terça-feira, 22 de agosto de 2006

A falta que faz um almoço grátis (22/08)

Quem se lembra das críticas do PT à política econômica do seu próprio governo? Pelo menos no PT, parece que ninguém. Na medida que foi dando certo, deixou de ser a orientação econômica de Antonio Palocci e virou a política de Lula, primeiro, e do PT, depois. Quem se lembra das críticas do PT ao superávit primário, base do sucesso da economia sob Lula? No PT, parece que ninguém. Assim é a vida na política, um ramo da atividade humana em que o erro não existe. Ou nunca é admitido -o que, afinal, dá na mesma.

Curioso é que o PT esteja faturando eleitoralmente em cima de uma política que tentou combater como pôde. Enquanto isso, o PSDB sofre para enfrentar nas urnas o governo que adotou, na economia, uma linha que quase qualquer tucano poderia tranqüilamente apoiar -não fosse o detalhe de precisar fazer oposição. A política é cruel. No mais das vezes, você não se alinha por concordar na tese, você acaba tendo que defender uma idéia por estar previamente alinhado. E depois ainda falam em valorizar a coerência. Quem quiser, que se engane. Ou espere sentado.

Em algum momento da campanha eleitoral, o assunto do crescimento e do emprego deverá ocupar o centro do palco. Será interessante ouvir o que os candidatos têm a dizer. Até o momento, o grande vitorioso nesse debate é o ex-ministro da Fazenda (1995-2002) Pedro Malan. Nenhum dos pretendentes à cadeira presidencial diz que vai mexer no tripé responsabilidade fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante. A receita malanista, consolidada pelo PT, deve garantir ao Brasil nos próximos anos um crescimento em torno de 4% do PIB e uma inflação abaixo desses mesmos 4%. Aparentemente, a média das opiniões no país converge para considerar razoáveis esses objetivos, desde que sobre dinheiro suficiente para o governo fazer seus programas sociais.

Seria possível crescer mais? Claro. Só que não existe almoço grátis. Uma das alternativas é desvalorizar o câmbio e apostar na explosão das exportações como motor da aceleração. Seria também um caminho para reduzir mais rapidamente os juros. O problema é que, mantido o resto constante, o país teria que conviver com mais inflação. E haveria, no primeiro momento, redução do salário real. Quem defende a desvalorização cambial não diz, mas essa medida concentraria renda no capital em detrimento do trabalho e no setor exportador em detrimento de quem produz para o mercado interno. Mas, no Brasil, considera-se que seria uma política econômica "mais à esquerda". Vai entender.

Outro caminho para crescer mais é cortar gastos governamentais para diminuir a carga tributária e/ou reduzir mais rapidamente a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) e/ou aumentar o investimento público. Em teoria, é perfeito. Só que há um detalhe, que os candidatos não contam ao eleitor. Não há como reduzir radicalmente gastos da União sem uma ou mais de uma das seguintes medidas:

1) contenção dos reajustes dos servidores públicos;
2) redução das verbas destinadas aos programas sociais;
3) uma nova reforma da Previdência, que imponha aos trabalhadores do setor privado mais sacrifícios, inclusive o fim da aposentadoria por tempo de contribuição; e
4) redução das verbas constitucionalmente vinculadas a despesas com Saúde e/ou Educação.

Ninguém vai ser maluco de defender isso. Ah, sim: alguém sempre poderá dizer que vai reduzir os juros para sobrar mais dinheiro para manter e ampliar bondades. Só que há um problema: fixado o tripé que hoje sustenta a estabilidade econômica, um afrouxamento da política monetária exigiria necessariamente um endurecimento da política fiscal. Do contrário, teríamos mais infação. De novo: quem quer aparecer diante do eleitorado defendendo (ou sendo acusado de propor) mais inflação?

Pensando bem, talvez seja melhor a campanha eleitoral continuar voltada para outros assuntos.

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Este texto foi produzido para o Blog do Noblat, onde escrevo semanalmente.

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2 Comentários:

Anonymous Aluna da FACHA disse...

Até agora não ouvi de nenhum dos candidatos o rompimento do FMI, que impede nosso avanço de produção. Quando estamos terminando de pagar uma dívida, os EUA vem com mais capital. E com isso atrapalham nosso desenvolvimento. Se fabricassemos e dobrassemos a produção gerariamos mais empregos e uma sociedade de consumo.

terça-feira, 22 de agosto de 2006 21:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, segundo historia o Japão foi tomador do FMI e de outras instituições monetárias tambem e alem do mais, perdedor da guerra, foi submetido a Constituição imposta pelos americanos. No entanto o Japão arrasado, cresceu e hoje é credora, é a segunda potencia em ajuda humanitária no mundo. Primeiro investiu massiçamente em educação, criou o circulo virtuoso, com pleno emprego e com renda suficiente para sustentar o crescimento. Lembrando um pouco Dr, Roberto Campos: ¨ se o FMI e as multinacionais fossem nocivas¨, o Japão seria pobre.
Yoshio - Japão

quarta-feira, 23 de agosto de 2006 06:06:00 BRT  

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