quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Diplomacia em tempo de guerra (10/08)

O Itamaraty tem uma página onde a imprensa (e qualquer um) pode acompanhar as atividades e posicionamentos do nosso ministério de relações exteriores. Está em http://www.mre.gov.br/portugues/imprensa/index.asp. Passei ali hoje para saber a posição do Brasil sobre a ação das autoridades britânicas que evitaram a derrubada de uma dezena de aviões de passageiros, tramada pelo terror fascista de origem islâmica. Até as 19h30 não havia nada. Mas fiquei sabendo que o chanceler Celso Amorim vai ao Líbano. Achei ótimo. Ele vai dar solidariedade aos libaneses que sofrem com a guerra entre Israel e o Hezbollah. Seria perfeito se ele também fosse a Israel, mas o atual momento da diplomacia brasileira parece avaliar que o sangue derramado de um lado merece mais solidariedade do que o sangue derramado do outro. Paciência. Não serei eu a pedir que considerações de ordem humanitária se sobreponham à geopolítica, quando o governo brasileiro decide o que vai fazer lá fora. Mas ninguém deve se incomodar muito com essas coisas. Essa história não é nova. O anti-americanismo e um pseudo anti-colonialismo levaram o Brasil a flertar durante bom tempo com o nazi-fascismo e com a Alemanha de Adolf Hitler. Getúlio Vargas só mudou de lado quando os ventos da guerra passaram a soprar a favor dos aliados. No fim, nossos pracinhas escreveram páginas de heroísmo na Itália. E foi o que ficou na história. A política é especialmente perigosa em tempos de guerra. É como o goleiro: não basta ser bom, é preciso ter (muita) sorte. Ainda mais com um zagueiro da categoria de Celso Amorim.

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4 Comentários:

Anonymous Daniel G disse...

O sangue derramado de um lado, merece mais atenção que o outro sim. O libano vive hoje uma catastrofe, está destruído, o país não tem mais infr-estrutura alguma. O problema lá é gravíssimo, diferente de Israel que praticamente não sofreu danos a sua infra-estrutura e a sua população. Mas, eu também não sei o que ele irá fazer por lá, e nem o que faria em Israel. Gostaria de vê-lo em Cuba.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006 21:49:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Você está torcendo as coisas, Alon.

As simpatias de Getúlio com o nazi-fascismo não tinham nada a ver com anti-americanismo e anti-colonialismo, mas apenas com sua índole autoritária.

Daqui a pouco você vai acabar chancelando a tese de Olavo de Carvalho de que o nazismo é de esquerda.

Sinto muito, mas não consigo ver em suas análises da questão israelense a mesma objetividade que vejo em outros assuntos. Você simplesmente está do lado de Israel para o que der e vier.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006 02:47:00 BRT  
Anonymous Paulo Soares de Lucena disse...

Getúlio se conduzia por qualquer coisa, menos por sua índole, que aliás é difícil dizer qual era. E o Alon acaba de colocar um texto da Al-Fatah no site, mostrando que ele tem uma posição, mas está aberto ao debate. Acho que as opiniões dele deveriam ser combatidas com outras opiniões, e não com adjetivações.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006 03:06:00 BRT  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Alon

Sinto-me um tanto constrangido pelo tom intimista desta introdução. Afinal, teu blog é público. Mas sigo adiante. Não nos vemos, Alon, desde a festa do meu casamento, e lá se vão mais de 20 anos. Sim, você foi. Não vi mais o Tadeu. Recentemente encontrei a Zezé. Falei com Ida por telefone. Se você ainda não me localizou, sou o Paulo do CEHAT.

Leio sempre o blog. Temos lá as nossas discordâncias, claro. No entanto, poucos têm escrito algo que vale a pena ler sobre a reação de Isarel aos ataques dos terroristas do Hezbollah. Penso que Israel, corretamente e também por uma questão vital, hoje está na linha de frente no combate contra o que, concordamos, é uma nova forma do fascismo. Considerando a grita geral ("reação desproporcional"), uma luta pouco compreendida. Como você bem observa, as ideologias pode sim fazer muito mal à saúde intelectual.

O professor Roberto Romano, que se declara católico, tem dois escritos que merecem ser lidos para que possamos (mas não apenas só isso há que aproveitar na leitura dos textos) conhecer e entender melhor as origens medievais do anti-semitismo católico e cristão.

Não sei se foram produzidos nesta ordem:

O primeiro, "Os laços do orgulho. Reflexões sobre a política e o mal", pode ser lido em http://www.unimontes.br/unimontescientifica/revistas/Anexos/artigos/revista_v6_n1/03_dossie_os_lacos.htm
O segundo, "A Razão Terrorista", pode ser lido em http://www.unicamp.br/ifch/romano/download/razao_terrorista.pdf

Abaixo algumas passagens do primeiro texto:

"Na política cristã moderna, o mesmo veto dirigido aos monarcômacos é aplicado contra os judeus e se potencia ao infinito. Os rebeldes cristãos desejaram matar os soberanos temporais. Os judeus teriam o desejo de assassinar o soberano divino. As penas contra os primeiros eram severas. Uma delas foi aplicada em Ravaillac pelo assassinato de Henrique 4 (1610). O rebelde foi esquartejado com ajuda de facas e de espadas, os lambões de seu corpo foram, a seguir, postos em chamas. A mão que segurou o instrumento mortal foi queimada separadamente. Se uma pena assim foi dirigida a um fiel que matou o rei, é possível imaginar o que se reservou, no subsolo da consciência cristã, para os supostos deicidas.(4) " (Reproduzo parte dessa nota 4, Alon: "O autor procura indicar que a idéia de um verdadeiro deicídio seria impossível para os cristãos primitivos, pois suporia de fato pensar que Deus estivesse submetido à força humana. Ele estuda a expressão théo-ktonoi, termo criado pelos padres da Igreja para designar os que mataram Deus, e indica que para os padres da Igreja os atores do suposto deicidio são vários, incluindo os romanos, e não apenas os judeus. De qualquer modo, trata-se de um trabalho feito por Rochebrochard com base em autores judeus e cristãos, num espírito que parece distante das sombras antisemitas que, infelizmente, ainda hoje são fortes no cristianismo"). Sempre é possível dizer, com Jules Isaac, que se trata de uma acusação capital unida ao tema do castigo último, a terrificante maldição que pesa sobre Israel, explicando (e de antemão justificando) seu destino miserável, suas mais cruéis provações, as piores violências cometidas contra ele, os rios de sangue que escaparam de suas feridas sempre reabertas, sempre vivas. De modo que, por um mecanismo engenhoso — alternativo — de sentenças doutorais e de furores populares, encontra-se jogado na conta de Deus o que, vista a esfera terrestre, seguramente pertence à incurável vilania humana, aquela perversidade, diversamente mas sabiamente explorada de século em século, de geração em geração, e que atinge seu ápice em Auschwitz, nas câmaras de gás e nos fornos crematórios da Alemanha nazista. Um desses alemães, desses assassinos servis, um dos matadores em chefe (batizado cristão) disse: ‘Eu não podia ter escrúpulos, pois eram todos judeus’. Voz de Hitler? Voz de Streicher? Não. “Vox saeculorum.”.(5) (...)
Na luta pelo mando dos homens, religiões milenares e venerandas convivem, em seu interior, com rebeldes ao compromisso de igualdade e respeito na fé. Alguns chefes de Igreja, como foi o caso do Pontífice Católico, proclamam a essência superior de seu credo sobre todos os demais. Enquanto isto, líderes de outras tradições calam-se ou incentivam assassinatos e horrores inauditos. O fato de que tais sentenças de morte coletiva são proibidas nos seus escritos sagrados aumenta a violência daqueles atos. 'É preciso não transformar Deus num punhal', disse um dia o ateu Denis Diderot. Ele sabia perfeitamente sobre o que falava, porque grande número de crentes sucumbe à tentação por ele denunciada."

Outras do segundo texto:

"É estratégico refletir sobre a democracia e os destinos do Estado de direito (...).Como opera a racionalidade terrorista? Seria possível analisar seu funcionamento com ajuda de nossa própria razão, quando verificamos o quanto esta última age de forma perfeitamente lógica e com eficácia apavorante nas demonstrações terroristas? Em I. Kant, importa muito, na inspeção racional, o genitivo: trata-se, para ele, da crítica da razão pura. Ou seja, é a própria razão o sujeito e o objeto da crítica. No caso terrorista, é preciso ter consciência de que se enfrenta uma certa razão, a partir de uma outra. Não há recobrimento perfeito do sujeito e do objeto, através do genitivo: ou aderimos à razão terrorista, de Estado ou dos grupos que se candidatam ao domínio estatal, ou a rejeitamos, também em nome da razão, mas dotada de outro estatuto. Ou existe uma razão democrática, ou apenas o terrorismo é real e racional. Esta é uma aposta, espécie de “projectio per hiatum irrationalem” dos que almejam a sociedade humana em regime democrático, aposta na recuperação da vontade voltada ao ser, a qual se afasta da morte e da insânia guerreira. A razão e a vontade dirigidas ao bem coletivo, sem tutores, este é o ideal das Luzes, hoje caluniado por todos os que desejam a tirania em escala cósmica. É ao redor deste ponto que as páginas seguintes irão girar."

Forte abraço
Paulo Araújo

sábado, 12 de agosto de 2006 16:55:00 BRT  

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