sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Expliquem essa (15/09)

O português é de Portugal, neste trecho de reportagem do Diário de Notícias:

Al-Qaeda integra grupo salafista argelino e faz ameaças à França

(Patrícia Viegas, 15/09) - No vídeo que fez difundir no dia do quinto aniversário do 11 de Setembro, o número dois da Al-Qaeda, o egípcio Ayman al-Zawahiri, anunciou que aceita a integração do Grupo Salafista para a Pregação e Combate (GSPC) no movimento e pediu à formação argelina que seja uma "espinha" na garganta da França.
Após uma análise aprofundada da cassete de al-Zawahiri, com 1h16, alguns especialistas em terrorismo descobriram referências ao GSPC, movimento terrorista nascido de uma cisão do Grupo Islâmico Armado (GIA), em 1998, que surge mesmo descrita como a ala armada da Al-Qaeda no Hexágono (França).
O GSPC, que apesar de estar actualmente enfraquecido na Argélia não aceitou a amnistia oferecida pelo Governo aos islamistas, divulgou ontem um comunicado na Internet prometendo prestar total obediência a Ussama ben Laden e prosseguir com a Jihad.
"Os nossos soldados estão às suas ordens [de Ben Laden] para que ataque, através do nosso intermédio, quem ele queira e onde ele queira", escreveu o emir do grupo argelino, Abu Mussab Abdeluadud, no comunicado. "A organização Al-Qaeda é a única capaz de reagrupar os mujahedine, de representar a nação islâmica, de falar em em seu nome", prosseguiu o emir do GSPC, que no ano passado tinha declarado a ex-potência colonial da Argélia como o seu "inimigo público número um" e pedido para integrar a Al-Qaeda.


Vale a pena também ler a notícia sobre o assunto no The New York Times. Vejam que interessante. Há uma teoria na praça, teoria muito popular em certos círculos progressistas, de que o terrorismo de origem islâmica seria uma reação à "arrogância imperial" dos Estados Unidos e de seu principal aliado, o Reino Unido. Como explicar, então, que a França seja um alvo da Al-Qaeda? Logo a França, a campeã do apaziguamento e da contemporização. Bem a França, que sempre se opôs à invasão do Iraque. Justamente a França, que conduziu o desfecho da guerra entre Israel e o Hezbollah em sintonia com os mais estratégicos interesses nacionais libaneses.

Hora de acordar.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Aproveitando suas palavras "Justamente a França, que conduziu o" processo de submissão e colonização da Argélia...

É o neocolonialismo, estúpido...desculpe, mas não resisti a a tentação de usar uma de suas expressões prediletas.

Continue com o Blog, leio diariamente.


Um abraço do leitor.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 19:12:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Boa, anônimo. Mas veja que você usou o verbo no passado ("conduziu"). O que justificaria um terrorismo antifrancês hoje? O "neocolonialismo"? Mas quem não é neocolonialista? A Bolívia, por exemplo, acha que o Brasil adota uma atirude neocolonial em relação a ela. Isso justificaria um terror boliviano contra nós? Não faz sentido, acho eu.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 21:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Belo blog, mas você ainda é socialista Alon?

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 21:32:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro anônimo, esse é um debate desigual,pois não tenho a opção de tb ir para o anonimato. Se sou socialista? Sou de esquerda. E você?

sexta-feira, 15 de setembro de 2006 22:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

não não sou, mas simpatizo com seu blog. Acho que talvez você esteja saindo de uma posição de esquerda para um centro moderado.

jvalenti@uol.com.br

sábado, 16 de setembro de 2006 15:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,



Você pergunta: por que a França?

Bem, a Argélia passou por uma guerra civil durante os anos 90. A guerra começou depois de um golpe de Estado realizado pelo exército sob o pretexto de que o partido islâmico, que aparentemente ganharia as eleições, acabaria com a democracia. Se a democracia estava em perigo ou não, eu não sei, mas esta foi a alegação do exército. Durante a guerra houve entre 100 mil e 150 mil mortes durante a guerra. As eleições seguintes, depois da pacificação, aparentemente foram fraudadas. Qual o papel da França nisso? Não sei dizer, sei que ela apoiou formalmente o golpe. Sei também que França, assim como a Inglaterra, tem muito poder sobre suas ex-colônias. Agora, qual a extensão desse poder, não faço a menor idéia. O fato é que a mídia mundial (assim como os governos dos países do primeiro mundo) trata deste assunto como uma questão interna francesa. Pouco se diz, pouco se discute, e não foi por falta de mortos em ambos os lados.

Quanto ao terrorismo, a França lida com isso há muito tempo, mas nem o governo nem a imprensa dão muito destaque ao assunto Se fosse procurar, vai descobrir que volta e meia prende pessoas com explosivos. Como eu disse, eles não falam muito sobre o assunto. Um dos atentados mais sérios e mais famosos ocorreu em 1995, no centro de Paris, em uma estação de metrô. Aparentemente fora realizado por integrantes desse GIA.

Já em relação à imagem atual da França, a pacificadora, acho que é uma imagem recente, construída a partir da 2º guerra do Iraque. A França ainda é vista pela população de suas ex-colônias como a metrópole opressora. E, para piorar, a política interna francesa não ajuda muito. A lei do véu, o racismo da extrema direita, o atual ministro do interior que fala alguma bobagem xenófoba sempre que pode, a lei recente que obrigava (sugeria?) que os livros didáticos ensinassem os benefícios que a colonização trouxe para os povos colonizados.

De qualquer forma, a França tem dificuldade em lidar seu passado colonialista em geral e com a Argélia em particular. A guerra da Argélia é um tabu ainda hoje. Não é rara a comparação, feita até mesmo por franceses, entre a forma como a Alemanha lida com seu passado nazista e o silêncio francês em relação às barbaridades que seu exército praticou na Argélia. Você deve saber que um general francês desenvolveu muitas técnicas de tortura durante a guerra e depois foi ensiná-la aos americanos do norte e do sul em um lugar que se chama, se não me engano, Escola das Américas, nos EUA. A imprensa brasileira tratou deste assunto.

Há muitas outras razões para explicar os problemas da França com suas ex-colônias assim como tudo o que eu disse precisaria ser mais bem explicado.

Ah, só mais uma coisa, é preciso reconhecer que Chirac tem se esforçado bastante não apenas para se tornar, na tradição de de Gaulle, herói dos oprimidos do mundo, mas também procura reconciliar – não sem muitas críticas – a França com seu passado. Ele criou o dia da memória da escravidão, reconheceu o papel estrangeiros no exército francês durante as duas grandes guerras etc. O problema é que o passado o condena. Há algum tempo saiu um filme (que eu não vi) cujo título tomava parte de uma declaração de Chirac “Le bruit, l’odeur e quelques étoiles”. A declaração era a seguinte: “Comment voulez-vous que le travailleur français, qui travaille avec sa femme et qui, ensemble, gagnent environ 15 000 francs et qui voient sur le pas du palier à côté de son HLM, entassée, une famille, avec un père de famille, trois ou quatre épouses, et une vingtaine de gosses, et qui gagne 50 000 francs de prestations sociales, sans naturellement travailler. Si vous ajoutez à cela le bruit et l'odeur, et bien le travailleur français, sur le palier, devient fou. Et ce n'est pas être raciste que de dire cela...” (Chirac, Orléans, junho de 1991)



Voltando à questão argelina, se o golpe foi correto ou não, não sei. Intelectuais o defenderam com o argumento de que a democracia não pode acabar com a própria democracia. A Argélia era uma democracia antes dessas eleições? Não sei, mas suspeito que se era, não era lá essas coisas. De qualquer forma, não sei nada a respeito do partido islâmico nem do governo argelino assim como não sei qual é o papel da França nisso tudo. Em resumo, eu precisaria investigar estes assuntos para formar qualquer juízo a seu respeito, mas não tenho nenhum interesse nisso. Uma coisa me parece certa, não se trata de uma questão arrogância.

Você deve se perguntar por que então escrevi estas bobagens. A resposta é simples: sou um leitor assíduo de seu blog. Aprecio seu trabalho. Admiro a qualidade de suas análises e o cuidado na argumentação – sem a indignação que faz o papel de argumento nos textos que se publica sobre política. Porém, quando se trata do islamismo, de Israel etc. seu texto fica tão abstrato quanto as idéias que você deseja criticar, o que é uma pena, pois a análise dá lugar ao confronto sem mediações tão ao gosto do nosso tempo. É uma pena, pois um confronto em que não há mediações só pode resultar no extermínio do adversário.

Um abraço.

Everson.

sábado, 16 de setembro de 2006 23:48:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Boa, Everson. Obrigado pela resposta e pela crítica. Mas há algo que você não esgotou na sua argumentação: o terrorismo se justifica ou não para combater o neocolonialismo? Ou melhor: há alguma situação em que o terrorismo se justifica? Ou melhor ainda: há alguma situação em que se justifiquem o genocídio e a tortura? Há ou não questões civilizatórias que estão acima das diferenças entre as nações, as etnias e as religiões? Razões históricas para o ressentimento dos dominados existem às carradas. Mas isso não responde as perguntas que coloquei. Que estão longe de serem abstratas, acho eu.

Abs.,

Alon

sábado, 16 de setembro de 2006 23:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É difícil encontrar um auto-denominado esquerdista admitir limites para a "resistência", em geral a esquerda apoia todas as transgressões morais (não que a direita não o faça, mas é apanágio da esquerda). A França só teve prejuizo na sua aventura colonial, e os argelinos não tem nada a ganhar com governos islâmicos.
A verdadeira pergunta é: estará o islã preparado para o século 21? Crêem os islamitas que tem poder para avançar seu projeto medieval sobre nações industrializadas?
É obrigatório assumir que o islã nada tem a oferecer.
JV

domingo, 17 de setembro de 2006 01:56:00 BRT  
Anonymous Everson disse...

Alon,

Eu não tinha a pretensão de esgotar o assunto. Você perguntou como explicar que França estivesse sob ameaça de terrorismo uma vez que se apresenta como pacificadora nos conflitos médio-orientais. Foi apenas isso o que tentei fazer, tentei explicar.

Quanto às questões que você pôs, bem, vou tentar dizer alguma coisa.

Se o terrorismo se justifica ou não para combater o neocolonialismo.

Sinceramente, não sei. Concordo com o que você disse em outro texto, sou eu e minhas circunstâncias. Eu não faço idéia do que possa sentir um argelino diante da França. E a razão é que por mais que o Brasil tenha vivido seu tempo de independência sob o poder da Inglaterra e dos EUA, não houve pessoas e tropas instaladas em meu país vivendo sob uma outra lei (com imunidades, privilégios). Veja bem, não falo apenas de ressentimentos. Se França agiu – e ainda age – para sustentar o golpe, há uma questão política atual que, por sua vez, remonta a um passado recente que faz parte da memória das pessoas.

Engatando em sua outra questão sobre os valores da civilização, podemos pensar a situação colonial de outro modo, afinal, temos nossos próprios argelinos aqui dentro, os índios. Muitas tribos têm costumes que se chocam com aquilo que entendemos por direitos humanos (penso especificamente em questões de vida ou morte). Você seria a favor de uma intervenção civilizatória do Estado brasileiro nestas tribos?

Quando disse que algumas questões são abstratas demais foi porque penso que cada caso é um caso. Você sabe que o discurso civilizatório foi uma arma potente na mão dos europeus ao longo dos dois últimos séculos (para não falar no que veio antes em forma religiosa). O problema das intervenções humanitárias é que elas podem vir a ser a nova forma do “fardo do homem branco” ou ainda uma ocasião para voltarmos ao período das guerras religiosas pré-Westfália. Com isso quero dizer que não se deve intervir por razões humanitárias, para evitar um genocídio, por exemplo? Não, obviamente que não é isso. O que quero dizer é que cada caso é um caso. E o local para decidir sobre as intervenções deveria ser a ONU, mas a ONU é isso aí: desequilibrada, impotente... E ela poderia ser de outro modo? Os direitos humanos não são separáveis do direito internacional e enquanto for assim, bem, será preciso sempre ter em vista o que está em jogo em cada caso.

Abraço,

Everson

segunda-feira, 18 de setembro de 2006 11:10:00 BRT  

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