos da Internet fora de casa.

domingo, 10 de setembro de 2006 13:33:00 BRT  
Anonymous Paula Nascimento Cohen disse...

Havia diversidade de opiniões. Mas nos últimos meses as redações promoveram uma "limpa" e só sobraram os bajuladores dos tucanos. Mandaram embora o Franklin Martins por exemplo.

domingo, 10 de setembro de 2006 13:37:00 BRT  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Excelente a sequência de posts "vale a pena ler de novo".
É sempre muito interessante olhar retroativamente. Não sabia do seu blog antes deste ano.

Também não conhecia o José Marcio Camargo antes de lê-lo no seu blog.

Sobre pedras no lago, gosto muito daquelas que quando atiradas agitam o barquinho das minhas certezas de momento. Infelizamente, são poucos os jornalistas versados nessa boa arte. Muitos mais preferem atirar pedras para todos os lados na ilusão (ou safadeza intelectual)de que assim praticam "jornalismo isento".

Há dois blogs que debatem política e que frequento com grande prazer: o seu e o do Reinaldo Azevedo.

Forte abraço

Paulo

domingo, 10 de setembro de 2006 15:55:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Ou seja, não existe o candidato populista e/ou apenas carismático, mas um Governo que fez diferença para quem nunca teve vez. Sugiro esse artigo.

PLÁCIDO FERNANDES

Acabou o cabresto

No lugar da dentadura e dos óculos, há muito brasileiro com a auto-estima em alta porque, pela primeira vez na vida, está se sentindo cidadão.

http://www.informante.net/resources.php?catID=2&pergunta=3214#3214

domingo, 10 de setembro de 2006 16:09:00 BRT  
Anonymous Lindomar do Carmo disse...

É Alon, olha só os sinais do tempo: O PT podia dormir sem essa...
Vejam a reportagem que a Folha de S. Paulo traz hoje, entrevistando o Newton Cardoso, agora o “queridinho” dos petistas em Minas Gerais, onde se tornou o principal aliado do candidato Newmário Miranda na disputa ao governo do estado. Newtão, quem diria, afirmou que não se aliou ao “PT corrupto”. É mole, ou quer mais?

Peemedebista diz ter se aliado só à parte honesta do PT
Folha de S. Paulo (10/09/2006)

O ex-governador Newton Cardoso (PMDB), 68, candidato ao Senado por Minas com apoio do PT, partido do qual já foi adversário, disse que não está coligado ao PT que "levou cacetada com mensalão, roubo e corrupção". Segundo ele, "tem o PT honesto e o PT corrupto". Newton disse não se ofender por ser tachado de "ladrão".
(...)
FOLHA - Mas e a relação difícil com o PT, que o acusava de corrupto?
NEWTON - O PT, ao fazer mea-culpa, está mostrando que o meu governo [1987-91] foi íntegro, sério. O PT, no passado, foi muito crítico e mordaz. Agora faz mea-culpa. Aprendeu com o Lula, que tem sido competente ao criticar o PT do passado. O PT que avançou foi o da linha moderada. Não pode ter um partido que de um lado levou cacetada com mensalão, com roubo, com corrupção e um partido honesto. Há o PT honesto e o PT corrupto. O Lula não participou de nenhum processo de corrupção, e o próprio povo já rechaçou isso.

domingo, 10 de setembro de 2006 16:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Elio Gaspari também citou este negócio de cascalho no lago Pindorama hoje. Tem uma cópia no www.debrasilia.com: http://www.debrasilia.com/noticia_click.php?cod_noticia=5503

domingo, 10 de setembro de 2006 17:28:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

É Alon, graças a internet, as pessoas que lêem jornal agora podem buscar informação em blogs políticos. Todo mundo conhece a linha editorial do JB, Estadão, Veja e por ai vai...
Lembro um post seu em que mostrava três versões diferentes dos jornais para a mesma noticia economica.
E sinceramente, a credibilidade da midia impressa sofreu um baque grande com o engajamento cego a favor da oposição.

domingo, 10 de setembro de 2006 19:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A Tereza Cruvinel também abordou o mesmo assunto hoje no Globo. Quem consegui acessar vale a pena.

Rosan de Sousa Amaral

domingo, 10 de setembro de 2006 20:45:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

O Franklin Martins também fala do fim desse efeito "pedra no lago" na entrevista à Caros Amigos.

Tenho a impressão de que começa a se formar uma opinião de que alguma coisa mudou no voto das classes mais pobres a partir da eleição desse ano. Não acredito que seja a internet, que não alcança muito além da classe C. Chuto que tenha algo a ver com, pela primeira vez, o pobre votar com o bolso.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006 00:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Se o pobre vota com o bolso, quer dizer, vota pensando nos seus interesses, ótimo, todos deviam votar segundo seus interesses e pontos de vista, como, aliás, já faz a elite. E se todos votarem segundo seus interesses, os interesses da maioria prevalecerá. Certo? E os políticos vão ter de passar a pensar nos interesses da maioria, não da elite minoritária. Certo?

segunda-feira, 11 de setembro de 2006 10:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Se o pobre vota com seu bolso, é bom sinal, de que agora tem um bolso, porque antes só tinha um enorme vazio na barriga.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006 10:05:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Lógica irretocável anônimo das 10:03:52.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006 12:09:00 BRT  
Blogger leticia goncalves disse...

Atrelar o voto à classe social é válido até certo ponto. Até o ponto que indica a real situação, como os dados estatísiticos.

O que acho no mínimo curioso é o olhar perjorativo com que, muitas vezes, a questão é tratada. Qdo a maioria das pessoas pobres tem intenção de votar em Lula é porque são pobres e/ou têm pouca escoalaridade, são "analfabetos" que não sabem de nada.

Mas é a esses mesmos ingênuos (pra não dizer "burros", como já ouvi alguns se referirem à maioria do eleitorado) que os outros candidatos, e os que apóiam os outros candidatos, pedem votos.

Se eleitos, esses candidatos não vão dizer que o foram por ingenuidade do povo. Terão sido eleitos pela "voz da nação", por seu "povo querido", etc...

Esse é um tipo de estratégia de persuasão que não cola muito, o insulto à inteligência das pessoas...

Talvez um pouco dos votos de Lula se deva a isso. Enquanto ele se diz eleito, e se quer reeleito pela, "força do povo". Os outros chamam o povo de imbecil...

segunda-feira, 11 de setembro de 2006 14:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Há um provérbio latino que serve como uma luva para explicar a força de Lulla com os mais pobres: Venter aures non habet, ou seja, barriga não tem orelhas.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006 13:13:00 BRT  

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