terça-feira, 26 de setembro de 2006

Milhares, milhões de pedrinhas no lago (27/09)

Seja qual for o resultado eleitoral, um dos debates mais fascinantes do pós-eleição será sobre os mecanismos de formação da opinião do público. Está em questão a teoria da pedra no lago, para quem as informações (e opiniões) transmitem-se do topo da pirâmide social para a base, como as ondas que se propagam do centro para as margens quando uma pedra cai na água do lago.

É evidente que a teoria não está conseguindo explicar a realidade eleitoral do Brasil de 2006. Mas será que a teoria está errada? Faço um paralelo com a física de Isaac Newton (retrato de Godfrey Kneller, em 1689), ensinada até hoje nas escolas. Ela funciona razoavelmente bem em situações do cotidiano e nos fenômenos mais perceptíveis pelos sentidos humanos. Mas Albert Einstein sabia que ela não dá conta da realidade quando, por exemplo, o ponto de referência viaja a velocidades próximas da rapidez com que a luz se desloca no vácuo. Da insuficiência da física newtoniana nasceu a Teoria da Relatividade.

Assim é a vida. Melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão. A teoria da pedra no lago não deve estar completamente errada, mas talvez ela não sirva para explicar a realidade em determinadas situações. Talvez sua principal limitação seja a mesma de certos modelos científicos: só funcionar se estiverem dadas condições que dificilmente se observam na vida prática.

Você já viu um lago cuja superfície estivesse totalmente estática? Eu nunca vi. Lançar uma pedra num lago de superfície estática é um modelo, uma abstração. Todo lago tem suas ondinhas. Há as causadas pelo vento, por folhas que caem na superfície, pela atividade de animais ou do homem. E qualquer estudante do ensino médio que não tenha matado as aulas de Ondulatória sabe que quando ondas se somam elas podem de potencializar ou se neutralizar, dependendo de estarem em concordância ou em oposição.

Bingo! Talvez seja isso que certas pessoas ainda não entenderam: a teoria da pedra no lago está plenamente funcional, mas provavelmente há muito mais pedras caindo no lago do que se observa a olho nu. Talvez haja tantas pedrinhas sendo atiradas à água que qualquer modelo teórico convencional fica capenga. Sai a Ondulatória ensinada nos colégios, entra a Teoria do Caos.

Olhando para trás, fico pensando como teria sido mais fácil acabar com a ditadura (1964-1985) se na época tivéssemos o e-mail. Nem fax tínhamos! Hoje, o sujeito vive mergulhado em informação. 99% da informação relevante disponível para a elite também está à disposição do povo. Pelo rádio, pela televisão e pela Internet. Agora você vai protestar: "Como você diz isso, se a maioria da população não tem acesso à Internet?".

Não é necessário que a maioria tenha acesso. Basta que, numa comunidade, um jovem acesse a rede na escola, ou que um trabalhador o faça no seu local de trabalho. A informação obtida se propaga depois por capilaridade, no boca-a-boca da escola, do bairro, do sindicato, da igreja. Nas conversas de esquina. Quem não vive fechado numa redoma sabe que hoje é muito mais comum do que ontem encontrar em qualquer grupo social pessoas bem-informadas e orgulhosas de sua própria opinião.

Quem quiser continuar sendo um formador de opinião influente nesse novo mundo precisará acostumar-se à idéia de que é apenas um entre muitos. Precisará aposentar a certeza arrogante e trocá-la pelo argumento eficaz. Precisará engavetar a desqualificação do diferente e tirar do arquivo a argumentação respeitosa, que procura enxergar a dose de verdade que há nas teses do oponente. Precisará, enfim, estar mais disposto a jogar o jogo complexo da democracia. No qual o argumento da autoridade vale cada vez menos. E a autoridade do argumento vale cada vez mais.

---------------------------------

Este texto foi produzido para o Blog do Noblat, onde escrevo semanalmente.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).
Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

11 Comentários:

Blogger Conexão Aberta disse...

Excelente abordagem Alon! Em meio a tantas besteiras que tem se dito nessas eleições, vc ainda é uma das poucas pessoas sensatas.

Saudações!
Fernando Filgueiras

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 10:07:00 BRT  
Blogger Leonardo Mendonca disse...

Perfeita a abordagem... e os primeiros que terão que repensar e se reestruturar são os jornalões e seus editores e comentaristas "donos da verdade". Reciclar ou morrer!

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 10:12:00 BRT  
Anonymous carcamano disse...

O McCure-Patterson, teóricp do agenda-setting (ou, se vc preferir, das ondinhas) alertava já em em 1976 que “quanto ao tema Vietnã, o poder de agenda-setting dos meios de comunicação de massa era claramente medido pelos hábitos dos eleitores de apoiar um dos candidatos. Os defensores de Nixon eram receptivos em relação à ênfase da mídia; os de McGovern, não. No que se refere às notícias televisivas, quanto mais os partidários de McGovern eram expostos à cobertura das redes, mais estes diminuíam a saliência do problema Vietnã. Os dados aprecem indicar que, em relação à mudanças de relevância do eleitor, a preferência por um candidato exercia uma influência mais forte do que a exposição à mídia”

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 11:36:00 BRT  
Blogger MARCO ANTONIO PASSOS disse...

Caro Alon,

Parabéns pelo texto - Análise precisa, simples e objetiva. Interessante a comparação com modelos da Física, ótima argumentação que fez sobre as novas variáveis que entram no sistema de informação.

E apenas para dar prosseguimento a relação com a Física, situações novas normalmente colocam em xeque o senso comum. Vide Teoria da Relatividade e Fisica Quântica. Determinados aspectos dessas teorias não nos permitem fazer analogias com fenômenos do cotidiano, é como se fossem teorias para um mundo estranho para a comprensão humana e limitada das coisas. Do mesmo modo, o aparecimento da Internet, por exemplo, cria um ambiente completamente novo, e deve estar deixando nuita gente boa com dor de cabeça.

Um abraço.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 11:37:00 BRT  
Anonymous carcamano disse...

Aliás, o velho e bom marx muito antes já dizia que os homens não fazem a história sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 11:37:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Um bom exemplo de onda em sentido contrário:
Do Blog do Ilimar: http://oglobo.globo.com/blogs/ilimar/

"Luzes na ribalta

Acho que não custa nada pedir um pouco de bom senso. Como pode um procurador pedir a prisão de investigados sabendo que a legislação eleitoral proíbe prisões nesse período? O procurador não conhecia a lei? Conhecia e assim mesmo fez o pedido? Com que finalidade? O procurador pede a prisão para o juiz substituto, no meio da noite, depois que o juiz titular encerrou o expediente. O procurador pede ao juiz substituto a prisão de um suspeito que o juiz titular havia negado. Tudo muito estranho. Não sei não, mas acho que não é apenas na política que é preciso maior transparência."

ATenção para o fato que o Juiz titular já havia negado o pedido!!!

E o Lago continua mais agitado.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 12:09:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 13:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Um sujeito vai lá no Noblat e diz que o Alon não entende de Física. Por quê? O que está errado? Eu sou físico e não vi nada de errado. Explique em vez de tentar desqualificar

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 13:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É muito bacana o que está acontecendo nesta eleição. O Rei “mídia” ficou nu. Em sua ânsia por destruir a imagem do PT e Lula para recuperar o poder, nos revelou, sem querer, que não é o portador da verdade. Gradualmente fomos percebendo o quanto a imprensa no Brasil se confunde com propaganda e...marketing! É como se estivéssemos acordando de um pesadelo. Sabe aquele filme Matrix? Algo parecido. De repente, numa falha do sistema, saímos do torpor induzido pelos que nos escravizam e nos deparamos com o mundo real! É um mundo sujo, sem Sol, mas é o Nosso Mundo. É o único em que podemos exercer algum poder.
Olhamos agora, perplexos como os “carcereiros de opinião” agem. Estamos acordados mas eles continuam usando as velhas fórmulas, como arrogantes máquinas bem treinadas por décadas de prática. Vimos a Veja inventar um dinheiro vindo de cuba, vimos todos falando em mensalão (excelente termo para marketing), sigilos bancários e telefônicos quebrados, viagens ao exterior de integrantes de CPIs e nenhuma prova encontrada. Mesmo assim todos continuaram afirmando com exagerada veemência que o Mensalão existira. Chega a ser infantil. Foram tantos os casos...Bolívia, dossiê, PIB, etc...e na mesma medida em que eram cometidos os excessos íamos abrindo os olhos para a dúvida. Sim! foi esse o milagre que aconteceu! Nos demos o direito de duvidar! Duvidar do Joelmir Beting, da Miriam Leitão, do Noblat. Quem são essas pessoas? Porque sua opinião vale tão mais que a nossa? Será que o Alexandre Garcia sabe tanto assim mais do eu? Quem eles são? Pessoas. Apenas isso. Gente. Como eu e você. Gente que tem uma opinião e que se não tiverem argumentos convincentes e verdadeiros não serão mais levados em consideração.
Sem nem perceber o “sistema midiático” acabou nos educando politicamente.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 13:16:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 19:12:00 BRT  
Anonymous Beatriz Antonieta lopes disse...

Parabéns, Alon!

Um texto direto e claro, que mostra a realidade que vivemos...
Você tem razão, depois do e-mail ficou mais fácil a troca de idéias, mais fácil mostrar certas coisas, e "fazer pensar"...
Veja só, seu artigo tem mais de 02 anos e permanece atual!

sábado, 28 de fevereiro de 2009 10:44:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home