quarta-feira, 3 de maio de 2006

Dançar conforme a (nova) música (03/05)

Vamos resumir o dia de ontem. O Brasil reconheceu o direito que a Bolívia tem de fazer o que bem entender com seus recursos naturais. A Petrobrás (com acento), apoiada pelo governo brasileiro, vai lutar pelos seus interesses no país vizinho. Evo Morales diz que não haverá redução no fornecimento de gás ao Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva vai se reunir com Morales, Néstor Kirchner e Hugo Chávez na quinta-feira para discutir a energia no continente. O mercado bateu recordes, sendo que as ações da Petrobrás subiram, puxadas pelo preço internacional do petróleo.

E segue o debate. Talvez a política externa, finalmente, vire assunto numa campanha presidencial brasileira. Uma sofisticação inimaginável algum tempo atrás, não acham?

Sobre a Bolívia, vale a pena ler texto do jornalista Sergio Leo (Golpe no imperialismo brasileiro), do Valor Econômico, em seu blog. O Sergio está escrevendo de lá, e isso faz toda a diferença.

Lendo o texto dá para perceber que Lula marcou um gol diplomático ao não arreganhar os dentes para Morales, como lhe pediam alguns. O colonialismo vem saindo de cena desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ainda que persistam espasmos eventuais. E as nações imperialistas fazem uma força enorme para não parecerem que o são.

Colonialismo é fácil de definir: é um país mandando diretamente no outro. O imperialismo é uma coisa mais refinada, é o capital financeiro, resultado da fusão dos capitais “especulativos” e dos “produtivos”, mandando nos países dominados, por meio da elite local. Claro que com o apoio (e, se preciso, a intervenção militar) de seu Estado nacional de origem.

Essa definição é de Vladimir Lênin, elaborada a partir dos conceitos desenvolvidos por Rudolf Hilferding. Ele era um judeu marxista austríaco. Foi morto numa prisão da Gestapo, em 1941, na França ocupada. Havia sido entregue aos alemães pelo regime colaboracionista de Vichy.

Só faltava essa, querer que o Brasil vire um país imperialista bem no governo de Lula. Não iria funcionar, pois a base política e social do governo PT é outra. Tem mais a ver com o Fórum Social Mundial do que com o Fórum Econômico Mundial. Os eleitores decidiram assim em 2002 e o balanço dessa decisão vai ser feito em outubro.

Mas o debate é livre. Qual política é mais vantajosa para o Brasil: a de Lula ou a dos seus críticos? Estes dizem que o Mercosul é perda de tempo. Que deveríamos fazer como o México, juntar-nos aos Estados Unidos e impulsionar a Alca. Que melhor seria apostarmos em acordos bilaterais com países (e grupos de países) grandes como nós, em vez de ficarmos amarrados ao Uruguai, ao Paraguai e à Argentina. E à Venezuela. E à Bolívia.

Essa posição apresenta-se como “pragmática” (em oposição à “ideológica”), mas acho ela pouco realista. Aliás, mesmo Estados Unidos e Europa vêm se esforçando cada vez mais para ajeitar a vida dos vizinhos, como forma de defender seus próprios interesses.

Podemos até alcançar uma prosperidade passageira, mas não seremos um país livre se estivermos cercados de populações afligidas pela pobreza e pelo ressentimento que nasce da falta de perspectivas. Não conseguiremos ser uma nação de homens livres se nossos vizinhos se sentirem como escravos.

Sempre se poderá argumentar que as empresas brasileiras levam desenvolvimento e empregos aos países vizinhos. É verdade. Mas talvez eles, especialmente os mais pobres, queiram algo diferente. Quem sabe desejem governos que taxem mais fortemente o setor privado, para investir mais em programas contra a pobreza. Se for isso mesmo, talvez o mais inteligente seja dançar conforme a (nova) música, em vez de ficar resmungando no canto do salão contra a orquestra.

Clique aqui para assinar este blog (Blog do Alon). Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

4 Comentários:

Anonymous José Augusto disse...

Apenas discordo que política externa não era tema de campanha. Era menor, mas era. As crises internacionais foram justificativa para encobrir a vulnerabilidade causada pelo populismo cambial de FHC. Crises internacionais talvez seja mais política econômica do que externa, mas pelo menos a ALCA foi tema.

quarta-feira, 3 de maio de 2006 03:14:00 BRT  
Anonymous Kleber Matos disse...

Alô Alon, concordo de novo. Quanto a referência ao tema de campanha, imagino que você a traz para as ruas. Lá, na era uma vez FHC, isso só aparecia para justificar nosso desatino, digo deles. Agora a pauta é outra. É a oposição pregando a política de Colônia. Se é que entendi. Abraços!!!

quarta-feira, 3 de maio de 2006 12:12:00 BRT  
Anonymous Marcelo Pinto disse...

Análise extremamente lúcida!

quarta-feira, 3 de maio de 2006 14:25:00 BRT  
Anonymous Augusto disse...

Prezado Alon:
O curioso nesta "crise" com a Bolívia é, mais uma vez, o papel da nossa imprensa. Essa mesma imprensa que durante as comemorações da auto-suficiência insistia em mostrar que esta conquista pertenceria mais aos governos anteriores que ao atual, omite, agora, na maior cara-de-pau, o peso da participação dos governos anteriores na construção deste previsível "imbroglio". Mas, para o Lula tudo bem, pois hoje, dia da Imprensa, ele fechou com o eleitor mais importante do Brasil, a ANJ (a FIESP do séc.21). Um abraço.

quarta-feira, 3 de maio de 2006 23:18:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home