sábado, 6 de maio de 2006

Um curso de reciclagem em Madri (06/05)

Esse assunto da crise do gás e das relações com a Bolívia deve perder força após o surto chauvinista dos últimos dias. Vai morrer num debate sobre preços, um cabo de guerra comercial que certamente terminará em acordo. A Petrobrás vai pagar um pouco mais pelo gás boliviano, mas os acionistas vão continuar sorrindo, por causa da elevação dos preços do petróleo. E o aumento vai se diluir nos índices de preços como morrem na praia as ondas de uma tempestade
Foi triste ver a diplomacia brasileira, que agiu tão profissionalmente no caso, ser chicoteada sem dó nem piedade por críticos que miravam mais no calendário eleitoral do que no problema do gás em si.
Essa minha afirmação pode parecer injusta, mas acho que injusta mesmo foi a radicalização verbal dos últimos dias. Cheguei a essa conclusão ao ler hoje no site da Agência Estado sobre como a Espanha conduz o assunto. Os investimentos espanhóis estão entre os atingidos. E, para meu espanto, vejo que reagiram com a mesma moderação que nós.
Diz a reportagem da agência ibérica EFE:

"Espanha quer conciliar interesse da Repsol e soberania da Bolívia
Empresas terão 180 dias para renegociar as condições de operação na Bolívia

OVIEDO, Espanha (EFE)- O ministro da Indústria da Espanha, José Montilla, disse neste sábado que a negociação entre Espanha e Bolívia deve conciliar "o interesse legítimo" da companhia petrolífera hispano-argentina Repsol YPF com o "também legítimo" direito do país andino de "obter mais recursos" de suas jazidas energéticas.
Montilla lembrou que o decreto aprovado pelo Executivo presidido por Evo Morales sobre a nacionalização dos hidrocarbonetos fixa um prazo de 180 dias em que as empresas deverão renegociar as condições de operação na Bolívia "e, portanto, é preciso negociar e dialogar". Ele lembrou que o governo boliviano usou suas prerrogativas e sua "soberania" e faz parte de uma comunidade, a ibero-americana, à qual a Espanha também pertence.

Acordo
Os governos da Espanha e da Bolívia concordaram na sexta-feira em abrir negociações sobre as conseqüências, para a empresa petrolífera hispano-argentina Repsol YPF, da nacionalização dos hidrocarbonetos bolivianos decretada na semana passada.
Após se reunir com Morales, o secretário espanhol de Estado de Assuntos Exteriores, Bernardino León, que comanda a delegação oficial enviada a La Paz para analisar a situação, anunciou o início de um processo de 'diálogo e negociação'.
Já o governo boliviano garantiu que a nacionalização não se estenderá a outros setores."

A Espanha foi uma potência colonial, descobriu o Novo Mundo. Fala-se espanhol da Ásia (Filipinas) à América. Depois da democratização, nos anos 70 do século passado, Madri voltou a ser uma das capitais da Europa, junto com Paris, Londres, Berlim e Roma. As grandes empresas espanholas estão entre os principais investidores do ciclo de privatizações na América Latina nos anos 90.
Com tudo isso na bagagem, os espanhóis falam macio com a Bolívia, reconhecem a soberania dos bolivianos sobre o gás e apostam na negociação.
Mas talvez os espanhóis estejam errados. Talvez devessem ouvir mais os nossos luminares aqui no Brasil. Será que não seria o caso de formar uma equipe de editorialistas, articulistas e outros entendidos brasileiros, e montar um curso de reciclagem para diplomatas ibéricos em Madri?

Leia também:

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2 Comentários:

Anonymous Fernando disse...

Lendo esta curiosa comparação entre Brasil e Espanha, sou tentado a perguntar:

- Quanto da matriz energética da Espanha depende do gás boliviano?

- Quantas empresas espanholas vão parar a produção se a Bolívia resolver fechar o gás?

- Em quanto vai aumentar o preço do gás lá na Espanha?

Cada país de comporta de acordo com os seus próprios interesses, e no caso da Espanha não são os mesmos do Brasil. Para aprender o que os espanhóis fazem em uma situação semelhante, sugiro rever a reação da Comunidade Européia quando a Rússia cortou o gás que vinha pela Ucrânia. Posso adiantar que ninguém correu para reconhecer a soberania do camarada Putin, nem botaram o Chavez na mesa de negociação...

Nas Filipinas por sinal não se fala espanhol e sim inglês.

domingo, 7 de maio de 2006 09:55:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Fernando, sou sempre obrigado a ressaltar o alto nível de seus comentários e a sua preocupação central com o mérito das questões. Mas:

1) Se você ler com cuidado o que escrevi, verá que eu não afirmei ser o espanhol a língua oficial das Filipinas. Disse "fala-se espanhol" lá. Para comprovar essa afirmação, basta ir ao verbete Idiomas de las Filipinas na Wikipedia em espanhol (http://es.wikipedia.org/wiki/Idiomas_de_las_Filipinas). Aliás, as Filipinas têm esse nome por casa de um rei espanhol. E se hoje o inglês é mais falado lá do que a língua ibérica, isso se deve ao fato de os espanhóis terem perdido a guerra contra os Estados Unidos pelo domínio dessa colônia.

2) A Espanha depende (muito) menos do gás boliviano do que o Brasil. Mas, proporcionalmente, os investimentos espanhóis na América do Sul são muito mais volumosos e estrategicamente importantes para eles do que os investimentos da Petrobrás na Bolívia são para nós. Se haveria alguém com motivos para dar um chega pra lá na Bolívia, até como demonstração de força para outros países da região, seria a Espanha. E veja que o seu argumento pode ser usado contra você próprio: os espanhóis têm menos a perder do que nós nessa pendenga e nem mesmo assim radicalizaram.
Um abraço.

domingo, 7 de maio de 2006 11:22:00 BRT  

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