domingo, 23 de julho de 2006

Monstruosidades da guerra justa (23/07)

Coloquei dias atrás um post sobre o bombardeio de Dresden, na Segunda Guerra Mundial, e perguntei: a destruição da cidade alemã, a poucos dias do final do conflito, foi um crime de guerra? Nada menos que 30 mil civis alemães perderam a vida pela ação de bombas incendiárias americanas e inglesas, uma das maiores tragédias das guerras modernas.

Na época não havia a CNN. Fosse hoje, possivelmente teríamos que assistir ao Dr. Paul Joseph mostrar na televisão imagens de crianças alemãs destroçadas, e também ouvir algum representante da Liga das Nações pedir um cessar-fogo imediato, para interromper o sofrimento da população civil da Alemanha. Como se sabe, não foi isso que aconteceu: Berlim teve que se render incondicionalmente aos Aliados, o que sem dúvida acabou sendo uma solução bem melhor para a população alemã.

Alguns meses depois, em escala maior, o Japão foi palco de um acontecimento semelhante. Os americanos lançaram duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, o que acelerou a rendição japonesa. Hoje, a palavra de ordem universal é "Hiroshima nunca mais", mas nem os generais americanos nem o presidente Harry Truman passaram à História como criminosos de guerra ou foram submetidos a alguma corte internacional.

A guerra é uma monstruosidade, mas até ela obedece a certas regras. Uma delas: se você quer me destruir, quer me matar, se você não admite minha existência, é aceitável que eu vá à guerra contra você, para evitar que você alcance seu objetivo. Uma vez iniciado o conflito, é razoável que eu queira vencer, para que o statu quo resultante da minha vitória elimine (ou ao menos minimize) a possibilidade de você voltar a ter a má idéia que deu início a toda a confusão.

A guerra é monstruosidade, que carrega outras monstruosidades em seu ventre. Uma monstruosidade é o sofrimento imposto aos civis, especialmente às crianças. Monstruosidade maior é usar a tragédia das crianças vítimas da guerra como biombo para ocultar objetivos políticos e militares. Monstruosidade pior ainda é fazer distinção entre o sofrimento das crianças conforme sua origem racial, nacional ou social.

Se você é capaz de festejar (ainda que intimamente) a morte de crianças "inimigas" destroçadas por homens-bomba, enquanto exibe para as câmeras imagens de suas próprias crianças vitimadas por ações militares do inimigo, você já está fora da civilização, ainda que ninguém lhe tenha avisado.

Ah! Ninguém mandou mensagem respondendo minha pergunta sobre Dresden. Este blog é pouco (mas bem) freqüentado. Além disso, há certas peguntas que é melhor não responder. Outra curiosidade que tenho é imaginar como seria a cobertura da Segunda Guerra Mundial por jornalistas "isentos", tal como os conhecemos hoje.

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19 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Não respondi porque achei a pergunta capisciosa. Aliás, até hoje se discute se Dresden foi necessária para a rendição de Berlin (eu acho que não).
Outra coisa: o Hizbollah é um "estado autônomo" num país que faz apenas um ano foi desocupado pela Síria. Portanto, o que Israel faz é uma guerra contra um Estado que nada tem a ver com o inimigo de verdade.
O Líbano é a Geni do conflito no Oriente Médio. E o Hizbollah o filhote que Israel plantou na década de 80 por seus crimes de guerra no país.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 00:59:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Em tempo: hoje, com a bobagem do all-out attack israelense, que custará muito caro à região e ao apoio que sempre existiu da maioria libanesa a Israel, não há outra saída se não a ida de uma força internacional que ocupe a área de influência do Hizbollah e torne o Líbano um Estado real, livre dos controles sírios e com comando completo do país. De outro modo, o Hizbollah sairia fortalecido moralmente na região e Israel mais enfraquecido do que já sairá.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 01:02:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Para mim esta parece ser a guerra dos mil anos. Como as civilizações milenares jamais se rendem e a vantagem militar de Israel é evidente, não consigo visualizar nenhuma chance de paz para região. E o pior de tudo é que cedo ou tarde os árabes possuirão a bomba atômica. Quando isto acontecer a carnificina( Se nenhum dos dois lados forem loucos de iniciar uma guerra atômica) será maior ainda.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 01:16:00 BRT  
Blogger Sidarta disse...

Se vc acha que Dresden se justifica, acharia que as atividades de Stalin contra os habitantes da URSS também se justificariam? Pois há regras para que um ladrão roube e escape ileso, por exemplo. Sinceramente, não entendi porque um desastre justificaria outro.

Desde quando impressa de guerra é impacial? Alguma vez foi?

Abraços,

segunda-feira, 24 de julho de 2006 03:09:00 BRT  
Anonymous José Santos e Silva disse...

Quem decide o que é e o que não é "crime de guerra" é sempre o vencedor.

Por isso, nem Dresden, nem Hiroshima, nem Nagasaki, nem, mais recentemente, Fallujah, no Iraque, são "crimes de guerra".

Da mesma forma que Sabra e Chatila há quase 25 anos e Beirute agora.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 05:36:00 BRT  
Anonymous João Azevedo disse...

Tá vendo Alon? Foi deixar de ser "isento", isto é, de apoiar Lula, com toda aquela pose de "neutralidade", e agora só está levando pancada de seus leitores. Mas não se preocupe: quando vc voltar à "isenção" habitual tudo voltará ao normal... Quanto à guerra, devo dizer que concordo em gênero, número e grau com tudo o que vc diz, e com uma grande vantagem: não sou judeu! Acho que Israel está certo por mera convicção intelectual, e não por minha origem étnica. Pq estou dizendo isso? Pq sua defesa da ação de Israel está em total desacordo com tudo o que vc escreve a respeito de todos os outros assuntos! Se não fosse sua origem judaica, estaria aí falando em "reação desproporcional", em "massacre de civis", e outras "isenções"...

segunda-feira, 24 de julho de 2006 15:25:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Apesar da ingenuidade destas afirmações, elas fazem-se exigidas: tanto como a escravidão e o racismo, todas as guerras devem ser consideradas crimes, vindas de qualquer lado, sob quaisquer pretextos. A ordem pouco importa, pelo fato de todas serem execráveis.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 15:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Discordo de voce, Joao, o Alon nao pode ser considerado um sujeito alinhado com essa ou aquela posicao. Entre outras coisas, ele tem a coragem de afirmar que FHC fez um bom governo, apesar de ele achar que Lula esta fazendo um melhor. Sinceramente, acho que voce esta sendo injusto.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 15:59:00 BRT  
Anonymous Paulo Borges disse...

Ô João, pega leve. Tudo bem que o cara é judeu, mas lembre-se de que ele defendeu as cotas raciais mesmo sendo branco. Acho que você foi preconceituoso.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 16:05:00 BRT  
Anonymous André Pessoa disse...

Bem, quer dizer que para defender Israel, você virou agora defensor das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki? Que coisa mais grotesca...

Sim, Dresden e Hiroshima seriam diferentes hoje, porque existe a CNN. Isso me causa esperança, porque casos como aqueles nunca mais passarão historicamente impunes. Todo mundo saberá que os que fizerem atos como aqueles serão criminosos vis e baixos. Ou seja, exatamente o que todo mundo sabe que são os dirigentes do estado terrorista de Israel.

A CNN lhe incomoda, não é? Que coisa triste...

segunda-feira, 24 de julho de 2006 19:53:00 BRT  
Anonymous João Azevedo disse...

Não vejo onde está o preconceito no que eu escrevi. Não o critiquei por ser judeu. Na verdade, acho que a nova forma de anti-semitismo é, justamente, a posição daqueles que negam a Israel seu direito de existência, e que o fazem defendendo o lado de seus inimigos de maneira mecânica e desinformada. Eu o critiquei pq sua posição quanto a Israel é diametralmente oposta a tudo o que ele defende em todos os outros assuntos. Por tudo o que sabemos dele, esperaríamos que ele estivesse do lado daqueles que falam em "reação desproporcional", etc. Não consigo explicar este fenômeno de outra forma senão relacionando-o à sua condição de judeu, ou seja, "sou 'isento', mas quando o calo me aperta..."
É como o cara que é líder de uma ONG contra a pena de morte e vira linchador quando descobre que a filha foi estuprada. Mas tudo bem, isso é passageiro. Basta que Alckmin suba de novo, o PCC faça nova "ação revolucionária", e ele diga que o PT nada tem a ver com o pato. Vai voltar às boas com os leitores rapidinho...

segunda-feira, 24 de julho de 2006 20:36:00 BRT  
Anonymous Pri Mendes disse...

João, você deveria argumentar contra os argumentos dele, e não dizer que ele tem essas posições porque é judeu. Fica ruim para você. Do mesmo jeito que essa comparação sobre o estupro. Acho que você está querendo desqualificar a opinião dele. Desculpa, cara, mas nada mais petista do que esse jeito de discutir. O que ele disse é que em certas situações o sofrimento da população civil é inevitável, mesmo numa guerra justa. Nos exemplos que ele deu ele tem razao.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 20:48:00 BRT  
Anonymous Roberto Black disse...

André, sua posição é coerente. Você acredita que o mundo seria melhor se o nazismo alemão e o militarismo japonês tivessem durado mais. Você não percebe que de vez em quando a humanidade está diante de uma Escolha de Sofia e quer fingir uma "neutralidade" que não existe. O Allon foi honesto intelectualmente ao colocar claramente a posição dele. Parabéns para ele.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 21:03:00 BRT  
Anonymous João Azevedo disse...

Não posso argumentar contra os argumentos dele, já que concordo com todos (nesta questão). Minha posição está bem clara, concorde quem quiser.

segunda-feira, 24 de julho de 2006 21:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Os homens de coragem não se escondem atrás de suas mulheres ou crianças para lutar, seja com armas, seja com palavras. Há situacões que os civis sofrem por causa de suas lideranças. Não vi esses críticos de Israel levantarem a voz contra os homens-bomba que há anos explodem os civis israelenses. Por isso não têm nenhuma credibilidade. É gente que atira nos outros e depois vai se esconder e fingir de vítima.

terça-feira, 25 de julho de 2006 00:05:00 BRT  
Anonymous Priscila Schneider disse...

Sr João Azevedo: Fui olhar as coisas que o Alon escreve e não concordo que a posição dele seja 'diametralmente oposta' ao que ele defende em outros assuntos. Qual é o problema do cara defender o Lula e ao mesmo tempo achar que o Hezbolá é um risco para a humanidade? Quer dizer que todo cara que gosta do Lula tem que gostar também do presidente do Iran? Vamos com calma. E tem mais: acho que ele teve coragem de dizer que as bombas atômicas sobre o Japão encurtaram a guerra mundial e pouparam a vida de muitos, inclusive de muitos japoneses. Você discorda disso? Então argumente.

terça-feira, 25 de julho de 2006 00:44:00 BRT  
Anonymous João Azevedo disse...

A: Hiroshima e Dresden não foram crimes de guerra.
B: Já disse que concordo com os argumentos dele em assuntos externos.
C: Vamos esperar a próxima rebelião do PCC, e ver se ele dará, ao terrorista filopetista Marcola, o mesmo tratamento que dá ao terrorista Nasrallah. Eu duvido...

terça-feira, 25 de julho de 2006 06:33:00 BRT  
Anonymous Richard Lins disse...

Meu pai me disse que os EUA perderam a Guerra do Vietnam por causa da televisão. Não pq os jornalistas eram pacifistas, reacionário ou qq coisa assim. Mas foi a 1ª vez que a população pode acompanhar, quase que em tempo real, o desenrolar das batalhas. Imaginem uma típica família Americam Way of Life jantando em frente da tv, assistindo o noticiário com imagens dos combates, pessoas feridas, corpos, tiros, desespero, destruição de lares etc. Tudo sem heroísmo, sem razão, sem a ordenação das batalhas dos filmes, sem qq sentido prático, nem vencidos nem vencedores. Não é jornalismo isento, não é a versão dos vencedores, são os fatos! Crianças israelenses, palestinas, libanesas morrendo enquanto tanques e foguetes despejam sua fúria... mas pra quÊ mesmo?!?!!

terça-feira, 25 de julho de 2006 17:32:00 BRT  
Anonymous José Santos e Silva disse...

Em vez de discutir confortavelmente em casa, a milhares de quilômetros de distância, o que é ou não crime de guerra, talvez valha mais ler a impressão de quem está in loco. Sugiro o texto "War Crime?" do jornalista inglês Robert Fisk, que vive há décadas no Oriente Médio e já cobriu de Saddam Hussein a Al-Qaeda, de Khomeini a Hariri, de Sadat e Begin a Olmert...

quarta-feira, 26 de julho de 2006 05:13:00 BRT  

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