quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Meu ódio será sua herança (28/09)

Calma, pessoal. Essa é só a versão nacional do título de um faroeste de 1969, do diretor Sam Peckinpah. Em inglês, é The Wild Bunch, algo como "bando selvagem". Bem Peckinpah. Mas o título brasileiro também é um pouco Peckinpah, vocês não acham? Na imagem, um cartaz do filme de quase quarenta anos atrás (clique para ampliar). Transcrevo o que está escrito nele, em inglês mesmo, pois sempre se perde algo na tradução. Unchanged men in a changing land. Out of step, out of place and desperately out of time. É curtinho, você mesmo traduz. É como possivelmente vão se sentir os derrotados nesta eleição presidencial, deslocados no tempo e no espaço, moradores num país que não é seu. Um país dividido ao meio será nossa herança. Haverá, claro, um debate sobre quem dividiu o país. Se foi o PT ao apoiar-se nos pobres, ou o PSDB ao apoiar-se nos ricos e na classe média. Será um debate inútil para efeitos práticos, mesmo sabendo que haverá sempre alguém disposto a freqüentar páginas de jornal falando em "pacto", "conciliação" e "entendimento". Sorte que há também sempre um peixe esperando pelo jornal do dia anterior [o único problema é a Vigilância Sanitária]. Ainda que hoje em dia as coisas fiquem arquivadas na Internet e acabem, de um jeito ou de outro, virando domínio público. Qual é o problema de sermos um país dividido? Em princípio, nenhum. Os Estados Unidos são um país rachado ao meio há muito tempo. Entre democratas e republicanos. Entre liberais (o que lá é sinônimo de esquerda) e conservadores. Entre aristocratas da Costa Leste e broncos do interior. Mas eles têm uma vantagem sobre nós. Têm um projeto nacional muito claro: mandar no resto do mundo. Podem divergir em como fazê-lo, mas o projeto é um só. Daí por que eles brigam entre si por quase tudo, mas se juntam quando o projeto está em jogo. Nós não temos algo assim em que nos apoiar. É por isso que o ódio, a mágoa e o ressentimento serão para muitos e muitos a única herança desta eleição. O establishment não vai aceitar uma eventual vitória do PT. Esqueçam. Nem preciso me alongar muito sobre isso. E uma eventual vitória do PSDB entrará na mitologia da esquerda como uma violência política, como um "golpe eleitoral" articulado pela imprensa e pelos detentores do poder de facto. Sobre a imprensa, aliás, você conhece bem a minha opinião. Ela tem todo o direito de influenciar a eleição. Imprensa "neutra" ou "isenta" é apenas uma construção ideológica de viés totalizante. Autoritária, como toda construção totalizante. Democrático é a imprensa ter lado e deixar isso nítido, da maneira que bem entender. Se o sujeito não estiver satisfeito, que deixe de beber daquela fonte de informação. O problema é que a maioria do país acreditou durante duas décadas nessa construção "isentista". São as vítimas do marketing. Agora, vêm a desilusão. Êta palavrinha boa. É antônimo de encantamento. Nesse dilúvio de emoções, sentimentos e (des) encantamentos, a aritmética é a minha bóia. Eu gosto mesmo é de ver as coisas resolvidas no voto. E o que for resolvido, para mim estará ok, ainda que eu tenha minhas preferências (é claro). Mas, como dizem meus amigos, eu devo ser mesmo um centrista, sempre procurando um caminho de composição de interesses, de busca de pontos comuns. Graças a Deus para os jornalistas (seres que se alimentam de notícias e que em boa parte são descrentes, agnósticos ou ateus -o que não deixa de ser uma forma de ingratidão), esse meu ponto de vista não tem hoje em dia nenhuma importância. Não tem hoje em dia nenhuma representatividade. Sorte a minha, que posso passear por aí de alma leve, sem me sentir responsável por nada. Saboreando a doce irresponsabilidade de ter tentado e, felizmente, fracassado. Existe algo melhor do que as suas idéias não poderem ser julgadas à luz dos resultados práticos que (não) produziram?

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10 Comentários:

Blogger Helio de Almeida disse...

Caro Alon,
Não existe nenhum problema a mídia optar por um partido, o problema está nas informações que ela leva para as pessoas e na maioria das vezes, a negação do direito de resposta. É o que sempre o presidente Lula pergunta: será que quem denuncia e muitas vezes pré julga, dará o mesmo espaço para o julgado, quando ele provar que é inocente? Eu não entendo como a mídia tem tanto poder em um país que pouos se interssam pela informação. Todos sabem, por exemplo que é grande o número de televisores desligados no JN, cito-o, por ser o mais assistido. E como as pessoas se inteiram de um assunto acontecido em qualquer parte do mundo e discute com tanta propriedade? Não é estranho? Concordo com voce quando fala em um país dividido e tomara que tenha sido o presidente Lula que tenha propiciado isso, sendo que ainda acho muito cedo para se fazer qualquer análise. Se Lula ganhar e se conseguir resistir aos ataques, creio que a partir dai pode-se vislumbrar a criação de uma frente consolidada pró Lula contra os ricos. E Se esse pensamento virar realidade, já vislumbro um terceiro mandato de Lula.Como? O tempo dirá.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 10:25:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Enquanto isso, ninguém discute a economia. Os candidatos da oposição se limitam a usar bordões fáceis e frases feitas, mas programa econômico que é bom nada.

Pobre eleição essa de 2006...

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 11:38:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Alon

Obrigado pelo post. É sempre legal saber que alguém que se admira pensa igual ao que a gente pensa.

Uma questão: existe quem não tenha preferências?

Eu também prefiro errar sozinho. Pelo menos sei que o mal decorrente do meu erro atingirá apenas a minha pessoa.

Haverá um dia que certos sufixos finalmente cairão em desuso. Essa é a minha última utopia.

abs
Paulo

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 14:48:00 BRT  
Anonymous Ana Janaina disse...

O problema não é a falta de 'imparcialidade', é a falta de isonomia. (Até agora, só a Recorda, por increça que parível, conseguiu apertar tanto Alckmin quanto Lula). Além do mais, é a própria mídia que se proclama imparcial. Não digo os nomes, mas na Folha de São Paulo escreve uma colunista política cujo marido trabalha para o PSDB. E aí? Vai ficar por isso mesmo, né? Além do mais, se você pensa que informação é direito de todos e tanto TV quanto Rádio são apenas concessões, o problema fica muito mais complicado do que 'parcial' X 'imparcial'...

Abraço,

Ana Janaina.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 14:49:00 BRT  
Anonymous Ana Janaina disse...

E, Cesar, não discutem economia e também não discutem direitos humanos, não discutem políticas para as mulheres, não discutem liberdade de expressão... O que eles gostam de discutir é 'corrupção' - isso se a gente entender a corrupção como esta invenção novíssima trazida à política pelo PT...

Abraços,

Ana.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 14:51:00 BRT  
Anonymous paulo araujo disse...

Um som pro boteco

Samba de Uma Nota Só
Tom Jobim

Eis aqui este sambinha,
Feito numa nota só
Outras notas vão entrar,
Mas a base é uma só
Esta outra é consequência,
Do que acabo de dizer
Como eu sou a consequência,
Inevitável de você
Quanta gente existe por aí,
Que fala fala e não diz nada,
Ou quase nada
Já me utilizei de toda a escala,
E no final não deu em nada,
Não deu em nada
E voltei prá minha nota,
Como eu volto prá você
Vou cantar com a minha nota,
Como eu gosto de você
E quem quer todas as notas,
Ré, mi, fá, sol, lá, si, dó
Fica sempre sem nenhuma,
fique numa nota só

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 14:52:00 BRT  
Blogger Leonardo Mendonca disse...

Você está absolutamente certo, Alon: "se s sujeito não estiver satisfeito, que deixe de beber daquela fonte de informação." O problema é que: 1. a grande imprensa nunca deixa nítido (como fez a Carta Capital) o lado em que está (remember Carta de Intenções da Rede Globo, publicada há pouco), e 2. a grande imprensa diária, em menor ou maior escala, (dis)torce sempre para o mesmo lado, não deixando opções para beber em outras fontes.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 16:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"se s sujeito não estiver satisfeito, que deixe de beber daquela fonte de informação."

E se o sujeito não estiver satisfeito com as escolhas que os outros fazem "democraticamente" por ele, ele faz o quê, Alon?

A democracia é válida quando não está acima da lei e as decisões são sobre assuntos que são, de fato, do interesse de todos nós, como a defesa da vida, da propriedade, da liberdade.

O veredito democrático tem mais validade quando está mais próximo está do indivíduo. Nenhuma decisão da maioria legitima a exploração de uma minoria. Pior ainda, quanto mais votos e quanto mais distante o processo decisório está, menos legítimo ele é.

Logo, deveríamos deixar questões privadas para as pessoas decidirem individualmente. Questões familiares, pelas famílias. E por aí vai, até o nível municipal, estadual, nacional, global. Cada problema na sua esfera. E não tudo sendo resolvido por um salvador da pátria qualquer sentado no trono da nossa "cidade proibida".

É exatamente isto que por um bom tempo tornou possível a convivência de Quakers, Puritanos e outros elementos na sociedade colonial americana.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 17:01:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Paises divididos ao meio não decidem eleições no primeiro turno

quinta-feira, 28 de setembro de 2006 22:27:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O País não pode ficar à mercê de humores. De interesses contrariados. Se não for o centroavante, levo a bola embora. Ou, se perder o jogo, chamo meus amigos da rua de baixo e esburaco todo o campo. Ninguém deve se sentir o dono da bola numa Democracia. Dentre os méritos de quem se arvora com competências para assumir elevados cargos públicos, a temperança deve fazer parte. É o mínimo que se espera. Caso percam, que esperem e preparem-se para outras oportunidades, ao invés de elegerem quimeras fantasmagóricas contra as quais cavalgar. O medo não deve ser a nossa herança.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006 10:56:00 BRT  

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