sábado, 12 de agosto de 2006

Desfecho diplomático é favorável a Israel e Nasrallah, isolado, critica (12/08)

Acabei de ver na TV as reservas que o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, fez à resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o cessar-fogo no Líbano, no discurso em que anunciou aceitar o texto. Antes, o Irã já havia denunciado a decisão como injusta para os adversários de Israel. Bem, não há como decisões diplomáticas ignorarem a realidade militar e política. De um ponto de vista militar, o Hezbollah sofreu redução decisiva de suas capacidades nesse mês de guerra. Como resultado, terá que recuar para a margem direita do rio Litani e vai enfrentar fortíssima pressão interna e externa para completar seu desarmamento. Na fronteira sul, o Hezbollah era uma ameaça a Israel. Empurrado para o norte e isolado da fronteira por uma zona desmilitarizada, representará uma ameaça de guerra civil no próprio Líbano, se não virar um partido político como os outros. Se uma força internacional (principalmente européia) de 15 mil homens e o exército libanês ocuparem o sul do país, o Hezbollah não terá como atacar Israel. Também não atacará a Síria. Vai fazer o quê, então, com as suas armas? Desfilar nos feriados? Tem gente que acha que o Hezbollah não está derrotado no conflito com Israel porque mantém a capacidade de lançar foguetes. A Alemanha de Hitler ainda lançava suas V-2 sobre Londres em março de 1945, quando a sorte do regime nazista já estava traçada. Como escrevi em posts anteriores, ganha a guerra quem atinge seus objetivos ou, pelo menos, continua capaz de atingi-los. O Hezbollah começou a guerra como uma milícia armada até os dentes, que controlava o sul do Líbano e representava uma ameaça estratégica a Israel, por ser patrocinada pelo Irã, país que caminha para possuir armas nucleares. No cenário desenhado pela resolução da ONU, e como resultado das ações militares, a milícia não será doravante sombra do que foi. De um ponto de vista estritamente político, não há como deixar de notar que ninguém, absolutamente ninguém além de Teerã deu apoio real ao Hezbollah no conflito. O exército libanês não disparou um tiro para defender seu território. Os vizinhos de Israel cruzaram os braços esperando que o Estado Judeu derrotasse o Hezbollah enquanto faziam declarações sobre a necessidade de um cessar-fogo. Está evidente que os países árabes vêem o Irã como uma ameaça não apenas a Israel, mas a eles próprios. Na prática, os países árabes deram a Israel um mandato para atacar e enfraquecer o Hezbollah, sem ficar mal com suas próprias "ruas". E o Conselho de Segurança da ONU acabou aprovando, por unanimidade, uma resolução que caracteriza o Hezbollah como agressor, fecha a porta a uma nova intervenção síria no país e impõe a presença de tropas estrangeiras em território libanês para proteger a linha de armistício de 1949, quando terminou (terminou?) a Guerra de Independência de Israel.

P.S.: Claro que essa análise vale para o cenário em que a decisão da ONU se efetive. Em se tratando de Oriente Médio, resta esperar para ver.

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10 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

O colateral neste caso é que o Líbano se inviabilizou como país e Israel cresceu mais um pouquinho suas fronteiras, mas e daí, né?
Só 25% da população civil virou refugiada em 4 semanas, mas isso era necessário para garantir a segurança dos sionistas - já que árabes não tem moral superior à israelense, como se sabe.
Tirando meu sarcasmo, Israel (como sempre) leva tudo, se posa de vítima e os planos da Grande Israel continuam em marcha. O Hizbollah, inclusive, agradece a mãozinha israelense ao torná-los mártires.
Pobre Líbano.

sábado, 12 de agosto de 2006 13:35:00 BRT  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Alon

Mandei o comentário para o post errado. Era para este.
Pode deletar o primeiro e publicar o que segue

O professor Roberto Romano, que se declara católico, tem dois escritos que merecem ser lidos para que possamos (mas não apenas só isso há que aproveitar na leitura dos textos) conhecer e entender melhor as origens medievais do anti-semitismo católico e cristão.

Não sei se foram produzidos nesta ordem:

O primeiro, "Os laços do orgulho. Reflexões sobre a política e o mal", pode ser lido em http://www.unimontes.br/unimontescientifica/revistas/Anexos/artigos/revista_v6_n1/03_dossie_os_lacos.htm
O segundo, "A Razão Terrorista", pode ser lido em http://www.unicamp.br/ifch/romano/download/razao_terrorista.pdf

Abaixo algumas passagens do primeiro texto:

"Na política cristã moderna, o mesmo veto dirigido aos monarcômacos é aplicado contra os judeus e se potencia ao infinito. Os rebeldes cristãos desejaram matar os soberanos temporais. Os judeus teriam o desejo de assassinar o soberano divino. As penas contra os primeiros eram severas. Uma delas foi aplicada em Ravaillac pelo assassinato de Henrique 4 (1610). O rebelde foi esquartejado com ajuda de facas e de espadas, os lambões de seu corpo foram, a seguir, postos em chamas. A mão que segurou o instrumento mortal foi queimada separadamente. Se uma pena assim foi dirigida a um fiel que matou o rei, é possível imaginar o que se reservou, no subsolo da consciência cristã, para os supostos deicidas.(4) " (Reproduzo parte dessa nota 4, Alon: "O autor procura indicar que a idéia de um verdadeiro deicídio seria impossível para os cristãos primitivos, pois suporia de fato pensar que Deus estivesse submetido à força humana. Ele estuda a expressão théo-ktonoi, termo criado pelos padres da Igreja para designar os que mataram Deus, e indica que para os padres da Igreja os atores do suposto deicidio são vários, incluindo os romanos, e não apenas os judeus. De qualquer modo, trata-se de um trabalho feito por Rochebrochard com base em autores judeus e cristãos, num espírito que parece distante das sombras antisemitas que, infelizmente, ainda hoje são fortes no cristianismo"). Sempre é possível dizer, com Jules Isaac, que se trata de uma acusação capital unida ao tema do castigo último, a terrificante maldição que pesa sobre Israel, explicando (e de antemão justificando) seu destino miserável, suas mais cruéis provações, as piores violências cometidas contra ele, os rios de sangue que escaparam de suas feridas sempre reabertas, sempre vivas. De modo que, por um mecanismo engenhoso — alternativo — de sentenças doutorais e de furores populares, encontra-se jogado na conta de Deus o que, vista a esfera terrestre, seguramente pertence à incurável vilania humana, aquela perversidade, diversamente mas sabiamente explorada de século em século, de geração em geração, e que atinge seu ápice em Auschwitz, nas câmaras de gás e nos fornos crematórios da Alemanha nazista. Um desses alemães, desses assassinos servis, um dos matadores em chefe (batizado cristão) disse: ‘Eu não podia ter escrúpulos, pois eram todos judeus’. Voz de Hitler? Voz de Streicher? Não. “Vox saeculorum.”.(5) (...)
Na luta pelo mando dos homens, religiões milenares e venerandas convivem, em seu interior, com rebeldes ao compromisso de igualdade e respeito na fé. Alguns chefes de Igreja, como foi o caso do Pontífice Católico, proclamam a essência superior de seu credo sobre todos os demais. Enquanto isto, líderes de outras tradições calam-se ou incentivam assassinatos e horrores inauditos. O fato de que tais sentenças de morte coletiva são proibidas nos seus escritos sagrados aumenta a violência daqueles atos. 'É preciso não transformar Deus num punhal', disse um dia o ateu Denis Diderot. Ele sabia perfeitamente sobre o que falava, porque grande número de crentes sucumbe à tentação por ele denunciada."

Outras do segundo texto:

"É estratégico refletir sobre a democracia e os destinos do Estado de direito (...).Como opera a racionalidade terrorista? Seria possível analisar seu funcionamento com ajuda de nossa própria razão, quando verificamos o quanto esta última age de forma perfeitamente lógica e com eficácia apavorante nas demonstrações terroristas? Em I. Kant, importa muito, na inspeção racional, o genitivo: trata-se, para ele, da crítica da razão pura. Ou seja, é a própria razão o sujeito e o objeto da crítica. No caso terrorista, é preciso ter consciência de que se enfrenta uma certa razão, a partir de uma outra. Não há recobrimento perfeito do sujeito e do objeto, através do genitivo: ou aderimos à razão terrorista, de Estado ou dos grupos que se candidatam ao domínio estatal, ou a rejeitamos, também em nome da razão, mas dotada de outro estatuto. Ou existe uma razão democrática, ou apenas o terrorismo é real e racional. Esta é uma aposta, espécie de “projectio per hiatum irrationalem” dos que almejam a sociedade humana em regime democrático, aposta na recuperação da vontade voltada ao ser, a qual se afasta da morte e da insânia guerreira. A razão e a vontade dirigidas ao bem coletivo, sem tutores, este é o ideal das Luzes, hoje caluniado por todos os que desejam a tirania em escala cósmica. É ao redor deste ponto que as páginas seguintes irão girar."

Forte abraço
Paulo Araújo

sábado, 12 de agosto de 2006 17:22:00 BRT  
Anonymous Daniel G disse...

Não vi TV durante o dia, resolvi checar agora após ver o blog...Vi a informação aqui, e é uma execelente notícia. Enfim resolveram concordar em algo.

O que me deixa perplexo é que acabo de ver também na TV que Israel triplicou o numero de soldados na região. Já chegaram as margens do rio Litani e tem um plano de ação que "deveria" durar mais dois meses. O lider do Hezbolah diz que só para de lutar quando Israel retirar totalmente suas tropas do território Libanes, o que não acontecerá logo. Já derrubaram Helicopteros, destruiram tanques e etc...A guerra por lá segue desrespeitando o pedido, incluso na resolução, de cessar fogo imediato.

A data do cessar fogo fica pra segunda feira, o que na minha opinião, não faz o menor sentido. Mas, aparentemente nem Israel nem o Hezbolah querem parar a briga. Quem sofre são os civis...dos dois lados.

sábado, 12 de agosto de 2006 22:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O senhor viu essa matéria,cujo tema já saiu várias vezes em outros jornais europeus e que hoje é resumida no Luis Nassif online? O jornalista americano Seymour Hersh, que tem longo curriculo de furos, desde o massacre de My Lai no Vietnam até a preparação para invasão do Iraque e o caso da prisão de Abu Ghabi, agora tevela que o ataque de Israel ao Líbano foi longamente planejado em conjunto entre os EUA e Israel.

Os trabalhos de Estado-Maior feitos em Washington por oficiais israelenses e americanos, tudo muito antes do seqüestro dos dois soldados israelenses. Segundo Seymour, a ofensiva no Líbano insere-se no plano americano de neutralização do programa nuclear iranianom sendo parte da estratégia do Governo Bush para atacar o Irã.

Atalho para: http://www.guardian.co.uk/israel/Story/0,,1844021,00.html

segunda-feira, 14 de agosto de 2006 10:11:00 BRT  
Anonymous Rogério disse...

Este artigo de Robert Fisk dá uma outra visão de quem "venceu" depois do cessar-fogo: "Longe de humilhar Irã e Síria - o que era o plano israelense-americano -, este dois Estados supostamente párias permaneceram intocados e a reputação do Hezbollah foi enaltecida em todo o mundo árabe. A 'oportunidade' vista por Bush e Rice no Líbano transformou-se numa oportunidade para os inimigos dos EUA mostrarem a fraqueza do exército israelense" .

Vale ressaltar que Fisk é britânico e vive no Líbano há décadas. Conhece como ninguém os meandros da política do Oriente Médio.

terça-feira, 15 de agosto de 2006 10:59:00 BRT  
Anonymous Radwan Sayyad disse...

O Robert Fisk é um anti-americano e anti-britânico fanático. É um intelectual(?) que defende o fascismo, o terrorismo e procura justificar as ações de Osama Bin-Laden. A própria ONU reconheceu que o Hezbollah foi o agressor nessa guerra. O mundo árabe é assim mesmo: são especialistas em cantar vitória quando perdem. O Hezbollah tinha a capacidade de criar uma frente de guerra contra Israel no norte do país. Não tem mais. Essa é a realidade. A "vitória" do Hezbollah é que nem a "vitória" de Saddam Hussein na Guerra do Golfo. Ah, esqueci, o Fisk também é um saudoso de Saddam Hussein.

terça-feira, 15 de agosto de 2006 11:30:00 BRT  
Anonymous rogério disse...

Robert Fisk desperta um ódio irracional em todos os que defendem de forma irrestrita a política americana no Oriente Médio. Dizer que ele "justifica" Bin Laden ou é "saudoso" de Saddam Hussein é um exemplo disso. O que tem de gente que o chama de "anti-semita" não está no gibi. Para este pessoal, o simples fato de criticar qualquer postura israelense já converte o sujeito em anti-semita.

Para quem acha que a percepção de vitória do Hizbollah se resume aos "xiitas" e "anti-semitas", é bom ler este trecho publicado hoje na Folha:

Em Israel, a percepção de fracasso militar provoca disputas políticas e militares, apesar do apoio popular à ofensiva. Alguns oficiais e deputados pedem a renúncia do chefe do Estado Maior, Dan Halutz - afetado ontem por uma denúncia.
A imprensa israelense divulgou que Halutz vendeu ações no valor de US$ 25 mil horas depois do seqüestro dos dois soldados pelo Hizbollah, em 12 de julho, ação que desencadeou o conflito no qual morreram 806 libaneses e 157 israelenses.
As autoridades estão debatendo se Halutz aproveitou-se de informação privilegiada para vender as ações antes do início da guerra. A Bolsa de Valores de Tel Aviv caiu mais de 8% nos dois primeiros dias de conflito. Halutz negou irregularidades: "Naquele momento eu não sabia e não esperava uma guerra".

quarta-feira, 16 de agosto de 2006 07:45:00 BRT  
Anonymous Paula Nascimento Cohen disse...

Saiu hoje uma pesquisa em Israel mostrando que so 30% acham que o Hizbula se deu bem. Isso e 'a percepção de fracasso' descrita, como sempre no chutometro, pela Folha. Vao no site ynetnews.com. A Folha é assim mesmo. Um jornalismo da pior qualidade. Bla,bla,bla e opinionismo fantasiados de reportagem. A cobertura internacional da Folha so nao consegue ser pior que a cobertura eleitoral. Se voce le a Folha parece que o Geraldo Alckmin vai ganhar no primeiro turno. O azar deles e que de tempos em tempos saem as pesquisas, e dai eles tem que explicar porque o Lula esta na frente. O Fisk é anti-semita mesmo. Se fosse cartunista e nao 'jornalista' estaria na exposição de cartoons em Teera sobre o Holocausto.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006 07:56:00 BRT  
Anonymous Pierre Chammas disse...

Sobre o balanço da guerra eu fico com o texto do Alon de ontem. Esse Fisk não tá com nada. Só um maluco prá achar que um país entra em guerra para "humilhar" alguém. Está na cara que o cara não manja nada. É um papagaio dos aiatolás.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006 08:00:00 BRT  
Anonymous Rogério disse...

Um inquérito foi aberto pelo governo israelense para investigar a condução da campanha militar. Enquanto isso, a oposição pede um inquérito independente. Segundo esse texto de hoje da BBC, "na campanha militar contra o Líbano, os dois objetivos de Israel eram resgatar os soldados sequestrados e acabar com a influência do Hezbollah no sul do Líbano. Críticos e a oposição dizem que nenhum dos dois objetivos foi atingido".

Para quem continua achando que Israel foi vitorioso, ou não acredita na Folha nem em Robert Fisk, o texto é leitura obrigatória. A não ser que digam que a BBC é "anti-semita" ou faz "chutômetro" e "jornalismo da pior qualidade".

quinta-feira, 24 de agosto de 2006 13:28:00 BRT  

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