quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Isenção ou desinformação? (23/08)

Saiu o novo Datafolha:

Primeiro Turno:
Lula 49% (+2), Alckmin 25% (+1), Heloísa Helena 11% (-1)
Segundo Turno:
Lula 56% (+2), Alckmin 35% (-2)

Pouco mudou, e mudou a favor de Lula, especialmente na simulação de segundo turno. Bem, mas o dado mais significativo da pesquisa é a avaliação do governo. Do relatório do Datafolha:

"Quanto à avaliação do governo Federal, a taxa dos que consideram o desempenho do petista [Lula] ótimo ou bom, que já havia crescido sete pontos percentuais entre julho e o início de agosto, tendo passado de 38% para 45%, voltou a subir, e é hoje de 52%. A taxa dos que classificam o governo Lula como regular caiu de 36% para 31% e a dos que acham que ele vem sendo ruim ou péssimo passou de 18% para 16%. O antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), atingiu sua melhor marca em dezembro de 1996, quando estava prestes a completar dois anos de governo, e era aprovado por 47%. Itamar Franco (1992-1994) obteve 41% ao deixar o governo, em dezembro de 1994. A melhor marca de Fernando Collor de Mello (1990-1992) foi registrada após três meses de governo, em junho de 1990, quando 36% aprovavam seu desempenho à frente do governo. A nota média atribuída ao presidente, em uma escala de zero a dez, é 6,7. Na pesquisa anterior ela era 6,3. Cerca de um quinto (19%) atribui nota dez ao presidente. Percentual idêntico acha que ele merece nota oito."

Tem gente que costuma reclamar quando escrevo (e já escrevi algumas vezes) que a liderança de Lula nas pesquisas se deve à boa avaliação de seu governo. Há uma cultura da "isenção" no jornalismo que acaba causando prejuízo ao leitor (ou telespectador, ou ouvinte). Se um governo é bom, dizer sistematicamente ao consumidor de informações que o governo é uma droga não é praticar isenção, é cultivar a desinformação. Aí sai uma pesquisa como essa do Datafolha e cai como raio em céu azul. Azar de quem confundiu a realidade com seus próprios desejos.

Tenho escrito aqui que o principal problema da oposição é que ela não se preparou para enfrentar um governo bem avaliado. Bater de frente, apostar na rejeição de um adversário que faz um bom governo, isso é tática arriscadíssima. O recomendável é ir pelas beiradas, dizer que vai manter as coisas boas e melhorar o que não funciona, tentar construir o sonho de um governo ainda melhor, trabalhar a idéia do progresso baseado na convergência, na união. O marqueteiro de Alckmin está tentando fazer isso, mas é uma gota no desastroso oceano de "free media" produzido por tucanos e pefelistas. Foram meses de escárnio em relação aos pobres ("esmolão"), de ataques indiscriminados contra Lula e o PT, de cultivo do ódio. Agora vêm as conseqüências: entre outras coisas, a rejeição de Alckmin já empata com a de Lula. Também do relatório do Datafolha:

"A pesquisa traz mais um dado positivo para Lula: a taxa de eleitores que não votariam nele no primeiro turno, de jeito nenhum, caiu pela segunda vez consecutiva, e hoje, o petista empata com Geraldo Alckmin nesse aspecto. Por outro lado, a taxa de rejeição ao candidato peessedebista vem em curva ascendente. Pesquisa realizada no final de junho mostrava que 31% não votariam em Lula de jeito nenhum no primeiro turno da eleição para presidente. Essa taxa oscilou para 32% em julho, caiu para 29% no início de agosto e é hoje de 26%. A taxa de rejeição a Alckmin era de 19% em junho, subiu para 22% em julho, oscilou para 23% no início de agosto e chega a 24% hoje. Ou seja, se em junho, a taxa de rejeição a Alckmin era 12 pontos inferior à obtida por Lula, hoje, a diferença entre os dois, de dois pontos percentuais, está dentro da margem de erro. A rejeição a Heloísa Helena era de 21% nas pesquisas de junho e julho, oscilou para 23% no início de agosto e é hoje de 24%."

Alckmin está morto? Difícil dizer, eleição é sempre um espaço probabilístico. Vamos ver o que fazem agora os seus estrategistas. E, por falar em estratégia, se um dia você for o comandante de uma campanha presidencial e decidir dividir o país como tática para tentar ganhar a eleição, cuide, pelo menos, para que nessa divisão a maioria fique do seu lado.

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15 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Alon, é preciso registrar o fracasso de boa parte da grande imprensa, como formadora de opinião. Afinal, só 16% do eleitorado consideram o governo ruim ou péssimo.
Se lermos os editorais, notícias e manchetes dos últimos meses, este percentual deveria estar invertido com o de bom e ótimo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 01:48:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

Já se comentou isto aqui outro dia, a desconexão da imprensa com a realidade objetiva chegou a níveis surreais.

Mas Alon, é claro que Alckmin não está morto - ele só perdeu uma eleição, mas está vivo e sua saúde continua boa. Resta usar o fim da campanha para garantir a vaga na disputa pela prefeitura de Pinda daqui a dois anos.

Mais e mais me convenço que as raposas velhas do PSDB seguiram um script muito bem combinado (incluindo jantares "secretos", um ar fingido de relutância e uma capacidade invejável de conter o riso) para garantir uma disputa mais equilibrada em 2010. Talvez combinado até com o próprio presidente. Sem Lula, o caminho fica aplainado para Aécio ser carregado nos braços de seus 70% de eleitores de Minas para o Planalto (até mesmo abandonando o arco conservador da aliança atual). Serra termina sua carreira duas vezes governador de São Paulo e talvez senador (até lá o temível Suplicy terá se aposentado). O PT assume Minas e o Rio segue na sua irrelevância molequinha. O resto do país se acomoda entre estes e o PMDB, com o PFL de coadjuvante dando representação às minguantes forças do atraso. Parece um plano, não?

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 03:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Paulo C, parece um plano, sim, bastante astucioso, digno de um leitor de Maquiavel, como certos tucanos. Mas você se esquece de que só pode ser um Plano B, no fracasso do Plano A, a derrota do governo nas urnas em 2006. E por que o Plano A fracassou? Além do que disse o Alon, parece ter havido uma mudança importante na composição e no pensamento do eleitorado brasileiro, efeito talvez da melhora na desigualdade de renda do último decênio, do acesso aos programas sociais do governo Lula, da mobilidade social de uma porcentagem considerável da população pobre, do acesso a meios alternativos de formação de opinião, enfim da melhora na autoconfiança que as populações marginalizadas adquirem quando se lhes oferece um sopro de cidadania, a oportunidade de se sentirem cidadãos -- coisas que os sociólogos ainda vão levar tempo para explicar direito. Essas e outras coisas dessa ordem me parecem ter de ser levadas em conta para exolicar a desconstrução popular do "efeito cascata" do pensamento dos chamados "formadores tradicionais de opinião", como a mídia e a classe média. O povo pensa com a própria cabeça, tem seus valores, enfim. A mídia, a classe média, os tucanos e pefelês, não se deram conta disso e, entre perplexos e indignados, reagem como sempre fizeram, mas agora não dá mais certo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 10:47:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

O interessante é que o voto em Lula é cada vez mais polarizado. Quanto mais ignorante, sem educação e mal-informado, mais vota no Lula. Só não vê isso quem não sabe ler pesquisa.
Lula despolitizou o brasileiro, colocou a política na vala comum do "vote em gente como a gente", e não porque ele é um bom gestor ou faz coisas pelo povo como um todo. Fez chacota e enganou a população com relação aos escândalos do governo, não deu sequer uma entrevista coletiva (claro, depois da entrevista no JN, fica claro que se desmonta a farsa Lula em 10 minutos).
O governo dele é bem avaliado porque não houve sequer contraditório. Imprensa pegou pesado? Pegou nada, nem sabem argumentar, publicam as declarações de Lula como post-it, sem questionamentos. Na TV então, Lula foi olímpico.
E claro, nossa oposição não existe. Aécio é um crápula, Tasso prefere Cid Gomes ao próprio partido que dirige (!!!) e Alckmin brinca de candidato a prefeito. Bem feito para nós - a crise de 2007 está contratada.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 11:07:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

O que chama também a atenção na última pesquisa Datafolha, são os índices de aferição de quem, algum dia, viu programas eleitorais: até bons pela modorra dos programas, mas baixos para serem decisivos. São 46% (Lula), 43% (Alckmin) e 40% (Heloisa Helena). Porém, salta aos olhos que o candidato da oposição não faz o que poderia fazer: oposição na campanha. Até agora, parece seguir a pauta do governo. Ou se faz oposição, ninguém percebe ou entende. Não esquenta o jogo. Assim, fica mesmo difícil colocar-se como alternativa a um governo bem avaliado. Quem busca alternativa, precisa ter o contraponto. Parece que quem está esquentando o jogo é a Justiça eleitoral, que dá um benfazejo aperto na aprovação de candidaturas.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 11:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, governo bem avaliado significa necessariamente bom governo? Por favor discuta esse raciocínio, em qual se baseia sua análise de hoje.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 11:28:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Alon, o pior é que o ódio ao Lula e ao PT ainda continua fazendo "vítimas" entre analistas politicos. Acabei de ler um dizendo que a boa avaliação de Lula e seu governo deve-se ao carisma pessoal do presidente (Esse é um mito que eu não caio. Lula não tem todo esse carisma que lhe atribuem), aos erros da campanha de Alckmin ou o próprio Alckmin, assistencialismo com os mais pobres e pasmem: Heloisa Helena.
O mais simples como você sempre se expressa, não foi dito: Lula está fazendo, ou participando como querem alguns, de um bom governo. Acrescento que apesar de não ser um governo dos sonhos, a base de comparação é muito favorável ao atual governo. O governo federal do PSDB foi muito , mas muito ruim. Crises que não acabavam mais. Deu nisso. Um bom governo, parece maravilhoso aos olhos dos brasileiros.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 11:45:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Não está rendendo votos o estilo desbocado de HH. A sua taxa de rejeição está aumentando. Discursando no velho estilo Enéas Carneiro, dentre outras baboseiras, ela chama por exemplo, de maloqueiros, a equipe econômica do governo Lula. Sugiro a HH xingar o povo de maloqueiro. Pois é o povo que está apoiando Lula e, consequentemente, sua equipe econÔmica. Ah, estou no sul do Maranhão. De férias. Volto prá Goiânia em meados de setembro. Por aqui, o povo é Lula por causa de programas como o Luz Para Todos. Emocionei ao constatar a ausência de pessoas maltrapilhas que, outrotra, trafegavam famintas pelas estradas deste mundo tão esquidistante de Brasília. E tudo isso foi graças ao governo Lula. Só mesmo se fôssemos loucos trocaríamos Lula por Alckmin 69 CPIs Enterradas que continua posando de honesto. hahahahahahahahaha.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 12:20:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

ricardo, os números das pesquisas não permitem uma postura tão radical. Apesar de formalmente correto, dizer "quanto mais ignorante, sem educação e mal-informado, mais vota no Lula" induz o leitor a pensar que a vitória de Lula se faz apenas nas camadas menos escolarizadas. Na verdade, analisando a pesquisa mais recente (Datafolha de ontem), Lula vence Alckmin em todas as camadas de renda, em todos os níveis de escolaridade e todas as faixas etárias.
É verdade que quanto mais alta a escolaridade, menor a diferença, mas Alckmin não consegue vencer Lula sequer entre os eleitores com curso superior ou com renda maior que 10 salários mínimos. A polarização de que você fala é menos real e mais fabricada por analistas que preferem enxergar seus próprios desejos aos fatos.

E por favor, dizer que a imprensa não pegou pesado com Lula é insultar a memória e a inteligência dos leitores deste blog (que aliás parece ser um dos únicos blogs políticos onde é possível discutir racionalmente). A virulência quase irracional da Veja, a oposição sistemática de praticamente todos os articulistas individuais da imprensa escrita, Arnaldo Jabor destilando ódio diariamente em cadeia nacional, nada disto conta? Imagino que surpresa em descobrir que foi um grande esforço inútil, que a imensa maioria dos eleitores consegue distinguir as fabricações da imprensa da realidade é mesmo um choque. Principalmente para a própria imprensa, que se achava senhora da opinião pública e se descobre nua na praça.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 12:35:00 BRT  
Anonymous Aluna da FACHA disse...

Eu, como aluna de comunicação acho difícil acreditar nessas pesquisas. Que na minha opinião são compradas. Eu nunca fui perguntada e não conheço ninguém que foi. No jornalismo é impossivel ser imparcial, cada um tende a se curvar para suas próprias opiniões.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 13:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, você poderia elaborar um pouco mais essa sua opinião de que governo bem avaliado equivale a governo bom, o argumento central de seu texto de hoje?

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 14:30:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Lendo o blog do tucano Noblat/Estadão, senti o clima de velório da campanha de Alckimin. Confira:
"23/08/2006 ¦ 14:05. Marquem minhas férias. Não tiro férias desde o início de 2002. Confesso que estou quase esgotado. Blog é uma servidão.
Estava pensando em tirar férias em dezembro próximo. Pelo andar da carruagem das eleições, talvez fosse melhor tirar em setembro.O que vocês acham?"
Fonte: blog do Noblat

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 15:16:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

aluna da facha, veja bem - não sei em que ano você está ou sequer se há uma formação estatística mais aprofundada em faculdades de comunicação, mas a teoria matemática por trás das pesquisas de amostragem é correta (e as pesquisas, na prática, já mostraram que guardam uma boa correlação com a realidade que tentam medir).

O fato de você não ter sido entrevistada ou sequer conhecer alguém que tenha sido (ainda que este último dado exigiria que você pesquisasse seu círuclo familiar e de amigos com certa profundidade) não é surpresa. Só para facilitar, veja os números da amostra do Datafolha de hoje: cerca de 6000 pessoas em mais de 200 municípios. A chance de um indivíduo particular ser entrevistado nesta pesquisa é de aproximadamente 180 milhões/6 mil, uma em 30000. É mais ou menos o dobro das chances de se ganhar na Loteria Federal (+/- 1 em 70000).

Matematicamente, isto quer dizer que depois de realizadas umas 30000 pesquisas iguais a esta, as chances de um indivíduo qualquer (eu ou você) ter sido entrevistado se aproxima de 50%.

A matemática se complica um pouco pela distribuição por municípios, classes, idade, etc. Os outros institutos usam amostras ainda menores (em troca de margens de erro maiores).

Outro agravante é que a Loteria Federal corre todas semana, eleição para Presidente só tem uma vez a cada quatro anos. Se você examinar a História recente, vai ver que o número total de pesquisas eleitorais públicas realizadas por todos os institutos desde a redemocratização não chega nem perto destes números.

Então, não é nenhuma surpresa que você nunca tenha sido entrevistada. Eu não conheço ninguém que tenha ganho na Loteria também (exceto aquele anão do Orçamento de uns anos atrás, que justificou seu patrimônio dizendo ter ganho trainta vezes sozinho na Loteria Esportiva).

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 16:05:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Inédito!!!!!! O Pedro Bial achou um buraco na estrada!!! Depois de rodar milhares de kilômetros com o seu "Bonde do Desejo" ou sei lá que nome se deu ao tal Bonde do Bial, a Globo chamou a atenção para a notícia no Jornal Nacional que o Pedro Bial achou um buraco na estrada! Também pudera.Depois de rodar por semanas e mais semanas, inclusive nos EUA não seria motivo de tanto alarde um buraco numa estrada. Não entendi o motivo pelo qual a Globo deu tanto destaque ao "Buraco do Bial". Quanto a mim, que estou de férias no Sul do Maranhão, não achei nenhum buraco vindo de lá prá cá. Por isso nem me dei ao trabalho de assistir ao Jornal Nacional para ficar sabendo onde ficaria situado o tal "Buraco do Bial"

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 17:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pela ordem dos fatos, todos que tiveram seus atos suspeitos foram alvos da midia, que o diga Maluf e nesse periodo, de camarote o pt e os companheiros jogavam lenha na fogueira. E que continuem assim, porque acima da superficie é facil, tem que denunciar e limpar o lamaçal abaixo que ninguem ve.
P.S. O Helio Fernandes da Tribuna de Imprensa tem opinião muito boa sobre reforma politica.
Yoshio

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 17:28:00 BRT  

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