terça-feira, 15 de agosto de 2006

Há, sim, valores universais de que não se deve abrir mão (15/08)

Gente reclama do post anterior sobre a esquerda e o terrorismo. Muito bom. Seria melhor ainda se argumentassem (alguns o fazem). O flerte ocasional com o terrorismo é extensão do pouco apreço que alguns exibem pela democracia. Querem um exemplo? Leiam texto de Claudia Antunes na Folha de S.Paulo de hoje. Transcrevo um trecho: "Essa corrente [os neoconservadores], com alguns expoentes egressos da esquerda, tem uma visão torta da herança do Iluminismo. Julga que o Ocidente tem o monopólio da razão e que esta transforma a força em arma moral. Os jihadistas liberais, como os denomina o pesquisador de Harvard Tony Smith, desprezam os matizes da política. Bush, com certezas simplórias de um cristão "renascido", pende para o lado deles". Vamos traduzir. Quem defende a extensão para todo o globo de conquistas da humanidade como a liberdade de expressão, a liberdade de formar partidos e disputar eleições, a liberdade de culto, a liberdade de organização sindical, o direito de greve e o direito de jornalistas não serem seqüestrados é porque "despreza os matizes da política", tem uma "visão torta da herança do Iluminismo" ou julga que "o Ocidente tem o monopólio da razão". Se o Talibã afegão proíbe as mulheres de estudar e as fuzila em estádios, isso deve ser respeitado em nome, talvez, do multiculturalismo ou do relativismo cultural, não é? O contrário, provavelmente, seria ter "certezas simplórias". Se um punhado de gente conspira para derrubar aviões britânicos de passageiros porque discorda da política externa de Tony Blair é preciso ver o que levou essas pobres pessoas a terem essa má idéia, não é? Bem, em vez de derrubar aviões de passageiros, eles poderiam eventualmente votar em políticos que se opõem aos trabalhistas, ou mesmo organizar um partido para disputar as eleições. Por que não o fazem? Seria interessante aplicar essa modalidade de pensamento tortuoso e torturado a certos eventos históricos. Nos julgamentos de Nuremberg, alguém poderia ali ter discorrido sobre como o nazismo e seus crimes foram, na verdade, conseqüência do Tratado de Versailles, que humilhou e saqueou a Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial. Por essa lógica, então, quem deveria estar sentado no banco dos réus seriam não os chefes nazistas, mas os líderes da França e do Reino Unido, vencedores do conflito 1914-1918. Para finalizar, deixo aqui uma pergunta. Se eu for israelense e discordar da política do governo de Israel (ou se eu for americano e discordar da política do governo dos Estados Unidos) eu sei como tentar mudá-la: votando em alguém que propõe outro caminho e tentando eleger um novo governo. Alguém poderia, por gentileza, me dizer como faz para mudar a política do Irã um iraniano que se oponha ao regime dos aiatolás? A democracia é sempre o melhor ambiente para o desenvolvimento da luta dos trabalhadores, política ou sindical. É também o ambiente mais favorável a que os trabalhadores cheguem ao poder. Bem, agora só falta dizerem que sou um neoconservador. Ou trotskista. Ou ambos. Seria divertido. Por via das dúvidas, postei na seção Textos de outros o texto de Leon Trotsky For a Workers' United Front Against Fascism, de 1931 (antes portanto na ascensão de Adolf Hitler ao poder). Leiam. É um clássico.

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6 Comentários:

Anonymous Samir Silva disse...

Nada a acrescentar. Esse pessoal precisa parar de xingar e começar a argumentar. Grande texto. Eu tinha lido a Cláudia na Folha hoje de manhã e fiquei chocado.

terça-feira, 15 de agosto de 2006 22:17:00 BRT  
Anonymous Rodrigo disse...

Mas impor uma democracia é democratico ou ela deveria nascer de dentro do próprio povo? Que direito nós temos de sair por ai matando gente quediscorda da gente?

terça-feira, 15 de agosto de 2006 22:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

grande, alon.
tem gente que acha que após aprender as quatro operações já está habilitado a pensar direito. ixi! né assim, não. pensar, até que pode, mas pensar direito tem que pensar todo dia. que nem andar de bicicleta: equilíbrio, olhar prá frente e muito esforço!

quarta-feira, 16 de agosto de 2006 17:50:00 BRT  
Anonymous Julio disse...

Alon, leio seu blog todos os dias e gosto muito de suas independência e clareza de raciocínio. Mas realmente é uma pena que os EUA não tenham armado uma força tarefa contra o terrorismo de estado praticado no Brasil e em seus vizinhos durante as ditaduras militares que abortaram o desenvolvimento democrático da AL. É uma pena... quem sabe não teríamos agora grandes instituições que garantissem o voto num sistema bipartidário financiado pelas grandes coorporações norte-americanas. É uma pena que tenhamos lutado sozinhos e perdidos tantas vidas e sonhos e leis e instituições sem que algum grande estadista americano se compadecesse e enviasse umas tropas para restabelecer a democracia no nosso continente. Parece que a democracia de alguns é mais importante que a de outros...

quinta-feira, 17 de agosto de 2006 11:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É verdade, Júlio. Os Estados Unidos tiveram sua imagem muito danificada no hemisfério por causa disso. Não se esqueça, porém, das ações do presidente Jimmy Carter em defesa dos direitos humanos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006 11:38:00 BRT  
Anonymous frank disse...

Alon, faz tempo que não bato ponto aqui.

Tinha-me esquecido como é bom.

Excelente post.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 17:55:00 BRT  

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