terça-feira, 12 de setembro de 2006

11 de setembro (12/09)

Este comentário sai com atraso de um dia. Mesmo antes do ataque ao World Trade Center em 2001, a data já era um marco para mim. Tinha 17 anos quando Salvador Allende foi derrubado e perdeu a vida num 11 de setembro. O desfecho do governo Allende levou o Partido Comunista Italiano (PCI) a adotar a democracia como valor universal (e o compromisso histórico com os liberais italianos como política). O PCI cuncluiu, a partir da experiência chilena, que a união com o centro seria estratégica para a esquerda num projeto democrático de poder. As Brigadas Vermelhas discordavam, e bloquearam o acordo entre os comunistas e o Partido Democrata Cristão (DC) seqüestrando e matando o premiê da DC Aldo Moro. Mas a roda da história não pára. Hoje, o governo de Romano Prodi é a expressão tardia daquela importante decisão do PCI. Ainda sobre o Chile, aliás, é interessante notar que o vulto de Allende cresce à medida que passam os anos, apesar dos seus muitos e graves erros políticos, enquanto o de Augusto Pinochet vai sendo corroído, apesar de seus acertos, em especial na construção da nova economia chilena. A História é cruel (justa) com os ditadores, genocidas e torturadores. Ainda bem. Fica para vocês comentarem. Mas voltemos ao World Trade Center. Há duas posições sobre o assunto: ou o sujeito acha que foi um ato de terror cometido por uma organização fascista de origem islâmica que deseja impor seu diktat (o califado mundial) ao conjunto da humanidade, ou acha que foi um ato heróico contra o imperialismo americano. Não há uma posição intermediária possível nesses casos, em que a luta política define os campos com tanta clareza. Assim como nunca foi possível manter a neutralidade em acontecimentos como a derrubada e a morte de Allende. Como diria James Carville (muito citado agui neste blog), "é a luta de classes, estúpido". Mas os que acham que os ataques de Nova York foram uma coisa boa, não têm, em geral, a coragem de expor sua posição de maneira transparente. Pega mal defender o terrorismo. Por isso, a posição vem embalada num discurso oblíquo, mas ou menos assim: "é preciso buscar a origem dos problemas que levaram ao ataque de 11 de setembro, pois, afinal, a arrogância e a prepotência dos Estados Unidos e do Reino Unido é que incendeiam a resistência dos povos e abrem espaço para ações como a de Osama bin-Laden". Dito isso, invertidos os papéis do agressor e da vítima, está aberto o caminho para o sujeito defender a Al-Qaeda sem parecer que a está defendendo. Você que acompanha este blog sabe da minha posição. Aliás, eu me inspiro um pouco na maneira como os comunistas italianos interpretaram o 11 de setembro de Salvador Allende. Acho que o socialismo pode ser construído pelo aperfeiçoamento progressivo da democracia política e pela democratização progressiva da propriedade. Algo como a sociedade ir aos poucos "digerindo" o Estado e incorporando a população à esfera da cidadania econômica. É viável? Sei lá. Mas acredito que valha a pena tentar.

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9 Comentários:

Anonymous André Pessoa disse...

Sobre o atentado às torres gêmeas, o que você tentou aí foi uma falácia da bifurcação. A minha posição é intermediária entre essas duas aí e, por favor, me dê o direito de tê-la. Suas deduções podem valer para alguns, mas não valem para todos, e não valem para mim com certeza.

Em 11 de setembro de 2001, eu fazia parte daqueles que "éramos todos americanos". Mas em poucos meses, a atitude arrogante e criminosa que é "normal" para o governo dos Estados Unidos nesses últimos 6 anos corroeu a simpatia que muitos tiveram após o atentado, pelos cidadãos agredidos e mortos.

terça-feira, 12 de setembro de 2006 13:54:00 BRT  
Anonymous carcamano disse...

Caro, um reparo na sua análise da política italiana: uma das principais razões do predomínio da DC no cenário político italiano do pós-guerra era justamente por evitar uma vitória eleitora do PCI, que saiu muito fortalecido do combate ao fascismo. A aliança em torno do Prodi (ou antes, do D´Alema) só pode acontecer justamente após o fim da URSS. Existiam alguns debates em torno do tema nos anos 70? Sim, mas tudo muito restrito. Até porque muito do investimento norte-americano na Itália tinha este sentido geopolítico de barrar os comunistas (podemos dizer que algo similar acontece hj com Israel?). Outra coisa, creio que a realidade é um bocado mais complexa para a gente dividi-la de modo dicotômico.

terça-feira, 12 de setembro de 2006 13:56:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

"Ou o sujeito acha que foi um ato de terror cometido por uma organização fascista de origem islâmica que deseja impor o califado mundial, ou acha que foi um ato heróico contra o imperialismo americano".

Puxa, Olavo de Carvalho assinaria embaixo.

Quando se trata de questões envolvendo o islamismo, você perde toda a objetividade à qual estamos acostumados.

Surpreendente.

terça-feira, 12 de setembro de 2006 15:51:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Nunca ataquei o islamismo. Sempre fiz (e faço) a distinção entre o Islã e o fascismo de origem islâmica. Não vamos misturar as coisas. Também creio que não dá para manter "isenção" quando se trata do fascismo, do nazismo, do terrorismo e congêneres. O agressor em 11 de setembro foi o fascismo de Osama bin-Laden e sua Al Qaeda, e aquele ato foi um ataque contra a democracia de tipo ocidental. O que Mahmoud Ahmadinejad faz (por enquanto) com as palavras, bin-Laden faz com explosivos. Eu posso até achar que o socialismo é melhor do que a democracia de tipo ocidental, mas também não tenho dúvida de que a democracia de tipo ocidental é melhor que o fascismo de origem islâmica. Tampouco vejo problema em concordar com Olavo de Carvalho em algum assunto. Por exemplo, se o Olavo de Carvalho for contra a tortura eu deveria ser a favor? Só por ele ser o Olavo de Carvalho? Não faria sentido. De todo modo, obrigado por freqüentar o meu blog e comentar o que aqui está postado. A diversidade de opiniões e o respeito pela opinião alheia são sua razão de existir.

terça-feira, 12 de setembro de 2006 16:05:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

A Al-Qaeda não pretende impor califado mundial nenhum, é um movimento (fascista, sim) de reação à presença militar norte-americana na Arábia Saudita. Bin Laden não mentiu quando disse que a saída das tropas de lá significaria a paz entre ele e os Estados Unidos. Não é preciso ser partidário dele pra reconhecer isso.

Não o acusei de ser anti-islâmico, apenas de não analisar objetivamente os fatos. Eu também sou totalmente contra o fascismo islâmico, mas você está colocando água no moinho dos que defendem o tal "choque das civilizações", cuja pedra de toque é o tal califado mundial -- e exatamente por isso é que eu citei Olavo de Carvalho, que é o principal divulgador dessa bobagem aqui no Brasil.

A ascensão do Hamas, do Hezbolá e do Armagedonjad é fruto direto de uma política equivocada do ocidente, então é necessário denunciá-la, mostrar suas limitações, dizer que essa guerra contra o terrorismo não será vencida -- pelo menos, não do jeito que o simplismo da "escolha" proposta por você aponta.

terça-feira, 12 de setembro de 2006 18:42:00 BRT  
Anonymous joao disse...

Discordo que não haja uma posição intermediária. É exatamente onde me encontro. Não foi um ato heróico, pois não há heroísmo em assassinar inocentes, e nao foi um ataque terrorista ( tese geral) pois não foi um ataque, mas uma reação. Acredito firmemente que se o presidente americano nao fosse Bush, nao teria havido ataque. Lembro bem quando Bush (e Israel) cometeram o erro de abandonar a conferencia contra o racismo na Africa do Sul com seis meses de governo. Isso rompeu o frágil equilibrio que os EUA tinham como "juiz" da região. Hoje parece pouco para um ataque, mas quem ler os jornais da época vai ver como chocou o mundo. Ter se posicionado ao lado de Israel deu os motivos necessários para os terroristas se arvorassem defensores do islã. E isso interessava a Bush que não tinha legitimidade das urnas.

terça-feira, 12 de setembro de 2006 18:43:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Não sei se entendi seu texto direito, Alon. Mas eu não acho que criticar os EUA e suas políticas no Oriente Médio seja apoiar os terroristas. Aliás eu acho que essas politicas realmente mais ajudaram a criar mais terroristas do que acabar com eles.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006 08:48:00 BRT  
Anonymous evelin@unisystem.com.br disse...

Como nao há uma posição intermediaria, prefiro ficar com a versao um ato heroico contra o imperialismo americano, porque a morte de 3 mil pessoas no WTC, foi apenas uma desculpa para os Estados Unidos,invadir o Iraque e matando mais de 100 mil pessoas tambem inocentes,e explorarando o petroleo do pais.Os Americanos são otimos em desculpas de pacificação para invadir territorios.Sem contar a cultura nazista que eles adotam, ao serem anti-semita, lembrando que o ''semitismo'',inclui povos do oriente medio, porque muitas pessoas no Iraque nao tem agnação ao terror e sao odiadas.

quinta-feira, 14 de setembro de 2006 15:04:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

A posição intermediária é: foi horrível, com certeza, mas os gringos pediram p/ apanhar, certo!?

segunda-feira, 18 de setembro de 2006 12:59:00 BRT  

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