segunda-feira, 15 de maio de 2006

O Princípio de Peter e a busca inútil por culpados (15/05)

Orientado pelo calendário eleitoral, há na praça um embrião de debate sobre os culpados pela conflagração em que São Paulo está mergulhada desde a noite de sexta-feira, por obra do assim chamado Primeiro Comando da Capital (PCC) e de seu líder, Marcos Willians Herbas Camacho (Marcola). O PSDB e o PFL pescam números no orçamento federal para mostrar que o governo do PT não investiu o suficiente em segurança pública. Os petistas fazem o mesmo em relação ao governo tucano de São Paulo.
Qualquer um com o mínimo de informação e honestidade intelectual sabe que algo assim poderia explodir a qualquer momento, mesmo que os governos estadual e federal estivessem investindo na área o dobro (ou o triplo) do que investem. Essa parte do debate é só blá-blá-blá de políticos em busca de voto. É um desrespeito ao cidadão assombrado pelo fantasma da insegurança e do crime.
Assim como é ridícula a recusa do governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), de aceitar ajuda federal. Se o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) tem algo a ver com isso, nota zero para ele. Mas duvido, acho que é apenas fragilidade de alguém (Lembo) que de repente se viu confrontado com um desafio maior que sua competência. É o velho Princípio de Peter em ação.
Circulam também teorias conspiratórias delirantes, que é melhor ignorar. Dão conta de uma articulação entre as organizações criminosas e os movimentos sociais, para supostamente ajudar Luiz Inácio Lula da Silva. Esses delírios parecem-me mais nascidos da fúria eleitoral, que transforma e transtorna até mesmo gente razoável. Tomara que a eleição passe logo, para que as idéias das pessoas voltem ao lugar e possamos ser poupados de análises desse tipo.
As raízes do crime nas grandes metrópoles são bem conhecidas:
1) Forte desigualdade. Pobreza por si só não estimula o crime. Sabe-se que há mais crime e mais criminosos onde existe mais dinheiro, porém mal distribuído.
2) Barreiras à mobilidade social. Sempre haverá quem prefira enveredar pela ilegalidade, mas altas taxas de crescimento e um sistema educacional de boa qualidade ajudam a oferecer outras portas de saída para os pobres.
3) Impunidade. Amigos advogados tentam me convencer, faz algum tempo, de que não há necessidade de penas mais rigorosas. Tenho dúvidas, mas a argumentação deles parece consistente. Dizem que a certeza da punição é freio mais forte do que seria um maior rigor nas penas. Se, por exemplo, o Brasil implantasse a pena de morte, mas apenas 0,1% dos assassinos recebessem esse castigo, isso seria, defendem, menos eficaz do que a garantia de algum castigo para quem tirasse a vida de alguém.
4) Dissolução do núcleo familiar, fenômeno que acompanha o progresso material e a urbanização. É de casa que todo mundo traz sua escala de valores. A escola e o trabalho têm pouca influência nisso.
5) Hedonismo e abandono da vida espiritual. É a atual marca registrada do Ocidente. Historicamente, caracteriza as civilizações que entram em declínio. É uma das razões da atual vantagem estratégica do Islã em relação ao catolicismo e ao judaísmo.
Quem tiver uma boa proposta para enfrentar esses problemas, que apresente. A única maneira de asfixiar o crime organizado é estrangular o fluxo de quadros para as organizações criminosas. A tarefa é difícil e complexa. Um bom tema para os candidatos a presidente da República. A pergunta é pule de dez, já para o primeiro debate: "Se o senhor for eleito, quais as medidas que vai adotar imediatamente para enfrentar o problema da insegurança pública e do crime organizado?".
Lula e Alckmin já podem ir se preparando para a tréplica: "Mas, se é isso que tem que ser feito, por que o senhor não fez?". Um bom quebra-cabeças para os marqueteiros de ambos.

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14 Comentários:

Anonymous Fernando disse...

É na verdade admirável a coragem do governador Cláudio Lembo em recusar a suposta ajuda federal. Raramente se vê um político tomar uma decisão de bom senso, mesmo contrariando a opíniao pública e a mídia.

O Governo Federal quer ajudar? Vamos falar sério:

- A tal "Força Nacional" é uma piada. Deram um treinamento mínimo a alguns PMs dos mais diversos estados, que jamais atuaram juntos, e vão colocar em uma situação de crise? Vão com certeza atrapalhar mais do que ajudar. Qual a diferença que 4 mil homens fariam em um estado que já tem mais de 2000 mil policiais? São Paulo não é o Espírito Santo, com todo o respeito aos capixabas.

- As Forças Armadas não sabem e não tem a menor condição de enfrentar este tipo de ataque. Sucateadas como estão, já fazem muito se defenderem os seus próprios quartéis. O governador poupou o Exército de outro fiasco semelhante ao do Rio.

- Se o Governo quisesse realmente ajudar, seria com dinheiro. Que tal liberar o fundo penitenciário, ou apressar as penitenciárias federais que iriam ficar prontas no ano passado mas que ainda não existem? Mas não se falou nisso.

O PT insiste em querer criar o factóide para a campanha eleitoral. Bem fez o governador em ignorar isso e concentrar em realmente resolver a situação.

terça-feira, 16 de maio de 2006 00:41:00 BRT  
Anonymous hoagy disse...

Enfim, um comentário sereno e verdadeiro.
Longe das teorias conspiratórias ridiculas.
Longe da politicalha.
É uma pena que outros blogs não possuam a mesma independência e visão.
Vamos deflagrar mais uma luta política entre PT e PSDB.
E o povo continuará nas mãos dos bandidos.

terça-feira, 16 de maio de 2006 01:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Blog. Alon, como cada povo tem suas caracteristicas naturais, religião, tradições culturais, é dificil fazer um comparativo, porém, eu vejo aqui que a força do povo, imprensa e justiça faz a diferença.
Pequenos bons exemplos: aqui o povo não deixa o chão sujo, não há necessidade de garis;
a imprensa é implacavel, disseca;
a policia prende e a justiça é rapida.
As alunos, desde o primario até o colegio, vão sozinhos nas escolas (segurança), não podem ser acompanhados (aprendem a ser independentes). Se tiver alguma criança a toa, a vizinha cobra o porque não esta na escola.
Em torno de 90% são classe média, assalariados, comerciantes, micro empresarios, etc., não existe bares abertos em cada esquina como aí durante o dia. Se quizer um refrigerante, café, as maquinas automaticas funcionam. Quase ninguem fica na rua a toa.
Há uns tres anos atras, teve um deputado estadual, foi pego com assessora fantasma, o seu salario caia na conta da esposa, foram presos os dois, e ainda tiveram que devolver todo o salario auferido.
Existem crimes tambem, só que a pena é severa, então são a niveis controlaveis.
A mudança, provavelmente vem do berço, como fala o Alon, O Japão despoluiu a maioria dos rios, despoluindo a população, educação dando bons exemplos de não jogar detritos no chão e consequentemente nos rios, filtro nas industrias, tratamento do esgoto, reciclagem do lixo e naturalmente o rio se despoluiu seguiu sua natureza o seu curso, o rio nasce limpo, quem polui é o homem.
As repartições publicas funcionam, os transportes rodoviario/ferroviario, saúde e educação, estão a anos-luz de distancia em atendimento.
Sistema Parlamentarista de governo muito transparente, qualquer moção de desconfiança a imprensa e o povo derruba.
Sistema de imposto unico das atividades produtivas e comerciais, mais o imposto residencial/territorial, o imposto de renda e a contribuição previdenciaria, só e somente.
Afinal qual o real problema do Brazil? Vontade politica? Afinal na canetada (bic ou mont blanc) se gasta bilhões??? E a tão desejada prosperidade nada.
Yoshio - Japão

terça-feira, 16 de maio de 2006 03:18:00 BRT  
Anonymous Kleber Matos disse...

Alô Alon,
loucura ou desrazão nas ruas de São Paulo? Os dois certamente. A razão prática escorreu pelo ralo da vida. A academia também não formulou o prometido esclarecimento. Cada um foi salvar seu quinhão. No Brasil, essa história é ainda mais perversa. Os ricos daqui só tem compaixão no Natal e na Semana Santa. São católicos de alma protestante. Todos devem ser responsabilizados. Penso que quando Lula quer participar do encaminhamento da crise, está assumindo sua parte. O PFL-PSDB reluta e diz; esse problema é nosso. Acho que essa é a melhor leitura. PT tem parte, mas a fatia maior é do PSDB-PFL em São Paulo. Eles estão falando isso. Porque a gente não escuta? Abraços.

terça-feira, 16 de maio de 2006 07:32:00 BRT  
Blogger Paulo C disse...

Factóide, fernando? Visto daqui de São Paulo parece um fato daqueles que serão lembrados por décadas. 12 anos de desgoverno na área de segurança. Aliás, o ex-governador Alckmin declarou o PCC acabado. Umas duas vezes. Agora é a vez do magnificamente incompetente e covarde Lembo vir a público dizer que "Está tudo sob controle". Faltou dizer controle de quem. A sorte dele e do PSDB é que o governo federal manteve a cabeça fria: o que aconteceu entre sexta e segunda em São Paulo era motivo para intervenção federal imediata, sem perguntar ao palhaço de plantão o que ele achava.

terça-feira, 16 de maio de 2006 10:46:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

A melhor forma de resolver o problema seria, primeiro, respeitar o cidadão. Acabar com discursos tergiversadores seria um bom começo. No Congresso, ontem, enquanto o cidadão ficava submetido a boataria e atentados reais, senadores da situação acusavam FHC pela crise do gás e cinicamente, apontavam a culpa pelos atentados aos governos paulistas anteriores. E lógico, dizendo que nada tinha a ver com eleições. É muita cara-de-pau. O que ocorre, independe de qual facção engalfinhada estará no poder. Alguém pode perder eleições por causa disso. Quem vencer, porém, será que ganhará realmente? O problema continuará e não serão auto-proclamados oniscientes messiânicos que vão dar cabo dele. E nem tergiversadores. É só relembrar fatos recentes. Por último, é pura irresponsabilidade colocar assunto desse tipo no centro dos debates eleitorais. Com certeza será colocado. Cado lado com sua forma peculiar de espezinhar o outro. Será tripudiar sobre o cidadão. Mais uma vez.

terça-feira, 16 de maio de 2006 10:55:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Paulo Candido, factóide a que me referi é a ajuda do governo federal. Essa que o Lula e MTB tentaram constranger o governo paulista a aceita-la para fins puramente eleitorais, e o governador corajosamente recusou - coisa de quem quer realmente resolver o problema e não jogar para a platéia.

São Paulo amanheceu calma depois que a Polícia matou 19 bandidos na madrugada. O "covarde", como você chamou o governador, apostou alto e até agora está ganhando a aposta.

terça-feira, 16 de maio de 2006 12:19:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

A redemocratização só ganhou força quando houve a campanha das Diretas Já. O Brasil está precisando de uma mobilização daquele tipo contra a criminalidade, com uma pauta a ser cumprida.
E essa pauta deve ter o objetivo determinado de tirar criminosos das ruas. Criminoso ou está contido nas cadeias, seja reabilitando, seja segregado, ou está nas ruas matando ou roubando.
Um recadastramento civil e criminal deve ser feito nacionalmente, com dados biométricos. Rodoviárias, aeroportos, bancos, repartições públicas, postos de pedágio, portarias comerciais, devem ser equipadas com leitores de digitais, que consulte banco de dados criminal. Se houver ordem de prisão, a polícia seria acionada imediatamente. Vigilantes privados de bancos, aeroportos, etc, devem dispor de aparelho de comunicação integrado às polícias para serem avisados. Portas giratórias como as de bancos, poderiam reter automaticamente o suspeito.
Pode-se cunstruir imediatamente centenas de presídios de segurança mínima, cercado apenas com arames farpado e alojamento como aqueles de canteiros de obras, para ciminosos não violentos. Seria como um internato onde aprenderiam a viver disciplinadamente de acordo com as regras sociais, cumprindo uma rotina de trabalho e tendo direito à lazer em horas determinadas. Os presídios tradicionais seriam para os criminosos violentos ou desobedientes à justiça.
Priorize-se como pena alternativa a mão-de-obra para construção desses novos presídios até acabar o deficit. As penas deveriam ser aumentadas em 1 dia para cada dia não trabalhado, estimulando o trabalho. A sociedade está dando uma segunda chance ao criminoso ao mantê-lo preso. Se ele continua cometendo crimes dentro da cadeia, ou desacata ordem judicial ao tentar fugir, não está dando valor à sua segunda chance, então que seja recondenado a penas cada vez maiores.
Não adianta ficar discutindo se quem surgiu primeiro foi o ovo (da criminalidade) ou a galinha (da exclusão social, do desemprego). A criminalidade aumenta a exclusão social ao estigmatizar trabalhadores honestos que moram em comunidades pobres, além de expulsar investimentos geradores de renda nestas comunidades, e nas cidades como um todo, incluse o turismo e a indústria do entretenimento, altamente empregadores.
Não adianta simplesmente aumentar o salário mínimo, se outros preferem ficar o mês inteiro sem trabalhar e apropriar-se do salário de terceiros, e se em favelas o dono do morro cobra pedágio do gás, do frete, da Van, do motoboy.

terça-feira, 16 de maio de 2006 13:55:00 BRT  
Anonymous Priscila Schneider disse...

Meu caro Fernando, não sei se você é o mesmo Fernando que eu costumo ler aqui no Blog do Alon. Se for, fiquei chocada com esse seu último post. Você acha então que a solução é sair matando indiscriminadamente gente pela rua? Li na Agência Estado que há sérias dúvidas sobre se a polícia matou mesmo bandidos ou gente inocente. O ódio incontido ao PT e aos pobres está transformando os tucanos em pefelistas e a ambos em aprendizes de fascistas.

terça-feira, 16 de maio de 2006 14:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

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terça-feira, 16 de maio de 2006 16:21:00 BRT  
Anonymous Rasmus disse...

Cessam rebeliões e ataques; cheiro de acordo no ar

A cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital) deu ordem ontem para cessar os atentados e rebeliões em São Paulo, após dois dias de negociações com representantes do governo do Estado.

A Folha apurou que, por telefone celular, líderes da facção criminosa determinaram a presos e membros do PCC do lado de fora das cadeias que interrompessem a onda de violência. A trégua foi mais rápida nas cadeias.
Segundo o que a Folha apurou, o preso Orlando Mota Júnior, 34, o Macarrão, foi um dos principais interlocutores do governo. Ele e outros líderes do PCC deram a ordem de cessar os atentados.



Nas conversas com representantes da Secretaria da Administração Penitenciária, a facção condicionou o fim dos ataques a benefícios a presos transferidos para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau (620 km de SP) e à não entrada da Tropa de Choque da PM nos presídios rebelados. Na quinta-feira, 765 detentos -todos membros do PCC- foram levados para a penitenciária.

terça-feira, 16 de maio de 2006 16:24:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

terça-feira, 16 de maio de 2006 16:50:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Priscila, não não foi isso o que eu quis dizer. Lendo agora o que eu escrevi realmente fica essa impressão, o que eu lamento e me desculpo. Não defendo morte de bandido, e não acho que os problemas vão se resolver a golpes de tacape.

O que eu queria dizer era que nesta madrugada a PM finalmente conseguiu sair do atordoamento que estava e começou a se defender com eficiência dos ataques, o que era indicado pelo número de mortes dos atacantes. Na minha opinião isso (a capacidade de defesa, não as mortes!) foi o principal fator para acabar com eles, somado ao fato de que bandido já não ganha nada mesmo ao atacar a polícia.

terça-feira, 16 de maio de 2006 17:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

De hoje no Primeira Leitura:

Thomas Bastos: só certeza da punição reduz criminalidade

14h50 — O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, participou nesta sexta de debate sobre reforma do Judiciário, na Universidade de São Paulo, e afirmou que o que diminui a criminalidade não é o tamanho da pena, mas a certeza de punição. Ele também alertou para o risco de políticos transformarem o debate sobre segurança pública em “guerra eleitoral”. O ministro defendeu a reforma do Judiciário como uma das repostas ao que chamou de “crise de violência”.

sexta-feira, 19 de maio de 2006 19:34:00 BRT  

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