quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Ninguém é idiota por ser pobre (24/08)

Carlos Alberto Sardenberg escreve um artigo interessante em O Globo de hoje. Não coloco o link porque navegar no site do jornal virou uma coisa muito complicada, um martírio. Parece que decidiram dificultar o acesso ao conteúdo de O Globo na Internet para, quem sabe, proteger o negócio jornal. Acho duvidoso como estratégia, mas o problema é dos acionistas da companhia, não meu. Só é pena terem deixado para trás um modelo de navegação que estava entre os melhores da rede. Voltemos ao Sardenberg. Ele diz mais ou menos o seguinte: se as condicionalidades é que são importantes no Bolsa Família, por que não investir mais na educação? O programa recebe R$ 11 bilhões [Esse número está no texto do Sardenberg, mas acho que o dado mais preciso é cerca de R$ 9 bilhões] do Orçamento. A educação federal recebe cerca de um terço disso, sem falar que o grosso vai para as universidades. É mais ou menos o que diz o Cristovam Buarque, candidato à Presidência pelo PDT, quando faz da sua campanha uma cruzada pelo avanço na qualidade do ensino no Brasil. Pego o gancho do texto do Sardenberg para dizer aqui algo que queria dizer faz tempo. O Bolsa Família precisa de uma fiscalização rigorosa para evitar que recursos sejam repassados para quem não necessita. Ponto. Qualquer outro tipo de "condicionalidade" é inútil e, pior, preconceituosa. No começo do governo (lembram?) havia a proposta de o Fome Zero implantar comitês para, entre outras coisas, fiscalizar como o beneficiário do programa gastaria o dinheiro. Queriam controlar o gasto por meio das notas fiscais. Em português claro (aquele usado na conversas reservadas), algo como "temos que cuidar para que esses vagabundos não gastem em cachaça o dinheiro que generosamente lhes damos para comprar a comida das crianças". Essa idéia foi, felizmente, trucidada no nascedouro e acho que ninguém mais fala nisso. Mas ela tem uma versão mais sofisticada e politicamente correta. A família só recebe o benefício se as crianças forem à escola e se forem vacinadas. A premissa é a mesma: acham que o pobre é um idiota e precisa ser coagido a ingressar na civilização. Acham que, se não houver a "obrigação" de mandar as crianças à escola e de vaciná-las, a mãe pobre (que é quem recebe o dinheiro) vai preferir colocar os filhos para trabalhar em vez de estudar e vai deixar de levá-los para tomar vacina. Além do mais, duvido que na prática esteja funcionando assim. Duvido que tenham cortado o Bolsa Família de gente cujos filhos não vão sempre à escola ou não sejam regularmente vacinados. O Brasil será um país melhor no dia em que forem eliminadas as burocracias inúteis, dinheiro que poderia ser mais bem empregado em outras coisas. Ou então economizado. Para não dizerem que só critico, vai aí uma proposta: cortar toda despesa relacionada à (pretensa) fiscalização das condicionalidades do Bolsa Família. Muito ou pouco, tanto faz. Nem que fosse uma coisa só simbólica, melhor seria lançar esses recursos (gastos com a burocracia) no superávit primário, ajudar a controlar a inflação e, assim, permitir ao beneficiário do Bolsa Família comprar um pouco mais com o dinheiro recebido. Mas isso não será feito. O governo (qualquer governo) precisa ter argumentos para explicar ao contribuinte que o dinheiro dado aos pobres não está sendo "desperdiçado". Isso num país em que cada dois reais em crédito rendem a quem empresta (os bancos) quase um real em juros. Pobres de nós.

Nota às 22h32: Governo bloqueia Bolsa Família a 112 usuários e adverte 157 mil

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3 Comentários:

Anonymous Tadeu disse...

Alon, falando do tema secundário no seu post, concordo totalmente: o novo design de O Globo só me fez afastar do site. Eu costumava ler diariamente as colunas, já que vinham todas facilmente acessíveis em uma só página. Agora, para entrar em cada uma delas é um suplício. É uma pena, fico sem ler as excelentes colunas de Gaspari, Cruvinel e outros, porque não tenho paciência para sair "folheando" nas páginas impressas escaneadas. Sem falar que não se pode fazer uma referência do link.

É realmente um absurdo que vc tenha que ler o jornal virtual como se tivesse "folheando" o jornal físico...

Mas fazer o quê? O próximo passo deles deve ser passar a cobrar pelo conteúdo. Não vejo muito sentido (nem futuro) em cobrar para acessar notícias na internet. Ainda mais com aquele tipo de interface. Haja retrocesso...

quinta-feira, 24 de agosto de 2006 11:46:00 BRT  
Anonymous cláudio disse...

Parabéns pelo conteúdo do Post sobre o bolsa-família. Vai contra a corrente. Creio que trata-se de uma discussão importante que revela muito preconceito contra os pobres. Basta comparar a isenção do imposto de renda para a classe média e alta que paga faculdade para seus filhos. No caso não há necessidade de comprovar nenhuma presença. O pagou-passou vira pagou-recebe o incentivo fiscal.
Enfim, vejo um jornalista levantar argumentos contra a corrente. Viva a discussão plural, a única que permitirá escolhas mais conscientes e perfectíveis.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006 13:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu, por exemplo, não leio mais nem o Globo nem o JB (também difícilimo) na versão eletrônica, como já não fazia na versão impressa. E não estou sentindo falta alguma. Aliás, me sinto bem mais leve sem ter de me indignar com as "opiniões" dos comentaristas.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006 13:53:00 BRT  

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