domingo, 24 de setembro de 2006

Guerra, paz e o modus operandi da democracia (24/09)

Às vezes, é mais complicado "ganhar" a paz do que foi vencer a guerra que a produziu. Na guerra, trata-se de submeter o adversário pela força. Na paz, é preciso integrar ao novo statu quo os derrotados da guerra. É por isso que os movimentos da guerra precisam estar alinhados com as expectativas da paz que os vitoriosos pretendem construir. Isso é verdade desde sempre, mas vem se tornando cada vez mais verdade na medida em que a eliminação pura e simples do adversário deixa de ser uma alternativa admitida por padrões consensuais do que venha a ser o conceito de civilização. Você já percebeu do que estou falando. Ganhar a eleição será pinto, perto da tarefa imediata colocada diante do vencedor: integrar as tropas e populações do vencido à nova realidade política surgida das urnas. E sem melindrar os aliados da vitória. Para que não mergulhemos numa guerra civil política. É possível? Sempre é. Em geral, o eleitor brasileiro costuma ser sábio. Raramente dá poder político demais a uma única tribo. Quando o fez (1986), deu a uma federação de tribos (PMDB). Um dos elementos mais eficazes para a integração de tribos políticas derrotadas nas urnas é permitir que disponham de máquina (cargos) e orçamento em que possam acomodar os seus (quadros e bases eleitorais) para a sobrevivência no inverno. Não se choque, leitor, com a aparente crueza dessas palavras. Essa é a política, aqui e na Cochinchina. Sun Tzu, em A Arte da Guerra: "Para um inimigo cercado, você deverá deixar um caminho para a saída; e não pressione com muito vigor um inimigo que está acuado e desesperado em um canto sem saída". [Tente acuar um manso gatinho no canto da sala. Mas proteja-se antes]. Onde está a raiz das dificuldades políticas enfrentadas pelo governo do PT nos últimos quatro anos? No fato de o PT ter governado como se fosse majoritário no país e no Congresso -mesmo sem ser. O PT fingiu que era um Lula e quis que todos acreditassem. Principalmente o PMDB. As tribos políticas são migratórias, orientam-se pelas possibilidades de reprodução do próprio poder. Em números, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva leva vantagem sobre o de Fernando Henrique Cardoso. Na política, o tucano vira o jogo. FHC deu ao país oito anos de paz política também porque dividiu o poder entre os grandes partidos e sempre deixou válvulas de escape para as lutas políticas. Lula tenta se equilibrar na sela do touro bravo (touro leva sela? claro que não, mas é uma licença "poética") porque o seu PT tem graves dificuldades (genéticas) de dividir poder. Mas, sejamos justos com Lula. Talvez ele não tivesse alternativa. Talvez ele já antevisse na época (começo do governo) o que todos sabemos hoje: o único partido capaz de criar problemas realmente graves para Lula seria o PT, cujo apetite parece a todo momento inesgotável. FHC nunca deixou que o PSDB se nutrisse do poder para se transformar em partido orgânico e hegemônico. O PT já chegou ao governo prenhe de organicidade e com um enorme apetite pela hegemonia. Como aquele convidado que chega esfomeado à festa e vai engolindo o que passa pela sua frente. Até perceber que, inadvertidamente e para espanto geral, colou na boca nada menos do que um dossiê.

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13 Comentários:

Anonymous jose carlos lima disse...

Depois que troquei o portal UOL(ckmin) pelo meu próprio blog a dor sumiu. Tal provedor estava me machucando, impondo-me cicatrizes no corpo e na alma com seu manchetismo imparcial. E olhe lá que sou assinante. E como todo mês desembolso grana pra eles, eu deveria ser respeitado, senão como cidadão, pelo menos como consumidor. No sentido de alertar outras pessoas, favor passar este texto prá frente. Que todos saibam o que pode estar acontecendo com muita gente, quadros de ansiedade provocados por um noticiário chulo e mentiroso que inclusive pode provocar uma morte súbita. Chega de permitir que nos matem=massacrem=torturem. Que as pessoas saibam o quão mal à saúde pode provocar uma página noticiosa mentirosa que ela nomeia como seu site principal. Cuidado! Esteja atento(a). Este gesto é a favor de si mesmo e da sua saúde.

Leia mais no meu blog http://abandon.zip.net

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 05:59:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Parabéns pelo texto fluente, maravilhoso, gostoso de ler. Concordo com você. Estão falando em refundação, sei lá como seria isso, mudança de sigla? Fusão com outros partidos? Seria interessante sua opinião. Gosto de seus textos.

Abraço,

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 06:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"DE ONDE VEIO O DINHEIRO?"

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 06:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Embora com dez dias de atraso, o Blog do Alon admite que é grave e espantoso o PT ter "colocado na boca um dossiê". O mais grave, no entanto, são os chamados antecedentes do núcleo de poder. Lula sempre fala de traições. Mas, será? Quando se listam os "traidores", os desviantes, estamos falando da "essência" do PT. Considerando a lista dos que foram demitidos/removidos em função de escândalos: Palocci, Zé Dirceu, Berzoini, Genoino, Gushiken, Silvio Pereira (Secretário Geral), Delúbio (Tesoureiro), Bargas, Lorenzetti e sei lá mais quem.
Quem conhece minimamente a trajetória da esquerda leninista e as raízes dos partidos de esquerda desta tradição, sabe de onde isso veio e onde isso vai dar - se o eleitor deixar. Há guerras inevitáveis. A "paz" custa muito mais caro.
Recentemente tivemos um exemplo no Oriente Médio.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 07:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon
Porque deveriamos ter pena de Lula, o que esta em jugamento sao os seus atos nao as justificativas dos mesmo, pois sempre vai existir um motivo para justificar um ato prejudicial para toda a nacao.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 09:46:00 BRT  
Anonymous Kleber disse...

Alô Alon, o José Carlos tem mais que razão ao dizer o que diz. O jornalismo precisa ser inventado novamente. Dói informar-se, não apenas porque as notícias são ruins, mas porque a produção das notícias são mal intencionadas. Muito triste isso. Entretanto, vi aqui refletir sobre seu texto. Falei do José Carlos, pela urgência do mesmo. Deixo então questões. Quantos PTs há? Quantos PSDBs há? Aqui escrevemos rasteiro, é a condição do hipertexto, mas achei muito sumária sua reflexão. Democracia dá trabalho e me parece que em nome dela, Lula trabalha muito mais que o referido FHC.
Saudações

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 10:36:00 BRT  
Blogger Fernando disse...

Alon,

O maior erro do Lula foi não ter aceitado o acordo feito com o PMDB pelo Dirceu (foi 2003 ou 2004 ??). Naquele momento já estava claro a incompetencia administrativa de parte do PT, o que justificaria.

Alias, ele mesmo aceita isso e vai sofrer por isso por muito tempo.

Asta,

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 10:47:00 BRT  
Anonymous Osmar disse...

Alon,
Bom comentário este seu. Especialmente, partindo de você que já declarou seu voto em Lula. É preciso também dizer que o PT sempre alimentou sua militância, desde a sua criação - e continua alimentando - a respeito de sua "pureza ética". Sempre fez questão de enaltecer sua "superioridade ética" em relação aos demais partidos à sua direita. Construiu sua história e sua militância com ênfase plena nesse item. Nunca educou seus simpatizantes a conviver com pluralidade política. Coligações? Nem pensar! Foi a partir de José Dirceu, na presidente do partido, que se iniciou um movimento em busca de coligações que possibilitassem, não só à vitória em 2002, como a governabilidade mínima após a vitória. Mas, esse foi um movimento que ocorreu praticamente só em nível da cúpula do partido. O PT não fez a revisão necessária internamente. Os militantes continuaram e continuam sendo condicionados a reagir como se fossem os melhores, os mais éticos, os mais honestos, os mais... Tente conversar com qualquer militante. Ele tem um ódio patológico dos adversários. Como mudar isso no militante e torná-lo plural, fazê-lo conviver democraticamente com a adversidade, com o contraditório? O PT precisa dar uma resposta a isso. O partido criou os seus "monstrinhos" e, agora, deve reeducá-los. Será uma tarefa difícil. Mas, terá que ser feita, se estiver realmente disposto a buscar a paz com os adversários. A guerra, para o PT, terá que ser, sobretudo, interna.
Abraços,
Osmar

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 14:45:00 BRT  
Anonymous José Ohniram disse...

Osmar,

Não me lembro do Alon ter declarado o voto dele em Lula aqui neste blog. Onde foi? Onde você viu isso?

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 14:52:00 BRT  
Anonymous Marcos Ladeira disse...

O momento atual da política brasileira é riquíssimo e, creio, indispensável à nossa evolução democrática. Vejo muitos excessos e radicalismo de todas as partes. Porém é interessante observar como a população brasileira convive com a pororoca exacerbada de opiniões e acusações mútuas. Comparando-se o atual momento às nossas crises políticas anteriores parece claro que já aprendemos a compreender que é necessário percorrer esse caminho. O povão vota em Lula pelo carinho que recebeu. Os intelectuais não votam mais em Lula, mas ainda digitam 13 na urna por que não querem a repetição do reinado de FHC e reconhecem o atraso dos comandantes do PFL. Enfim, cessados os movimentos pendulares dessa turbulência, vamos ter, com certeza um 2010 mais equilibrado e consistente. Quem viver verá...

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 23:52:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

O post é certeiro.

Tenho uma discordância:
"Lula tenta se equilibrar na sela do touro bravo (touro leva sela? claro que não, mas é uma licença "poética") porque o seu PT tem graves dificuldades (genéticas) de dividir poder. Mas, sejamos justos com Lula. Talvez ele não tivesse alternativa (eu, PA, observo: queria por essa frase em negrito). Talvez ele já antevisse na época (começo do governo) o que todos sabemos hoje: o único partido capaz de criar problemas realmente graves para Lula seria o PT, cujo apetite parece a todo momento inesgotável"

Lula é o PT e o PT é Lula. Um não existe sem o outro.
Impossível separar um do outro, mesmo que seja para salvar Lula.
Você, eu e os seus leitores sabemos que no PT nada se faz sem o impramatur do chefe. Lula é um ignorante, no exato sentido da sua baixa escolaride. Mas é um cara que possui uma intuição que eu invejo.
Resta provado (ou quase) que na política a intuição é importante, mas não suficiente.
Isso fica evidenciado no elogio que você faz, para o horror de alguns, da perpicácia intelectual do FHC.

abs.

terça-feira, 26 de setembro de 2006 00:25:00 BRT  
Anonymous pauloaraujo disse...

Amigos

O que Alon tem escrito desde que descobri o blog é muito mais do que menos disto:

"Aqui não fala nenhum fanático, aqui não se 'prega', aqui não se exige crença."

terça-feira, 26 de setembro de 2006 00:39:00 BRT  
Anonymous SERGIO MAIDANA disse...

Alon,

pela sua ótica "a paz dos vencidos" foca o PT ganhando a eleição. Já passou pela sua cabeça que ele pode perder? E se perder e Lula for processado e condenado por vários crimes que cometeu na administração pública? O PT vai ser legalista ou vai partir para as cabeças e dizer que "a elite golpista" usou de jogo sujo para deixar Lula fora da política?
Esta sua visão é um pouco sectária, eis que, desde que começou esta neurose de pesquisas, os petistas não falam outra coisa e ufanizam o governo Lula.
Lula foi melhor do que o governo FHC? Só se for pelos dados montado pelo Expedito. Além disso, triste é a falta de senso crítico dos nossos jornalistas dito "de esquerda", pois esquecem que o governo Lula é assistencialista e usa práticas retrógradas de permanência no poder (isto era abordado só quando "a direita" estava no poder). O governo Lula foi o que menos investiu em infra-estrutura e mais deu lucro aos bancos (isto ninguém fala. Claro! É um governo companheiro).
Lamentável pontos de vistas parcial.

terça-feira, 26 de setembro de 2006 10:58:00 BRT  

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