terça-feira, 16 de maio de 2006

Contagem regressiva em São Paulo, onde a última moda é ser reacionário (16/05)

Filmes são uma boa medida do código de ética das pessoas e de suas convicções mais íntimas. O cinema é maniqueísta. Mais do que na literatura, uma linha bem definida separa nas telas o bem e o mal. Não conheço filmes que apresentem como heróis personagens genocidas, torturadores ou sádicos.
De vez em quando, uma fita esquadrinha a alma de alguém intrinsecamente mau, para tentar desvendar a sua complexidade. E é só. Tampouco conheço filmes de prisão em que diretores autoritários e cruéis, ou guardas violentos , sejam os personagens para quem se deva torcer. Ao contrário, as películas clássicas descrevem a luta, em geral solitária, do prisioneiro que busca forças para proteger sua dignidade e tentar a liberdade.
Meus filmes de prisão preferidos são três, pela ordem cronológica: Birdman of Alcatraz (1962, com Burt Lancaster), Midnight Express (1978, com Brad Davis; na imagem, um cartaz da obra) e The Shawshank Redemption (1994, com Tim Robbins e Morgan Freeman). Foram aqui traduzidos como Alcatraz, O Expresso da Meia-Noite e Um Sonho de Liberdade. Para o meu gosto, este último é o melhor de todos. Arriscaria dizer que é o definitivo sobre o assunto. Assim como Saving Private Ryan (O Resgate do Soldado Ryan, com Tom Hanks) entre os filmes de guerra.
Filmes sobre prisões quase sempe fazem sucesso. No escuro do cinema ou em frente ao DVD no sofá de casa, costumamos torcer pelos presos em sua luta desigual contra a autoridade carcerária. Já na vida real, diante do noticiário, nossa primeira reação é clamar por mais violência contra os encarcerados. Não é difícil saber por quê. Os condenados dos filmes nada podem fazer contra nós ou nossas famílias, não os tememos. Ao contrário dos criminosos que freqüentam as notícias. Nos filmes, mesmo bandidos têm alma, família e sentimentos, algo que as seções policiais costumam amputar quando a pauta é sobre "marginais".
No Brasil, já foi chique um dia denunciar as péssimas condições das prisões, sua superlotação e o fato de serem escolas do crime, em vez de centros de recuperação das pessoas. Drauzio Varella ajudou, com o seu Estação Carandiru. Mas isso foi lá atrás. Hoje, silenciosamente, o pensamento dito progressista vai sendo seqüestrado pela reabilitação da selvageria, do espírito de vingança, do ditado bíblico "olho por olho, dente por dente".
No ramo do combate ao crime, como em outros, a última moda é ser reacionário. Socialmente reacionário. Antropologicamente reacionário. O raciocínio é conhecido: "Claro que a criminalidade tem também causas sociais, mas é preciso tratar os bandidos com mão de ferro. Direitos humanos, só para os humanos direitos". E viva as penitenciárias/solitárias, como a de Presidente Bernardes, no interior de São Paulo, onde a tortura "limpa" é institucional.
Paulo Maluf enfrenta o ocaso político, mas tem razões para comemorar: ele deixa uma marca, uma obra ideológica, pois seu discurso foi apropriado e absorvido por alguns adversários históricos. Um acólito seu está sentado na cadeira que já foi de Franco Montoro e Mário Covas. Levado ali pelas mãos dos herdeiros de ambos.
O governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), poderia já na madrugada de sábado ter aceito a ajuda federal. A capital teria amanhecido no fim de semana tomada por uma grande força de dissuasão, com o Exército, policiais federais e a PM nas ruas. O Estado teria se imposto com menos violência. Mortes teriam sido evitadas, de ambos os lados. Mas Lembo preferiu o outro caminho, apenas por razões políticas. Preferiu negociar com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e não com o Palácio do Planalto, pois neste, circunstancialmente, trabalha um adversário do PFL.
Falta pouco tempo para Lembo voltar para casa. Menos de sete meses e meio. Em janeiro, o Palácio dos Bandeirantes estará habitado por José Serra (PSDB) ou Aloizio Mercadante (PT). Deus deve ser mesmo brasileiro -e paulista (apesar de o Papa João Paulo II ter sido carioca por adoção). Que Ele se apiede de nós e nos proteja até lá.

Ainda sobre prisões, clique aqui para ler Attica: An Anniversary of Death. Vale a pena.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).
Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

15 Comentários:

Blogger Ricardo disse...

Alon,

A experiência no Rio mostra que a presença do Exército é irrelevante - tanto é que eles negociaram com os traficantes. Qual a diferença? Prefiro a polícia paulista neste ponto.
Fora isso, o que a Polícia Federal faria nas ruas, se ela não é de combate? Ela auxiliou na inteligência, o que deveria ser sua prerrogativa.
Aliás, crime organizado é crime federal. O que Lula faz a respeito disto? Há investigação em curso? Já sabe a resposta...

terça-feira, 16 de maio de 2006 20:08:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Mais uma análise perfeita.

Seu blog é hoje a minha principal fonte para me informar e refletir sobre as questões políticas do país.

terça-feira, 16 de maio de 2006 20:53:00 BRT  
Anonymous José Augusto disse...

Ricardo, a presença do Exército nunca foi irrelevante no Rio.
Na última vez (caso do roubo das armas) os criminosos foram quem negociaram sua rendição, devolvendo as armas. Eles ficaram completamente cercados. E o Exército imputou pesadas perdas cortando as linhas de suprimento do crime, asfixiando suas receitas.
O Exército já esteve nas ruas do Rio durante a conferência Eco-92, na Cimeira, durante as visitas do Papa, na eleições de 2002 (quando houve uma tentativa de "barbarizar" semelhante a esta de SP, porém restrita a fechar o comércio, o transporte e amedrontar com tiros e bombas, sem mortes), e durante o carnaval 2003. Todas as vezes, exerceu o papel de contenção dos criminosos, que recolheram-se diante da exibição de superioridade das forças legais, e medo de uma força de poder desconhecido (o exército).
São Paulo, provavelmente teria evitado mortes e o ambiente de pânico na segunda-feira. E a organização criminosa não teria atingido seus objetivos como atingiu.

terça-feira, 16 de maio de 2006 23:19:00 BRT  
Anonymous Marcus disse...

Você está enganado, Ricardo, "crime organizado" não é crime federal.

Crimes federais são aqueles que têm abrangência extra-nacional (tráfico internacional de drogas, contrabando) ou que atinjam interesses da União (estelionato contra o INSS, peculato de servidor público federal, crimes contra o meio ambiente).

Os crimes do PCC são da esfera estadual sim. O que não impede, evidentemente, que a polícia federal colabore no que for possível.

terça-feira, 16 de maio de 2006 23:53:00 BRT  
Anonymous Danilo disse...

Eu não sei se seria uma boa idéia aceitar a intervenção da tal força nacional de segurança nesse caso. Lembremos de que se tratava de um ataque contra as polícias civil e militar. Imaginem o impacto dessa intervenção no espírito das corporações, necessitando de ajuda externa para se defender de um ataque de bandidos. No caso do roubo das armas, no RJ, deveria, por lei, ter sido a PF a agir (crime comum contra ente federal). Mas o Exército insurgiu-se e foi ele mesmo subir o morro.

terça-feira, 16 de maio de 2006 23:57:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Como você sabe gosto muito do seu blog. Entretanto, ao ler este texto nada me vem à cabeça além de identificá-lo como excessivamente "anos 70". Olhando para trás acredito que contrapor Midnight Express com P.Maluf pode ter ficado ótimo e apropriado num papo de barzinho ao som, sei lá, de Cat Stevens, por exemplo. Mas, sinceramente, imagino que o buraco é mais embaixo. Acredito que um dia, durante o processo de redemocratização, o Brasil confundiu liberdade democrática com liberação extrema dos costumes e esta confusão foi uma espécie de senha que a elite identificou para manter e manipular o poder econômico sem acreditar, porém, que esta combinação de leniência com conveniência, mais cedo ou mais tarde, iria apresentar sua fatura. Um abraço.

terça-feira, 16 de maio de 2006 23:59:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Esta nota é sui generis: ataca violentamente a postura reacionária que agora estaria na moda, para logo em seguida criticar o governador por ter negociado com o PCC ao invés de ter chamado os milicos! Eu não pude conter os risos aqui. Será que existe algo mais reacionário do que defender a presença do Exército nas ruas?

Sua capacidade de análise, normalmente brilhante, nos últimos tempos tem andado severamente prejudicada pela sua preferência partidária.

quarta-feira, 17 de maio de 2006 00:23:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

Marcus

Então você corroborou minha opinião, pois o PCC controla o tráfico de drogas em SP, sendo portanto, crime organizado sim, de combate federal, assim como o CV. Como a PF está mais preocupada em desarticular crimes administrativos e fraudes, e não o grosso do crime violento (armas e drogas), vimos a transposição do PCC e CV para outros estados, se espraiando no país todo. E ainda elegerão deputados federais - não é genial?

quarta-feira, 17 de maio de 2006 11:59:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Fernando, não critiquei o governador por ter negociado com o PCC. Leia com atenção e verá que critiquei a preferência por "negociar com o PCC e não com o Palácio do Planalto". As coisas não são contrapostas. Ele deveria, sim, ter negociado com todo mundo. Quanto ao Exército, não o considero uma instituição reacionária, mas uma instituição de Estado. Empregado nos termos em que a Constituição estabelece, não há afronta ao Estado de Direito. Quanto a minhas preferências políticas, se é que você as conhece mesmo, elas influem nos meus julgamentos tanto quanto as suas influem nos seus. Por isso é que é importante confrontar idéias distintas, para que do debate possa nascer um pouco de luz. Mas, cuidado: quando o debate é sobre preferências partidárias somente e não sobre idéias, o resultado costuma ser o oposto: muito calor e pouca luz.

quarta-feira, 17 de maio de 2006 17:42:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Augusto, discordo de você. Não vejo onde tenha havido "liberdade democrática com liberação extrema dos costumes". O que há entre nós é a violação sistemática dos direitos humanos, especialmente contra os mais pobres. Em termos práticos, podem implantar a pena de morte, a prisão perpétua e construir mil presídios de segurança máxima. Não vai adiantar, enquanto houver só em São Paulo quase um milhão de jovens sem trabalho e sem oportunidades escolares. É confortável para a classe média endossar o morticínio na periferia, pois aplaca o sentimento de vingança. Mas isso não vai fazer a rua ficar um milímetro mais segura para nossos filhos circularem. Você acha a comparação com os filmes inadequada. É a sua opinião, que respeito. Mas leia então sobre Attica, no link que coloquei no post.

quarta-feira, 17 de maio de 2006 17:48:00 BRT  
Anonymous augusto disse...

Prezado Alon:
Agradeço a gentileza da resposta. Explicando melhor: De fato, considerei relacionar P.Maluf com filmes como o Expresso da Meia Noite uma imagem "datada", uma típica uma visão dos anos 70, que, ao meu ver, passados 30 anos, deveria ser revisitada à luz, por exemplo, das consequências da complacência com o uso de drogas ilegais no Brasil. Sem nenhuma intenção de polemizar, foi isto que quis dizer quando falei que a liberação exacerbada dos costumes serviu como uma espécie de cortina de fumaça para manutenção do status quo. Não sei se melhorei a exposição da idéia, mas a intenção, garanto, foi a melhor possível. Ah, você iniciou se texto afirmando que discorda de mim. Pode ser. Mas, sinceramente, pelo que leio, no medular, no principal, acho que concordamos plenamente. Por fim, acho super legal fazer analogia com filmes tanto que encerro com uma frase do Michael Corleone do Poderoso Chefão III, que, acho, se aplica ao momento: "A emoção atrapalha o raciocínio..." Um abraço.

quinta-feira, 18 de maio de 2006 00:43:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Augusto, não vejo por que a cultura dos anos 70 não nos possa ser útil no quadro atual. E concordo que a emoção atrapalha o raciocínio, ainda que seja utópico pretender removê-la (a emoção). Sinceramente, não creio que transformar a vida dos presos em um inferno maior do que já é vá ajudar a melhorar a segurança do cidadão comum. Todos os especialistas com quem conversei concordam com isso. Ainda que a emoção do momento "exija" as tais "medidas duras". Desgraçadamente, somos o país em que sempre "algo precisa ser feito" para aplacar a sede de sangue de alguém. Discordo radicalmente da tese de que somos uma sociedade com direitos humanos em excesso para os criminosos. O que nos falta é justiça e a convicção de que não há crime sem castigo. Os Marcolas nascem dos Pimenta Neves, se é que me faço entender. O castigo para quem erra não precisa ser cruel, precisa ser justo.

quinta-feira, 18 de maio de 2006 02:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Brog. Alon, os tres poderes da republica, legislativo, executivo e o judiciario, já não se sabe mais quais os limites de cada um, virou uma bagunça só, e nestes ultimos tempos chegamos ao cumulo de um orgão controlador do judiciario??? O Judiciario não seria o máximo aonde nós teriamos a nossa cidadania respeitada???
Já há décadas que aconteceu um dos maiores sequestros em SP., o caso do vice-pres. do bradesco, estou relembrando o caso por assistir a entrevista dr. Mairovitch na tv, que na época era diretor da corregedoria da policia de sp. E desde então com o desfecho do caso em que os delegados (anti-sequestro), investigadores de noite para o dia viraram bandidos e foram presos, passei a ter desilusão da nossa justiça. Até hoje não se falou um A sobre o assunto. Acho que foi apenas um filme, assim como tantos outros.

quinta-feira, 18 de maio de 2006 03:36:00 BRT  
Anonymous Fernando disse...

Alon, obrigado pela resposta. Não critico julgamentos políticos e se criticasse jamais leria um blog *político* como o seu, mas critico quando a análise fica cega devido ao alinhamento a linhas *partidárias*.

Meu ponto é que não dá para acusar ninguem de ser reacionário quando se defende o uso das Forças Armadas para resolver problema de segurança pública. Não existe nada tão atrasado quanto isso. Não dá para chamar os milicos toda vez que a sociedade entra em pânico. Temos instituições que podem cuidar disso, e temos que valorizar estas instituições.

quinta-feira, 18 de maio de 2006 09:06:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Fernando, apenas uma observação sobre seu último comentário. As Forças Armadas são também uma instituição do Estado Brasileiro, não deve haver preconceito em relação a elas. No que puderem ajudar a melhorar a segurança dos cidadãos, são bem-vindas. No mais, obrigado por freq"uentar meu blog e criticar o que escrevo. Você me ajuda a escrever menos bobagens.

quinta-feira, 18 de maio de 2006 12:02:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home