quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Abaixo a coerência (17/08)

A doença mais terrível no intelectual é a necessidade patológica de estar sempre certo. É também a que provoca mais sofrimento nele. Manifesta-se com mais gravidade no intelectual formal, o que faz carreira universitária, escreve livros, dá palestras. E que, além de tudo, precisa que o "estar certo" de hoje faça sentido à luz do que já "esteve certo" lá atrás. Os intelectuais formais são, por assim dizer, os oficiais na guerra das idéias. Já os jornalistas-intelectuais (uma redundância) são os soldados rasos. Um general pode ganhar uma batalha, e mesmo a guerra, ainda que perca muitos de seus soldados. Já estes precisam estar sempre atentos à possibilidade de a morte cruzar seu caminho. Pois correm o risco de virar um registro no monumento à vitória ou no túmulo do soldado desconhecido. E os blogueiros? Nós, blogueiros, somos os soldados das forças especiais, aquelas que antigamente eram chamadas "de deslocamento rápido". Antes de virem os tanques e os canhões, nós nos infiltramos no terreno. Tem um certo glamour, mas não deixamos de ser soldados expostos às balas adversárias. Bem, nós, blogueiros, também adoramos estar sempre certos. Mas, como conseguir isso? Uma maneira é fazendo previsões. Se você acertar muitas estará "sempre" certo, pelo menos estatisticamente. Fazer previsões é trabalho de atacante, o sujeito que não precisa acertar todos os chutes: teve um que fez uma média de um gol por jogo e virou Pelé. Outro jeito de estar sempre certo é tentando estabelecer coerência entre os fatos e um conjunto de idéias. Se você oferecer ao leitor uma maneira de ajudá-lo a compreender este insensato mundo, a encaixar a realidade na ideologia, ele certamente lhe agradecerá. Terá encontrado um cantinho quente onde sempre haverá "quem pensa como eu", para falar mal de "quem acha o contrário". Mais ou menos como gostar de sentar no meio de uma torcida organizada para poder xingar a outra e permanecer anônimo. Coerência é serviço de goleiro. Não adianta fazer dez lindas defesas por jogo e tomar um frango a cada partida. Você tem que catar todas, ou já era. É incrível como existe mercado para a coerência. Da minha parte, desconfio da coerência, tenho os dois pés atrás em relação a ela. O mundo teria sofrido menos se Adolf Hitler tivesse sido menos coerente. Coerência não tem nenhuma importância. O importante é criticar as próprias idéias à luz dos fatos e ter referências sólidas. O coerente seleciona os fatos para confirmarem sua teoria. O intelectual honesto (existe isso?) critica as próprias idéias à luz dos acontecimentos. Eu adoro futebol, ainda que não vá a um estádio faz tempo. Mas nunca me sentei no meio de uma torcida organizada. Se eu achar que foi pênalti, achei e pronto. Não quero nem nunca quis ser obrigado a soltar palavrões contra o juiz só porque ele apitou um pênalti contra o meu time. Você não está entendendo o porquê dessa conversa? Pena. Ela vale para o futebol, vale para a política, vale para a vida. Se você não está interessado em coerência, mas em pensar, você me daria muita honra se freqüentasse sempre o meu blog. Se você almeja tornar-se um sujeito bem coerente, eu compreendo que prefira freqüentar outros cantos. Mas dê-me, de vez em quando, o prazer de sua visita.

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10 Comentários:

Anonymous Moacyr disse...

Gostei.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 07:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Talvez o termo coerência, não seja o mais adequado. Gosto mais da proposta de entender a realidade, reconhecer nossas paixões, mas com abertura para repensar nossos conceitos à luz do concreto. Enquanto seu blog não for no estilo "Fla x Flu", vai iluminar a inteligência, favorecer a crítica e ser o preferido dos leitores.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 10:44:00 BRT  
Anonymous desconfiado disse...

Não precisa ter coerência. Só referências sólidas. Hummmmm.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 11:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Mas não é muita coerência pedir para um cara incoerente (tou nessa) visitar com freqüência um blog incoerente? Fiquei confuso :-)

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 11:23:00 BRT  
Anonymous Fernando Trindade disse...

Como o Moacyr, também gostei. Parabéns pela coragem intelectual. Me lembrou um belo texto de Foucault, do qual transcrevo aqui a seguinte passagem: "De que valeria o empenho de saber se assegurasse apenas a aquisição de conhecimentos, e não, de certo modo e na medida do possível, o descaminho daquele que conhece? Há momentos na vida em que a questão de saber se podemos pensar diferente do que pensamos e perceber diferentemente do que percebemos é indispensável para continuar a olhar e a refletir." (cf. Michel Foucault, por Didier Eribon, Cia das Letras, 1990, p.309). Atenciosamente, FTrindade

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 12:29:00 BRT  
Blogger Paulo de Tarso Soares disse...

Caro Alon, logo que comecei a ler esse texto percebi que era uma resposta ao que escrevi criticando sua análise do comportamento, no debate, dos candidatos a presidente. Critiquei-a por ter sido feita na perspectiva dos marqueteiros e não do analista político. Tudo bem, de fato, ninguém é obrigado a pensar como pensava antes. Não vou deixar de gostar de você só por isso. Ser intolerante com as divergências é negar meu compromisso político. Naõ tenho características autistas. Há, no entanto, algumas observações que não posso deixar de fazer. Como você mudou, não sei mais quem são seus referenciais de intelectuais, mas não posso eixar de observar que estar sempre certo é uma necessidade patológica dos pseudo-intelectuais. Os intelectuais procuram estar certos, mas o erro faz parte dessa busca, assim como a dignidade de reconhê-los. Uma segunda observação que não posso deixar de fazer é que o estar certo hoje não necessariamente faça sentido à luz do que estave certo lá atrás. Hoje, para o ódio dos da minha geração, sob influência de Holloway e de Bensaïd, dou risada do marxismo que aprendemos nos anos sessenta e setenta. Espero, agora, ser bem entendido. O que critiquei na sua análise não foi uma eventual mudança de compromisso político ou de doutrian política e sim o fato de que um analista político se submeta à perspectiva dos marqueteiros. Um grande abraco, Paulinho.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 14:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Excelente texto. Assinaria. Somente uma precisão conceitual. Na frase "outro jeito de estar sempre certo é tentando estabelecer coerência entre os fatos e um conjunto de idéias" mais preciso seria usar o vocábulo 'correspondência' ou 'referibilidade'. Parece-me inadequado usar o conceito de coerência para a relação entre idéias e fatos. Coerência é um predicado das idéias entre si. Entaõ se o sujeito, hoje, diz "X é Y" e amanhã diz "X não é y", eis uma incoerência. Mais: mudar de idéia não necessariamente caracteriza incoerência. A mudança pode decorrer da mudança dos fatos aos quais as idéias se referiam. Bem, as coisas são mais complicadas do que isso, mas é o que o espaço permite (tamanho). WS. Caxias do Sul/RS

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 15:59:00 BRT  
Anonymous Daniel G disse...

Também gostei.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 18:58:00 BRT  
Anonymous Bernardo Duarte Bueno disse...

Considero o seu, o melhor blog do Brasil.

Disparado!

Independente, livre, inteligente sem ser preunçoso ou pernóstico.

Bacana o blog.

Que bom, pois o resto é de lascar viu.

Maioria esmagadora de direita.

Outros são como a música do Dalton, lembra? "Muito estranho rs".

Parabéns, continue assim que continuarei fidelizado, leal, defensor da marca rs!

Abraço e felicidades!

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 19:38:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon: Você não está sozinho. Confrontar a coerência, certamente um exercício intelectual desafiante, é mais comum, em especial, na Economia e na Política do que se pode pensar. O grande J.M.Keynes confrontado, devolveu: “Quando alguém me convence de que estou errado, mudo de idéia. O que você faz?”. Da mesma forma, Aparício Torelly, o Barão de Itararé sintetizou: “Não é triste mudar de idéia. Triste é não ter idéias para mudar.” Entretanto, observo que no nosso mundo “blogueiro”, digamos assim, “oficial” ou seja aquele em que jornalistas já experientes se propõem a fazer comentários em tempo real, “coerência”, a meu ver, é um traço comuníssimo. Explico: No meu entender, a entrada em cena dos blogs, pelo menos no Brasil, serviram para radicalizar a espetacularização da política. Então, julgando-se, vaidosamente, agentes, cada vez mais importantes do processo político (desprezando a idéia de que a única diferença para os jornalistas tradicionais é o veículo) alguns blogueiros notadamente aqueles com âncora na grande mídia estão desenvolvendo uma escola moderninha de estilo na qual emitem opinião ao mesmo tempo que fornecem, em nome da coerência, pistas do seu posicionamento político utilizando como biombo figuras de retórica. Por outro lado, achei curioso você citar o futebol no seu texto. Na verdade, sempre achei que a crônica esportiva, por incrível que possa parecer, tem uma grande lição para dar ao colunismo político. Veja bem, desde garotos gostávamos de cobrar dos comentaristas esportivos a sua preferência clubística para que pudéssemos melhor avaliar a opinião emitida. Como diria o Apolinho W.Rodrigues “ninguém é filho de chocadeira” e hoje de um modo geral os cronistas politicamente corretos não escondem mais sua preferência de coração. Acredito, dessa forma, que a liberdade de imprensa vai ganhar muito no dia em que pudermos conhecer claramente as preferências daqueles que emitem opinião sobre política e não apenas se gosta de jazz ou música clássica, se é bilíngüe etc, mas, sim quais os políticos, economistas, filósofos, escritores, vivos e mortos que considera como sua referência de intelectual e cidadão. Aí, sim, coerência vai fazer algum sentido e então deixaremos de nos chocar com posicionamentos como do L.F.Veríssimo que no recente FLIP reafirmou o voto em Lula da mesma forma que C.Veloso se posiciona, aonde pode, no sentido contrário. Por fim, gostaria mais uma vez, de dizer que seus textos são muito estimulantes e dão margem para que possamos viajar e testar idéias para construirmos,no futuro, uma sociedade verdadeiramente melhor. Um abraço.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006 22:38:00 BRT  

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