segunda-feira, 5 de junho de 2006

O antipopulismo é o disfarce do político antipopular (05/06)

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) publicou no último fim-de-semana artigo nos jornais O Estado de S.Paulo e O Globo para dar seu pitaco no debate sobre esquerda, democracia e populismo na América do Sul. Pessoalmente, acho a discussão específica sobre o populismo enfadonha e inútil, pela absoluta impossibilidade de se definir, objetivamente, o significado da expressão. Escrevi sobre isso no mais recente aniversário do movimento militar que derrubou o presidente João Goulart. Reproduzo uma passagem daquele texto:

"Aliás, poderíamos aproveitar a efeméride de 64 para fazer um pacto: proponho abolir o uso da palavra 'populismo' como categoria histórica nos nossos debates. Ao se prestar a quase tudo, o termo acaba não explicando quase nada. Se desaparecer, não vai fazer falta. A expressão serviu e serve apenas para amalgamar essa aliança espúria entre a esquerda e a direita que têm horror às origens trabalhistas do moderno protagonismo operário e popular no Brasil". O post (31 de março, há 42 anos) pode ser lido clicando aqui.

É isso. Quando ouço falar em crítica do populismo vou logo tirando a faca. O antipopulismo costuma ser o disfarce elegante do político antipopular, a máscara sofisticada de quem resiste a abrir mão de algum naco de orçamento ou recurso público, quando o governante visto como populista tem a idéia de direcionar aos mais pobres uma parte maior desse dinheiro. Nunca ouvi ou li alguém chamar de populistas, por exemplo, as seguidas renegociações de dívida dos grandes agricultores. Ou os juros subsidiados do BNDES para as grandes empresas.

Em seu texto, FHC conceitua o populismo como "uma forma insidiosa de exercício de poder que se define essencialmente por prescindir da mediação das instituições, do Congresso, dos partidos e por se basear na ligação direta do governante com as massas, cimentada na troca de benesses".

O presidente brasileiro que talvez melhor se encaixou nessa definição foi Emílio Garrastazu Médici. Governou sem o Congresso e sem os partidos, e comandou o "milagre brasileiro". Mas você nunca leu ou ouviu alguém dizer, seriamente, que Médici teria sido exemplo de político populista. Sabe por quê? Porque a categoria tem viés ideológico definido, ela existe apenas para tentar desqualificar a esquerda.

Discorda? A América do Sul tem hoje dois presidentes que atropelaram os partidos tradicionais em seus respectivos países, aprovaram a própria reeleição e se reelegeram por ampla maioria de votos, com base na ligação direta com as massas. Um deles é Hugo Chávez, da Venezuela. O outro é Álvaro Uribe, da Colômbia. Chávez já está tipificado pelo senso comum como o populista a combater, enquanto Uribe é saudado pelos ditos antipopulistas como um vetor moderno e democratizante da região.

Creditar ao populismo ou a projetos de poder populistas as contínuas alterações institucionais na América do Sul é perigoso. As instituições políticas são um elemento dinâmico nas sociedades contemporâneas, particularmente nos países em que a mudança social é mais veloz. Esse dinamismo tavez explique por que FHC, Uribe e Chávez tiveram a idéia de mudar a Constituição para poderem pleitear a própria reeleição. Dos três, o único que convocou um plebiscito para perguntar o que o eleitor achava do assunto foi Chávez, o populista. Ah, sim! Uribe também teve a idéia de consultar o eleitor colombiano sobre algumas de suas propostas políticas, mas foi derrotado na ocasião.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

6 Comentários:

Blogger Miguel do Rosário disse...

alon, muito pertinentes suas colocações. é verdade, tanto uribe, como chávez praticam o mesmo tipo de populismo. e também fhc articulou sua própria reeleição. entretanto, até que ponto esse "populismo" não seria também uma legítima reação popular a grupos políticos corruptos ou desligados das realidades sociais do país? até que ponto esse populismo não teria legitimidade democrática? E portanto, se estamos todos a defender a democracia, não deveríamos respeitar os processos naturais que as democracias atravessam? mais: até que ponto o novo populismo latino americano não seria, ao contrário do que dizem alguns setores midiáticos, uma consequência do amadurecimento das populações, que teriam construído consciências críticas às máquinas de propagadanda partidária dos grupos que dominam as comunicações em todos esses países? qdo puder, dá uma passada no meu blog para bater papo. abraço.

segunda-feira, 5 de junho de 2006 23:31:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Meu primeiro comentário nesse blog em 19/03 tinha como título "Alckmim vai dar trabalho para a Imprensa". Passados apenas um pouco menos de 3 meses a tese se reforça à cada dia. No O Globo de hoje, M.Pereira em seu artigo se esforça em reforçar uma "teoria" de que "uma verdadeira herança bendita que está dando seus frutos hoje, turbinada pela decisão do governo Lula de esquecer um pouco o equilíbrio fiscal neste ano eleitoral e ampliar a Bolsa Família para 11 milhões de famílias." Entretanto, no mesmo dia no Globo Online, H.Chagas afirma "há tempos, o programa vem sendo tachado como assistencialista e eleitoreiro pela oposição. Mas se repararmos bem no discurso de Geraldo Alckmin e seus aliados do PFL nos últimos dias, podemos observar uma inflexão. As sugestões de programa de governo entregues pelos pefelistas ao tucano são encabeçadas pela proposta de manutenção do Bolsa-família. E hoje Alckmin está nos jornais afirmando que os "pais" do programa são Fernando Henrique e Antônio Carlos Magalhães... É mole ou quer mais?? Um abraço.

terça-feira, 6 de junho de 2006 13:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vida inteligente é sempre uma alegria.

Posso não concordar com os seus pontos de vista, mas é sempre um prazer ler os seus argutos pensamentos.

Abraços

terça-feira, 6 de junho de 2006 15:56:00 BRT  
Anonymous frank disse...

Alon, discordo da afirmação de que populismo é uma pecha que tentam (a Direita, imagino) imputar à Esquerda. E quanto ao Peronismo? E Garotinho? É de Esquerda? Mas e seu viés evangélico? A tomar pelas idéias conservadoras que defende, no que tange à família e vida privada, seria mais fácil rotulá-lo de populista de Esquerda – e é justamente o que fazem PPS, PSOL, PCdoB e outros representantes do espectro esquerdista.
Penso que o rótulo de populismo é usado ao sabor de interesses conjunturais, sem nenhum compromisso com ideologia. De certa forma, concordo com vc que o termo é impreciso e serve mais à disputa política do que à análise.

terça-feira, 6 de junho de 2006 18:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, não só concordo totalmente com esta sua nota como acrescento que se "populismo" significa acabar com o analfabetismo histórico de um país em três anos, como fez Chávez com a missão Robinson, o que o Brasil precisa é de toneladas de "populismo". Abraço

terça-feira, 6 de junho de 2006 23:19:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ditador Lá e Ditador Aqui !!
Esse é Hugo Chávez
Ditadores disfarçados de Socialistas!!

Muito interessante as atitudes do DITADOR Hugo Chávez no Brasil.
Ele se acha tão poderoso, que se acha no direito de criticar a liberdade de imprensa e um veículo de comunicação no País dos outros.
Respeito é bom e o Brasil deve exirgir que Esse ditador respeite nossa imprensa.
Na verdade esse ditador só não faz retaliações as Organizações Globo, porque ainda não tem poder para tanto.
Quero ressaltar que não estou aqui para defender as organizações Globo, mas quero com isso pedir a união dos meios de comunicação no Brasil, para que ditadores como esse não comprometa a libertade de imprensa e nossa democracia.
No entanto esse ditador em seu País, estar fazendo isso, acabando com a liberdade de imprensa e a democracia.
O mundo precisa ficar de olho neste Ditador que tem de certa forma o apoio de Lula e deste PT com essa esquerda de ditadura disfarçada de democracia socialista.
Na verdade o Brasil pouco tem a ganhar com esses visinhos.
Exemplo: A Argentina recentemente reclamou do Brasil no tribunal internacional, e o Sr. Celso Amorim ainda achou normal que Argentina reclamasse lá e não dentro do Bloco do Mercosul.
No entanto, o Governo Lula preferiu reclamar dentro do Bloco, aceitando inclusive as ameaças e ser desafiado por Bolívia e mesmo assim não achou necessário que o Brasil fosse reclamar na OMC.
Afinal que Governo é esse que acha e aceita que nossos visinhos tenham mais direitos que o Brasil.
Minha modesta opinião.
Outra coisa, O Lula, + Seu PT, sempre criticaram a Ditadura Militar no Brasil, mas não são corajosos o bastante, para criticar o Ditador Hugo Chávez.
Talvez não seja falta de coragem, e sim omissão e concordãncia com as atitudes do Ditador.
O Perigo é que o Diatdor avança em suas metas, e para tanto busca aliados dentro do Mercosul.

Wellington Amado

Universitário 23 Anos

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007 18:20:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home