sábado, 20 de maio de 2006

O febeapá contra Lembo (20/05)

Se houvesse algum motivo para diversão em meio à tragédia, teria sido divertido assistir às reações ao governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), depois que este desferiu o mais duro ataque verbal que a burguesia jamais sofreu de um governante no Brasil. Trataram-no como a um louco manso, alguém submetido a enorme pressão e que extravasou por meio de uma estultícia. Imagino o que seria de um político da esquerda que tivesse ousado dizer as verdades ditas por Lembro. Seria esquartejado no altar da opinião pública, seus pedaços pregados em postes e sua terra salgada, como fizeram a Tiradentes.

Lembo não. Foi tratado com a condescendência e o respeito que merecem os iguais momentaneamente desviados do caminho. Sorte a dele. É bom ouvir o que têm a contar os políticos que convivem com a elite nos ambientes e situações em que ela diz o que pensa, em que não esconde seus obetivos e métodos. Eles a conhecem melhor, não a partir dos livros, das declarações oficiais ou das afirmações de acólitos.

Vamos voltar às reações à fala de Lembo. A linha mais geral da crítica ao governador de São Paulo sustenta que não se pode fazer uma correlação automática entre pobreza e desigualdade, de um lado, e crime, de outro. Uma prova, dizem, é que também há banditismo nos países desenvolvidos. Estivesse vivo Sérgio Pôrto, o Stanislaw Ponte Preta, essa iria direto para o seu febeapá, o festival de besteiras que assola o país.

É evidente que há crime nos Estados Unidos e na Europa. É evidente que nem toda criminalidade tem raízes no apartheid social. Mas, assim como no Brasil, o crime no Primeiro Mundo relaciona-se estatisticamente à desigualdade social. Há mais pretos e latinos na população carcerária dos Estados Unidos do que na população em geral. Proporcionalmente, há mais crime na França do que na Islândia. Assim como há mais criminosos nos subúrbios de Londres do que nos povoados do interior da Suíca.

Outra evidência, dizem, seria a origem de classe média de vários líderes criminosos. E daí? Como qualquer atividade humana, o crime estratifica-se socialmente. Há brancos de classe média no comando de organizações criminosas pela mesma razão que os brancos de classe média são maioria em qualquer atividade que exija mais formação intelectual e preparo formal. Isso não elimina o fato de que as quadrilhas abastecem suas fileiras nos imensos contingentes de jovens da classe média baixa e dos grupos sociais chamados “excluídos”.

Há sim forte correlação entre o crime e a desigualdade social. No Brasil, a situação é mais grave em São Paulo porque é ali que a pobreza convive bem de perto com o acúmulo de riqueza. E o sistema educacional público de qualidade, que deveria ser a porta de saída para os de baixo, está monopolizado pela burguesia e pela classe média. Para os pobres, sobra entrar no Prouni e ganhar bolsa de estudo em alguma universidade particular.

Nos últimos dias, a polícia de São Paulo parece empenhada em dar sua demonstração de força. É compreensível que a corporação queira revidar as mortes dos seus, mas não vai adiantar nada. A vantagem estratégica está com o Primeiro Comando da Capital (PCC), que obteve sucesso em seu Tet. A vantagem está com eles porque não têm nada (ou têm muito pouco) a perder. Assim como os palestinos que se explodem quase diariamente. Matar os criminosos aos punhados não é um caminho eficaz para combater o crime. Pode ser agradável a quem tem sede de vingança, mas só. Assistam a Cidade de Deus. E depois, como diz Lembo, admitam que é hora de abrir a bolsa.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Brog. Alon, houve um tempo que a gente brincava, dizendo o Brasil vive de botecos em cada esquina, a ¨a cultura do butiquim¨, até que um amigo chileno me falou, lá no Chile pelo menos no meio de um bar tem uma casa de cultura, tais como livraria, academia de tenis e em suma voltadas para atividades educacionais. Hoje se nota a diferença, e muito, porque no Brasil, cada esquina tem um bar e muitos futuros infratores, que em sua maioria desempregados que passam cometer pequenos delitos e depois a ser aliciados para os grandes delitos, formando quadrilhas.
Yoshio - Japão

sábado, 20 de maio de 2006 21:18:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Mais um ótimo texto. Na verdade, de todos os jornalistas a que temos acesso na imprensa "escrita, falada e televisada", você está com uma visão única e totalmente diferenciada, embora ache, pessoalmente, que estejamos mais para Colômbia do que para Vietnam. Mas, o quê esperar de um país que, conforme, exultamente, divulgado na página 35 do Globo de hoje, reúne em N.York suas principais autoridades do passado, do presente e, certamente, do futuro (às custas de quem?) para reverenciar o executivo de uma empresa estratégica que passada à iniciativa privada, num processo de privatização que é, por muitos, questionado até hoje, utiliza no mercado interno preços internacionais que são, pelo que nos é dado conhecer, um dos atuais vilões da atual e, verdade seja dita, micro inflação brasileira. Se M.Lobato vivo fosse, meu caro, incorporaria "consertar o Brasil" como o 13o. trabalho de Hércules. Um abraço.

sábado, 20 de maio de 2006 21:28:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Impunidade não é problema então, pelo que se percebe na sua análise, que corrobora a estultice de Lula, ao jogar a culpa nos outros. Acho que a nossa "elite" de minoria branca (???) deve ser aquela que correu para casa por conta dos boatos, aquela desempregada mas que ainda cumpre as leis.
Lembo jogou para a imprensa, que adora uma auto-crítica (mas que, claro, vale para os outros, nunca para eles mesmo - somos exceção, né?) e uma piscadela para a esquerda (por mais que esta seja no fundo uma "virada" para a direita).
Enquanto isso, Marcola continua falando em paz, justiça e liberdade para a população carcerária, vítima da exclusão social. Imagine se tivessem cometido crime! Coitadinhos!
Em suma, Alon, exclusão social é UMA das causas da violência, mas não é a causa da baderna no serviço PRESIDIÁRIO (que é a ponta do sistema). Esta última é muito mais influenciada pela IMPUNIDADE. Que não está sendo tratada com a devida responsabilidade nesta crise. Talvez porque por conta dela, Lula já estaria preso.

segunda-feira, 22 de maio de 2006 10:36:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Bem, Ricardo, acho que discordamos num ponto. Você me lembra Paulo Maluf quando ele diz que "cadeia não é hotel cinco estrelas". Em resumo, há dois pontos de vista "macro" sobre o assunto: o primeiro, que eu defendo, diz que as péssimas condições carcerárias não são fator de dissuasão para a articulação do crime organizado dentro delas. Você defende o endurecimento dessas mesmas condições carcerárias. Todos concordamos que o crime tem também raízes sociais e que há muita impunidade no país, isso não está em debate. O que está em discussão é se o Estado é ou não "mole" com os presos. Um abraço.

segunda-feira, 22 de maio de 2006 10:45:00 BRT  
Anonymous Swamoro Songhay disse...

Uma frase atribuída ao Gabeira, embora para analisar outro contexto, é ilustrativa: "Não há projetos políticos antagônicos. Não há disputa política acerca dos rumos do país. Governo e oposição estão perdidos. A reação aos acontecimentos em São Paulo é o melhor exemplo disso". Outra constatação é que, talvez pelo medo disseminado, as pessoas, estão adotando formas explícitas de reação. Ao fazer caminhadas pelas ruas de meu bairro, de manhã, bem cedo, mulheres, homens, jovens, olham e desviam ostensivamente. Alguns optam pelo meio do leito carroçável e passam olhando de lado, desconfiados, passos apertados. Logo mais à frente, voltam para a calçada, sempre olhando de lado. Isso tinha diminuído até os acontecimentos. Talvez associem com algum membro de hordas rotulados de cafuzos e negros a invadir locais onde não são desejáveis. Pode ser efeito apenas do susto, que foi grande. Ou um indesejável recrudescimento de preconceitos trazidos pela insegurança. Talvez uma pesquisa aprofundada pudesse trazer mais luz sobre isso. E confirmar ou não a frase do Gabeira.

segunda-feira, 22 de maio de 2006 15:34:00 BRT  

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