terça-feira, 29 de agosto de 2006

A oposição estudou, mas só as matérias que não caem na prova (29/08)

Nunca vou me esquecer daquele primeiro turno na eleição presidencial de 1989. Já era de noite, e passei pelo colega que redigia o texto no qual o jornal (Folha de S.Paulo) iria cravar a ida de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao segundo turno, em lugar do até então provável Leonel Brizola (PDT). O experiente repórter parecia bem preocupado, olhando alternadamente para o seu terminal e para os lados.

A pesquisa do Datafolha permitia dizer que Lula acabaria a apuração na frente de Brizola. Mas o jornalista estava -com razão- alarmado com a possibilidade de protagonizar uma "barriga". Sabe como é, as pesquisas têm o chamado "intervalo de confiança", para o qual quase ninguém liga. Vai que bem daquela vez o levantamento caísse nos 5% dos casos em que o resultado estoura a margem de erro. O sujeito e o jornal iriam passar o resto da vida se explicando.

A História conta que o jornal cravou (sozinho) e acertou. Saber-se-ia depois que aquele momento fora um episódio fundador na moderna democracia brasileira. O punhado de votos que levou Lula a ultrapassar Brizola e ir ao segundo turno contra Fernando Collor acabaria definindo o cenário das disputas político-eleitorais nas duas décadas seguintes. Às vezes a gente se esquece, mas, mantidas as regras do jogo, 2010 será a primeira eleição presidencial sem Lula.

Aliás, as sucessões presidenciais brasileiras desde a redemocratização só tiveram dois candidatos realmente competitivos: Lula e o anti-Lula. O segundo personagem foi interpretado por mais de um ator, enquanto o primeiro ator interpretou mais de um personagem. Começou como um radical, que recusou o apoio de Ulysses Guimarães no segundo turno de 1989, e chegou a 2002 como um moderado, da Carta aos Brasileiros e das alianças sem limites definidos.

O Lula de 2002 e dos anos seguintes (quando ficou claro que a Carta aos Brasileiros era para valer) exorcizou e liquidou o personagem anti-Lula. Acho que a oposição nunca quis compreender isso, ainda que todos os elementos a partir de 2003 tenham reforçado essa nova realidade. Diferentemente daquelas peças teatrais que ficam décadas em cartaz com o mesmo enredo e vários atores revezando-se nos papéis, agora era o enredo que tinha mudado.

Um dos problemas do PSDB e do PFL é se oferecerem como candidatos a um papel que já foi excluído do enredo da peça. Se no passado o anti-Lula era embalado e nutrido por medo do radicalismo (real ou imaginário, tanto faz) do PT e de seu principal líder, hoje o antilulismo acabou se reduzindo a uma caricatura de si mesmo. O que se apresentava antes como resistência a uma possível ditadura de esquerda, hoje não consegue escapar da armadilha de ser visto apenas como expressão de elitismo.

Caro leitor, não se zangue nem perca o seu precioso tempo discutindo a materialidade dessas idéias, sua conexão com a realidade estrita. Não é dela que trata este texto, mas do plano imaginário -que numa eleição é o que vale. A oposição brasileira está na situação do estudante que se preparou erradamente para o vestibular. Empenhou-se ao máximo, estudou bastante, mas estudou as matérias erradas. Sabe muito, mas sobre assuntos que não vão cair na prova.

A oposição achou que voltaria ao poder surfando na rejeição a um Lula ferido pelos sucessivos escândalos da crise política. Descuidou de construir um programa alternativo para o país e uma aliança política verdadeiramente nacional. No Brasil, quando se usa a palavra "nacional", ela necessariamente precisa incluir duas categorias: os pobres e o nordeste. A oposição apostou num messianismo às avessas, com base nas classes médias do sul e do sudeste. Nem aritmeticamente faz sentido.

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Este texto foi produzido para o Blog do Noblat, onde escrevo semanalmente.

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11 Comentários:

Anonymous rose neves disse...

Gostei demais. Hj em dia é tão difícil ler algo que saia da mesmice. Parabéns

terça-feira, 29 de agosto de 2006 12:06:00 BRT  
Anonymous Paulo Soares de Lucena disse...

Essa sua referência ao nordeste e aos pobres é central. Lembremo-nos de FHC com seu Plano Real e a aliança com o PFL (quando o PFL ainda era uma potência).

terça-feira, 29 de agosto de 2006 13:49:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Segindo a linha do Paulo Soares: Collor, em 1989, trafegou pelo mesmo eixo.

O que acontece é que o PSDB voltou às suas origens de classe média paulistana e o PFL, que poderia fazer o contraponto, hoje é uma confederação de coronéis (incluindo aí Cesar Maia, o coronel da classe média carioca) atropelados pela 'ligação direta' de Lula com os prefeitos.

A sorte da oposição é que o governismo ainda não tem um candidato para 2010. Se bem que tem 4 anos para construir..,

terça-feira, 29 de agosto de 2006 18:53:00 BRT  
Anonymous Luis Carlos disse...

Alon, bom esse seu texto, hem? O movimento anti-lula, ou anti-PT, teve início durante a campanha do 2º turno em 1989 e culminou, em 2002, com o bordão da Regina Duarte: “Eu tenho medo”, e depois a veio a resposta de outra atriz, com o “eu tenho esperança”. Hoje, ao lembrarmos daquelas duas cenas dos programas de PT e PSDB, a da medrosa e a da esperançosa, é difícil fugir à conclusão da efemeridade de muito do que é discutido durante uma campanha. O tempo passa, e tudo aquilo soa um pouco, digamos, ridículo. Afinal, do que tinham medo? E era esperança do que mesmo?
O nosso pragmático presidente fez virar pó os imaginários de medrosos, de um lado, e de esperançosos, do outro.

terça-feira, 29 de agosto de 2006 19:38:00 BRT  
Anonymous Luis Carlos disse...

A política econômica adotada pelo atual governo fez desmanchar a arma usada pela oposição: o radicalismo PT/Lula. No lugar do medo ao radicalismo, a oposição apostou na ojeriza à corrupção. Não que tenha trabalhado para isso, porque tudo caiu em seu colo, por meio daquilo que foi resultado de uma disputa entre Zé Dirceu e Roberto Jefferson: a denúncia do “mensalão”.
Os recentes resultados das pesquisas de intenção de votos para presidente mostram que foi pouco. Faltou competência, faltou atingir o coração das pessoas com uma outra fantasia e, pelo andar da carruagem, agora até mesmo parte da classe média também quer reconduzir o presidente para um segundo mandato.
Com uma economia que vai relativamente bem (esse “relativamente” deve ser bastante considerado) e a oposição não construindo uma campanha e um discurso convincentes, está dando no que está dando.
Afinal, PT e PSDB são parecidos até nisso. Quando são, ou foram, oposição têm, ou tiveram, o azar de ter um governo sortudo: a avalanche de dólares disponíveis no mundo nos anos 90, que permitiu ao FHC conduzir seu plano de estabilização (em detrimento de um endividamento, é verdade) e o mar de brigadeiro pelo está navegando a economia mundial durante o governo Lula. Em conjunturas como estas é preciso, como disse o Alon, ou diria o Spike Lee, fazer a coisa certa. O que não ocorreu.

terça-feira, 29 de agosto de 2006 19:56:00 BRT  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

Recebi seu texto via email e fiquei fascinado pela inventividade e lucidez com que você aborda a questão.
Parabéns!

terça-feira, 29 de agosto de 2006 22:05:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Eu venho notado esse elitismo em alguns blogs anti-Lula, chegam a ser ridículos na forma de atacar o própio povo. Se sentem europeus exilados em algum inferno tropical. Eu só me divirto com essas peças

quarta-feira, 30 de agosto de 2006 01:00:00 BRT  
Anonymous Júlio Godoy disse...

Texto super bem escrito. Para se ter o prazer de ler mais de uma vez. Parabéns.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006 10:35:00 BRT  
Anonymous Cesar Cardoso disse...

Rodrigo: boa parte, senão a maior parte, quiçá toda, a nossa elite se sente como europeus exilados em algum inferno tropical.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006 16:28:00 BRT  
Blogger eu_não_sei_de_nada disse...

Caro Alon,

Visito pouco seu blog, mas gosto cada vez mais da sua forma light, verdadeira e elegante de escrever, respeitando as mais diversas formas de pensar dos seus leitores. Parabéns

Mas vamos divagar um pouquinho.
Concordo com o seu texto. Eu acredito (claro que posso estar errado), que o Serra entendia esse dilema da oposição. Mas na política há muito individualismo, muito narcisismo, muita falta de espírito público e uma verdadeira sede de poder, não é verdade ?!!! (grande novidade...) No entanto, estava muito claro que boa parte da oposição e, principalmente, o PFL tinha uma clara preferência por Serra. O perfil de Serra é, notoriamente, muito mais de esquerda que o de Alckmim. Serra tem uma história política muito mais consolidada e experiente do que a de Alckmim. Viveu um processo muito louco que foi a sua candidatura na eleição passada, quando não era o candidato de FHC e nem concordava em muito com o que foi feito em termos de política econômica nos 8 anos da administração fernandista. Suas propostas tinham muita semelhança com as propostas dos petistas. Mas ele representava tudo o que de bom e de mal FHC havia realizado. Ponto. Alckmim, ainda não saiu do "cueiro". Foi um vice apagado de Covas. Apenas continuou o que seu mestre havia concebido. Recebeu um reforço técnico do governo FHC, quando este terminou. Mas se ele se apresenta como um excelente gestor..... Não o foi à frente de áreas importantes como a Educação, a Área Social (Febem inclusa) e Segurança. Não era o candidato ideal, com certeza, mas sabia qual era o calcanhar de aquiles de Serra e soube usá-lo muito bem. Não tinha, pessoalmente, nada a perder. Ao contrário. Uma vez candidato ao Senado, poderia sofrer uma derrota desmoralizadora para Suplicy. Candidato a presidente, achava que toda a oposição convergiria para ele, meio como por gravidade. Sabemos que, em termos de política nacional, não é bem assim. São Paulo não é o Brasil e nem o Brasil é São Paulo. De qualquer forma, Alckmim não perde muito. E se torna nacionalmente conhecido. De resto, muita água ainda vai rolar. E prevejo uma grave crise institucional muito em breve. Espero estar errado em minha tentativa profética. Forte Abraço
PS- Há muito o que falar para continuar esta tentativa de análise, mas acho que está bom para começar.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006 19:55:00 BRT  
Anonymous Bruna disse...

"Todos os partidos são variantes do absolutismo.
Não fundaremos mais partidos; o Estado é seu estado de espírito." Raul Seixas
Eu queria parabenizar o povo Brasileiro pela sua escolha.
Parabens!!!
E aproveitem bem os proximos quatro anos de Sofrimento...
PARE O MUNDO QUE EU QUERO DESCER...

domingo, 29 de outubro de 2006 23:42:00 BRT  

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