terça-feira, 15 de agosto de 2006

Balanço preliminar de uma guerra que não acabou (15/08)

Um bom amigo pede para eu fazer um balanço da guerra entre Israel e o Hezbollah. Bem, eu preferiria esperar o fim dela para fazer esse balanço, mas vou me aventurar. Vou tentar usar a lição aprendida duas décadas atrás numa viagem que fiz à República Democrática e Popular da Coréia (RDPC, conhecida entre nós como Coréia do Norte). Eu trabalhava no Voz da Unidade, o então semanário do também então Partido Comunista Brasileiro (PCB), e viajei com o saudoso João Aveline e com o colega Silvano Tarantelli. Os norte-coreanos sempre foram muito ciosos de sua revolução e de seu líder, Kim Il-sung, que comandou a resistência contra o invasor japonês na Segunda Guerra Mundial. Todas as conquistas e coisas boas do país eram relacionadas ao Grande Líder Camarada Kim Il-sung. Juízos de valor à parte, era uma maneira de manter o país unido e mobilizado em torno do Partido do Trabalho, o único permitido. Bem, depois de uma semana viajando pela RDPC, nosso intérprete já se permitia uma certa intimidade. A ponto de dizer: "Nunca cometa o erro de acreditar em excesso em sua própria propaganda". Foi uma lição preciosa, que procuro seguir. No caso da guerra entre Israel e o Hezbollah, por exemplo. Israel diz que venceu porque o Hezbollah não será doravante um "Estado dentro do Estado" no Líbano e por ter conseguido impor uma zona desmilitarizada na sua fronteira norte. As duas conquistas configurariam uma nova situação no terreno, com o Hezbollah deixando de ser uma ameaça estratégica -até pelas pesadas perdas materiais da guerrilha, estimadas em 600 mortos, outro tanto de feridos e a destruição de boa parte da sua infra-estrutura militar no sul do Líbano. Já o xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, diz que venceu a guerra pois enfrentou de igual para igual o exército israelense e o impediu de atingir os objetivos inicialmente definidos no conflito: a libertação dos dois soldados israelenses seqüestrados e o desarmamento da milícia. Além de ter mantido a capacidade de lançar foguetes em direção ao Estado Judeu até o final das hostilidades. Essa avaliação, naturalmente, é compartilhada pelo Irã e pela Síria, os dois principais aliados do Hezbollah. A verdade deve estar em algum ponto intermediário. Por que eu digo que a guerra ainda não acabou? Não porque vá haver necessariamente uma retomada da beligerância no curto prazo, mas porque muito do desfecho do conflito será decidido pela diplomacia. Como opinei em posts anteriores, o resultado da guerra será ditado por: a) até que ponto o Hezbollah se desarmará e se integrará ao exército libanês; b) quais serão a composição, o comando e as atribuições das forças internacionais a serem dispostas entre os dois países; e c) qual será a atitude do governo do Líbano diante de Israel daqui para frente (se penderá para a esfera de influência da Síria e do Irã ou não). Vamos esperar. Mas já dá para falar sobre algumas frustrações e surpresas nos dois lados. Israel foi obviamente supreendido pela ação do Hezbollah (o seqüestro) e estava despreparado para uma guerra contra a milícia, que levou a vantagem da iniciativa. Não se mobiliza a infantaria assim de uma hora para outra. Quando as tropas terrestres estavam, afinal, totalmente mobilizadas, já era quase tempo de terminar a guerra, diante da pressão mundial crescente em decorrência das vítimas civis causadas pelo uso extensivo do poder aéreo. A alternativa seria prolongar as ações terrestres, mas o risco dessa opção (para Israel) era o governo libanês ficar excessivamente enfraquecido, ao ponto de ser derrubado e substituído por uma coalizão pró-Síria, provavelmente encabeçada pelo Hezbollah. Aliás, a guerra terrestre quase não aconteceu. Basta comparar as perdas israelenses com as de outras guerras. Nesta morreram cerca de 100 militares de Israel. Os números das outras: 6.400 na Independência em 1948-49, 780 nos Seis Dias em 1967, 2.700 no Yom Kipur em 1973 e 700 no Líbano em 1982. A Wikipedia tem uma página com essas informações. Do lado do Hezbollah e de seu principal aliado, o Irã, também houve frustrações. A milícia tinha a convicção de que derrotaria os israelenses na luta corpo-a-corpo e que a população civil de Israel não suportaria a guerra de desgaste promovida por meio dos foguetes Katiusha (e outros). A tese clássica de Nasrallah é que a sociedade israelense seria como uma teia de aranha: bem estruturada, sofisticada, mas que desmancharia com um passar de mão. O fato é que Israel venceu as poucas batalhas de infantaria e as lutas corpo-a-corpo (o Hezbollah não fez prisioneiros) e a sustentação interna da guerra se manteve em níveis altos até o cessar-fogo. Aliás, a principal crítica interna aos líderes israelenses é não terem levado o conflito adiante. Assim, as coisas não aconteceram exatamente da maneira que supunha Nasrallah. Se é fato que a população libanesa mostrou-se resiliente, o mesmo aconteceu com a israelense. Para ganhar uma guerra é preciso, além de outras coisas, estar disposto a morrer para ganhá-la. Nesse aspecto, os dois lados se equilibraram. Os relatos são de que ambos lutaram com coragem e honra. Israel viu de novo que não conseguirá dominar o Líbano, nem que o queira. O Hezbollah viu que não bastam foguetes para inviabilizar o Estado Judeu. Bem, mas os aiatolás do Irã estão dispostos a colocar ogivas nucleares nesses foguetes. Mas aí, meus caros, já estaríamos falando da Terceira Guerra Mundial, com todas as suas conseqüências e os seus horrores. Ou vocês acham que vão ficar só assistindo, à distância e tomando uma cervejinha, a um conflito dessas proporções?

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3 Comentários:

Anonymous Swamoro Songhay disse...

Desculpe-me, Alon, mas acabou sim: em cadáveres.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006 11:44:00 BRT  
Anonymous Paulo Borges disse...

Alon eu te admiro pela coragem de dizer as coisas como são, ou pelo menos como você acha que são. Você não se esconde e também não agride. Apenas expõe suas idéias claramente, de modo que as pessoas possam contestá-las se quiserem. Parabéns.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006 13:41:00 BRT  
Anonymous carcamno disse...

Alon, não acredito que "Israel foi obviamente supreendido pela ação do Hezbollah (o seqüestro)". Sinceramente, entendo o sequestro muito mais como uma desculpa (escolha o exemplo histórico que quiser de desculpas para o início de operações bélicas, existem aos montes) do que o motivador da ação. Como o sua argumentação segue como consequência deste fato, acaba prejudicada.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006 16:43:00 BRT  

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