quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Darwin, a orfandade da agenda liberal e o "lamarckismo" da oposição (14/09)

Charles Darwin (foto) e sua Teoria da Evolução das Espécies podem ser úteis para muitas coisas. Até para a análise da política e das eleições. O ambiente ajuda quem mais facilmente se adapta a ele. Um urso de pelo marrom não vai se transformar num urso polar, branquinho, só porque o transportaram para o Ártico. Bem, dito isso, preciso confessar a vocês que comi uma mosca nesta semana (quem mandou usar esse termo no post anterior?). Só ontem li uma reportagem que o jornalista Cristiano Romero publicou há alguns dias no Valor Econômico. Ela é quase uma síntese da conjuntura político-eleitoral. Um trecho:

No momento em que especialistas apontam para a necessidade de aprofundamento de reformas fiscais, com o objetivo de acelerar as taxas de crescimento da economia brasileira, os eleitores dos três principais candidatos à presidência da República demonstram pouca disposição em apoiar novas mudanças. A quinta rodada da pesquisa telefônica feita pelo Ipespe junto a mil eleitores, no último dia 6, constatou que 88% rejeitam o aumento da idade exigida para aposentadoria e 80% não aprovam o fim da gratuidade nas universidades públicas. Apenas 9% concordam com a mudança de idade e 11% com o fim da gratuidade.
Está entre os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a menor resistência a mudanças nas regras das aposentadorias, como uma forma de redução dos gastos públicos - 11%, diante de 8% dos eleitores do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência, e de 7% da senadora Heloísa Helena, candidata do P-SOL. Lula também possui mais eleitores, segundo a pesquisa Ipespe/Valor, favoráveis ao fim da gratuidade nas universidades - 13%, face, respectivamente, a 9% de Alckmin e 6% de Helena.
'Há um rechaço claro dos eleitores ao aprofundamento das reformas', concluiu o diretor do Ipespe, o cientista político Antônio Lavareda. Em enquetes anteriores, constatou-se que a população está mais favorável, neste momento, a reformas fora da área econômica, notadamente, à reforma política e ao endurecimento das leis penais.

A necessidade de reformas liberais está em baixa no eleitorado. Escrevi isso em abril, ainda no Correio Braziliense (Caravelas liberais contra o vento, em mares nunca dantes navegados). Cada um terá a sua explicação para o fato. Não é objetivo deste post dissecar a etiologia da nossa síndrome contraliberal. Mas uma coisa é inegável. Se os ventos sopram contra o liberalismo, contra a redução do Estado, adaptar-se-á melhor quem estiver naturalmente voltado para onde os ventos sopram. Claro que nesse quesito o PT leva vantagem sobre o PSDB e o PFL. Ainda mais se tem a ajuda do PSDB e do PFL. Quando assumiu, Luiz Inácio Lula da Silva tomou para si parte da agenda que antes o PT e aliados chamavam de neoliberal. O que fez a oposição? Num lance de genialidade política a demonstrar, passou a cobrar do PT "coerência" com a agenda petista anterior, adotou uma estratégia de jogar o PT contra a base social tradicional do PT. Claro que não funcionou. O sujeito que estiver bravo com Lula por causa da reforma da Previdência talvez se desloque para Heloísa Helena, mas dificilmente vai caminhar na direção de dois partidos (PSDB e PFL) carnalmente identificados com a defesa de reformas na Previdência. O resultado prático dessa política de "acirrar as contradições" entre o PT e sua base é a orfandade da agenda liberal. Ela é discutida nos jornais, em seminários e em conferências de intelectuais, mas está completamente abandonada no Congresso e na campanha eleitoral. Ao ponto de o candidato do PSDB defender que novas mudanças na Previdência não são necessárias, que basta formalizar o mercado de trabalho e combater a fraude. E o mais incrível é que ninguém (entre os seus) o cobra por causa disso. O silêncio dos formadores de opinião que lutam há mais de uma década pela agenda liberal é ensurdecedor. É como se, na sua mudez, quisessem dizer a Alckmin: "ô Geraldo, fala aí qualquer coisa na campanha, desde que seja para ganhar do Lula; depois a gente vê o que faz". E ainda reclamam quando as engrenagens da "pedra no lago" dão a impressão de estarem meio emprerradas.

Permitam-me modificar um pouco a afirmação que fiz no começo do texto. Um urso de pelo marrom não vai gerar descendência de ursos polares, branquinhos, só porque o transportaram para o Ártico. Qualquer colegial sabe (deveria saber) a diferença entre as teorias de Darwin e Jean-Baptiste Lamarck. Ainda mais em tempos como os nossos, em que o homem tem a capacidade de alterar decisivamente as condições ambientais.

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4 Comentários:

Anonymous Cesar Cardoso disse...

É um caso a se estudar o cansaço do discurso das reformas liberais junto à população.

Talvez seja um cansaço continental - uma década de reformas liberais e a América Latina, nos anos 90, não foi muito melhor que nos anos 80.

Talvez porque a próxima rodada de reformas liberais vai ter que ser mais profunda e começar a cortar na carne da população, como o estabelecimento de idade mínima para aposentadoria (o que garantiria quase certamente que talvez o neto do pobre conseguisse se aposentar, já que o pobre e o filho do pobre morreriam contribuindo para a Previdência sem conseguir se aposentar)

Talvez porque, no caso do Brasil, o caos do nosso sistema político e as contas cobradas pela nossa desigualdade social (violência) estejam botando medo na classe média - lembre-se, a pesquisa do Ipesp foi telefônica, e pobre não tem telefone.

Talvez simplesmente seja o efeito da irrelevância da mídia.

Talvez seja tudo isso. Ou não seja nada disso.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 09:52:00 BRT  
Anonymous SERGIO MAIDANA disse...

Alon:

voltei. Questiono algumas coisas: você acha que a maioria do povo sabe o que é neo-liberal? será que tudo não é uma questão de debate?

Acho que o PT provou que as idéias do PSDB estavam certas, tanto é que seguiu a cartilha dos tucanos e não ficaram sequer corados.

Aí está a chave da questão da carta do FHC, quando disse que os tucanos não deveriam ter vergonha de discutir as reformas que fizeram (mas a mídia venal ficaram discutindo fofocas como "Azeredo", "José Jorge e apagão" etc.)

Eu sinto, que muitos "formadores de opinião" sucumbiram ao patrulhamento do PT e ficam tremendo de medo em falar a verdade, dizendo que o PT é um partido sem programa e sem projeto de governo - a não ser interessado no poder pelo poder.

Outra coisa que não é analisada é a 'cooptação' de determinados jornalistas-articulistas que mudam de opinião quanto ao governo (qualquer governo) como muda de camisa ou recebe uma "ajudazinha" ou uma "viagem de turismo". Veja o caso dos favoraveis ao neo-liberalismo de FHC e hoje favoraveis ao "NEO-ASSISTENCIALISMO" do Lula.

O que o brasileiro deve discutir é o futuro com seriedade e não ficar torcendo para Chico ou Francisco como fosse um jogo de futebol. A política "neo-liberal" do FHC é criticada pela maioria dos jornalistas, mas eles agora passaram a fazer jornalismo "google" e não saem mais às ruas. Tudo bem...fazer o que? agora são jornetlista graças ao avanço das telecomunicações nos últimos 10 anos. E tem mais: não largam o celular nem quando tomam banho.

É isso aí meu chapa...um abraço apra o gaiteiro...

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 10:01:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

E brasileiro sabe o que é liberalismo? Se nem os bancos o sabem, quem mais seria liberal no Brasil?
Essa agenda não existe. O que existe é o que Raimundo Faoro mostrava: um capitalismo sem riscos, concentrado em meia dúzia de grupos promíscuos com o governo. Ponto.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 11:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Caro Alon,

Não existe eleitorado que queira ver reduzidos estes programas que você citou. Principalmente o eleitorado sem escolaridade, não vê relação nenhuma entre estes serviços e os impostos pagos por eles. Nesta espécie de loteria, todos acham que estão ganhando alguma coisa "de graça". Pergunte a estas mesmas pessoas se elas querem pagar por estes serviços através de mais impostos. É evidente que não.

Portanto, ao mesmo tempo que o brasileiro quer receber todos estes serviços, escapa como pode da tributação: migrando para o mercado informal - já que o emprego formal nunca vai aparecer - ou se relocando em um outro país, como é o caso de profissionais qualificados e empresários. Empresários tem a opção de continuar no Brasil e sonegar, ou de ao menos buscar compensações através de BNDES e contratos públicos, que continuam como é de praxe no Brasil, com PT ou sem PT. Outra opção é juntar-se ao serviço público. Qualquer coisa pra deixar de ser um contribuinte líquido e passar a ser um recipiente líquido da tributação, ou pelo menos ficar zerado ( o que é difícil, a maioria perde ) .

Eu preferi me relocar em outro país, outros amigos da minha geração preferiram a informalidade ou o caminho do serviço público em um estado cada vez maior. Concordo com você que essa plataforma não vai ganhar eleição. Mas as pessoas não escolhem o que fazer das suas vidas apenas através do voto: elas decidem através das suas ações. Elas decidem com os próprios pés. Sistemas não-sustentáveis quebram. Os sistemas de aposentadoria estatais VÃO quebrar: estão condenados porque não são nada diferentes dos esquemas de pirâmide que existem por aí.

Ou seja, reformas continuarão acontecendo independente de eleitores e de políticos, simplesmente porque o modelo de estado máximo tende ao colapso. É um sistema onde o grupo de contribuintes só diminui e o grupo de recipientes só aumenta. Um estado grande, como o brasileiro, é como uma casa continuamente desmoronando e continuamente sendo 'reformada'.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006 12:58:00 BRT  

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