sábado, 2 de setembro de 2006

A foto que não há e a obradorização do Brasil (02/09)

Eu adoro pé de matéria. Aquele finzinho do texto jornalístico onde se escondem muitas vezes as preciosidades. O pé de matéria é um sobrevivente. No jornalismo impresso, está permanentemente arriscado ao "selecionar/apagar" que precede o inevitável ajuste ao tamanho previamente definido. Deveria haver nos jornais um sistema como existe em algumas indústrias, onde se recolhem as aparas para não haver desperdício. Zero de sobras. E viva a eficiência.

Chamou minha atenção, especialmente, um pé de matéria publicado no Globo Online na quinta-feira. O vice-presidente da chapa da oposição, senador José Jorge (PFL-PE), falava sobre a possibilidade de um pacto para votar a reforma política. O título era bem amistoso: "Vice de Alckmin defende trégua pela reforma política". No pé vinha o seguinte trecho:

"O senador evitou projetar cenários que considerem a reeleição de Lula, mas na hipótese de perder, ele conta que o partido não fará uma oposição menos austera.
- Não posso partir desse princípio. O PFL quer ganhar a eleição. Mas se, por hipótese, perdê-la, não vamos aderir de maneira alguma - prometeu.
A 30 dias da eleição, no entanto, o vice de Alckmin reconhece algumas dificuldades, mas promete o "grande momento da virada":
- Ninguém está jogando a toalha - assegurou.
Caso as urnas mantenham o PFL e o PSDB na oposição, o senador prevê uma gestão petista de pouca mobilidade e uma "tumultuada" relação com o Congresso.
- Aprendemos muito na oposição. Conseguimos fazer CPIs, mantivemos o governo sob pressão. Lula terá a ameaça constante do impeachment porque essas questões são cumulativas, não se acabam com a eleição."


José Jorge é daqueles políticos preciosos para os jornalistas: não mente, não dissimula e passa longe da retórica. Quer saber o que está acontecendo? Pergunte ao Zé Jorge. Quando eu li, levei super a sério a afirmação de que "Lula terá a ameaça constante do impeachment", porque minha intuição diz que é isso mesmo que a oposição vai tentar.

Outro dia, comentei num post sobre a perda de tempo que é discutir "concertações" e "pactos" para o próximo quadriênio (Lula fala em pacto, a oposição reage e a eleição segue). A oposição só vai sossegar no dia em que tirar Luiz Inácio Lula da Silva do Palácio do Planalto. Está no direito dela. Se isso é bom um ruim para o Brasil, cada um que forme sua opinião.

Caminhamos celeremente para um cenário de selvageria política. Seja qual for o resultado da eleição, começa a parecer que o perdedor não aceitará pacificamente a derrota. A intimidade dos sentimentos da oposição está retratada nas palavras do vice de Geraldo Alckmin. E o PT, se perder? Concluirá que não é possível falar em democracia num país em que o poder econômico e midiático se concentra em tão poucas mãos.

No passado, havia o efeito Orloff com a Argentina. Lembram do "Eu sou você amanhã"? Era o tempo da hiperinflação e dos planos econômicos para quebrá-la. Ontem, o presidente do México, Vicente Fox, não conseguiu falar no Parlamento para oferecer o tradicional discurso sobre o Estado da Nação. É a primeira vez que isso acontece na história mexicana. A oposição não deixou. Ela protesta contra supostas fraudes na eleição presidencial em que recentemente foi derrotado o candidato da esquerda, Andrés Manuel López Obrador. Seremos o México amanhã? Talvez. Clima para isso começa a haver.

Ah, sim, a foto de que fala o título deste post. Criou-se uma mitologia sobre o "cálculo político" que supostamente explica por que a oposição não se empenhou para o impeachment de Lula durante a crise política. PSDB e PFL não caminharam nesse rumo porque não tiveram força para tal. Só por isso. Reparem que falta uma imagem nessa crise. Na foto, as pessoas concentradas na praça prestam atenção no palanque do comício, onde os principais líderes da oposição discursam pedindo o impeachment de Lula. Cadê a foto, oposição?

As pessoas que hoje comandam o PSDB e o PFL estiveram junto com o PT e Lula nos palanques das diretas, mais de vinte anos atrás. Depois, algumas delas compartilharam com Lula os palanques do impeachment de Fernando Collor. Diante de seus novos propósitos, talvez esteja na hora de tucanos e pefelistas aprenderem a fazer comícios sem Lula. Afinal, eles já estão bem grandinhos. Será uma expertise útil, seja qual for o futuro.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon).
Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

5 Comentários:

Anonymous Marcos disse...

Não acredito Alon. Vamos ser sinceros: Lula representa alguma mudança radical ao sistema? O que o setor empresarial ganharia com uma crise permanente?
Quem da oposição apostar neste caminho vai cair do cavalo.
Nunca nos esqueçamos que para tudo é preciso respaldo da população. O PT quando era oposição nunca conseguiu este apoio quando era radical, dúvido que a atual oposição consiga.
E tem mais, interessaria a José Serra e Aécio, os mais cotados a substituir Lula pela oposição, este clima pesado?

sábado, 2 de setembro de 2006 16:43:00 BRT  
Anonymous Dourivan Lima disse...

Alon: pelo bem do pluralismo do blog, acho que não faria mal chamar a atenção para o artigo desta sexta, no Valor, da Maria Cristina Fernandes, sobre o quão pouco o Lula está contribuindo para a formação de uma cultura democrática no País. Sou contra esse pendor da oposição para reeditar o famigerado Clube da Lanterna, grupo de radicais lacerdistas que editava a revista Maquis durante o governo JK. Mas durante o governo Fernando Henrique a oposição de esquerda bateu o bumbo à vontade. O Janio de Freitas chamou o presidente de "fascista" e o comparou a Fujimori. O Cony, que preza muito a contribuição da sua expertise em História para o supermercado de formação de opinião, comparou-o a Salazar. Na edição da IstoÉ (um requentado da Veja sobre o mesmo assunto), vejo o português numa galeria de "estadistas" a que o Lula é comparado. Será golpismo? Ou uma manifestação do nosso persistente espírito de incivilidade? Está certo que é muito pedir pro Lula apanhar calado. Mas, definitivamente, voltando ao artigo da Maria Cristina Fernandes, a retórica "lembista" do Lula não ajuda muito para criar um "espaço público", de discussão democrática.

sábado, 2 de setembro de 2006 17:08:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Douriva, coloquei o texto na seção Textos de outros.

sábado, 2 de setembro de 2006 19:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon você tem razão. A oposição só não pediu o impeachment pois faltou musculatura. Olha o que disse o Jorge Borhausen hoje na Folha:

FOLHA - No auge da CPI dos Correios, quando houve o depoimento de Duda Mendonça, a oposição optou por não pedir o impeachment. Foi a estratégia correta?
BORNHAUSEN - A análise tem de levar em conta o exame do processo legislativo. Qualquer pedido de impeachment pode ser arquivado pelo presidente da Câmara de forma monocrática. Para ser desarquivado, precisa da assinatura de 10% dos deputados. Temos esse número. Acontece que ele precisa de dois terços da Câmara para sua admissibilidade, e nunca tivemos esses dois terços. Prova é que na sucessão de Severino Cavalcanti, que renunciou, o vencedor foi Aldo Rebelo. Nunca tivemos maioria, quanto mais dois terços. Se tivéssemos ingressado naquele momento e a admissibilidade tivesse sido negada, a Câmara estaria dando um documento, indevido e injusto, de honorabilidade ao presidente Lula, que tem responsabilidade por culpa e dolo por tudo que ocorreu.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006 02:54:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Bom, alguma vez a oposição teve musculatura para pedir o impeachment? Nunca teve.

Impeachment é processo político. E sem condições políticas, nada feito.

Collor só foi impedido porque fez um governo, em particular uma política econômica, tão desastrosa que bastou uma briguinha entre irmãos por causa de mulher para o governo ruir. Imagino que se Collor tivesse tido uma política econômica menos ignóbil ele teria cumprido seu mandato até o final.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006 20:31:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home