sábado, 19 de agosto de 2006

A dura vida da oposição (19/08)

A oposição, ou uma parte dela, passa o tempo discutindo se deve "bater ou não bater" em Luiz Inácio Lula da Silva no horário eleitoral. A última vez em que vi uma campanha negativa funcionar foi no segundo turno para governador de São Paulo em 1998, quando Mário Covas demoliu o favoritismo de Paulo Maluf e ganhou a eleição. Funcionaria contra Lula? Sei lá. O que Covas fez oito anos atrás foi lembrar às pessoas o que elas já achavam de Maluf. A dificuldade de uma campanha negativa do PSDB e do PFL contra Lula é que o eleitor não faz a conexão entre Lula e as acusações contra o governo de Lula. Vinte minutos de tevê, dia sim dia não, vão mudar esse cenário? Veremos, se Geraldo Alckmin topar o caminho que lhe propõem os seus falcões. Por falar em tevê, tempos atrás um analista de risco me disse que a tendência era Lula subir com o início do horário eleitoral, pois passaria a dispor de uma janela em horário nobre para um pouco de mídia positiva, que poderia funcionar como válvula de escape para o grande volume de mídia negativa que o governo e Lula enfrentam desde maio do ano passado, quando eclodiu a crise política. Vamos esperar para ver se isso se confirma. Da minha parte, continuo pensando que o principal problema da oposição é não ter feito a lição de casa. É não ter se preparado para tentar derrotar um governo bem avaliado e com realizações a apresentar. O primeiro passo para fracassar numa guerra é subestimar o adversário. Há um ano e tanto, a oposição enfiou na cabeça que as denúncias de corrupção contra o governo do PT criariam um ambiente político em que a maioria da população brasileira acabaria pedindo a volta do PSDB e do PFL ao poder. Não aconteceu. E a oposição não tem um "plano B". Encontrei outro dia um tucano amigo e perguntei a ele: "O que o brasileiro comum ganha se trocar nos próximos quatro anos Lula por Alckmin?". Ele ficou me olhando. E não basta ter a resposta, é preciso que as pessoas acreditem nela. A oposição pode, por exemplo, prometer um governo mais honesto. Ótimo, mas alguém sempre poderá lembrar que tucanos e pefelistas estiveram recentemente no poder e também foram alvos de acusações. Empate. A oposição pode prometer um governo que vai ajudar mais os pobres. Aí ela se choca com, talvez, o mais forte atributo de Lula. Ainda mais quando vários líderes da oposição chamam o Bolsa Família de esmola. Ponto contra. Ela pode ainda prometer mais crescimento e lembrar (como Alckmin já lembrou) que os países parecidos com o Brasil estão crescendo mais do que o Brasil. Aí Lula vai dizer (como já disse) que no governo dele o Brasil cresceu mais do que durante o governo da dobradinha PSDB-PFL. Vai dizer também que o Brasil cresce menos do que os primos porque, enquanto os primos dão ênfase no investimento estatal, o Brasil tem os maiores e mais avançados programas sociais do mundo, e que isso pesa no orçamento. Mas que vale a pena, pois é a maneira de crescer com mais justiça social. Pelo menos no capitalismo (isso já é uma contribuição minha). Aí a oposição vai responder que foi ela quem começou a implantar esse arcabouço de programas sociais. O que é verdade, mas não resolve. Eleições são apostas sobre o futuro. O passado é só eliminatório. Ganha quem desperta mais esperanças no tempo que ainda vem, não necessariamente quem tem mais a dizer sobre o tempo que já se foi. Mas, então, quer dizer que a oposição não tem saída? Claro que tem. Em 2004 a economia ia até melhor do que agora e não havia a crise política. Não havia o atual ambiente de histeria antipetista. E a oposição ganhou eleições importantes. Talvez esteja faltando esse benchmarking. Mas será que a oposição vai parar para raciocinar? Duvido.

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4 Comentários:

Anonymous Luis Carlos disse...

Fala-se muito do governo e fala-se mal. Em grande parte das vezes, com razão. Está faltando criticar um pouco essa oposição. Concordo com sua análise a respeito. É muita incompetência para conquistar os corações e as mentes dos brasileiros, principalmente os corações. Uma incapacidade gritante.
Não esqueço a fala, há alguns meses atrás, do FHC e de outros tucanos sobre o privilégio do PSDB ter vários nomes presidenciáveis. O que seria, dentro da retórica da tucanada, muito bom. Enquanto o PT só tinha um único nome (vale lembrar que a partir de 1º de janeiro, nenhum).
O tempo passou e é verdade que muita água ainda vai passar por debaixo da ponte, mas já perceberam que a oposição Pefelê/Tucano conseguiu no máximo chegar a 30% do eleitorado? Nas últimas pesquisas as coisas pioraram, aparece o Alckmin com 21% e contra ele o Lula com 47%, a H. Helena(ex-petista) com 12% e o Cristóvão Buarque (outro ex-petista) com 1%. Os tucanos devem dar graças a Deus pelas saídas de H. Helena e Cristóvão Buarque do PT. Senão, como seria?
Confesso que não sei qual a razão desta incapacidade da oposição. O seu post deu algumas dicas. Você não acha que há ainda outros determinantes desta incompetência? Acho intrigante. Sem ironia, porque não tenho preferência por nenhum dos que se tornaram candidatos (aliás, os que ficaram de fora também era sofríveis). Julgo que nesta eleição temos, entre os dois primeiros colocados, o “Tranqueira” contra o “Porcaria”. E, correndo por fora, a candidata “faz me rir”.

sábado, 19 de agosto de 2006 21:29:00 BRT  
Blogger Paulo de Tarso Soares disse...

Caro Alon, o problema da oposição não é a lição de casa sob a perspectiva do marketing. O problema da "oposição" é que ela não é de fato uma oposição, pois ela não se opõe ao que Lulla fez e fará. Ela não passa de um Lulla com "punhos de renda". O que a move é o preconceito de classe contra o representante da aristocracia operária que lhe tomou o lugar comom braço operacional da oligarquia financeira. Essa pseudo oposição nada tem para oferecer com alternativa política e enfatizo o política. Um abraço, Paulinho.

sábado, 19 de agosto de 2006 22:10:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Deixa, eu ver se entendi. Você acha que falta à oposição buscar benchmarking de virada de resultado adverso em disputa eleitoral? Isso é fácil. Difícil é encontrar benchmarking, ou seja referenciais de excelência, de governos que priorizando a redução do investimento do estado e a redução da carga de impostos em benefício, exclusivo, do aumento dos lucros privados tenha criado condições permanentes de crescimento econômico significativo, como são as propostas dos partidos brasileiros de ideologia liberal. Isso não existe, nem nunca existiu!! EUA, Canadá, Coréia, Japão, China, Itália, Reino Unido... Qualquer país que é grande hoje só chegou a essa situação porque, você sabe disso, em algum momento histórico a Nação se uniu e o Estado assumiu a responsabilidade dos grandes investimentos que se faziam necessários, seja em educação, saúde, previdência, transporte, energia etc. Semearam com responsabilidade, pensando nas futuras gerações, e colhem os frutos até hoje. Esse benchmarking é que o Brasil deveria buscar, aliás, como já estão fazendo Índia e Rússia. O resto é neoliberalismo de curto prazo. Um abraço.

sábado, 19 de agosto de 2006 22:15:00 BRT  
Blogger Paulo de Tarso Soares disse...

Caro Alon, interessante e oportuna a imagem que o Luís Carlos fez dos candidatos a presidente: "tranqueira" x "porcaria" x "faz-me rir". A questão é que, não se pode perder de vista a interação entre estrutura e conjuntura, entre tendência e ciclo. A "faz-me rir", hoje, encarna o grande não a tudo que aí está. Ela, goste-se ou não e eu não gosto, caso chegue ao segundo turno, é a única com capacidade para desmascarar o Lulla frente ao eleitorado fisiológico que, tudo o mais permanecendo constante, vai lhe dar a vitória. O possível, hoje, é lutar para desgastar o ativo político do PT (da aristocracia operária operando em nome da oligarquia financeira). Vou, então, ao invés de votar nulo, como tenho feito, votar na "faz-me rir".

domingo, 20 de agosto de 2006 12:17:00 BRT  

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