sábado, 9 de setembro de 2006

As lágrimas do crocodilo, o monopólio da coação do Parlamento e ainda FHC (09/09)

Da Wikipedia em português:

"A expressão popular derramar lágrimas de crocodilo, usada para dizer que alguém chora sem razão ou por fingimento, surgiu de um fato real que acontece com os crocodilos. Quando o animal come uma presa, ele a engole sem mastigar. Para isso, abre a mandíbula de tal forma que ela comprime a glândula lacrimal, localizada na base da órbita, o que faz com que os répteis lacrimejem. E são as lágrimas que lubrificam o olho."

Tem gente que reivindica para si o monopólio da coação do Parlamento e derrama lágrimas de crocodilo depois de tê-lo mastigado com gosto. Escrevo isso em referência ao debate sobre o voto aberto ou secreto dos parlamentares. Pedem o voto aberto nas cassações de mandatos, mas o preferem secreto em situações como a eleição das mesas e a apreciação de vetos. Ou seja, o Legislativo deveria ser protegido das pressões do Executivo, mas não das pressões da "opinião pública". É um Max Weber (foto) revisitado e adaptado, em que a "opinião pública" reivindica para si o monopólio da violência legítima contra o Parlamento. Uma leitura bastante original da política como vocação. E, por falar em Weber, aproveito para comentar trecho da carta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em que se refere ao senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Não há qualquer prova de que Azeredo soubesse do caixa 2 em sua campanha pela reeleição para o governo de Minas Gerais em 1998. Não há qualquer prova de que Azeredo soubesse que contratos com o governo dele eram a garantia para empréstimos bancários que ajudaram a financiar projetos político-eleitorais de aliados do tucano. FHC parece concluir pelo paralelismo das situações de Azeredo e Luiz Inácio Lula da Silva. Faz sentido. O que não faz sentido, na minha opinião, é o desfecho da lógica do ex-presidente: de que Azeredo deveria ter sido imolado lá atrás para que Lula pudesse ter sido atacado desde então com mais desenvoltura. Talvez a conclusão razoável seja outra: se a ausência de provas contra Azeredo foi razão suficiente para que nem processo abrissem contra ele no Senado, faz sentido que também o presidente tenha sido poupado de uma ação de impeachment. Como diria James Carville, "é o Estado de Direito, estúpido!". FHC não é estúpido, nem eu cometeria a estupidez e a grosseria de tratar dessa maneira o ex-presidente. Uso a frase apenas para chacoalhar um pouco a roseira nesse debate insensato em que a política brasileira vem mergulhando de tempos para cá, sem que se vislumbre a luz no fim do túnel.

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6 Comentários:

Anonymous Cesar Cardoso disse...

O problema, Alon, é que a nossa "opinião pública" entrou numa egotrip de fundamentalismo moralista - veja que a Helô (que só não está melhor que FHC na captação dessa egotrip), que já se colocou contra a união civil e as pesquisas contra células-tronco, mais um pouco e vai prometer mandar uma lei acabando com o divórcio.

FHC está jogando para o respeitável público. Está fazendo o papel de palhaço do circo que se tornou a "opinião pública" e a classe média. Ao mesmo tempo, conseguiu ser notado. Ruim que os podres dele vão começar a aparecer.

E de passagem: ainda vai existir um partido político com tanta capacidade de entrar em guerras internas sem sentido como o PSDB.

sábado, 9 de setembro de 2006 10:55:00 BRT  
Anonymous Helio de Almeida disse...

Caro Alon,
Não concordo que em algum momento houve abrandamento nos ataques a Lula. O ano de 2005 foi de ataques de todos os lados, a questão do impeachment só não foi a frente porque não teve respaldo da população, apesar da brutal queda nas pesquisas. Eles se deram por satisfeitos achando que Lula já era coisa do passado. Em 2006 veio a surpresa e com os números na economia melhorados e um nítido sentimento de melhorias nas vidas das pessoas, veio o golpe contra a oposição e Lula volta a crescer. Para piorar a situação da oposição, as CPIs não conseguiram ligar Lula a nenhum escandalo e ai vem a percepção que elas eram apenas palanques ou como escreve Luis Fernando Verissimo: "ou os eleitores declarados do Lula estão sabendo distinguir o moralismo de ocasião, cujo objetivo é tudo menos a moralidade, do moralismo legítimo". E sobre afirmar se FHHHC é estúpido ou não, isso depende do contexto, pois não somos máquinas e agimos de acordo com as provocações. Quem sustenta o nosso equilibio? Nada, pois somos só ternura em um momento e depois viramos furacão. Acho que em função da necessidade do PSDB de se afirmar como superiores a turma do Lula e não ser captado pela maioria da população e os agentes a seus serviços não conseguirem empolgar nem os seus semelhantes, com certeza eles são levados ao desespero, a estupidez, as insanidades. Não é estúpido, mas faz estupidez e ai vemos mais uma grande diferença entre eles e Lula, já que eles são acostumados com vitórias enquanto Lula só ganhou uma vez e não perdeu a ternura, jamais.

sábado, 9 de setembro de 2006 11:00:00 BRT  
Anonymous Paulo Adolfo disse...

"É um ex-presidente empavonado, vaidoso e abandonado, estúpido!" Isso explica as palavras desesperadas de FHC em sua cartinha.

sábado, 9 de setembro de 2006 13:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O problema é que o caixa 2 e o conhecimento quanto ao caixa 2 são as menores das acusações contra o Lula. Não esquecer do caso Okamotto e do caso Duda Mendonça.

sábado, 9 de setembro de 2006 15:34:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Alon,
existe um cheque assinado pelo Azeredo pagando uma dívida que ainda havia ficado em 1998. Há provas sim contra ele.

Folha de São Paulo (27/08/06)
O Ministério Público Federal vai denunciar à Justiça o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) sob a acusação de crime de peculato. Essa prática ocorre quando o servidor público se apropria de dinheiro ao qual tem acesso em razão do cargo e desvia os recursos em benefício próprio ou de terceiros. Juntamente com Azeredo serão acusados pelo mesmo crime o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e Cláudio Mourão, que foi tesoureiro da campanha derrotada de reeleição ao governo de Minas de Azeredo em 1998.

Quanto a Lula. Há uma declaração formal do atual procurador da República INOCENTANDO o presidente.

Agência Estado (16/05/06)
O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, garantiu ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem envolvimento com o esquema do valerioduto e disse que quem acusa o chefe do Executivo “está fazendo uma leitura política”.

sábado, 9 de setembro de 2006 17:54:00 BRT  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Também acho que FHC não é estúpido. Chacoalhando a roseira, penso que a referência ao Eduardo Azevedo é sobretudo um ataque às pretensões do PSDB mineiro no horizonte de 2010.
Uma questão de tática e estratégia: o ataque a Azeredo posiciona FHC na linha de frente no combate ao adesismo com vistas a marcar uma posição partidária francamente oposicionista, considerando a provável vitória do Lula. Quando li a carta logo lembrei do Covas, que deu um chega pra lá em pretensões assemelhadas num outro período da nossa história política (se não me engano, sobrou até para o FHC). Que alternativa de sobrevivência política resta ao PSDB que não a derrota do lulismo? Afinal, quem vai ser oposição ao lulismo? O Psol? Esse papo de união nacional é vigarice. Quem tem que garantir a governabilidade no regime democrático é a situação, Democracia sem oposição não é democracia. O lulismo é forte e, portanto, precisa de combatentes do mesmo nível.
Muita gente pode não gostar do FHC. Mas mesmo quem não gosta irá reconhece-lo como um poderoso adversário político. Não por acaso a chiadeira em MG e no lulismo. Eu não gosto do lulismo, mas o reconheço como um adversário político muito duro de combater.

PS: Alon, muito legal o blog.
Abs
Paulo

domingo, 10 de setembro de 2006 06:24:00 BRT  

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