quarta-feira, 20 de setembro de 2006

O barquinho rumo ao porto, Gonçalves Dias, Spielberg e o novo Datafolha (20/09)

Está chegando ao fim a longuíssima viagem de quase um ano e meio, a mais longa campanha eleitoral de que se tem notícia na História do Brasil. Ela começou no dia em que a Veja trouxe o vídeo com a propina nos Correios e (parece que) vai terminar no outro domingo. É o que diz o Datafolha de ontem. Acho que, nesta altura da regata, cada um quer mesmo é levar o seu barquinho ao porto com segurança. Ainda por cima quando o mar está bem tempestuoso.

Eleição é um assunto que mobiliza muita gente. Depois de tantas eleições, vividas em situações tão diferentes, eu concluí que o que todo mundo quer mesmo numa eleição é sobreviver. E já é muita coisa. Na política e no jornalismo político, isso é duplamente importante, porque o final de cada eleição já traz marcado na folhinha o começo da seguinte. E se você estiver vivo pode se levantar e lutar. Eu gostava mesmo era dos índios de Gonçalves Dias -e não me venham dizer que eles eram estilizados.

"Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar. (...)"

Esses são os versos mais conhecidos da Canção do Tamoio. Mas eu gosto mais é destes outros:

"(...) Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir! (...)"

Acho que Steven Spielberg deve ter lido a Canção do Tamoio (isso é uma viagem minha, é claro que ele não leu; ou leu?) para criar o Capitão John Miller, em O Resgate do Soldado Ryan. Não sei o que vai demorar mais: alguém bater os recordes de Michael Schumacher
na Fórmula 1 ou alguém fazer um filme de guerra melhor que Saving Private Ryan. Que depois continuou na minissérie Band of Brothers. A cena inicial, do desembarque na Normandia no Dia D, é insuperável, penso eu. Um dia alguém certamente vai superá-la, assim como um dia caiu o recorde de Bob Beamon, mas acho que não estarei vivo para ver.

O grande Gonçalves Dias foi lançado ao oblívio nestes tempos de ditadura do politicamente correto, mas ele se vinga do túmulo: nenhum dos poetas do multiculturalismo (eles existem?) fará versos como os de Gonçalves Dias. E mais: nenhum movimento político ou social incapaz de gerar os seus próprios poetas e escritores ganhará perenidade. Fica, em geral, como um acidente histórico. É o risco que corre o PT, mas sobre esse assunto volto a escrever depois da eleição. Eu falava de levar o barquinho ao porto. Pois é, espero que os protagonistas dessa refrega saibam fazê-lo. Saibam ganhar e perder, seja qual for o papel destinado a cada um. Pode parecer um desejo pueril e naíve (o acento é por minha conta). Mas vai ser melhor para o Brasil, e para todos eles em particular. Depois de 2006 vem 2008. Depois de 2008 vem 2010. Política é uma progressão aritmética, não geométrica.

Ah, sim, o Datafolha. Luiz Inácio Lula da Silva empata em São Paulo com Alckmin e ganha em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e no nordeste. Se o nordeste se desligasse do Brasil (ou se fosse transformado num bantustão), haveria segundo turno. Do jeito que está agora, não haverá. A crise dos dossiês vai mudar esse quadro? Vamos ver. Lula ganha de Geraldo Alckmin numa proporção de 2 para 1 no voto espontâneo e 70% do eleitorado já responde espontaneamente em quem vai votar.

Fui olhar o último Datafolha de 2002 antes do primeiro turno e vi ali que a taxa de quem já dizia espontaneamente em quem iria votar estava nesse patamar (70%). Aliás, acho que 70% é mais ou menos o percentual de eleitores que vão votar mesmo nos candidatos. A maioria dos demais possivelmente vai faltar ou votar em branco, ou anular. Deveremos ter pouco mais de 90 milhões de votos válidos no outro domingo. Para provocar o segundo turno, Alckmin precisa fazer o que não fez até agora: penetrar no eleitorado de Lula, ganhar terreno entre os pobres e no nordeste. Sem isso, nada feito. Recolher alguns indecisos e subir uns pontinhos nas pesquisas está valendo muito pouco nesta altura do jogo.

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A candidatura de Lula já começou a perder espaço no nordeste. Não tem relação direta com a "operação tabajara", mas tem a ver com as viagens que ele vem fazendo para apoiar candidaturas aos governos estaduais. Os adversários que nçao estavam ligando para a disputa nacional estão dando o troco.
No Rio Grande do Norte já formaram três comites pró Alckmin depois da passagem de Lula no final de semana.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006 18:56:00 BRT  

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