quarta-feira, 9 de agosto de 2006

O darwinismo político e o suicídio da elite (09/08)

Referi-me a Charles Darwin no post anterior e isso despertou interesse em alguns que freqüentam este blog. Aliás, tem muita gente que prefere não postar comentários, mas me manda emails. É uma opção a respeitar. Recebi hoje três emails sobre Darwin e a política brasileira, que me inspiram a fazer este post. Vamos lá. A democracia em todo lugar é razoavelmente parecida. Os partidos brigam entre si para ocupar fatias de poder. Cargos são trocados por apoio político no Parlamento. A execução do Orçamento é influenciada, em maior ou menor grau, por injunções políticas e paroquiais. Os parlamentares brigam para incluir no Orçamento obras e serviços que vão resultar em votos na sua base eleitoral. Os diversos grupos políticos mantém relações próximas com grupos empresariais, que ajudam a financiar as campanhas e carreiras eleitorais de pessoas e agremiações que defendem seus interesses. Bem, desde o governo de José Sarney, essas coisas que listei acima vêm sendo sistematicamente execradas junto à opinião pública (êta expressãozinha infeliz) e ao eleitorado. Vende-se a idéia de que a democracia brasileira será melhor quando menos fisiológica for. Vende-se a idéia de que fisiologismo e corrupção são a mesma coisa. Fisiologismo e corrupção são duas coisas (bem) diferentes. A segunda se alimenta da primeira, mas o jeito de evitar/minimizar essa interconexão é aumentar a transparência e o controle do Estado pelo público. Já a abolição do fisiologismo seria a abolição da democracia. Para muitos, o presidente eleito negociar cargos públicos em troca de apoio parlamentar é fisiologismo, o toma-lá-dá-cá: logo, o desejável seria que ele próprio indicasse todos os cargos, mesmo que o partido dele não tenha maioria parlamentar. Para muitos, o Congresso pressionar pela execução do Orçamento é fisiologismo, o toma-lá-dá-cá: logo, o desejável seria que o Executivo tivesse mãos livres para fazê-lo. A elite brasileira se acha muito esperta. Acredita que o permanente desgaste do Legislativo é uma maneira eficaz de se vacinar contra a influência popular no exercício do poder. Só se esqueceram de que, no Brasil, o chefe do Executivo não é indicado por um conselho de empresários, colunistas e formadores de opinião: é eleito diretamente pelo povo, em eleições de dois turnos. E o voto do sujeito que recolhe garrafas no centro de São Paulo vale tanto quanto o voto do presidente do Bradesco. Aí uma candidata como Heloísa Helena vai no Jornal das Dez (Globonews) e diz que só precisará do Congresso para aprovar o Orçamento, e os apresentadores ficam espantados! Querem saber como ela governará sem maioria parlamentar. Ela responde com a simplicidade de quem tem convicção: diz que não precisa de maioria no Congresso. Ora, vocês pariram Matheus, agora embalem-no. O que vocês acham que o público vai pensar de um candidato que disser que vai chamar os partidos para ocupar cargos no governo, de modo a formar uma maioria parlamentar e poder, assim, governar com tranqüilidade? Se eu fosse candidato, não dizia isso nem pendurado no pau-de-arara. A elite brasileira adora um bonapartismo, mas se esquece de que o povo talvez possa ter a idéia de ele próprio indicar o Bonaparte. A desconstrução de Sarney resultou em Fernando Collor. A tentativa de desconstrução do PT e de sua política de alianças resultará num Luiz Inácio Lula da Silva mais forte e numa Heloísa Helena correndo por fora. Não sei se um eventual segundo governo Lula será bom ou ruim. Não sei se um governo HH seria bom ou ruim. Não gosto de ler o futuro. Prefiro o passado. Abaixo, transcrevo o trecho inicial do 18 de Brumário de Luiz Bonaparte, de Karl Marx. Que também pode ser lido ao contrário, para adaptar-se melhor ao mato sem cachorro em que se meteram o PSDB e o PFL.

"Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Luís Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário! Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como a república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma, traduz sempre as palavras deste idioma para sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer sua própria língua no emprego da nova, terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela."


P.S.: Por que o título deste post fala em darwinismo político? Leia o post anterior.

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3 Comentários:

Anonymous Eduardo Cesar disse...

É incrível como a ingenuidade tomou conta da população sulista deste Brasil, não querem votar no Alckmin e em Lula, e se vigam dos dois votando em Heloísa...O brasileiro ainda não aprendeu a votar e, acho que nunca vai aprender!!!

quarta-feira, 9 de agosto de 2006 15:59:00 BRT  
Blogger Sergio Leo disse...

Alon, excelentes suas análises do pífio desempenho do Alkimin e do passeio da HH no JN. E parabéns pela associação com o Noblat.É isso aí, não é à toa que se chama a Internet de rede.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006 18:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon,

De um modo geral, admiro suas análises e seu blog. Parabéns.

Mas, não estamos perante um "fisiologismo". O que ocorre é a elite parasitária sugando - como sempre fez - a economia brasileira. E quem é essa elite ? São eles: Lula, Dirceu, FHC, Serra, Setúbal, Sarney, empreiteiras, cartel do cimento etc... De que vive essa elite ? De roubar o Estado, de sugar a frágil economia neocolonial - a piada dos bons fundamentos da economia que só os tolos ou interessados compram. Você tem dúvida de que roubam ? Você tem dúvida que da verba da bolsa família muito provavelmente 40% fica de maneira ilícita na máquina, naquilo cinicamente chamado de "custo político" ? Quanto foi o custo político no Governo FHC ? Você tem dúvida que esse "custo político" tem crescido muito e muito, até ter-se tornado insustentável ?

Como na música "Mickey Mouse em Moscou" do Capital Inicial : eu vejo todos, Lula, FHC, Dirceu dançando em cima do muro ..

dançando, enquanto vemos um Estado se desmoronando .

Cem anos de solidão , meu caro, reflete o triste destino da América Latina. Acabou a democracia, no limite, tudo não passa de um acerto entre Executivo-Legislativo-Judiciário. É questão de tempo (em história isso pode ser dez ou vinte anos) para extinguir essa nossa sexta república.

Jarbas

domingo, 13 de agosto de 2006 02:14:00 BRT  

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