terça-feira, 23 de maio de 2006

Perigoso mesmo é ser ladrão de galinha (23/05)

Recebi comentários e emails irados contra o post anterior, em que parabenizei a Eletropaulo por cortar a luz do MASP, que deixou de pagar a conta durante sete anos e deve cerca de R$ 3 milhões à empresa. Fui chamado de ressentido e acusado de ter "alguma coisa" contra o museu. Quem pode ter "alguma coisa" contra um museu? A crítica me parece esdrúxula.

Ora, nesses tempos de indignação fácil, de caça às bruxas, de desprezo ao Estado de Direito (matem o maior número possível de "bandidos", que assim seremos um país melhor), resolvi ficar indignado com a diferença de tratamento que recebe o cidadão comum e o cidadão especial, que é do poder ou tem amigos nele. Repito: sorte nossa a Eletropaulo ter sido privatizada, pois do contrário estaríamos condenados a subsidiar eternamente os que o "rei" considerasse merecedores de sua graça, os que tivessem a sorte de serem incluídos na lista dos "caloteiros reais".

Há muito rancor e ódio acumulados contra as privatizações. Já escrevi aqui neste blog: se os petistas pensam que houve irregularidades na venda das estatais, deveriam ter investigado a fundo quando chegaram ao governo, quase três anos e meio atrás. Deveriam ter apontado os supostos crimes e levado os possíveis culpados aos tribunais. Se não o fizeram por conveniência política, azar. Passaram um atestado aos adversários.

É ridículo o PT repisar que as estatais foram vendidas a preço de banana e o partido nada ter proposto em relação ao assunto quando chegou ao Palácio do Planalto. Se a tese petista tem fundamento, Luiz Inácio Lula da Silva deveria ter agido como seu colega boliviano, Evo Morales. Deveria ter denunciado os contratos e exigido novos, ainda que negociados. Se as estatais foram mesmo entregues na bacia das almas e Lula não fez nada, cometeu um crime de lesa-pátria.

Mas Lula não cometeu crime nenhum, porque essa história de preço de banana e bacia das almas é só retórica. No caso da AES Eletropaulo, por exemplo, a situação é exatamente a inversa. A empresa foi avaliada (precificada) para venda com base em projeções de crescimento de consumo de energia elétrica (e portanto de receita) que acabaram não se realizando, em boa parte graças ao apagão. Ou seja, a empresa foi vendida acima (e não abaixo) de um valor de mercado compatível com a receita operacional obtida nos anos após a privatização. Ou seja, a compra da Eletropaulo saiu caro para quem comprou e acabou sendo um mau negócio para a AES. Portanto um bom negócio para o Estado brasileiro.

As projeções irreais de receita (e portanto a superavaliação na venda) acabaram levando o BNDES a ter que renegociar a dívida da empresa. O presidente do BNDES na época da renegociação era o nacionalista e desenvolvimentista Carlos Lessa. O litígio com a AES foi uma boa oportunidade para o governo denunciar o contrato de venda da empresa. Por que não denunciou?

Voltemos ao MASP. É curioso que as pessoas fiquem indignadas (com razão) quando um deputado frauda uma emenda de ambulância, para colocar a mão num punhado de dinheiro público, e não mostrem a mesma indignação quando aparece um caso como esse do MASP. Vamos esmiuçar: o BNDES teve que renegociar a dívida da AES Eletropaulo porque a empresa não tinha receita para honrar seus compromissos. Nesse mesmo período, o MASP deixava de pagar serviços à concessionária em montantes da ordem de milhões de reais.

Quantos "masps" há ainda na carteira de inadimplentes da empresa de energia alétrica e das outras estatais privatizadas? É por isso que, no Brasil, perigoso mesmo é ser ladrão de galinha. Ronald Biggs estava coberto de razão quando escolheu nossa terra para esconder-se. Neste país, quem tem uma boa agenda de telefones ainda pode se dar ao luxo de tentar não pagar as próprias contas.

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13 Comentários:

Blogger Frederico disse...

Eu diria que quem tem boa agenda NÃO PAGA mesmo as contas... Quanto ao corte da eletricidade do MASP (que só soube agora): estou de PLENO ACORDO com tal ato. Se os fatos são apenas esses é absurdo seja lá quem ou o que for não pagar uma conta. Mesmo que seja tal museu, com seu arquivo que enche de orgulho os que visitam aquela instituição. Está lá no "símbolo augusto da paz": ORDEM e progresso. Por sinal, que tal lançar uma campanha "abaixo o jeitinho!" ?

terça-feira, 23 de maio de 2006 21:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Essa sua opinião acerca da não apuração das maracutaias da era FHC, é por demais pueril, típica de quem não entende nada de direito.

Ora, o governo Lula não tem o poder de condenar ninguém, iso é tarefa da justiça.

Correm várias ações contra auxiliares do governo FHC, inlusive, o próprio, que sofre ação popular por conta da Vale do Rio Doce.

O que estranha, é que esses jornalistas chapa-brancas nunca falam acerca de quem foi Vicente chelloti, Brindeiro, muito menos dizem alguma coisa a respeito da ação da PF, do Procurador Geral da República no governo lula.

Abaixo o jornalismo parcial.

terça-feira, 23 de maio de 2006 22:03:00 BRT  
Anonymous Prisco Humberto Dias disse...

Precisa entender de direito para dizer que contratos lesivos ao pais deveriam ser revistos? Isso e pueril? Nada. Desde que os petistas tomaram o poder nada mais se falou sobre as privatizacoes de FHC. O Alon tem razao, era so conversa para ganhar votos antes da eleicao. Que o diga o Daniel Dantas.

terça-feira, 23 de maio de 2006 22:13:00 BRT  
Anonymous Palmas! disse...

não ligue para os comentário, alon!
Você é rei!

quarta-feira, 24 de maio de 2006 08:37:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Alon, as críticas iradas que você sofreu ao apoiar o corte mostram que muita gente ainda não está preparada para viver em um país onde as leis são para todos. E essa "muita gente" está em todas as camadas sociais.

quarta-feira, 24 de maio de 2006 08:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

nesses dias atrás vi uma nota no jornal,não sei precisar qual,em
que uma consumidora teve a energia cortada por um debito de apenas um centavo.a eletropaulo foi muito boazinha com o masp? ou foi muito pervesa com a consumidora? é a lei tostines.

quarta-feira, 24 de maio de 2006 10:25:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Parabéns pela coragem de falar o que certos coleguinhas jornalistas que nunca pegaram um livro-caixa e uma projeção de receitas falando sobre valor de mercado de empresas.
Faltou lembrar que os leilões foram abertos, internacionais, com valores e condições que, se estivessem subavaliadas, seriam "melhoradas" no leilão.

quarta-feira, 24 de maio de 2006 11:59:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Vamos privatizar tudo, inclusive o governo.

quarta-feira, 24 de maio de 2006 13:19:00 BRT  
Anonymous Kleber Matos disse...

Alô Alon, não vi comentários irados no post anterior. Vi reflexões. Acho a irã um tanto estúpida. Tento evitar, as vezes não consigo. Mas acho interessante discutir o jornalismo. Os blogs revolunionam o modo de fazer jornalismo no Brasil. Revolucionam, pois permitem uma nova modalidade de ação informativa/opinativa. Ando pensando sobre isso. Bom, quanto as privatizações; naquilo que é essencial para a vida de um povo/nação, sou contra: saúde e educação, por exemplo. Outras empresas, aí é discutir caso a caso. Saúde e sorte!

quarta-feira, 24 de maio de 2006 14:22:00 BRT  
Anonymous Marcelo Pinto disse...

È isso aí Alon!

quarta-feira, 24 de maio de 2006 16:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

parabésn pelo artigo! Você sabia que o Masp recolhe INSSdos funcionários e terceirizados e não passa para o INSS? É apropriação ndébita mesmo! Só que os funcionários têm medo de irem contra a diretoria e serem demitidos!

quarta-feira, 24 de maio de 2006 22:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Blog. Alon, a busca do Estado menor, isso deveria ser o palanque dos candidatos, aqui (Japão) não acontece emancipação de municipios, pelo contrario acontece fusões de cidades para diminuir o Estado. E o atual Prim. Ministro já conseguiu a aprovação do Parlamento a privatização do correio que irá acontecer nestes proximos anos e será desmembrada em quatro empresas. O argumento principal, privatizada diminuira o Estado, e podera concorrer livremente com as demais empresas privadas.
Eu lembro bem da CSN, antes de ser privatizada, o deficit era em torno de um milhão de dolares dia, era cabide de emprego de politicos, e altamente improdutiva. Um ano após privatizada, passou a dar lucros e pagar impostos.
Mas o mais importante, deixou de ser prejuizo do governo, aliás o papel do governo são as 5 clausulas pétreas que não sai do papel. E há muito tempo o Joelmir Bettin já falava, o governo precisa criar posto de saúde, não posto de gasolina.
Alon, esta se tornando imperdivel seus textos e anexadas de outros textos para todos os gostos. E a sua humildade é hoje em dia uma raridade assim como politicos com P maiusculo.
Yoshio - Japão

sexta-feira, 26 de maio de 2006 04:28:00 BRT  
Anonymous edesc disse...

Esse papinho de que o fato de que esse governo não ter denunciado os contratos de privatização os legitima é inocencia ou má fé. O exercicio de governar poderia ser feito com execuções sumárias e "gulacs" ou contemporizando até individualmente com forças políticas pra manter o poder. A opção "Lulinha paz e amor" leva a segunda opção, o que não quer dizer que o governo anterior tenha sido composto por técnicos planejadores no estado de arte e puras vestais éticas e morais. Fizeram um governo mediocre e enrustido por 8 anos, mostraram a mesma competencia que demonstram pra eleger o Alckmin. FHC foi beneficiado por um infausto contexto histórico. Serviu pro povo deixar de ser um pouco menos besta.

sexta-feira, 26 de maio de 2006 23:31:00 BRT  

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