sexta-feira, 5 de maio de 2006

Se querem copiar os americanos, copiem nos acertos (05/06)

Por qualquer critério que se use, Cuba é o maior fracasso da política externa dos Estados Unidos. Mesmo o Vietnã, de onde tiveram que sair com o rabo entre as pernas, é hoje um país cada vez mais amigo de Washington. O Iraque, uma ação militar na qual os americanos parecem imobilizados na areia, deve completar seu processo político atual com o estabelecimento de um governo no mínimo não hostil a eles. Cuba não. Daqui a pouco menos de três anos, Fidel Alejandro Castro Ruz, se estiver vivo, alcança meio século no poder. A despeito de toda a vontade que os Estados Unidos têm de que se vá.
Nesse período, dez presidentes já passaram pela Casa Branca. Um acabou morto a tiros (John Kennedy). Um renunciou em meio ao processo de impeachment (Richard Nixon). Um desistiu da reeleição (Lyndon Johnson). Três não se reelegeram (Gerald Ford, Jimmy Carter e George Bush, pai). Até a União Soviética já deixou de existir, mas Fidel continua firme em sua cadeira.
A Bolívia vive reclamando uma saída para o mar. Tem uma ferida que não fecha nas relações com o Chile por causa disso. Para nós, acho que é uma sorte eles não terem litoral. Tivesse a Bolívia ao menos uma praia, haveria aqui quem propusesse um novo desembarque da Playa Girón, a Baía dos Porcos, desta vez pelo Pacífico [a imagem acima reproduz um cartaz cubano da época]. Como já temos muitos bolivianos vivendo no Brasil, não seria difícil arregimentar gente para a empreitada. Assim como sobrariam empresários brasileiros para financiá-la. Poderiam ser os mesmos que já estimulam o separatismo em algumas áreas do país vizinho.
É risível esse repentino furor supostamente nacionalista de quem estimula entre nós o conflito com a Bolívia de Evo Morales. É divertido ver diariamente ex-embaixadores (brasileiros?) em Washington serem apresentados como "analistas" isentos. É cômico ouvir a toda hora testas-de-ferro de capitais interessados em trinchar a Petrobrás aparecerem somo "especialistas" em energia, que nos advertem contra o "perigo" de depender de aliados "populistas". Apenas para nos introduzir nas "vantagens" de parceiros provenientes de países que "cumprem contratos".
Se é verdade que a história se repete como farsa, estamos diante da tentativa de montar uma. Fidel Castro assumiu o poder em Cuba na crista de uma revolução liberal-nacionalista (naquela época havia disso). O comunismo veio depois. O principal catalizador dessa conversão foi a maneira hostil como os Estados Unidos reagiram à nacionalização de ativos de empresas norte-americanas na ilha. Cometeram o erro de orientar sua política externa pelo interesse econômico de alguns, e não pelo seu interesse nacional estratégico.
Prestem atenção na cautela de Washington ao tratar o affair boliviano. Leiam os briefings do porta-voz do Departamento de Estado de terça-feira e quinta-feira [busque por "Bolivia" na página, que é longa, pois os briefings tratam de muitos assuntos]. É a prudência dos gatos escaldados. A Casa Branca e o Departamento de Estado sabem que a emergência de forças sociais e políticas nacionalistas na América do Sul é irreversível nos quadros de uma democracia continental nascente. Democracia cuja expansão os americanos hoje estimulam, como parte de sua política de segurança nacional e da luta contra o terrorismo.
Aprender com os erros dos outros é uma coisa inteligente, pois o custo é zero, ou quase. Se querem copiar os Estados Unidos, façam ao menos o favor de macaqueá-los no que acertam. E não nas coisas de que eles próprios já se arrependeram.

Leia também:

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14 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Os mesmos que venderam (ou apoiaram )a preço de banana parte do patrimônio do país,
se vestem de nacionalistas e querem ver o circo pegar fogo!
Edson Araújo

sexta-feira, 5 de maio de 2006 11:58:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Não faz sentido mesmo uma retórica beligerante, mas não consigo entender por que Lula desautoriza o presidente da Petrobrás numa questão óbvia -- na situação atual, não dá mesmo para investir mais nada na Bolívia.

Aí Lula diz que poderá haver investimento, dependendo do acordo. Parece o Conselheiro Acácio. É claro que pode haver um acordo, mas ele só será bom para o Brasil se o país endurecer um pouco a negociação. Não é fazendo esses afagos gratuitamente que o país ganhará alguma coisa.

Lula está se portando com uma ingenuidade enorme e dando munição farta à oposição.

sexta-feira, 5 de maio de 2006 12:03:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Não li ninguém falar sobre invasão à Bolívia, mas sim a genuflexão de Lula ao crime internacional cometido pela Bolívia. Trata-se semoente disso. Nosso patrimônio foi surrupiado na cara dura e Lula bateu palmas. Não há nada de nacionalização quando a Patrobrás é obrigada a ceder ao governo 51% das suas ações, sem nenhum critério mínimo de indenização. Menos, Alon, BEM menos...

sexta-feira, 5 de maio de 2006 12:19:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Se vocês lerem a nota oficial dos 4 presidentes ontem, todos reconheceram o direito da Bolívia a nacionalizar suas jazidas. Tudo o demais ficou para ser negociado. Na prática revogaram o decreto boliviano, ao levaram-no à mesa de negociação e entregarem-no à Justiça. A reclamada falta de prepotência de Lula, é um ato político de generosidade, para não desestabilizar o governo de Moralles, caso saísse desmoralizado do episódio.
Também foi para não comprometer nossa segurança energética, e para salvar o processo de integração sul-americana. Quem ganharia com a queda de Moralles e com a desintegração sul-americana? Subscrevo as palavras de Tereza Cruvinel: "A América do Sul só tem saída pela integração. Se não conseguir isso, vai virar pasto da rapinagem das três áreas que disputam a dominação do mundo. A saber, EUA, União Europeia e a onça asiática."

sexta-feira, 5 de maio de 2006 12:54:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Números sempre ajudam a esclarecer dúvidas. De acordo com o noticiário, para a bacia de Santos produzir o mesmo gas que trazemos da Bolívia hoje, terá que investir US$ 18 bi. O que a longo prazo, com certeza irá encarecer o valor do gas. Na bolívia foram investidos algo em entre US$ 2 ou US$ 3,5 bi (dependendo de contabilizar as dívidas da subsidiária boliviana). Não chega a ser mau negócio renogociarmos preços, em troca de salvaguardas de segurança energética.
Parece ser inteligente negociar diplomaticamente, pois investir na Bolívia pode ser bom negócio tanto financeiramente como sob a ótica da responsabilidade social.

sexta-feira, 5 de maio de 2006 12:58:00 BRT  
Anonymous Marcos disse...

Explica-se pelo ineditismo do fato e a campanha eleitoral. Alias, mais pela campanha eleitoral do que por outra coisa. DE resto, se o que postou o Sr José Augusto for verdade, a posição do governo (não a da Petrobras) está correta. Só devemos tomar cuidado em não ficar refém de um pais instável como a Bolivia.

sexta-feira, 5 de maio de 2006 13:44:00 BRT  
Anonymous Marcelo Pinto disse...

Brilhante! Como suas outras análises sôbre a "crise do gás".

sexta-feira, 5 de maio de 2006 22:31:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

De qualquer forma, admito que, na disputa política interna, Lula está sabendo driblar as armadilhas da oposição, apesar de toda a campanha contrária dos meios de comunicação.

A frase de ontem é direcionada diretamente ao coração popular: "Nós não vamos fazer com a Bolívia o que os Estados Unidos fizeram com o Iraque".

Frase de gênio, sem dúvida.

sexta-feira, 5 de maio de 2006 23:25:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

É o mesmo gênio que inventou o gás venezuelano e sua comparação com a Muralha da China? Ou é o gênio que disse que a Petrobrás não repassará aumento do gás (para não ferrar a reeleição dele, talvez?)
É o Chaves e o Kirchner que são prejudicados com o confisco e roubo boliaviano do patrimônio brasileiro? Claro que não: por isso, assinaram embaixo do "acordo" (na verdade, da capitulação e genuflexão deste patético governo de "mierda" que prefere defender a prática da quebra de contratos - não houve negociação alguma, houve imposição).
Lula foi frouxo, leniente, aceitou um crime internacional, defendeu a Bolívia e não quem o elegeu. Não tem nada de genialidade nisso. Ele deveria ter soltado uma dura nota, dito que não aceitava a invasão das fábricas pelo Exército (retirada imediata, no mínimo) e, a partir daí, renegociação do que a Bolívia quisesse. Sem isso, nada feito.
E é só da cabeça dos Lulistas que vem as idéias de jerico de que queremos a invasão da Bolívia. Nunca foi essa a discussão. Querem botar o bode na sala de novo, como no caso do mensalão...

sábado, 6 de maio de 2006 00:31:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Ricardo, este são velhos truques do "spin" petista:

- Caracterizar erradamente a posição adversária ("se tivesse mar iam querer invadir a Bolívia")

- Criar um falso dilema ("ou aceita o que a Bolívia fez ou é imperialista")

Ninguem falou em invasão da Bolívia, exceto o Lula e o presidente da Petrobrás. A diplomacia tem diversos níveis de gradação, que vão desde emitir nota de protesto e chamar o embaixador de volta para consulta até em casos extremos o rompimento de relações diplomáticas. O Brasil teria dezenas de opções para expressar uma posição mais dura e soberana, mas isso era na época em que a nossa diplomacia estava nas mãos de profissionais.

Agora o Lula falou que vai entubar o aumento do gás que fatalmente vem aí. Como isso afeta frontalmente o superávit primário, onde é que nós vamos cortar para pagar esta conta? Na Educação, na Saúde ou na Previdência?

sábado, 6 de maio de 2006 09:46:00 BRT  
Anonymous Paula Carvalho disse...

Spin? Petista? Profissionais? Vamos deixar de piada. Os profissionais tucanos que dirigiam a diplomacia brasileira eram aqueles humilhados em aeroportos estrangeiros por representantes das potências. Eram aqueles que confraternizavam com os Fujimoris da vida. Foram os que nos tornaram dependentes do gás boliviano, de uma maneira que Lula hoje precisa caminhar sobre ovos. Os tucanos são assim: valentes com os pobres, submissos aos ricos. Pena para eles que o tempo deles acabou.

sábado, 6 de maio de 2006 11:30:00 BRT  
Anonymous paulo struzzi disse...

Vejam o que escrevinhou na Folha um office-boy da Casa Branca, o tal de Gustavo Ioschpe:

Tendo em vista essa recepção tão calorosa, o 'compañero' Evo aumentou mais um pouco a taxa, de 50% a 82%, ao mesmo tempo em que estatizava os produtores de gás e óleo da Bolívia, tendo a cortesia de anunciar o ato em uma planta da nossa Petrobras. Não se via afronta desse tamanho aos interesses nacionais desde a Guerra da Cisplatina.
Enquanto os estrategistas de Brasília formulam seus mirabolantes planos de dominação internacional, vamos perdendo dinheiro para um país depois do outro, porque nossos líderes parecem não ter aprendido aquelas regrinhas básicas: 1- países não têm amigos, têm interesses; 2- que o presidente da Bolívia se preocupe com o desenvolvimento dos bolivianos, e o do Brasil, com o dos brasileiros
.

O garotinho só esqueceu que perdemos a Guerra Cisplatina e que quem não tem amigos são as potências imperialistas. Países como o Brasil têm amigos, sim. Volta prá Yale, prá servir café pros seus chefes, Gustavo.

sábado, 6 de maio de 2006 11:53:00 BRT  
Anonymous Luis Carlos disse...

O tom de crítica do Ricardo e do Fernando são apenas reproduções do discurso da oposição em relação a esse episódio do gás boliviano. . Tal como os petistas quando eram oposição. Afinal oposição é oposição e, ao que parece, o que vale mesmo é a torcida, pois a campanha para as eleições já começaram. Estas opiniões seriam diferentes se uma ave emplumada estivesse hoje no Planalto. Mais 1 prova de que PT e PSDB são os irmãos gêmeos que se odeiam. E la nave va... Ficamos ouvindo e lendo opiniões sobre relações internacionais como se estivéssemos mesmo nos deparando com especialistas na área. Não que o Lula não mereça crítica. Merece! como merecia o FHC em inúmeras áreas. Mas há muita gente que, daqui a pouco vai querer ser convidado pelo Willian Waak para dar opinião no “Globo News Painel”. Na verdade são opiniões que se perdem ao sabor do próximo show. Há profundidade nas opiniões? Tenho minhas dúvidas... Como dizia o Nelson Rodrigues são tão profundas quanto aquela poça que a formiguinha atravessa com as águas pela canelas.

sábado, 6 de maio de 2006 19:52:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Gosto da idéia de "responsabilidade social" com os bolivianos, citada nos comentários. E também a tal "genuflexão" às grandes potências, que continua acontecendo, mas que agora é também realizada com n"uestros hermanos". É genuflexão generalizada, na ótima política externa petista. Nunca nosso país foi tão respeitado no exterior - basta ver que... Basta ver nada, pois somos - na prática, e não no discurso - mais irrelevantes mundialmente do que antes.

Fato é um só: a Bolívia nos tungou, o Brasil deixou e não negociou (e não negociou MESMO), e somos um país mais boçal por termos gente que acha uma maravilha nos submetermos a países pobres. Eu acho que não deveríamos nos submeter a nenhum país.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 14:29:00 BRST  

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