quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Augusto e Fernando cuidam de nós (28/09)

Um poeta adequado a nossos dias é Augusto dos Anjos.
Os versos clássicos de Versos Íntimos:

"Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"

Uns posts atrás escrevi sobre desilusão. Mais alguns atrás, sobre Balzac, o das Ilusões Perdidas. Mais atrás ainda, sobre Gonçalves Dias. Em tempos nos quais muitas quimeras são guilhotinadas, a luz de Augusto dos Anjos brilha intensamente. Tudo se encaixa. E você? Quais são as suas últimas quimeras que caminham para o artefato celebrizado por Monsieur Joseph-Ignace Guillotin? A tradicional cordialidade brasileira? O PT? O PSDB? A possível amizade entre o PT e o PSDB? A imprensa? A ética na política? A alternância no poder? O equilíbrio fiscal? Alguma outra? Não se desespere, porém. Morram quantas quimeras tiverem que morrer, novas sempre surgirão do nosso útero salvacionista. Conforta-nos Fernando Pessoa:

"(...) Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura
É Esse que regressarei."


Daqui a pouco estaremos de regresso. Vêm aí o "pacto social", o financiamento público das campanhas, o voto em lista, a reforma tributária. Quimeras à vontade. Calma. Muita calma nessa hora. Até porque, ao contrário da lenda, Guillotin nem inventou a guilhotina nem morreu nela. E se você achou que eu viajei na maionese, leia de novo. E de novo. Se tiver tempo para gastar à toa.

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