segunda-feira, 31 de julho de 2006

A ficção da "guerra cirúrgica" (31/07)

A primeira vez que ouvi falar em "guerra cirúrgica" acho que foi na Guerra do Golfo. Os Estados Unidos estavam ainda traumatizados pelas suas baixas no Vietnã, uma década e meia antes. Vendeu-se para a opinião pública a ficção de que a guerra contra o Iraque (que havia invadido o Kuait) seria quase um vídeo-game. Desde então sobrevive algum tipo de ilusão sobre a possibilidade de guerrear sem derramar sangue, especialmente civil. E especialmente quando um dos lados em conflito é uma guerrilha misturada à população comum. Para quem ainda tinha dúvidas a esse respeito, a horrenda tragédia de Kana é mais uma lição. Recebo emails me perguntando se esse desastre humanitário poderá acelerar o fim do conflito. Eu duvido. Depois que começam, as guerras só acabam quando há um vencedor. Não há registro de guerra que tenha terminado empatada. Se as Nações Unidas (ou quem quer que seja) impuserem um cessar-fogo imediato e incondicional, essa decisão terá significado uma grande vitória para o Hezbollah. Portanto, é uma não solução para Israel e os Estados Unidos. Se o cessar fogo vier acompanhado da decisão de instalar no Líbano uma força multinacional de paz com dentes e mandato para desarmar o Hezbollah, será uma vitória de israelenses e americanos. Portanto, é uma não solução para o Hezbollah e o Irã. Israel não pode admitir em sua fronteira uma guerrilha cuja razão de ser é a destruição do Estado Judeu. E o governo libanês não tem força para se impor à milícia xiita. Talvez não tenha nem vontade. Israel não pode dar ao Hezbollah uma vitória estratégica que coloque em risco a percepção de que o Estado Judeu é capaz de defender suas fronteiras. E o Hezbollah deseja enfraquecer exatamente essa percepção. Outro ponto a ser notado é o ultimato que a ONU deu hoje ao Irã para que suspenda o enriquecimento de urânio. São as duas faces de uma mesma guerra.

Leia também (do The New York Times):

Israel Vows to Press Ahead With Offensive
Bush Ties Battle With Hezbollah to War on Terror
U.N. Sets Deadline for Iran to End Uranium Work

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12 Comentários:

Anonymous João Carlos disse...

Enquanto os dois lados buscam uma vitória e, consequentemente, o cessar-fogo não vem, vamos nos entretenendo com as descrições do horror distante. Para quem não tem Al-Jazeera, vale à pena ler esse artigo.

segunda-feira, 31 de julho de 2006 20:15:00 BRT  
Blogger Flavio Wasniewski disse...

Olá Alon,

Não entendo a relação entre o momento do cessar-fogo e o "quem ganha a guerra". Como nenhum dos lados será eliminado, ambos irão se proclamar vencedores seja qual for o momento do cessar-fogo.

Um cessar-fogo imediato não inviabiliza a chegada de tropas internacionais - pelo contrário, uma vez que a comunidade internacional vai se sentir co-responsável pela manutenção da paz e contará (até quando?) com o apoio do governo e população locais.

Israel, como os EUA no Iraque, não pode vencer militarmente uma guerrilha. Assim, não consigo enxergar outra razão para essa guerra que não seja a 'punição coletiva'.

Abraços, Flavio

segunda-feira, 31 de julho de 2006 22:46:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Flavio, obrigado por vir a meu blog. Quando as armas silenciarem, sera preciso ver qual parte mantera as condicoes de atingir seus objetivos. O Hezbollah e uma guerrilha islamica que tem por objetivo retomar para os arabes o territorio da Palestina hoje pertencente a Israel (releia os pronunciamentos do xeque Nasrallah). O Hezbollah tem forte apoio na populacao xiita do sul do Libano e e militarmente mais forte que o proprio exercito libanes. Israel ve o Hezbollah como uma ameaca por duas razoes. Israel considera que os vizinhos que ja admitem sua existencia poderiam ficar fragilizados no contexto regional caso o Estado Judeu se mostre fraco militarmente, incapaz de defender uma fronteira internacionalmente reconhecida (como e a do Libano). Israel tambem ve o Hezbollah como um instrumento do Irã, pais que busca desenvolver armas nucleares e tem o objetivo estrategico de riscar Israel do mapa. Se a atual guerra terminar com o Hezbollah razoavelmente preservado, posicionado na fronteira e com os canais abertos para receber ajuda militar, o Hezbollah tera vencido a guerra. Caso contrario, tera perdido.

segunda-feira, 31 de julho de 2006 23:10:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

A merda toda Alon, com perdão pela expressão mas aqui ela se justifica, é Israel ter que invadir um pais como o Líbano. Não estou aqui dizendo que Israel está certo ou errado. Apenas lamentando a invasão do pais mais avançado entre os árabes. Eu vou ser sincero, não gostaria de viver em um pais árabe e abomino sua cultura no tocante aos direitos humanos, principalmente os das mulheres. Mas a criação do Estado de Israel foi um ato de força que pressupôs a resignação dos árabes com o passar do tempo. Um erro monumental. Assisti algumas vezes no History Chanel alguns lideres israelenses deixando claro que a expansão territorial de Israel era só uma questão de tempo e oportunidade. Faltou combinar com os adversários, como diria garrincha. E para nunca nos esquecermos como os judeus encaram o Estado de Israel, basta lembrar Ben-Gurion:"Se eu soubesse que seria possível salvar todas as crianças da Alemanha ao trazê-las para a Inglaterra ou apenas metade ao transportá-las para a Terra de Israel, então eu optaria pela segunda alternativa. Pois temos que tomar em consideração não apenas as vidas destas crianças mas também a história do povo de Israel." (wikipédia). O problema é que os árabes tem o mesmo Espírito.

terça-feira, 1 de agosto de 2006 00:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

this is nissrin. ALon soh tem duas explicacoes pro massacre de kana: ou terrorismo de estado ou o tashal eh a maior incompetencia militar q jah se ouviu.NADA justifica!!!!! se a comunidade internacional nao toma medidas, espero sinceramente q o nasralla tome!!!

terça-feira, 1 de agosto de 2006 00:42:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Há coisas que existem e negamos. Dissimulamos. A espécie humana parece ser expert em esquecer-se, abandonar a realidade que pulsa ao seu redor. Aí passamos séculos matutando para cair a ficha. E não foi assim na época do holocausto? Somente recentemente, acho que sim, nem tenho certeza disso, o Papa horrorizou-se com o nazismo.Alon, o que noto no seu texto é muita coragem de abordar um tema tão delicado sem ficar em cima do muro, sem medo de ser apedrejado por defender o direito à existência do Estado de Israel.Vou parar por aqui senão vão me taxar de pró-Israel ou pró-Hisbolá.Só sei que sou pela autodeterminação dos povos, o que quer dizer direito ao seu território, língua, cultura, religião, etc. Abraço,

terça-feira, 1 de agosto de 2006 00:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon, seu texto de hoje me demonstra, mais uma vez, como é difícil discutir e tomar posição nessa questão do Oriente Médio, especialmente o conflito entre israelenses e palestinos sem ser nem israelense nem palestino. Como eu, que sou brasileira desde os ancestrais dos quais tenho notícia.Para os de ascendentes judeus, Israel, no fundo, no fundo, sempre tem toda razão. Para os de ascendência palestina,é justo o oposto. Também acho que não existe "guerra cirúrgica", mas sua análise, neste texto, numa hora em que crianças, mulheres e idosos não-militantes, são explodidos enquanto dormiam por bombas de implosão, não podia ser uma análise mais ascéptica, quase "cirúrgica".

terça-feira, 1 de agosto de 2006 01:20:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Alon, o jornalista Josias de Souza, que tem um blog hospedado no portal da Folha, postou um artigo a possibilidade enfermidadade de Fidel Castro. Por descuido, postei ali um comentário a respeito deste seu artigo. Como achei esquisito estar elogiando o Josias, um sujeito barraqueiro, tive que fazer uma retificação ali mesmo.

Então ficou assim, lá no blog do Josias de Souza:

[jose carlos lima] [Goiânia - Rio Meia Ponte]
Desculpa, postei o comentário no lugar errado. O Alon é chique para abordar certos temas. Já o Josias é de uma baixaria sem tamanho.

01/08/2006 01:06



[jose carlos lima] [Goiânia - Rio Meia Ponte]
O comentário abaixo é referente à Guerra no Oriente Médio, ou seja, um comentário ao artigo A ficção da "guerra cirúrgica" (31/07) do Alon, http://blogdoalon.blogspot.com

01/08/2006 01:04



[jose carlos lima] [Goiânia - Rio Meia Ponte]
Há coisas que existem e negamos. Dissimulamos. A espécie humana parece ser expert em esquecer-se, abandonar a realidade que pulsa ao seu redor. Aí passamos séculos matutando para cair a ficha. E não foi assim na época do holocausto? Somente recentemente, acho que sim, nem tenho certeza disso, o Papa horrorizou-se com o nazismo. O que noto no seu texto é muita coragem de abordar um tema tão delicado sem ficar em cima do muro, sem medo de ser apedrejada por defender o direito à existência.Vou parar por aqui senão vão me taxar de pró-Israel ou pró-Hisbolá.Só sei que eu sou pela autodeterminação dos povos, o que quer dizer direito ao seu território, língua, cultura, religião. Aí entendo o motorista. Ele não quer nada mais do que existir. Abraço,

01/08/2006 01:00

terça-feira, 1 de agosto de 2006 01:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sobre esse último comentário, eu quero dizer que leio o blog do Alon precisamente por causa disso: pode ser o assunto mais difícil, que ele comenta e procura oferecer uma visão fria, mas nunca em cima do muro. Acho que não basta se indignar, é preciso saber o que está acontecendo, até para que essas coisas um dia deixem de acontecer.

terça-feira, 1 de agosto de 2006 01:25:00 BRT  
Anonymous Metatron disse...

"Se o cessar fogo vier acompanhado da decisão de instalar no Líbano uma força multinacional de paz com dentes e mandato para desarmar o Hezbollah, será uma vitória de israelenses e americanos."

Equívoco: Israel e EUA não dão a mínima para a ONU, e não querem Peacekorps, Israel quer sim a NATO (porque esse é o objetivo americano na guerra).

Erro de avaliação do Olmert/Peretz, pois aí eles não mais darão entrevista a 500 credênciados da mídia global e sim o Supremo Comandante da NATO de sua sala de Situação.

Israel de portagonista a mero coadjuvante em seu próprio teatro de operações, sem controle das ações.

Soldados Cruzados na terra santa novamente, tudo que os radicais islâmicos denúnciavam a décadas se comfirma. Tiro no pé do ocidente a iniciativa para a Reformatação do Oriente Médio da adm. Bush.

terça-feira, 1 de agosto de 2006 03:42:00 BRT  
Anonymous Mengalvio Silva disse...

Ao menos há gente que tem bom senso em Israel.

Trechos do manifesto apresentado no fim-de-semana por um grupo de poetas, escritores, jornalistas e artistas israelenses: "Os civis em Israel e no Líbano não são brinquedos nas mãos de generais. (...) Acreditamos que mais uma vez o Exército de Israel puxa a liderança política e a sociedade israelenses para uma guerra terrestre no Líbano, cujos objetivos não são claros."

E trecho da mensagem enviada por cineastas israelense aos organizadores de um festival de cinema árabe de Paris: "Nós somos categoricamente contra a brutalidade e a crueldade da política israelense, intensificadas ao máximo nas últimas semanas. Nada pode justificar a continuidade da ocupação militar, do cerco e da repressão na Palestina. Nada pode justificar o bombardeio de civis e a destruição das infra-estruturas no Líbano e na faixa de Gaza"

terça-feira, 1 de agosto de 2006 06:50:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Alon, pode-se até argumentar que não interessam se morrem 1 milhão ou 100, porque estamos a falar de vidas humanas e não faz sentido pesar a quantidade - o ato que resultou desta forma, uma guerra, é sempre igualmente abominável.
Entretanto, a expressão "guerra cirúrgica" pareceu-me bastante adequada para descrever muitos dos conflitos recentes (que envolveram uma potência com aparato militar moderno, é claro), em que o número de baixas, como na primeira Guerra do Golfo, foi muito inferior ao que se poderia esperar 2 ou 3 décadas antes.

Logo, a expressão parece-me adequada.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006 14:44:00 BRT  

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