domingo, 7 de maio de 2006

Menos arrogância, mais pragmatismo (07/05)


É sempre aconselhável olhar o que fazem os empresários antes de formar uma opinião a partir do que dizem os seus porta-vozes. Não conheço empresário que aceite quebrar sua empresa apenas para honrar a palavra empenhada e cumprir um contrato, se for prejudicial a seus negócios. A ideologia é um filtro para a representação da realidade. Como os empresários tiram seu ganha-pão da realidade e não da ideologia, cuidam da primeira e deixam essa última a seus acólitos.

O Brasil é um país que vive de mitos e surtos salvacionistas. À medida que avançamos como sociedade, econômica e culturalmente falando, a mitologia e o salvacionismo confundem-se menos com as pessoas e mais com as coisas. Não deixa de ser uma evolução. Até alguns anos atrás, a salvação do Brasil estava associada a tirar do poder as gentes erradas e colocar as certas. Aí elegeram-se Lula e o PT, e a condição mortal de ambos ficou exposta na nudez da crise política que já dura um ano.

O nosso novo totem atende pelo nome de "contrato". A proibição de romper contratos nos é apresentada como o definitivo tabu. [Esse trecho é homenagem a Sigmund Freud, que faria 150 anos neste mês de maio]. Desde que respeitados religiosamente os acordos, estaríamos garantidos no expresso que vai sem escalas ao Primeiro Mundo. Mas há, é claro, as exceções. Quando José Serra (PSDB) decidiu impor manu militari a renegociação dos contratos assinados por sua antecessora na Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy (PT), foi saudado em verso e prosa pelos mesmos que hoje gritam por sanções contra um Evo Morales que chutou o pau da barraca da Petrobrás e outras petrolíferas.

Não vou desperdiçar o meu tempo e o de vocês discutindo aqui a coerência na política ou no jornalismo. Tratei do assunto em Veneno petista na veia do PT e a coerência na política. Serra achou que a cidade estava pagando demais por certos serviços e mandou refazer os acordos. Deu certo. Conseguiu economizar um bom dinheiro. Evo Morales achou que a Bolívia estava recebendo pouco pelo seu gás e botou prá quebrar em cima da Petrobrás e correlatas. Também deu certo. Vai conseguir melhorar a arrecadação do Estado boliviano, manter-se no poder e talvez cumprir algumas promessas sociais de campanha.

Outro debate que está em curso é sobre a reação do Brasil e de Luiz Inácio Lula da Silva às nacionalizações bolivianas. O custo de investimentos externos deve sempre embutir a avaliação de risco político. O risco para a Petrobrás de sua presença numa Bolívia tomada de furor nacionalista já estava precificado, tanto que o mercado não desvalorizou os ativos da empresa. Já Lula tinha duas opções: radicalizar com os bolivianos, ameaçar sanções e levar o litígio aos organismos e cortes multilaterais, ou apostar em negociações bilaterais.

Essa última opção foi adotada pelos outros dois principais países prejudicados com a decisão de La Paz: Espanha e Argentina. Mesmo os Estados Unidos adotaram posição moderada. E por quê? Porque os países desenvolvidos sabem que não há caminho para a democracia e o equilíbrio regional na América do Sul sem a interlocução com os movimentos nativistas e nacionalistas que emergem no subcontinente.

Nas relações internacionais, os negócios são apenas uma parte. O interesse das nações inclui o interesse de suas empresas, mas não se limita a isso. Como disse em texto anterior, somos sul-americanos e devemos nos conformar com isso. Se dependesse de alguns, já teríamos chutado a canela de Néstor Kirchner no episódio do protecionismo argentino contra os produtos brasileiros e provavelmente teríamos apoiado, em 2002, o fracassado golpe que tentou depor Hugo Chávez da Presidência da Venezuela. Se dependesse de alguns, seríamos como um condômino que já teria brigado com a maioria de seus vizinhos.

Há quem sonhe com um Brasil perfeitamente alinhado aos Estados Unidos, nem que isso exija um novo "muro de berlim" entre nós e os demais países sul-americanos. O alvissareiro é que nem os americanos querem isso da gente. Há pouco tempo, um importante diplomata de Washington circulou pelo Brasil pedindo a autoridades brasileiras que mantenhamos abertos os canais com Evo Morales, até para que desempenhemos junto a ele o papel amortecedor que já exercitamos junto a Chávez. Enrolada no Iraque e a caminho de um conflito com o Irã, a última coisa de que a Casa Branca precisa é intervir mais diretamente nas questões sul-americanas. Os Estados Unidos já enfrentam problemas suficientes na Colômbia. Tem gente que gosta de ser mais realista que o rei.

A História recente registra a passagem de impérios que simplesmente desapareceram, como o Austro-Húngaro e o Otomano. Há outros que recuaram de maneira razoavelmente organizada, como o Britânico (na imagem, clique para ampliar o mapa dos domínios da Coroa em 1897). Hoje, fala-se inglês e joga-se críquete e hóquei sobre a grama na Índia e no Paquistão.

Não necessitamos de arrogância imperial, dado que nem império somos. Precisamos do pragmatismo dos empresarios combinado à sabedoria das nações que sabem avançar mas também recuar, quando o recuo é necessário para preservar posições que permitam avanços futuros.


Leia também:

Washington Post: A presença cubana e venezuelana na Bolívia (07/05)

Um curso de reciclagem em Madri (06/05)

Se querem copiar os americanos, copiem nos acertos (05/05)

Para entender o estado de espírito deles (04/05)

Dançar conforme a (nova) música (03/05)

A crise sul-americana (02/05)

Somos brasileiros e sul-americanos. Conformem-se (27/04)

Por que nós podemos e eles não? (02/04)

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2 Comentários:

Anonymous Marcus disse...

Mais uma brilhante análise.

Embora eu tenha muitas críticas a fazer ao presidente Lula na condução do episódio, temos de convir que a alternativa proposta pela direita festiva (travestida de "especialistas" falando à imprensa) era bem pior.

domingo, 7 de maio de 2006 23:48:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Bloguista Alon, não sei de quem é a frase: politica é a arte do impossível. E gostei da estratégia do boxeador, apesar de estar zonzo só de ver tanta pancadaria, tanto tiroteio. Estou vendo que pelo andar da carruagem, teremos mais quatro anos de petistas, asim como foi o psdb, serão oito anos.
Como é normal nas lutas ter um vencedor, como nos tribunais, arte da acusação ou da defesa, quem se saíra melhor? Portanto é normal quem esta no poder se defender, e normal a oposição querer o contrario. O mal no Brazil é a disputa pelo poder, é o poder da caneta. Não existe patriotismo, alias esta tão fora de moda.
Cada partido busca o seu poder e uma vez lá em cima, tem o mundo aos seus pés, afinal todas as nomeações são criterios politicos, verdadeiro trem da alegria. Essa agora dos assessores parlamentares, é tão velho, afinal, qualquer vereador, deputado, tem direito a varios que
geralmente só emprestam o nome. E são milhares de fantasmas parlamentares, tudo por conta dos contribuintes.
Só em São Paulo, eu lembro que um vereador da capital tem em torno de 21 auxiliares? Dois carros, gasolina, grafica do estado, etc.?
????
E eu lembro tambem o pouco caso com os contribuintes, quando saiu o Dr. Janio Quadros, e assumiu a pref. Erundina, uma das primeiras medidas, ela mandou tampar os tuneis que ora estavam em andamento no Itaim Bibi, e mandou repintar os onibus que alias era a cor da bandeira petista (vermelho) ainda sucateou a frota de onibus ¨ingles¨
a de dois andares, tudo por que era de outra gestão????
São ¨pequenas¨ aberrações da politica brasileira.
E em outubro teremos o grande juri, quem será o vencedor???
Yoshio - Japão

terça-feira, 9 de maio de 2006 03:24:00 BRT  

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