terça-feira, 18 de julho de 2006

Divagações sobre o Oriente Médio e os líderes que salvaram a Europa de si mesma (18/07)

Assisti num desses dias pela CNN ao pronunciamento do líder do Hezbollah, o xeque Hassan Nasrallah. É alguém que realmente merece ser chamado de líder. Nasrallah não se esconde, não oculta seus propósitos atrás de biombos autopiedosos, nem é adepto da autovitimização ou do duplo sentido nas palavras. Yasser Arafat, por exemplo, dizia uma coisa em inglês e outra em árabe, mas seu exercício de contorcionismo político esgotou-se quando levou ao colapso as negociações com Ehud Barak e Bill Clinton em Camp David, em 2000. Se Arafat tivesse aceito a proposta de ambos, hoje provavelmente haveria um Estado palestino em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental (possivelmente a capital). O assunto dos refugiados palestinos teria recebido uma solução inicial e a Al-Fatah seria uma força política incontrastável entre seu povo, um pouco como Nelson Mandela e seu Congresso Nacional Africano na África do Sul. Arafat preferiu deflagrar a segunda Intifada, na suposição de que poderia obter ainda mais, ou seja o direito de retorno, ao território israelense, de milhões de palestinos e descendentes. Ou seja, Arafat queria ter o seu próprio Estado e além disso poder construir uma maioria palestina em Israel. Ou seja, queria inviabilizar Israel como um Estado judeu. Arafat e a Al-Fatah jogaram no tudo ou nada e perderam tudo. Por falar nesse assunto, acho que todas as discussões sobre o conflito no Oriente Médio deveriam começar com uma declaração de princípios: quem opina deveria ser obrigado a manifestar sua posição sobre o direito de Israel existir como um Estado judeu. Eu acho, há muito tempo (desde quando isso não era popular entre os judeus), que o único caminho razoável são dois Estados, um judeu e um palestino, convivendo lado a lado pacificamente. A ONU decidiu a favor disso em 1947, mas tal fato não obriga ninguém a estar de acordo com a decisão. O sujeito pode achar que a melhor solução para o conflito é riscar Israel do mapa. Mahmoud Ahmadinejad, o Hamas e o Hezbollah acreditam nisso e suas ações guardam coerência com tal convicção. No pronunciamento que vi pela CNN, Nasrallah chama o norte de Israel de "Palestina Norte ocupada". Com base nesse conceito de "ocupação", o Hezbollah, apesar de ser um agrupamento político libanês, qualifica-se como "força de resistência". E esse rótulo é reproduzido, por exemplo, pelos correspondentes brasileiros na região, sem que eles expliquem por que o Hezbollah deve ser chamado assim se, afinal, Israel retirou-se de todo o território libanês há pelo menos seis anos, segundo a ONU. Ah, sim, há as Fazendas Shebaa, que o Líbano agora diz pertencerem a ele, quando a própria ONU afirma serem território sírio ocupado por Israel. É um expediente para que o Hezbollah possa manter uma guerra de atrito na fronteira a pretexto de combater uma "força de ocupação". O curioso é que a Síria, apesar de informalmente apoiar a versão libanesa sobre esse litígio, coloca Shebaa dentro de seu território quando desenha seus mapas. A malandragem e o jeitinho não são monopólio dos brasileiros, como se vê. Só que tudo tem limite. Menos a ignorância. A diplomacia brasileira e a Europa classificaram como desproporcional o ataque de Israel contra o Hezbollah depois que a milícia atravessou a fronteira e seqüestrou dois militares israelenses. O que seria, então, uma reação proporcional? Ninguém diz. O Hezbollah não reconhece o direito de Israel à existência, mantém milhares de mísseis e foguetes apontados para Israel e opera inspirado e patrocinado por um país, o Irã, que está a caminho de ter suas próprias armas nucleares. Mas a reação de Israel foi desproporcional, segundo a Europa e a diplomacia brasileira. Sobre a Europa, pouco há a acrescentar. É triste dizer, mas se não fosse pela liderança de Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Josef Stalin, a Europa hoje aprenderia alemão como segundo idioma nas escolas e suas repartições públicas ostentariam o retrato de algum herdeiro político do Führer (na foto famosa da Conferência de Yalta aparecem os três líderes que ajudaram a salvar a Europa de si mesma). A liberdade e a democracia na Europa foram pavimentadas sobre sangue alheio, especialmente o soviético. A historiografia anticomunista tenta apagar esse fato dos livros nas duas últimas décadas, mas é inútil. Ah, sim, há a fascinação brasileira pela Europa. Todo político que deseja exibir "modernidade" e ficar fora do raio de ação do antiamericanismo nativo inventa de ir à Europa para falar do "estreitamento" de nossas relações com os europeus. Geraldo Alckmin acaba de fazer isso, como Luiz Inácio Lula da Silva também já se cansou de praticar. É outro expediente malandro. Aproximar-se da Europa é a maneira de cortejar o mundo desenvolvido sem ser alvejado pela patrulha antiamericana. Só que não dá resultados práticos. Os europeus estão se lixando para a América do Sul, como Lula pôde perceber agora em São Petersburgo.

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7 Comentários:

Anonymous Marcus disse...

Nunca vi o Risbolá ser chamado de "força de resistência" pela imprensa brasileira.

E o ataque de Israel não está sendo apenas contra o Risbolá, mas contra a população civil do Líbano. Até bairros cristãos de Beirute estão sendo atacados.

terça-feira, 18 de julho de 2006 13:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

>A diplomacia brasileira e a Europa
>classificaram como desproporcional o
>ataque de Israel contra o Hezbollah
>depois que a milícia atravessou a
>fronteira e seqüestrou dois militares
>israelenses. O que seria, então, uma
>reação proporcional?

Alon, é um tanto subjetivo definir politica ou belicamente o que seria uma "reação proporcional", vai de acordo com os interesses de cada lado.

Mas, ao menos matematicamente, uma "reação desproporcional" são 5 libaneses mortos para cada israelense.

Se é que se pode analisar a perda de vidas humanas através de uma simples regra de três.

Over five Lebanese dead for each Israeli

terça-feira, 18 de julho de 2006 13:52:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

A pergunta a ser feita é: se até mesmo Bush sabe que seria a Síria por trás do Hizbollah, porque ataca-se o Líbano e principalmente a infraestrutura civil?
Ora, é claro que Israel está aproveitando a deixa para matar o único país árabe concorrente economicamente com o mesmo. Se realmente quisessem enfrentar o Hizbollah, o ataque seria localizado no sul do Líbano e na Síria. O resto é discurso vitimizante de quem não enxerga os arroubos nazi-fascitas no sionismo (que perverte boa parte do que o judaísmo prega). Aliás, o sionismo se utiliza tanto do judaísmo para se proteger de críticas, como da questão do anti-semitismo (afinal, árabes também são semitas e nem por isso vemos árabes na mídia reclamendo sobre isso) para venderem-se como coitados da humanidade para todo o sempre.
Lembremos: enquanto existiu a Palestina judaico-árabe, nada disso ocorria.

terça-feira, 18 de julho de 2006 20:25:00 BRT  
Anonymous jose carlos lima disse...

Seu texto é bastante esclarecedor e gostoso de ser lido. No entanto faço uma sugestão com o intuito de facilitar a leitura. Um espaço de pelo menos duas linhas entre os trechos=parágrafos. É que costumo ler, dar uma saída e, quando retorno, fica difícil saber onde eu parei a leitura. Por isso, nada mal uma respirada entre um trecho e outro.

terça-feira, 18 de julho de 2006 22:49:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Desproporcional é destruir TODAS as pistas do aeroporto internacional da capital de um país, além de provocar a morte de civis em massa, como retaliação a uma ação de um grupo não-governamental isolado em uma área conhecida e próxima ao território de Israel. Sem contar que, segundo o divulgado na imprensa brasileira, o míssel de maior alcance do Hizbollah não chega a 300km de distância.

quarta-feira, 19 de julho de 2006 16:36:00 BRT  
Anonymous carcamano disse...

Pergunta: se a dimplomacia brasileira se alinha com a européia por fascinação primeiromundista, qual seria a posição adequada? Pode-se defender diplomaticamente os ataques israelenses quando há vítimas brasileiras no conflito? Eu acho que não.

quarta-feira, 19 de julho de 2006 19:05:00 BRT  
Anonymous Jairo Lima disse...

Muito boa a reflexão, porém, temos de ver mais a fundo esse conflito, o que está "atrás dos holofotes". As retaliações feitas por Israel contra seus vizinhos árabes não é coisa nova, sabemos. Porém, não podemos dizer que essa invasão está proporcional uma vez que os mísseis lançados contra Israel fazem feridos, e os bombardeios de Israel matam centenas, principalmente civis. Pensar que estes civis são parte de um sistema terrorista ou "efeito colateral" da retaliação é desumanizar nossa percepção. Na minha opinião, nada justifica uma invasão deste tipo. Afirmo, porém, que também não podemos acusar Israel como único responsável por isto, uma vez que, se olharmos com um pouco mais de luz, veremos que nas sombras, por trás desta ação de retaliação, a bandeira norte americana tremula. Entendemos também que Israel, quer queira, quer não, não continuaria este conflito sem o apoio dos EUA e aliados, uma vez que armas e munição custam caro, muito caro.

terça-feira, 8 de agosto de 2006 11:11:00 BRT  

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